O QUE IMPORTA É A MORTE OU A VIDA DOS NEGROS? (#BlackLivesMatter)

"Vidas Negras, Negra Vida" é o título do primeiro capítulo de Aphro-ism, de Syl e Aph Ko.

QUAL O VALOR DAS VIDAS NEGRAS?
Black Lives Matter (A vida dos Negros importa) é um movimento político descentralizado que foi criado pelas ativistas Aliza Garza, Patrisse Cullors e Opal Tomet, em 2012, como uma chamada pra ação após o assassinato de um jovem negro chamado Trayvon Martin (17) por um vigia voluntário, George Zimmerman (28), que foi absolvido do crime no ano seguinte. O movimento ganhou visibilidade, em 2013, por meio da hashtag no Twitter #BlackLivesMatter, mas não se restringiu ao online. Em 2014, a aderência ao movimento aumentou, após o assassinato de Michael Brown, em Ferguson. Além disso, outros grupos se organizaram em diversas regiões dos Estados Unidos demonstrando seu descontentamento com as políticas de extermínio do Estado e, em 2015 o movimento se organizou e definiu sua política por meio dum manifesto que enfatiza a importância de todas as vidas negras (all #BlackLivesMatter): mulheres, queer, imigrantes, crianças, com antecedentes criminais e demais características e identidades transformadas em marcadores de diferença pela lógica supremacista. Segundo as fundadoras:

[O BLM] vai para além do nacionalismo estreito que pode prevalecer no seio das comunidades negras, que se limita a apelar aos negros a amar os negros, viver como os negros e comprar produtos dos negros e mantém à frente do movimento homens negros heterossexuais, enquanto as nossas irmãs e as pessoas homossexuais, transexuais e incapacitadas se veem marginalizadas. Black Lives Matter estima as vidas dos negros e negras homossexuais e transexuais, pessoas incapacitadas, negros sem documentos ou com antecedentes criminais, das mulheres e as vidas de todos os negros de todo o espectro de géneros. Convoca a quem foi marginalizado nos movimentos de libertação negros. É uma iniciativa para (re)construir o movimento de libertação negro.[...] Black Lives Matter luta por um mundo em que as vidas dos negros e as negras deixem de ser atacadas de forma sistémica e intencional. Defendemos as nossas contribuições a esta sociedade, a nossa humanidade e a nossa resistência à opressão mortífera. Pomos o nosso esforço e o nosso amor pela gente negra ao serviço da criação de um projeto político, tirando o hashtag fora das redes sociais e levando-o à rua. O apelo a que as vidas dos negros importem é um apelo à unidade de todos e todas as negras que aspiram a libertar-se.

(Manifesto Black Lives Matter Via Esquerda.Net)

O BLM foi uma resposta à permanência de políticas de Estado anti-Negro, bem como uma crítica aos movimentos negros históricos, cujos dirigentes eram homens negros heterossexuais cisgêneros, que replicavam a lógica da violência nas comunidades negras por meio de atitudes masculinistas. Essa crítica é sintetizada numa declaração de Patrisse Cullors: “não estamos a falar da política respeitável. Não falamos do negro de traje e gravata ou do que vai à missa nos domingos. Estamos a falar de todos os negros, de nossa relação com este país e da relação deste conosco” (CULLORS in Esquerda.Net). É muito importante que um movimento contemporâneo se posicione criticamente contra a moral religiosa ("boa pessoa, merece o melhor") e capitalista ("produtiva, útil pra sociedade") de que as pessoas são "respeitaveis" e suas mortes importam, apenas se forem funcionais e inscritas nos valores dominantes. 

"Quem vigia os vigilantes?"
(imagem extraída de: www.blacklivesmatter.com/about/

QUESTÃO DE VIDA, OU QUESTÃO DE MORTE?
A grande questão é que essa reflexão ainda arranha a superfície do problema do genocídio da população negra, porque mantem a interpretação de negritude relacionada à corporificação ("corpos que importam"), à primazia do aspecto biológico da vida em detrimento da subjetividade (importância do viver). Segundo Syl Ko (2017), a redução da perspetiva do individuo, seus interesses e projetos é destrutiva porque tem sido usada pra justificar o tratamento abusivo, violento e explorativo desde a escravidão. A afirmação de que "a vida dos negros importa", na verdade enfatiza a falta de importâcia geral para morte, em especial da mídia, que se preocupa em traçar um aspecto moral da vítima para então julgar o valor de sua morte.

