"Ninguém nasce herói", torna-se


  • Editora Seguinte (Cia das Letras)
  • Eric Novello
  • 2017

LITERATURA E SOCIEDADE
Ninguém nasce qualquer coisa que seja, porque "ser" é estar submersa na linguagem, classificada, criada e expressada por meio dela. Aliás, num mundo ideal, um recém-nascido deveria ser um devir, um horizonte de significações, a latência, a "totipotencialidade" das experiências e do que será dito. Na realidade, o que acontece é o oposto: quando uma criança nasce, já foi revelado o sexo biológico e, portanto, já há nomes, cores, objetos que serão permitidos ou não com tamanha naturalidade que raramente se pergunta "e se a criança não quiser? E se ela Não gostar? E se ela Não se identificar dessa forma?". Pra avançar, precisamos mudar de perspectiva, os conceitos e as implicações:

Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar.

Chico Science

Tudo o que se é, são expressões do possível, das experiências disponíveis na sociedade de forma mais ou menos autorizada. Neste sentido, tudo o que somos tende a caber nas molduras de significado que o idioma alcança ou que a moldura expele como abjeção - "jogue fora". Até termos ofensivos tiram da inexistência, do não-ser e do silêncio as categorias do ser. E é por isso, que ninguém nasce nada, mas torna-se.

Esse aforismo da filósofia francesa Simone de Beauvoir é um ponto de partida para qualquer reflexão sobre minorias sociais, questões de representação estética e política. Isso porque ela traz ao centro, não apenas o "ser", mas o processo constitutivo de "estar". Ser é um processo eterno de "vir a ser", uma espécie de horizonte de expectativas modulado socialmente.

Abordar um tema como esse, no aqui-agora, numa representação estética tão potente é um desafio necessário e - tenha certeza - , quanto melhor for a mensagem, mais será questionada a obra em sua literariedade. O escritor Eric Novello criou um diálogo sincero neste momento histórico em que o "dia" e o "logos", quero dizer, o movimento do conhecimento, da razão e do afeto estão interrompidos, mutilados após muitos golpes. Somado a isso, ele faz um romance nacional, ambientado numa São Paulo tão próxima, tão orgânica que desafia uma parcela de crítica ferrenha a argumentar contra: é juvenil, é brasileiro, se passa aqui e sem viagens pra Europa, o comentario social é evidente, tem negros com sucesso emocional e material, tem pessoas trans, tem intetseccionalidades múltiplas, identidades verossímeis e nada é tão fixo como muitos podem desejar. Tudo que os tradicionais odeiam foi reunido numa belíssima afronta que nos permite respirar nestes tempos inglórios!

Nossa capacidade de absorver golpe atrás de golpe me surpreende

(p. 354)

*Sem dúvidas, ser publicado pela Companhia das Letras significa bastante, porque tensiona e movimenta o campo literário de cima pra baixo*

CONTEXTO: A SITUAÇÃO-PROBLEMA
2016 foi um ano sombrio, em que pessoas pareciam carne-viva, desconectadas, sem aquela sensibilidade que prezava por manter viva em si e em resgatar nos demais a empatia. Afeto, principalmente, o amor em suas múltiplas formas, pareciam tão mortos, que "o jeito de [Novello] lidar com fantasmas" foi escrevendo sobre "a importância dos laços de amizade e de amor em tempos de ódio" (NOVELLO, 2017). Se estamos vivendo tempos distópicos, nada melhor que essa narrativa em 378 páginas, que retrata a negatividade e a ampla resistência que deve acompanhar. Reacriar o incidente do Museu da língua Portuguesa naquele simulacro de aqui-agora toca naquele "reconhecimento" e expressa de forma efetiva as angústias causadas pelo incêndio questionável.

Ao longo dos 31 Capítulos, o narrador-personagem - Chuvisco - brinca com o leitor presumido, influencia a sua expectativa, o seu imaginário e os seus afetos como um cientista manipulando tubos de ensaio. Somos cobaias, conduzidas de forma platônica pra fora das cavernas dos nossos preconceitos (lembrando sempre que racismo e preconceito não é um problema individual, nem está ligado à moral de ser boa ou má pessoa).

