O dia de Jerusa: um mergulho no espelho do que fui, sou e serei.

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Lea Garcia interpreta Jerusa

Eu não sei você, mas toda vez que eu vejo Lea Garcia eu sinto uma tocante memória, que não é da vida que eu vivi, nem da minha avó. Não é a palavra memória, é a sensação memória, entende?

Eu sempre procurei as respostas em seus olhos e suas mãos repetidamente, buscando a resposta no ato, mas nunca entendi o que era, nem o porquê. Há outras: Ruth de Souza, Zezé Mota, mas o olhar de Lea me encantou desde o primeiro instante, e assim, um encanto em si, sem elaboração, como a experiência indescritível. 

Até que eu assisti O dia de Jerusa.


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Debora Marçal interpretou Silvia
(eu vejo nela uma grande referência ao clipe de Pearl da Tamar-Kali)

Num primeiro momento, o filme apresenta a cidade de São Paulo e as camadas de apropriação do espaço urbano por pessoas pretas. Camadas temporais, inclusive. Numa espécie de cruzamento, vemos Silvia (uma jovem trabalhadora que nos ancora junto a si) caminhando no rumo oposto ao do homem que puxa sua carroça. Ambos, opostos em idade, gênero e inserção no mercado de trabalho, se chocam à frente dum homem negro que recita um poema de Luis Gama, escritor e ativista negro cuja história de vida representa também a antítese, a contradição que é ser uma pessoa negra neste mundo sexista, racista, elitista e, ainda assim, ter acessos. 

Interessante que a voz do sujeito que entoa o poema, marca o início do filme como um desafio. Será ele uma pessoa em situação de rua? O questionamento da obviedade me faz sempre parar. Em que medida os signos se voltarão contra o discurso/sentido e, sobretudo, em que medida estou apta a compreender?

A naturalização dessa ideia me fez pensar nos signos da imagem que levam a isso (o indivíduo na cidade, falando consigo ou para si, ignorado como... Louco). O louco é, na cosmogonia ocidental a qual nos filiaram, o símbolo daquele que sabe ler as camadas da realidade física, emocional e espiritual. E quando falo louco, quero enfatizar o estigma, que muito tem a ver com racismo. Seja pela pressão social que incide sobre o sujeito que empurra de volta, seja pela historicidade que ele presentifica. 

Através do poema, "o louco" (e podemos até nos lembrar do arcano maior) representado sob um olhar humanizado, nos lembra de que a escravidão é uma realidade lembrada e vivida diariamente, com as devidas atualizações. O modo como a câmera nos permite ver, faz do personagem um terreno de confiança, uma certeza de que podemos nos entregar ao porvir.

O fato de o DIA DE JERUSA ser cinema negro faz da presença de pessoas em situação de rua uma presença humana rara no cinema nacional. E nem é necessário ouvir uma grande fala/dialogo para notar que isso ocorre. Essa preparação para a espinha dorsal do filme cria um território confiável para conhecermos Jerusa, para reencontrarmos a nossa Silvia interior e compreender seus processos.

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Em primeiro plano Debora Marçal, e em segundo a diretora Viviane Ferreira


"Negra a cor da escravidão"

Jerusa (Lea Garcia) é uma pessoa de rotina, organizada e reticente, ainda que se expresse muito bem. Em tudo o que ela fala há o que dizer, uma informação que adiciona experiência, ao passo que afasta ainda mais os limites do que desconhecemos, e me pergunto: será mesmo que eu a conheço mais a medida que a escuto? Seu fluxo ampliando a linguagem rumo ao que não sabemos dá sinais de que não. Minha sensação é a de que existe um silêncio nela, no que faz e diz que se choca com a presença-voz. O filme é intitulado "O dia de" que nos leva a compreender que o bolo que ela prepara é para seu próprio aniversário, mas é se fosse "Um dia com"? É nesse momento que me vejo imersa em Silvia.

A garota é como um elo entre aquela realidade exterior de pessoas negras em situação de rua e a profundeza de Jerusa, refugiada e solitária no seu mar azul e branco. A solidão é referenciada nos detalhes, como nas notas que seus lisiantos (minha flor preferida) róseos representam. O por quê não roxo, é evidente na imagem, são traços musicais que, dialogando com Luis Gama e com o branco nas formas, chama de forma indireta a presença de Cruz e Souza para a reflexão. "Brancas formas, alvas...". Eu não quis ligar azul à solidão, mas senti conforto na solidão melódica duma imagem repleta de alusões ao simbolismo. Ao simbolismo negro. Simbolismo silenciado pelo inexplicável, inexprimível, pelo que se traduz em branco.

Mas o vazio dá linguagem não é branco. O vazio dá linguagem é o desafio posto a nós, o público ali no prólogo, e representado pela Silvia - o espelho. A garota, que enfrenta o real do assédio sexual (precisamos dá interseccionalidade), do assédio moral dá chefe, das necessidades materiais. As injustiças se somam e suas reações é silêncios se automatizam numa polidez superficial. 

A princípio, Silvia dá sinais de que deseja mergulhar no espelho que é Jerusa. É espelho no sentido místico, daquele portal para o autoconhecimento, para a sabedoria e adivinhação. Tudo o que Jerusa descreve, a memória das coisas (o sabão, principalmente), das palavras e das pessoas que não estão (ou não existem?) são como um jogo. 

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Olho mais uma vez para Silvia é lembro dá expressão "quando você está pronta, um mestre aparece". É toda a resistência dá jovem em se fundir ao espelho exibem mais do que ela é, sua imaturidade, que de Jerusa que fala de si. A frustração de Silvia com a necessidade de resolver a missão do questionário, gera uma angústia contrária de quem contempla. Ela finalmente explodiu e se recolheu no banheiro. Ela foi chorar no banheiro, se iniciou e foi transformada. 

A solidão sentida pela jovem, no banheiro, leva a uma situação surpreendente. Passou no vestibular. Certo, o que fazer com a informação? Neste momento de conexão com sua própria profundidade, traduzida como solidão, transformou o Dia De Jerusa, o aniversário, num dia Com Jerusa como uma ligação covalente. Silvia deu tudo o que tinha para dar, tudo o que era possível. 

A maturidade de Jerusa guarda um silêncio que nos conecta com o que seremos. E não falo de Jerusa como personagem em si, mas como peça duma narrativa na qual estamos submergidas. Ela é o espelho de Silvia, seu devir. No fim do dia, a saída de Silvia não é resposta nem solução para nada, ela só evidência os ciclos da vida e lança luz sobre a alteridade e sobre importância da travessia e do processo de mergulhar em si mesma. Não sob o viés ocidental de imersão ensimesmada, narcísica, mas da experiência mística de imersão às profundezas do ser.

A questão do filme não é propor certezas, não é discutir se Jerusa tem ou não filhos, netos, mas sim nos fazer pensar nos afetos. Discutir a historicidade dos nossos afetos em vários níveis, e apontar para a construção de nossa humanidade que o racismo estrutural tenta apagar, que o racismo diário até abala, mas sejamos francas: o dia de Jerusa assim como o dia de Silvia com Jerusa refletem dignidade. Por mais dialética e circundada por uma história social dolorosa, o casal em situação de rua la do início do filme nos dá indícios de elaboração acerca da profundidade que nós temos e do quanto a precisamos alimentar diariamente.

Assista ao teaser:

O Dia de Jerusa, curta-metragem, produzido por Elcimar Dias Pereira, dirigido por Viviane Ferreira, estrelado por Léa Garcia e Débora Marçal. Mais uma produção da ODUN FORMAÇÃO & PRODUÇÃO 

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