Syl Ko (2017) propõe que pensemos no fenômeno do genocídio da população negra de forma mais profunda que a corporificação. Ela afirma que a violação física resulta da elimininação cultural da Vida de pessoas negras (apagamento da contribuição intelectual, artística e científica). No mesmo sentido, em seu documentário 13ª Emenda (2016), a documentarista Ava DuVernay defende a tese de que a violência física contra o povo negro em sua manifestação contemporânea, nada mais é que uma atualização das leis de Jim Crow (um corpo de leis racistas locais que tinham em vista humilhar, punir e privar negros de plena cidadania). Neste filme, fica evidente o esforço histórico da população negra de denunciar e relatar a violência sistêmica quando é citado o caso de linchamento dum jovem nos anos sessenta. A mãe do rapaz fez com que o caixão ficasse aberto durante o velório e que fotos dele antes e depois da agressão estivessem visíveis o que demonstra o quanto precisamos avançar e refletir sobre as nossas Vidas além do biológico (capital Vital), mas sem reforçar a dicotomia alma/corpo.

Pra Ko (2017), a Vida inclui àquelas atividades que tornam o viver importante e valioso; é o que dá peso às nossas existências como seres humanos, a experiência subjetiva que vai além do pulso, do trabalho cerebral e dialoga (com) e contribui (para) a sociedade. Esse Capital Vital tem sido apagado de diversas maneiras, inclusive sob o falso argumento da "inclusão", da "tolerância" e da "diversidade".

A "inclusão" é o modo de pontuar a diferença como uma narrativa problemática em si mesma (ignorando que este tipo de diferença é uma invenção eurocêntrica), enquanto a "tolerância" dizrespeito ao incômodo do Um com a presença do Outro. Já a diversidade "é a presença de corpos negros, tão oposta à presença de ideias nascidas em perspectivas negras, em ambientes predominantemente brancos" (KO, 2017, s/p). Geralmente, esta presença demanda o apagamento de "sinais que imprimem a marca de negritude nos corpos" (traços diacríticos) como o cabelo crespo (GOMES, s/a, p.7), bem como a manuntenção de concepções eurocêntricas. Em suma, o apagamento das vozes, contribuições e perspectivas negras são imprescindíveis para a eliminação literal de nossas vidas, porque se nossa visão artística e teórica não tem lugar no mundo, não será nossa carne e sangue que terá (KO, 2017). E isso se aplica às narrativas. Exemplo de destruição simbólica de pessoas negras é a horrenda ideia de "diversidade" que dá sustentação à Orange is the new black.

MORTE SIMBÓLICA E APROPRIAÇÃO DO SOFRIMENTO NEGRO
A série original da Netflix, Orange is the new Black, alcançou em sua quarta temporada o auge da violência gráfica contra pessoas negras. No intuito de trazer seriedade à série, as roteiristas descreveram cenas de agressão e de assassinato enfatizando o que todo mundo já sabe ("bater, matar e excluir negros é errado") e reforçando aquele prazer branco de assistir filmes (e novelas) sobre escravidão. Uma personagem negra e queer fundamental, até àquela temporada, é descrita como uma pessoa inteligente e culta, com ênfase ao aspecto de ela ser diferente de seu corpo social, só para ser brutalmente assassinada na nossa frente. A cena remonta o assassinato de Michael Brown, em 2014, ignorando os gatilhos pra gente (tal como close excessivo na bandeira dos confederados e as cabeças raspadas), escolha que já revela as verdadeiras intenções da série.

