TRADUÇÃO: "Branco não é uma cor" (Entrevista com Grada Kilomba)

Grada Kilomba
Escritora, Artista Interdisciplinar, Psicanalista e Teórica Pós Colonial e Descolonial.
Atualmente é Professora convidada o Departamento de Estudos de Gênero na Universidade de Humboldt (Berlin)

"BRANCO NÃO É UMA COR"*


Suas raízes são de São Tomé e Príncipe e Portugal. Sua área de interesse e pesquisa acadêmica é o racismo. O Seminário de Kilomba na Universidade Livre, em Berlin, teve que ser movido para um dos maiores auditórios porque a quantidade de estudantes interessados é imensa.



THE AFRICAN TIMES: Como você explica o grande interesse, especialmente de pessoas brancas, quando você fala sobre racismo?
Grada Kilomba: Antes de tudo, o importante é quem leciona, o que está sendo transmitido e como. Eu procuro combinar o conhecimento acadêmico tradicional com literatura e narrativa criativa.Desse modo, a leitura se torna realmente artística fascinante, tanto para os/as estudantes quanto para mim. Aprendi esse método a partir de autores como Frantz Fanon.

Quando você lê um trabalho dele, você não sabe exatamente onde ou como categorizá-lo, você não sabe o que é. É poesia? É prosa? É ciência política?Eu aprecio essa combinação de disciplinas e perspectivas que convidam a olhar para as coisas de um modo complexo. Também me parece uma forma realmente honesta de refletir sobre política uma vez que você fala desde o seu lugar de fala.

Essa é a perspectiva que vem das margens e é muito nova para a maioria das/dos estudantes. Eu trabalho junto à uma nova geração, completamente nova, que está disposta a curar a sua história, bem como reposicionarem-se e trabalharem o seu próprio racismo.
 
Vergonha é uma reação comum quando pessoas brancas são confrontadas com seu próprio racismo. Como você transforma essa reação em algo produtivo?


Trabalhar o seu próprio racismo é um processo psicológico e não está relacionado com moralidade. Ele começa com a recusa, passa pela culpa que se transforma em vergonha e segue até alcançar o reconhecimento. Uma vez que você tenha alcançado o reconhecimento, você pode começar a reparar estruturas, o estágio da reparação. 

Pessoas brancas, muitas vezes, perguntam a si mesmas "Eu sou racista?". Essa é uma questão moral, que não é produtiva porque a resposta  seria sempre "sim". Nós temos que entender que nós somos educadas/os para pensar a partir de estruturas coloniais e racistas. O questionamento deveria ser "Como posso destruir meu racismo?". Essa pode ser uma questão produtiva já que transpõe o primeiro estágio, a recusa, e inicia o processo psicológico.

Você pode explicar por que você escolheu escrever um livro sobre o racismo diário? O que caracteriza o racismo diário?

A intenção, nos meus escritos, é marcar o vínculo entre passado e presente, fantasia e realidade, memória e trauma, usando relatos e narrativas de escravidão e colonialismo. É interessante como racismo no presente é capaz de te fazer voltar ao passado histórico. Ele re-enquadra a ordem colonial: sempre que uma pessoa é confrontada com o racismo, naquele instante, ele ou ela está sendo tratado como subordinado um "outro" exótico dos tempos coloniais. E devido a essa cadeia desde o passado e o trauma que não tem sido explorado agora, eu decidi escrever esse livro [Plantation Memories: episodes of everyday racism] na perspectiva psicanalítica de episódios de racismo cotidiano

Quando nós falamos sobre racismo, é comum que a perspectiva adotada seja macro-política, mas a realidade das pessoas negras, seus pensamentos, sentimentos e experiências são, muitas vezes, ignorados. Isso é exatamente o que procurei centralizar nesse livro: nosso mundo subjetivo.

Há uma notável diferença entre os países europeus quando se trata de racismo?

Sim e não. Uma visão crítica e reflexiva a respeito da brutalidade do colonialismo não existe na maioria dos países europeus. Na Alemanha, pelo contrário, eu presencio um senso de culpa e vergonha em torno do racismo que é mais produtivo. No entanto, isso acontece unicamente em relação ao Holocausto; quando se trata da história colonial da Alemanha isso é desconhecido até nos livros escolares. 

