segunda-feira, 17 de abril de 2017

DIVERSIDADE NÃO DEVERIA SER UM SHOW DE HORRORES


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Imagem meramente ilustrativa extraída de Batgirl #38 (Cameron Stewart, Brenden Fletcher e Babs Tarr)

"Sou muito legal, tenho até amigos estranhos" é uma frase que caberia a maioria dos líderes de equipes de super-heróis, de ficção científica e horror que "não são racistas", mas sabem que o racismo existe.

Posso listar rapidamente: Buffy, Sense8, Power Rangers (série), Vingadores, Velozes e Furiosos 2, Tekken, The Expanse, Firefly, Batgirl, Guardiães da Galáxia, Skins, Misfts, Rise of the Tomb Raider, Tropa Alfa, The Ultimates e - até mesmo - X-Men.

Apesar de ser uma grande entusiasta dos quadrinhos do Brian Michael Bandis e da Gail Simone e de ter sido impelida a pensar sobre a #nerdiandade pelas problemáticas que encontrei nas séries do Joss Whedon, há um ponto que me incomodou sempre: a diversidade estética nas histórias com múltiplos protagonistas sempre apresenta um líder dentro dos padrões de raça, sexualidade, classe, "capacidade" expressada por um corpo finalizado e fechado, além de jovem e saudável.

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Segunda formação dos X-Men.O único momento que fez sentido o (imaturo) Ciclope ser líder da equipe.

Esta conformidade com privilégios sociais - mesmo que personificada por um individuo que se sente "diferentão" o bastante para andar com aqueles que são visivelmente marginalizados - significa que há uma categoria de "normalidade" que se opõe ao "diverso", anormal ou grotesco. Veja, o problema não é ter um líder dentro dos padrões, mas sim a insistência numa abordagem que defende valores tradicionais por meio da omissão de pontos de vista.

Se, por um lado, essa centralidade quer nos convencer de que existe neutralidade, por outro, a incorporação maciça de azuis, verdes, robôs, androides, ciborgues, aliens, cortanas e até de animais é um grande esforço de apagar categorias humanas identificadas como minorias sociais e políticas. Ou mesmo, de atribuir estereótipos reconhecíveis a personagens que "não poderão ser criticados de forma direta". Ou podem.

Desse modo, assim como o apagamento é um problema grave, a exotização, a higienização e o silenciamento são a outra face da mesma moeda. Eu sempre me pergunto: por que é tão acessível a visão de mundo, os sentimentos e a história doídas dos líderes enquanto os "protagonistas secundários" são corpos vazios? Isso é tão real, que, na maioria das vezes, os companheiros de equipe que "destoam" do líder tendem a se encaixar em estereótipos raciais facilmente identificáveis.

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A Guerra Civil é uma polarização de dois homens. O plano de fundo é bem "diverso", colorido e narrativamente  descartável.

As histórias que se propõem a mostrar a complexidade de backgrounds normalmente focam na perspectiva do personagem central, que se sente excluído do seu "lugar natural", por motivos mil, inclusive de não corresponder à expectativa positiva. Em personagens masculinos isso normalmente aparece nas histórias como problemas na performance de masculinidade e no conflito com o pai. Personagens femininas, quando falham em manter na medida que o padrão exige, em geral, buscam aventuras e formas de escapar do ideal branco de feminilidade. Ou de escapar da "Lei do Pai", na esperança de agradá-lo.

Ainda assim, a maioria das histórias com múltiplos protagonistas perde a oportunidade de lançar um olhar crítico sobre as questões em torno do conceito de "diversidade", afinal, tanto as presenças simbólicas (token) que representam estereótipos e/ou morte no fim quanto presenças disfarçadas em cores e formas mostram o mesmo desprezo. Esse desprezo é uma forma de olhar particularmente ligada à branquitude e à heterossexualidade porque é desse lugar que parte a ideia de "diferença" na ficção especulativa mainstream. E é essa condição que dá livre acesso à apropriação dum espaço que deveria ser descentralizado ou, pelo menos, mais democrático.

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No especial de natal, ficou bem evidente o objetivo de Sense8 com a diversidade: apagar. O episódio focou nos personagens mais planos (estadunidense e islandesa) e no prazer exótico do alemão para com a indiana. 
Recentemente, escrevi sobre como a Capitã Marvel é um dispositivo discursivo que veicula mensagens de supremacia racial disfarçada de feminismo. Ela se comporta como líder duma equipe composta majoritariamente por heroínas e heróis negros (The Ultimates) com larga experiência de combate como se fosse dotada duma capacidade inata para a liderança. Vejo resquícios deste "orgulho" em todos aqueles seriados, filmes e jogos já citados.

Se você notar, os indivíduos "normais, porém desajustados" se tornam um fantasma do padrão num grupo de "estranhos", "freaks", "bizarros" e reforçam a hierarquia social do aqui-agora, mesmo que a narrativa seja futurista. E essa "normalidade" circunstancial faz com que o "desajustado" se sinta mais confiante, mais forte e capaz, o que é reforçado pelas palavras positivas e pelo companheirismo dos colegas outsiders- o que nem sempre é recíproco.

