Jovens Titãs em ação: um filme (bem) espertinho!

Adaptado da série animada homônima, Os Jovens Titãs em Ação é divertidíssimo, mas parece filme feito por aquele colega que representa bem a DC dos cinemas, sabe como é?

por Anne Caroline Quiangala

O texto tem spoilers moderados

Uma década depois de tantos clichês de super-heróis musculosos, sortudos, privilegiados nos cinemas e, até mesmo, nos streamings, ficou claro que "filmes de heróis são um plano de dominação do mundo". 

Mas, falando sério: o  esgotamento disso tomou o fôlego da risada, na desconstrução do paradigma após dois Deadpool, reflexões sobre super-gente não ser gênero e, na última fase de tudo, mulheres e até negros-heróis! Neste limbo, a DC fez a sua jogada mais espertinha dos últimos 10 anos "Jovens Titãs em ação nos cinemas".




UM PLOT DESSES, BICHO


Você sairia de casa pra assistir a um filme do Robin? Se respondeu sim, é porque entrou no vício de super-gente "custe o que custar". Quem respondeu "óbvio que não" resiste às convenções e "não investe sua grana em filme de ajudante etc e tal". Agora imagina um plot que mistura, emenda e remenda os dez anos de heróis live action ao drama de um mini-herói, quase padrão, que ninguém se importa muito, e seus amigos mais desconhecidos ainda, com o agravante de serem estranhos e excluídos.

A partir do sonho do Robin de ter um "super-filme só sobre você", a narrativa explora questões a respeito da necessidade que um indivíduo socialmente privilegiado sente de ser amado por ele ser quem é, reconhecido e exaltado a ponto dessa vontade individual sobrepor as necessidades, anseios e amizade de outras pessoas, que, no geral, são desfavorecidas ou minorizadas. Inclusive uma das canções que mais me chocaram tinha como refrão, na voz do menino Robin "Eu sou o maioral" que diz:

Um filme sobre mim, e somente sobre mim
Robin - Jovens Titãs em Ação: nos cinemas

Por mais aterradora que seja a jornada do líder dos Jovens Titãs, uma das maiores lições que o filme transmite é o quanto amizade é imensurável, afinal, os amigos se juntam para tornar o sonho de Robin e enfatizam a todo momento que vão fazer o que for preciso para que ele realize. Na primeira oportunidade de fama individual, o rapaz dispensa seus amigos "estranhos" e "que não sabem se comportar". 

Com isso, Robin tem tempo de refletir sobre a consequência de suas escolhas. Ele não ultrapassa a compreensão geral, maniqueista, de que "usar as pessoas, sobretudo seus amigos, é errado", mas delimitar o que é certo ou errado é um início de discussão. O filme tangencia a questão de o único homem-cis, branco e abastado, que, só porque se sente deslocado, lidera uma equipe cheia de "freaks". Uma prova disso é que, uma vez destacado, ele abre mão dos amigos sem pensar duas vezes, eles são definitivamente corpos dispensáveis

Estelar é a personagem que mais verbaliza as emoções e elabora a respeito dos problemas. Ela compreende a perfeitamente o que significa ser pária, e sintetiza de forma acessível (inclusive para as crianças) que o problema não é de quem é diferente, mas do modo como interpretam, julgam e usam a diferença para ofender:

Somos uma piada, e não tem problema. Podem rir o quanto quiserem
 Jovens Titãs em Ação: nos cinemas

Além disso, é notável que o grupo não forma um todo coeso. Existe o Robin e os demais, que aparecem bastante na hora da piada, do "segue a música", mas não têm uma subjetividade bem definida. O que é mais marcante sobre eles é o valor que dão para a amizade, a ponto de abrirem mão de suas individualidades em prol bem comum. Um novo conceito de família irrompe sutilmente disso. Aliás, a Estelar é a melhor personagem do filme: esférica que só, a garota é fofa, salva os rapazes, leva amizade a sério e diz as verdades necessárias!

Em meio ao rap, às danças e performances dos Jovens Titãs, é marcante a relação de liderança entre Robin e seus colegas (Estelar, Ravena, Cyborg e Mutano)


PÚBLICO-ALVO


A animação Jovens Titãs GO, feita para TV, tem sido rejeitada pelo público adulto, mas se mantem firme e forte "Em Ação nos Cinemas!". A vontade de agradar, aparência fofa, cantorias, piadas que gastam todo o campo semântico de "bum bum, fezes, pum, diarreia", e, por outro lado, galhofa ácida com todas as bobagens que a DC andou fazendo no cinema (cof cof BvS, cof cof, filtro, Esquadrão...), e altas inferências. Essas características, somadas, mostram o investimento num público geral, talvez amplo demais, pendendo para o adulto. O humor do filme funciona muito bem pra quem acompanha os filmes DC e Marvel e as discussões e críticas na internet, porque é referência em cima de referência do inicio ao fim: vide Stan Lee, Liga da Justiça, Injustice, e até Rei Leão!