A estrutura narrativa proporciona àquela pessoa que lê, pressupõe e deduz fatos, experiências e aparências, reflexões que são quebradas ou confirmadas logo ali na frente; elas também fazem pensar sobre como todo mundo - dentro e fora da narrativa - está imersa na matriz de opressões e, mesmo pertencimento a grupos minorizados, podem usar ferramentas conceituais que contribuem pra hegemonia. Com isso, quero dizer que não é o bastante lutar pela democracia sem ter um pensamento interseccional (se você for racializada) ou pró-interseccional (se for homem ou não-racializada), ponto crucial na mensagem que a obra transmite. Por exemplo: embora Chuvisco seja um rapaz branco, sua forma especifica de lidar com a realidade - a catarse criativa - interpreta o "real" de uma forma que faz com que ele seja estigmatizado; ciente de que a violência sofrida por ele também é compartilhada por outras pessoas, em certa medida com mais rigor, não demora pra ele compreender que:

Talvez pelo modo como as pessoas me tratavam por causa das minhas catarses criativas, entendi desde pequeno que uma pessoa não precisa ser igual à gente pra merecer respeito. Somos todos diferentes, de um jeito ou de outro [...]

(p. 80).

É bastante potente a abordagem da diferença ao longo de Ninguém Nasce Herói. Naquele Brasil - bem parecido com o convencional - as pessoas são definidas pelo que extrapola a identidade padrão, ou seja, a diferença que expande o sujeito pra fora do enquadramento social. Sendo assim, a turma de Chuvisco age de forma contrária: positivam a diferença, a dissonância e pensamentos diferentes ao mesmo tempo que fazem do companheirismo a massa coesiva entre todos os indivíduos envolvidos.

ENREDO E MENSAGEM CRÍTICA
Ninguém Nasce Herói é uma distopia que se desenvolve no País liderado por um fundamentalista religioso, o Escolhido, repleto de milícias urbanas (Guarda Branca) inspiradas em grupos de ódio reais como aquele de roupa branca e chapéu pontudo. Enquanto a polícia permanece elegendo corpos que importam ou não serem protegidos ou injustiçados, as milícias eliminam todos os corpos e subjetividades tidas como dispensáveis. Interessante que há traços da ditadura militar recente e dos movimentos de direita criados e manipulados pela mídia que deslocou as consciências e unificou discursos. No início da história, o Pacto de Convivência foi firmado recentemente, conforme a descrição de Chuvisco, e isso faz com que a multidão se sinta tolerada (e não respeitada), algo como uma certa transição "lenta e gradual". Neste contexto, tudo incomoda aqueles que pensam iguaisl (livros coloridos, senso crítico, sair do padrão) e os direitos são assegurados apenas aos "eleitos".

A paz não pode ser mantida à força, apenas pelo entendimento.

Assim como toda ação tem uma reação, a Resistência - empreendida pela Santa Muerte - trabalha com um contradiscurso, que busca desvelar as informações que imprensa manipula e romper com a hipocrisia típica de regimes moralistas e eurocêntricas. A "justiça divina" imposta pelos Justiceiros que tanto temem a diferença se replica, encapuzada, espancando até a morte. Essa onda de terror é tão próxima do nosso aqui-agora que faz existir o que sentimos ao nomear cada um dos "dispositivos antidemocráticos". Contra a sensação de impotência e o horror, nada como uma "bolha" constituída de amigos pelos quais dar a vida, se necessário. Num mundo de pessoas carne-viva, emocionalmente atrofiadas, apenas o afeto, a conexão com o seu Outro pode pavimentar o mundo que desejamos: realmente democrático (Tiburi, 2016).

A polícia não nos protege da Guarda Branca, e ninguém nos protege da polícia. É assim que funciona.

(p.68)

Sabe o Rafael Braga? Luana Barbosa? Katiane Campos? Cláudia Silva Ferreira?