Esta contradição maliciosa (coisas más ocorrem às pessoas boas) tanto enfatiza a corporificação da negritude, quanto reforça que é uma morte injusta porque ela é uma "boa pessoa", carismática, de classe média e culta. O discurso da série é antes a favor de justificar a empatia aos "negros diferentes", do que explicar ao público que a personagem deveria viver porque é um sujeito. A ideia de abjeção (BUTLER, 2000) é muito evidente porque a morte veio assim que a personagem começou a se relacionar afetivo-sexualmente, sentir reciprocidade e ter perspetivas para o futuro. A ênfase na crueldade e na injustiça não passa de contemplação da dor alheia - da nossa dor - e a falta de lugar narrativo. O luto é explorado, tanto quanto a violência gráfica, sob pretexto crítico, mas não promove uma discussão profunda. No décimo terceiro episódio, as companheiras da personagem assassinada lamentam pelo descaso para com o corpo dela, deixado na cena do crime por horas, sem direito a sepultamento.

Orange is the new black - T4, E13

Orange is the new black - T4, E13

O lamento reforça a tristeza pelos brancos não se importarem pela morte, mas não demonstra que a truculência está longe de ser a causa dessa "não importância". O estratégico uso de "as vidas negras não importam" na voz da personagem Negra guarda a irônica ausência de pessoas negras na produção do roteiro; com isso, cristaliza a certeza de que o observador branco comum não tem nada a ver com a morte de pessoas negras, embora nós Negras saibamos que o racismo é um problema branco. Aliás, as zonas inabitáveis da vida social - abjeção - que são povoadas por quem é marcada como "diferente" são arquitetadas e mantidas pela "diversidade cosmética" da supremacia branca.

LEVANDO A VIDA NEGRA A SÉRIO
Desafiando o discurso racista e leviano de séries como Orange is the new black, há diversas obras produzidas por pessoas negras interessadas em excelência discursiva, estética e política que dão orgulho à comunidade negra como um todo (Black excellence). Diferente daquela ética do "negro respeitável", a excelência negra (muitas vezes produzida pelas #BlackGirlMagic) tem como objetivo enfatizar nossas habilidades, teorias, ideias e perspectivas, rejeitando toda e qualquer objetificação e "diversidade imperial" (KO, 2017, s/p). Exemplo de obra que celebra a vida negra, sem ignorar as mortes, é a magnífica Queen Sugar (Ava DuVernay).

A geração de Bordelons com recursos e vontade de mudar as condições

Longe de buscar o estabelecimento duma "negritude autêntica", a série televisiva Queen Sugar (2016-...) descreve experiências de uma família comum, destacando as personalidades, interesses, escolhas, desmedidas e tudo o que torna cada pessoa única. Por si só, isso já rompe com a ideia de "negritude" como identidade monolítica reduzida ao corpo. A sofisticação estética está desde o entrelaçamento visual e auditivo, até a elegância como os temas são discutidos, por mais violentos que sejam. O capital Vital é um elemento constante na série, desde a demora na demonstração de diálogos, preparação de refeições, afetos e cuidados entre pessoas negras, até na crítica ao terrorismo do Estado em relação ao Katrina (2005), cujas consequências ainda são vívidas, mesmo após uma década.

A "inclusão" de pessoas negras em narrativas convencionais cria o hábito de esperarmos pelo pior para nós mesmas e, assistindo Queen Sugar percebi o quanto internalizei esta tendência. Num primeiro momento, as cenas de banalidades do cotidiano me davam a sensação de que a narrativa não caminhava, mas esta interação entre os individuos é a essência. Os personagens negros não estão alí "incluídos" ou "tolerados", suas vidas não estão ali como "diversidade" e a série não é "drama só que com negros";  essa valorização da perspectiva, individualidade e incertezas introduz o Capital Vital sem alarde, apenas enfatizando o melhor de nós resultado de séculos de "seja duas vezes melhor". Além disso, a diversidade de pigmentação de peles, texturas e tipos de cabelos, alturas toca no ponto do colorismo sem explicar, já que a série é produzida e direcionada pra gente.

Ava DuVernay e Oprah Winfrey: O drama tem produção executiva, direção e criação assinadas pela cineasta Ava DuVernay para o canal OWN  (Oprah Winfrey Network) da apresentadora Oprah Winfrey, o que confere liberdade criativa para discutir questões políticas abertamente e para convidar mulheres para co-dirigir cada episódio.  

