THOR #1 - avanço versus ilusão de diversidade



Eu nunca me interessei pelos quadrinhos do Thor Odinson. Tanto pelo tipo de humor, quanto por certo desinteresse pela cultura nórdica (os nomes, a cosmogonia etc) exceto a história da Vertigo ilustrada pela Becky Cloonan. O desinteresse não é desdém, obviamente, apenas a não prioridade. E, claro, quando eu decidi ler a Novíssima Vingadora, só desejei que não fosse um culto à supremacia como a Carol Danvers, de certa forma, é.

A premissa de Thor #1 (que particularmente acho que dá sim pra ser ponto de partida) é racista. Temos elfos negros do mal e os bons, de luz... E a Thor digna como é, está do lado bom. Essa premissa lugar-comum, duma lógica racista, não chega a ser backlash, mas é decepcionante. Uma falta de criatividade e consciência grave. Por outro lado, Thor é vendida como um avanço em termos de representação de heroínas, de modo que temas importantes são discutidos a partir da experiência dela.

O mix da Panini contém as edições 1 e 2 de Mighty Thor (fevereiro. 2016)

A propósito, caso eu tivesse conhecido a Deusa do Trovão por meio do editorial de Rodrigo Guerrino eu sequer estaria escrevendo esse texto. Em seu editorial, no último parágrafo, ele disse:


"Se você está chegando agora, muita coisa mudou.. Thor deixou de ser digno na minissérie Pecado Original e não mais empunha o martelo místico Mjolnir - que desde então está em posse de Thor, a Deusa do trovão (na verdade, a antiga namorada de Odinson, Jane Foster). [...]"  

(GUERRINO, Thor #1, Panini.fev. 2017 - mensal) .

Embora o meu texto não seja sobre ele e seu editorial não revisado, cabe comentar o quanto o mercado editorial não está pronto para a presença de mulheres fortes e protagonistas. É simples e primário como muita gente não aceita a inversão de papeis no que se refere ao marido de Gisele Bündchen, mas ninguém se levanta para observar que Jane Foster não é, "na verdade a namorada de Thor", mas sim uma cientista que "uau, namorou o Odinson". Sim, às vezes pode não parecer, mas o aqui/agora não é 1930.

A Marvel sabe disso, então deu a missão para Jason Aaron (roteiro), Russel Dauterman (ilustrações) e Mathew Wilson (cores) manter a série duma heroína que inspire garotas e mulheres a serem fortes, que traga a ilusão de progresso de forma rentável. O dilema heroico de Foster é administrar suas duas vidas, civil e heroica, sendo que ambas se conectam. Foster luta contra o câncer em sua identidade civil, faz quimioterapia e a mensagem que essas imagens passam é bem empoderadora. Quando Foster se transforma em Thor sacrifica o tratamento em prol do bem dos outros. Isso abre uma discussão interessante sobre a toxidade dos papeis de gênero. Claro que heróis homens se sacrificam, mas manpain (ou sofrência masculina) tem outro sentido: redenção, honra e valores associados à virilidade. Mulheres abnegadas são o retrato da deformação que o patriarcado proporciona ao nosso caráter generificado. É isso que Simone de Beauvoir diz, em resumo, sobre não nascer mulher, mas tornar-se.

A interseccionalidade sempre faz sentido


Também fiquei pensando na experiência duma criança ter acesso à representação de seu estado, seu cotidiano descrito de forma realista para um fim escapista, tudo ao mesmo tempo. Quando você está internada, no geral, percebe que as histórias excluem essa experiência de dor e privação. Heróis, em sua maioria, não adoecem e nem sofrem acidentes a esse ponto. Claro que Um Clive Barton (Gavião Arqueiro) e uma Kate Bishop (Gaviã Arqueira) vivem cheios de esparadrapo, mas ele e ela não são a definição de Super-herói, ou super-heroína: tão mais pra "gente como a gente" que gripa e fratura osso mesmo. Já a Thor é uma deusa. Gente, uma deusa!


E além de tudo isso, a lição mais forte dessa edição é a luta de Foster contra a síndrome de impostora que tanto acomete mulheres e outras minorias sociais sociais. A todo momento tem alguém duvidando de sua capacidade, tentando provar por a+b que ela não deveria estar lá. Em edições anteriores, o próprio Odinson afirmou que ela encantou o Mjolnir, porque não era possível que ela fosse digna. Ora, por mais que Thor Jane Foster esteja a serviço de Asgard pra Lutar contra elfos negros e a favor de elfos "luminosos" e isso seja uma questão a ser discutida, é fato que a dignidade com a qual ela encara o sexismo é inspiradora. É muito inspiradora porque minha lente feminista interseccional faz com que eu enxergue na fonte legitimadora de Thor a própria lei do pai Odin materializada em metal Asgardiano - Mjolnir. Mas viver sob a égide da matriz patriarcal, sexista e capitalista é aprender, identificar a contradição e buscar formas de superar. A primeira edição de Thor é isso, ruptura e continuidade, mas vejamos o que nos aguarda a próxima!

THOR #1

Fevereiro/2017
Preço de capa: R$ 9,40
Formato 17 x 26 cm
capa couché
miolo: papel LWC
lombada canoa
periodicidade: mensal
76 páginas











[Edição - Por Emanuelle Lima. "Também apreciei as questões que você trouxe e também fiquei com um pé atrás sobre a parte dos "elfos negros" - que depois de pesquisar e consideração, atribuo a um problema de tradução 🤔Porque vejo que houve, da parte dos artistas, uma preocupação em diferir da lenda nórdica de elfos negros, que poderia repercutir de forma errada na sociedade atual - esses elfos nos quadrinhos são roxos; o que distancia do paralelismo de negritude (equivocado) que poderia ser aplicado se fosse literal. Mas o problema da tradução foi semelhante ao de Star Wars (que trocou recentemente em algumas traduções de "Lado Negro da Força" para "Lado Sombrio"): no original é "dark elves", não "black elves" e isso faz diferença pra tradução (acredito eu). Dark não é simplesmente escuro, mas relacionado ao sombrio, ao desconhecido. Black é uma cor e, de certa forma, uma conceito étnico expandido. Portanto não são mutuamente trocáveis." ]


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