A consciência de Chuvisco reflete muito bem as angústias de 2016, quando as pessoas a nossa volta passaram a reproduzir discursos de ódio, a apoiar retrocessos sociais, pedagogias retrógadas que culminaram no lamentável Escola Sem Partido, além de propor absurdos em cartazes mais absurdos ainda, presentificando o Movimento da Anta. A voz de Chuvisco denuncia nossa aflição de que a violência atingiu um nível alto o suficiente para talvez ter que ser respondida na mesma moeda e, também, a nossa ansiedade sobre o porvir coletivo. Ao mesmo tempo que explora essa situação-problema especulando sobre as consequências do presente horrendo, Novello constrói a literariedade sem decorrer num clima negativo provindo dos problemas insolúveis. Em primeiro plano, Chuvisco empurra o desespero e o desafeto que todas nós sentimos, e constrói um novo rumo, enfatizando o que há de melhor do "lado de cá" - um espectro mais à esquerda.

O PROBLEMA NUNCA É SO O INDIVÍDUO
O narrador-personagem é um sujeito introspectivo, interessado em usar seus privilégios sociais (de raça por exemplo) para contribuir na construção da utopia democrática. Junto aos irmãos Amanda (estudante de cinema) e Cael (ator dedicado), que são negros, à Gabi (que tem um cabelo cheiroso!), Dudu (o menino novo) e Pedro (que me lembra o Connor de HTGAWM) ele tenta resistir à balança do ódio.

Não tem como não amar essa equipe. Todo mundo tenta resolver o desconforto de viver num mundo de ódio ( no qual a dor do outro dá prazer), sendo a melhor versão de si, criticando sua própria visão de mundo, revisando as suas práticas e "contrariando as estatísticas" (p.272). Isso é realmente inspirador.

Por outro lado, a proposta de Ninguém Nasce herói tem o mérito de fugir do famoso Check-list monstruoso de representação da diversidade: o protagonista Chuvisco não é o perfeito aliado, como qualquer uma de nós, ele é um devir. Ele tá mergulhado num mundo hostil oferecendo o seu melhor e isso tanto é verossímil, quanto acrescenta matéria crítica à obra.

Pensei nisso quando Chuvisco encontrou a Guarda Branca agredindo a uma pessoa, e decidiu salvar o desconhecido. Me chamou a atenção, quando, em meio à batalha, ele pensou:

É incrível a força desses animais [da Guarda Branca].

(p.64)

Se levarmos em conta que nós todas somos um eterno tornar-se e a melhor versão presente do agente de mudanças efetivo que almejamos ser, não cabe a mim criticar a ética do personagem ou julgar o que ele ainda não é. Acredito que cabe, no entanto, descrever através dele, um desafio que todas nós temos: o de rever nossas mentalidades e uso dos conhecimentos.

É evidente que a situação de violência cataliza emoções de modo espontâneo, e que as molduras que sustentam a hegemonia se revelam nestes momentos. Entendo a revolta do personagem, embora também entenda que a animalização é um tópico importante para a minha militância política antirracista. Afirmar animalidade de alguém, lançá-lo no campo do ininteligível, do comportamento hostil e inapropriado, é beber da lógica racial supremacista sutilmente. Isso não quer dizer que estou comparando pessoas racializadas aos "animais", mas sim que chamo a atenção para a necessidade de descolonização das nossas práticas cotidianas no que se refere a diferenciar espécies. Essa hierarquização revela o pensamento disciplinar que reduz a subjetividade e justifica tratamentos horrendos. Ainda que saibamos o quanto é absurdo o modus operandi dos extremistas, reduzir suas existências a partir da animalização reforça a ideias de supremacia da lógica eurocêntrica de humanidade e isso, não desafia o status quo (Ko; Ko , 2017).

Apesar da dignidade que se afirma humana (por negar a condição ao outro) considerar a intolerância alheia como traço de proximidade com os "animais", é por meio dela que Chuvisco sente "algum prazer" (p.64) ao ouvir os gritos de dor do agressor, fato que indica em que medida o sofrimento alheio é justificável. O que está em jogo aqui - a meu ver - não é a raiva bastante compreensível até, mas sim o conceito de animalização. Mais a frente, Chuvisco descreve que:

Os sombrios atacam. Abandonam a pele humana é revelam a verdadeira face. Com gritos de ordem, vão cercando o rebanho. Os dentes afiados, a selvageria, a sede de sangue se repetem como no dia do ataque próximo à Augusta.