Acredito que é um processo coletivo que a Europa precisa completar coletivamente. Encarar essa problemática história de racismo que começou com a escravidão, seguiu com a colonização e resultou na fortaleza conjunta de hoje. Racismo tem sido sempre o centro das polítcas européias e isso não mudou até hoje.

Uma frase famosa de Simone de Beauvoir diz "Ninguém nasce mulher, mas torna-se". Você enxerga alguma verdade na variação "ninguem nasce branco, mas torna-se branco" ?

Esta é uma frase muito problemática porque uma das grandes fantasias das pessoas brancas é ter a possibilidade de escapar de sua branquitude, ser capaz de dizer "Eu sou brancx, mas não sou como os demais". O que é importante quando falamos sobre racismo é entender que branquitude é uma identidade política [que] tanto significa [ter] o privilégio de ser e estar ao centro bem como de estar ausente. Isso é ter poder, mas esse poder é encarado como neutro e normal. É exatamente esse privilégio de se manter não marcada, mas de marcar o Outro que caracteriza o racismo.


Então, o que significa exatamente ser branco?

Branco não é uma cor. Branco é uma definição política que representa historicos privilégios sociais e políticos de certo grupo que tem acessos às estruturas dominantes e instiuições da sociedade. Branquitude representa a realidade e historia de certo grupo. Quando nós falamos sobre o que significa ser branco, então falamos sobre políticas e absolutamente não sobre biologia. Assim como Negro corresponde a uma identidade política que se refere à historicidade das relações políticas e sociais, não à biologia.

Como sabemos, há pessoas Negras cujas peles são claras, outras cujas peles são escuras, outras cujos olhos são azuis. É a história política junto às práticas cotidianas** que constroem tais termos.
Como pessoas brancas podem contribuir na luta contra o racismo?

Elas podem trabalhar neles mesmas, começar fazendo seu dever de casa. Isso já é o suficiente para se questionar e comparar ao fato de que pessoas negras vêm pensando sobre isso há mais de 500 anos.

Pessoas brancas podem ser vítimas de racismo, também? 

Esse questionamento é ilógico. Aqueles que propagam o racismo não experienciam o racismo. Pessoas que excluem, nominam e oprimem não podem ser, ao mesmo tempo, vítimas da opressão. Por outro lado, elas certamente podem desenvolver um senso de culpa que, as vezes é confundido com ser vitimizado/a O que ocorre, muitas vezes é que, a culpa é tão intensa que a pessoa que agride transforma ele/ela mesmo/a em vítima e transforma a vítima no/a agressor/a . Isso permite ao/à agressor/a perceber a si mesmo/a como boa pessoa, e, desse modo, autoriza a livrar-se da ansiedade que seu próprio racismo causa. Uma pessoa negra não tem essa opção.

Você acredita num futuro sem racismo?

Não. A história e o racismo vivido diariamente mostram-me o contrário. Muitas transformações têm ocorrido, mas também estagnação, essas posturas co-existem. O fato de Obama ser presidente não significa que o racismo acabou; o fato de Merkel ser uma mulher chanceler não significa que alcançamos o fim do sexismo. E o fato de a maioria da população de Berlin ser homossexual não significa o fim da homofobia. Apesar disso, continuo desejando muito um futuro em que pessoas possam viver juntas com igualdade***.
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NOTAS DA TRADUTORA

*[Tradução Clandestina/Copy Left] Entrevista conduzida por Stefanie Hirsbrunner do African Times (2013). Disponível em: <gradakilomba.com/interviews/interview-1/>. Acesso em: 14 nov. 15.
**Embora a autora tenha usado "realidade", optei por traduzir como "práticas cotidianas" a fim de enfatizar a função do imaginário/ideologia nas nossas práticas cotidianas e como tais práticas assumem caráter indiscutível de verdade.
*** O texto original diz "[...] que as pessoas possam viver juntas e iguais". Para manter o sentido proposto no texto, optei por "igualdade" para ressaltar a equivalência política, de acessos e direitos, o que não significa que as pessoas devam SER iguais. 

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