Imagem: Divulgação

O ponto positivo de ser um filme com conteúdo que vai do infantil ao adulto sem grandes problemas, torna Jovens Titãs uma opção para famílias com crianças, mas também para o público nerd em geral e adultos que apreciam animações ou querem simplesmente rir.


O RACISMO NOSSO DE CADA DIA

A maioria dos filmes do Universo DC (DCU) parece que foi feita por aquele tipo de "amigo" padrão que faz piadas racistas nos momentos mais "aleatórios". Claro que, na onda do "girl power", temos momentos em que as meninas salvam os meninos e isso funciona muito bem como exemplo para as crianças e, vale lembrar que o rap é cantado e performado pela equipe tem um tom a positiva. Apesar disso, há uma retórica sutilmente instalada naquela confusão de cores, explosões e bom humor: a do racismo.

Em nenhum momento do filme, veremos aquele racismo da vida cotidiana, mas precisamos falar sobre certas passagens como àquela na qual sementes são jogadas na cabeça do Monstro do Pântano e isso gera um instantâneo black power. Quem fez essa "piada", talvez reconheça que black face  é uma prática ofensiva, mas não conseguiram deixar de reiterar seu imaginário racista. Preciso mesmo explicar? Não né. E aquela evocação a South Park, na passagem em que os Titãs tocarão uma música com cristais e o Cyborg "obviamente" é o baixo? E quem, senão o Lanterna Verde, diz "Cacildis"? Deixa pra lá, você já entendeu.

Viagem no tempo: radicalismo ou plutônio?

Eu gostaria de me deter a duas ofensas em particular. A primeira diz respeito ao momento em que o Cybog está dirigindo um carro e atropela uma pessoa. Como é um filme "infantil", o que provavelmente aconteceria - se o personagem fosse não-negro - era o atropelado voltar à vida e ainda cantar uma música. Mas Cyborg é negro, e a frase proferida após a morte e antes da fuga é:

Acho que o pai dele é da polícia
Jovens Titãs: Em ação - nos cinemas!

Em tempos de proibição do romance jovem-adulto O ódio que você semeia por policiais, um comentário desses ser jogado em tela na voz dum personagem negro, que infringe leis e foge, não é inocente. Essa cena é uma ofensa grave ao ativismo pela vida de negros e contra o encarceramento em massa respectivamente. 

A segunda ofensa é menos gráfica. No momento em que a equipe resolve viajar no tempo, introduzem o conceito de paradoxo-temporal para as crianças entenderem, mas soltam o comentário sobre não haver terroristas disponíveis para vender plutônio. Neste caso, é claro que não determinaram o "aspecto de um terrorista", porque é uma imagem bombardeada pela mídia tanto quanto o termo em si, dum equívoco sem igual. Em tempos de Kamala Khan, nada mais retrógrado que achar aquele comentário engraçado. O pior de tudo é que esse discurso é encoberto por uma sacada ótima a respeito da viagem no tempo ao som de Take on Me, do A-ha. Sofisticação pura ou a sutil arte de ofender.

EM SUMA


Jovens Titãs em Ação é um filme muito espertinho! Ele consegue levar o humor para além do que Deadpool se propôs, e sem piadas com pedofilia. Destacando o que há de mais desagradável sobre o DCU e o MCU, a equipe nos faz rir do conceito de "herói de verdade", nos mostra o efeito dum "mundo sem super-heróis" e termina com uma lição de moral bastante válida para os tempos difíceis que vivemos. Neste sentido, fãs de super-heróis, que assistem qualquer filme na pré-estreia, considerarão este o maior acerto o DCU.
 
Mas a DC dos cinemas continua sendo a DC dos cinemas, e não decepciona em decepcionar quanto à representação de indivíduos racializados. Cabe reiterar que ideias jogadas reafirmam estereótipos, portanto, só servem para quem se beneficia das múltiplas opressões.

Eu também gostaria de simplesmente poder sair de casa e assistir a um filme e sorrir, com o vilão explicando ao herói como ele deveria agir, mas a DC - como engrenagem do racismo estrutural - simplesmente não nos deixa em paz para viver. 



estreia hoje, 30 de agosto de 2018, nos cinemas.



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