As irmãs Nova Bordelon (Rutina Wesley), Charley Bordelon-West (
Dawn‑Lyen Gardner) e o irmão Ralph Angel Bordelon (Kofi Siriboe) representam diferentes formas de pertencimento, inserções, oportunidades e objetivos, o que é obviamente atravessado pelas questões sociais como sexismo, racismo e privação material.

Um dos tópicos de discussão mais corajosos da série foi a caracterização de Nova Bordelon (#BlackGirlMagic) como uma ativista e jornalista que denuncia o abuso policial e outras questões referêntes à morte de homens negros, ao mesmo tempo que é apaixonada por um policial branco. Essa contradição se torna mais angustiante, quando seu sobrinho Micah West (Nicholas L. Ashe) é detido por ser negro e estar dirigindo um carro esportivo; diferente de outras obras, em Queen Sugar, o rapaz é uma pessoa importante na trama, então o fato de ser injustiçado é descrito como um golpe em sua autoestima, principalmente porque a situação indica que ser rico não torna Micah menos negro e que ignorar a realidade racista não nos protege da violência. Durante a segunda temporada, o rapaz passa por um longo período de estresse-pós-traumático e sua vulnerabilidade traz outra faceta do Capital Vital: ele precisa elaborar sobre a importância de sua vida pra si mesmo e lutar contra as investidas do mundo hostil. O sofrimento de Micah enfatiza a subjetividade em detrimento da corporificação estrita, aquela que reduz a pessoa ao corpo que ela habita.

Violet Bordelon (Tina Lifford) e Hollywood (Omar J. Dorsey) formam um casal dinâmico e feliz que enfatizam a vitalidade, sexualidade e paixões de pessoas idosas.

O antagonismo social faz parte da realidade, mas as abordagens narrativas podem se prestar a reiterar o desprezo pelo pensamento e, consequentemente, pela vida negra. Obras como Queen Sugar, por outro lado, usam todos os recursos audiovisuais e narrativos para afastar a abjeção e propor discussões que ampliam a noção de população negra, o valor de nossas ideias, interesses, objetivos e vida. O valor simbólico que o enquadramento, a fotografia e a trilha sonora conferem importância a cada personagem, bem como nos inspira e impele a buscar novas estratégias discursivas que tenham em vista levar a vida negra a sério. Afinal, como afirmou Martin Luther King Jr. num trecho de 13ª Emenda: "Eu quero viver como qualquer outra pessoa, não tenho complexo de martir". Concordo com Syl Ko (2017), quando ela afirma que precisamos purgar a internalização da minoridade e enfatizar nossa dignidade vislumbrando o mundo no qual vale a pena viver.

Nossas vidas importam? Séculos de narrativas que nos confinam ao corpo e que justificam todo o tipo de violência pela animalização são parte do legado da esravidão para a nossa subjetividade e interação com o mundo. Isso significa que precisamos de novas molduras, decolonização do s conceitos, do pensamento, das práticas diárias e - sobretudo - do nosso Capital Vital.

OBRAS QUE ENFATIZAM O CAPITAL VITAL NEGRO

REFERÊNCIAS
BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do"sexo" in LOURO, Guacira Lopes. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. 2.ed. (Compre aqui).
DUVERNAY, Ava. 13ª Emenda. [streaming]. Netflix, E.U.A, 2016. 100 min.
_____. Queen Sugar. [televisão]. OWN, E.U.A. 2016-...
GOMES, Nilma Lino. Corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Disponível em: www.acaoeducativa.org.br/.../Corpo-e-cabelo-como-símbolos-da-identidade-negra.pdf>. Acesso em 9 set. 2016.
LA BOTZ, Dan. O movimento “Black Lives Matter” organiza-se e procura definir-se politicamente. Trad. Mariana Carneiro (2015). Disponível em: www.esquerda.net/artigo/o-movimento-black-lives-matter-organiza-se-e-procura-definir-se-politicamente/36404>. Acesso em 9 set. 2016.
KO, Syl. Black Lives, Black Life. in KO, Aph; KO, Syl. Aphro-ism: Essays on Pop Culture, Feminism, and Black Veganism from Two Sisters (English Edition). New York: Lantern Books, 2017. (Compre aqui)

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