quarta-feira, 15 de março de 2017

The Last of... LOGAN

the old man logan
Em primeiro plano Dafne Keen que interpreta Laura. Ao lado dela Hugh Jackman, o Logan.


Antes de ir ao cinema assistir Logan, dei uma olhada na opinião de amigas, amigos e fanboys menos agressivos. O que todo mundo disse é que houve suspense e violência estilo DC, mas com narrativa bem construída. Ao que parece, Logan agradou a gregos e troianos.

SPOILER

A Maioria das pessoas se preocupou em aspectos de "road movie", analises da presença de Logan, a atuação de Hugh Jackman e a surpresa com a atriz Dafne Keen, que interpreta Laura e "por que Caliban?'... Alguns citaram o humor de Xavier, mas a maioria se preocupou com a comparação DC x Marvel ou X-Men x Logan. A qualidade de um sempre aparece como a desqualificação do outro e isso não cessa. Por outro lado, não escrevo sobre isso porque não foi nada disso que me divertiu e emocionou.



Os primeiros cinco minutos do filme, me trouxeram a mesma sensação daquela canção The Unforgiven, do Metallica, que descreve a experiência, dor e dificuldades de ser homem. Manpain. Fiquei pensando no quanto somos afogadas em sofrimento masculino (e branco) pela mídia, de modo que talvez seja mais fácil elaborar sobre isso que outra coisa. O início tem um clima "de boy pra boy" - Marisa ao contrário -, mas quanto o tom muda (pró que na minha cabeça é) Princess Familiar, da Alanis Morissette, fica nítido o quanto o filme é cheio de camadas de significação. É um filme pra pensar, mas não excluir ninguém - muito pelo contrário!

AS CAMADAS DE SIGNIFICAÇÃO


Curioso que maioria das pessoas não se ateve ao fato de Logan ser um filme cheio de comentários políticos. Não quero com isso dizer que é panfletário, porque obviamente não é. Achei particularmente válido que todas as questões são tratadas sem grande profundidade, mesmo porque os fatos da vida e a luta por sobrevivência atropelam tudo isso. Também porque uma parcela do público tradicional não deseja ver críticas que mexam no status quo. Porque é um filme pra todo mundo, que pode querer coisas muito diferentes... Ou simplesmente não querer entender.

Quase todo mundo que se interessa por X-Men sabe que a equipe foi criada no contexto de luta por direitos civis pra negros nos EUA. A diferença ideológica entre Xavier e Magneto é uma metáfora para os posicionamentos de Matin Luther King Jr e Malcom X e, além disso, a mutação representa a condição do negro naquela sociedade. O mais incrível disso é que a mutação como metáfora pode ser estendida para qualquer minoria política, afinal, quando você é "diferente", pra sobreviver, tem que transformar a diferença numa qualidade, benção e poder. Os X-Men são isso!

Com o passar do tempo, a metáfora da mutação foi usada pra discutir questões como homofobia e  agora, finalmente, podemos ver em Logan a atualização do tema em voga, após a eleição de Trump: a imigração. No filme, de certa forma, desnuda-se o sentido de biopoder à medida que narram a história da garotinha Laura, X23, a filha de Logan.

Autor do slide Prof. José Amaral. Fonte: Relações de poder.

A manipulação de corpos considerados vidas que "não importam" abre precedente para sua imigração e reprodução (obviamente destituídas de cidadania). A finalidade destas vidas, para a grande corporação, nada mais é que manter a lógica de escravidão. E veja, os corpos latinos não são brancos e servem como meros dispositivos bélicos, não cidadãos, não indivíduos, não pessoas. Uma metáfora para explicar que cada uma de nós está submetida à objetificação numa sociedade capitalista. Cada uma de nós é apenas "mão de obra" permutável, não força de trabalho.

Outro tema interessante foi a relação entre agronegócio e racismo. Numa área rural, Xavier, Laura e Logan encontram uma família negra que os recebe em sua casa. Quando não há água na torneira, o patriarca vai ao centro de distribuição para reabrir o registro. Na sequência em que ele vai, na companhia de Logan, há um forte comentário sobre a relação entre latifundiários, degradação do meio ambiente, alimentos transgênicos e genocídio dá população negra na voz dele. Esse foi, pra mim, um dos pontos altos. O latifundiário que envenena a terra, produz alimentos tóxicos e não tem remorso de acumular todas as terras através de violência é linhagem direta do senhor de engenho. Apesar de óbvio pra mim, foi fantástico ver que o diretor fez com que nerds tradicionais tivessem contato com essa informação num momento em que eles estavam desarmados, assistindo seu herói favorito, machão, casca-dura. Isso leva ao que entendo como lição master de Logan:

Tal pai, tal filha



LIÇÃO MASTER


Confesso que a minha impressão antes do filme era a de que a menina seria mera motivação para o heroísmo de Logan. Que, no máximo, ela seria uma personagem de segundo plano, apenas para diversificar o público, mas não. 

A maioria dos mutantes era não-Branca e, mesmo que os nomes não sejam destacados, a imagem deles é um salto considerável em termos de representação nos filmes de super-heróis. Por que um salto?

Por serem racializadas, as crianças são privadas dá infância, de direito ao corpo e têm vidas descartáveis na visão dos vilões. Essa imagem pega o gancho duma questão moral relevante protagonizada pelo vilão : as pessoas se regeneram? Devemos sempre esperar o melhor das pessoas?

Quem tem um senso heroico tende a responder "sim" porque bondade é um imperativo cultural, e pensar que isso pode custar a vida parece egoísta e mau. Na contramão disso, a lição do filme é a de que a socialização que define o tipo de seres humanos que podemos (de forma continua) nos tornar.

Isso cabe à jornada de Laura, mas também cabe a de Logan. Apesar de sua versão de anos atrás, Wolverine, ser um homem padrão até em sua animosidade, o filme mostra os efeitos dessa masculinidade tóxica para o indivíduo sem aquele drama de sempre, sem ter que vingar a mulher. Ele não é capaz de amar, nem ser amado até decidir que precisa, mas o ponto é, o que ele pode fazer quanto a isso? Ninguém "é", nos somos processos, portanto, no aqui-agora, não somos, apenas "estamos"!




CONCLUSÃO


Logan não é o filme vendido pelo trailer e isso é sua maior qualidade. O último filme de Jackman como James Logan foi um sucesso inegável e surpreendeu bastante. Isso porque transbordou sangue, emoção, ação, explosão e reflexões políticas válidas - porque relevantes para esse momento que vivemos. A narrativa não se perde nas lutas antiquadas contra regimes derrotados e consegue ter um tipo de humor e de fan service que agrada a todo mundo e não exclui ninguém.

O filme é sério, isso sim, por isso que cada cena de humor funciona como alívio da tensão. O propósito também parece ser humanizar, mostrar que o forte é vulnerável, que o real atravessa a vida, mas não pode atravessar nossas motivações - nada mau pra uma chave de ouro!

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