(p. 250)

Os sombrios são descritos como feras selvagens, destituídas de subjetividade; isso se trada dum apagamento discursivo da importância de suas existências. Assim, a corporificação da vida é levada ao máximo da materialidade, o que significa que os sombrios são vidas corrompidas demais pra valem a pena. É perigoso pensar por essa perspectiva, porque ela enraiza o fascismo do oponente. A atitude de Chuvisco, portanto, ilumina o questionamento sobre o momento em que nos deparamos com os germes da intolerância, da antidemocracia e do fascismo que reside em cada uma de nós, e não porque somos pessoas más, mas sim porque nossa sociedade treina todo mundo para o ódio. É natural querer combater "o mal" no nosso oposto, mas isso constitui o cancelamento do pensamento analítico e, sobretudo, colonialidade, afinal, a eliminação do Outro não decorre de mero maniqueísmo. Ela se disfarça por meio dele. Noutras palavras: uma prática antirracista que é especista, classista, LGBTfóbica, capacitista e/ou gordofóbica não é uma militância efetiva, porque as opressões só funcionam porque elas se interligam.

A bandeira de ateu vegano, pregada na janela do apartamento de Chuvisco, representa um esforço pró-veganismo interseccional. Isso significa que, em seu ativismo ele está "atento ao mundo à sua volta, e não só ao próprio umbigo" (p.289) e compreende que a intolerância é resultado das opressões simultâneas, oriundas duma lógica que toma a si como neutra e delega ao Outro a diferença. Quando ele descreve os oponentes, fica evidente "Que coisinha frágil é a realidade" (p.347), de fato, e isso reforça que a descrição de qualquer narrador é um fingimento, uma filtragem maleável do empírico tornada real pela linguagem. Assim como todas nós usamos óculos ideológicos que selecionam termos e filtram a "realidade", Chuvisco se apropria do "real" através dum método específico - a catarse criativa - e não sabemos o quanto há de "Carta de Pero Vaz de Caminha ao Rey" no seu modo de exergar os Sombrios.

Uma vez que Chuvisco come o "temaki de supersalmão" (p. 206) e o peixe oferecido pelo pai de Júnior (p. 297) então, definitivamente, ele mais se identifica com a proposta do que pratica o veganismo. Não estou dizendo que "devemos todas sermos veganas" (cada pessoa faz o que pode e quer), mas concordando com Aph e Syl Ko (2017), quero enfatizar a importância de inserir a discussão anti-especista nas análises, práticas e militâncias interseccionais. Uma das maneiras de trazer o anti-especismo como ferramenta analítica é refletir sobre o porquê o termo "animal" ser usado como parte dum campo semântico "tão ofensivo". Podemos identificar semelhante conexão no uso ofensivo de "preto" ou "denegrir" (=tornar negro) como "humor negro".

É particularmente interessante que as catarses demandam que Chuvisco separe os problemas em gavetas, para controlar a imaginação e os pesadelos "reais". Graças a isso, por exemplo, ele leva na esportiva a expressão "beber leite até cair" (p. 283) no contexto de privação alcoólica ignorando o que beber leite significa em termos de exploração da vida considerada "animal". Neste sentido, a obra comenta que há momentos em que é importante sabermos separar a luta em gavetas: em certas ocasiões, destacar a individualidade (bem-estar) e destacar o modo de sobrevivência (heroísmo) em outras, num tipo de Gestalt - ou, se você for gamer, resolver o problema estilo Giana's Sisters Twisted Dreams (2012). Não há como viver o tempo todo de forma saudável, destacando apenas um ou outro modo (e há outros).

Em Giana Sisters: Twisted Dreams (Black Forest Games, 2012), há duas versões do mundo que são acionadas pela jogadora. O objetivo da mudança de "realidades" (tem a fofa e a sombria) é resolver diferentes problemas.  

Além disso, quando Chuvisco compartilha conosco a sua visão de uma das melhores amigas, ele cai no mesmo campo associativo da palavra "força", que também é um ponto delicado quando se trata de caracterizar personagens e pessoas negras, em especial, mulheres. Tanto a animalização, quanto a ideia de "mulher Negra forte" (badass) são estereótipos naturalizados que rondam as interações sociais neste mundo da hierarquização das diferenças.