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Os Supremos (The Ultimates) equipe formada por (esq_>dir) : Spectrum, Marvel Azul, Capitã Marvel, Pantera Negra e Miss América.

Uma estratégia bastante difundida (e aprovada) nos quadrinhos é a de protagonistas femininas (brancas) fortes com ares feministas e, até mesmo, com interesses afetivos por heróis negros (Jessica Jones, Carol Danvers, Thor). Num primeiro momento, a Capitã Marvel Carol Danvers (por Kelly Sue DeConnick) da Nova Marvel (2012) causou grande comoção entre garotas e mulheres. Logo então veio a Batgirl de Gail Simone. Apesar do ganho de buscar alternativas à infeliz Piada Mortal, Simone construiu uma narrativa sobre uma garota branca que sofreu muito com uma temporária deficiência física, que, por isso, entende o sentido de ser uma outsider e que, portanto, acolhe todas as diferenças.

A grande questão é que a sua melhor amiga é uma mulher trans, seu namorado é de origem latina E deficiente físico e por aí vai. Note que a maioria das pessoas à volta de Barbara Gordon é o oposto dela, o que me transmite a sensação de que tantos recordatórios que descrevem o mundo interno dela opõem todos os "diferentes" do mundo exterior e constroem um sentido nefasto. Diferentes que, no fim das contas, se observados juntos, remontam a mesma ideia oitocentista de "freakshow" ou dos "gabinetes de curiosidades".

Não afirmo isso por questões de auto-ódio, afinal, nem eu, nem Lupita Nyong'o nem Zoë Saldana somos alienígenas! A questão é que atualmente não dá mais para levantar bandeira de que "antes verde do que nada" nem a de que somos "UM TIPO" de Homem Aranha, Homem de Ferro ou Capitão América como a Totalmente Nova Marvel possa tentar dizer dando tanto espaço para "politicamente neutros" como Nick Spencer.

A diversidade é a discursão da Marvel desde 2011 e, digamos que as Guerras Secretas (2015) foram sobre isso.

É importante que haja honestidade de discutir o conceito de "humano" que a suposta inclusão ou "diversidade" está enfiando em nossas goelas. Apenas com essa compreensão, ficará evidente que pintar uma pessoa negra de cores esdrúxulas não mascara estereótipos tão conhecidos como Angry Black Woman.

Já chega de não ter com quem nos identificar no mainstream. Já chega da ideia de que somos freaks, bizarras ou simplesmente alienígenas! E, sobretudo, chega de focar em histórias sobre a fragilidade e vulnerabilidade de homens brancos heterossexuais que tentam equilibrar a liderança de equipes e suas masculinidades frágeis. Corta essa parte, já sabemos que eles são sensíveis e de "coração nobre". Também chega de heroínas que são estandartes dum feminismo branco e que enxergam toda a diferença como um território divertido, interessante ou exótico a ser explorado e conquistado. CHEGA DE REPRESENTAR DIVERSIDADE COMO SINÔNIMO DE SHOW DE HORRORES.

Reforço: não estou aqui julgando uma questão moral, a intensão ou a "boa vontade" de autores e autoras ou do público que se identifica com as personagens citadas. Meu ponto aqui é desnaturalizar essa relação automática de que "multi-étnico" e "multicultural" é a solução emergencial para os nossos problemas. Afirmo isso porque os Vingadores têm essa proposta: reagrupam visões de mundo mais-do-mesmo com o "prazer do exótico" sobre o qual nos alertou Edward Said e brincam de renovar.

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Wet Moon (Sophie Campbell) foca o cotidiano de jovens pessoas. O interessante da representação da "diferença" neste quadrinho é entrelaçada com situações triviais, o que desmistifica a ideia de "outsider". Afinal, há vida "além dos trilhos".

No fim das contas, a maioria das obras que se proclamam diversas, nada mais fazem que reforçar a ideia de que diversidade é a reunião de tudo o que "não é". Não é branco, não é cisgênero, não é heterossexual, não é rico, não é normal.

É claro que o desconforto que destrinchei neste texto não foi elaborado para reforçar o quanto o mainstream desrespeita as minorias, mas para ressaltar o quanto os quadrinhos de Sophie Campbell retratam múltiplas protagonistas em Wet Moon com a naturalidade que cada personagem merece. Além disso, também há a série original Netflix Crazyhead, Logan, o Novíssimo e incrível Hulk, a Miss Marvel Kamala Khan e os Novíssimos Vingadores.

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A interação entre Kamala Khan, Sam Alexander e Miles Morales é incrível. O fato de serem indivíduos racializados confere complexidade às experiências sem restringir suas subjetividades.
Sem dúvidas, cabe ao público mostrar que ser minoria não é mais ser nicho. É necessário disputar os espaços mainstream, lutar por visibilidade dentro do que é considerado específico, mas também tendo em vista de que não é extravagante ou anormal ser negro, gordo, portador de deficiência ou estrangeiro. Se há um show de horrores é a história de usurpação e violências realizadas até hoje por nações imperialistas que sustentam a economia às custas de vida e dignidade humanas.


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