Amanda teve uma infância difícil que a oficina de atores de sua comunidade ajudou a superar. É uma menina forte.

(p. 118)

Chuvisco é uma pessoa preocupadíssima em construir um mundo melhor, e não pensar na sua linguagem é apenas reflexo de seus privilégios sociais; isso não inutiliza sua luta, apenas destaca a sutileza dos discursos, e o modo como eles nos fazem algozes, vez ou outra, pela aparente naturalidade conferida ao ato de nomear e à linguagem verbal em si. Uma vez que a fala dele sugere admiração por Amanda, ela também revela como Chuvisco desconhece o modo como aquela construção verbal incide na vida da amiga. No fim das contas, assim como Chuvisco (em diferentes proporções), todas nós estamos sujeitas às construções associativas e, portanto, devemos refletir mais sobre elas. Nem sentimentos de culpa, nem acusação resolvem o problema: pra mudar a realidade, não adianta atacar o indivíduo - seria bem fácil se o problema fosse, apenas ele.

Eric Novello

OPINIÃO
Quando recebi o exemplar de Ninguém Nasce herói e imediatamente comecei a leitura, eu me vi absorvida pela narrativa, os detalhes específicos, a sensibilidade e - confesso - fui ao Instagram ver "que cara" tinha o escritor Eric Novello. Não me surpreendi com o fato dele ser um homem branco, porque a forma e a seleção seleção vocabular, tende a revelar nossas identidades. Cito isso não como demérito, mas para enfatizar a importância do trabalho dele, que alinha objetivo, interesse e poder num salto para o futuro. Apesar de a minha formação acadêmica ser em literatura e obviamente não confundir eu-lírico e autor, acho interessante algumas correspondências entre Chuvisco e Novello, sobretudo quando o personagem comenta sobre as interpretações do "real" é o modo como se sente:

Só entendemos certas violências quando estamos do lado vulnerável e as sentimos na própria pele. E não falo apenas de eletrochoques.

(p.370).

É fantástica a forma como Chuvisco se põe no lugar do outro e como está disposto a ser o que tem de ser: empurrar de volta aquilo que o empurrou, não com ódio, mas com generosidade. É louvável o modo como o "amor" sai do senso de pieguice que a maioria da galera da geração amor líquido sente e, sobretudo, reconstrói o modelo de afetividade entre homens. Esse amor que funciona como a coesão do grupo de Chuvisco, é alegoria do que a filósofa brasileira Marcia Tiburi (2016) descreveu como um "afeto aberto para o futuro", oposto ao ódio, que é o afeto fechado para o futuro.

Assim, concordo que "Tempos extremos pedem medidas extremas [...]" (p. 322), o que se traduz em afetos que se dirigem ao Outro e voltam pra nós como uma abertura recíproca. Abertura, não como tolerância ou como "diversidade", conceitos que mantém a lógica hegemônica, mas como diálogo. Tal como Tiburi (2016), acredito que "toda arte é política" (p.63), mas Ninguém Nasce Herói é uma operação artística extrema no sentido de ir à raiz do problema, questioná-lo e procurar soluções coletivamente. O mérito político dessa obra é, acima de tudo, estetizar a dialética entre o fascismo do Estado e, em que medida, cada pessoa é suscetível a ele microcosmicamente. Isso não é motivo pra parar de tentar, ao contrário, é um belíssimo convite a tornar-se, herói, heroína e o que você quiser - e puder - ser, aqui e agora.

*Ninguem Nasce Herói foi uma cortesia da editora Seguinte.

REFERÊNCIAS
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: Lendas e fatos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1980. 3.ed. (Compre aqui).
KO, Aph; KO, Syl. Aphro-ism: Essays on Pop Culture, Feminism, and Black Veganism from Two Sisters (English Edition). New York: Lantern Books, 2017. (Compre aqui).
NOVELLO, Eric. Ninguém Nasce Heroi. São Paulo: Seguinte, 2017. (Compre aqui)
TIBURI, Marcia. Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 2016. 5.ed. (Compre aqui).

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