terça-feira, 10 de novembro de 2015

O QUE É BRANQUITUDE?

"O Homem Vitruviano"
(Leonado Da Vinci, 34 cm x 26 cm, 1490)

Por que uma introdução do blogue às pessoas não-negras?


Cada vez que surge um tópico de discussão sobre racismo, (nós, negrxs) vemos as mesmas questões serem levantadas. Há uma forte demanda das categorias dominantes por paciência e didatismo de quem sofre opressão diariamente. O repetido esforço em explicar o que, muitas vezes, as pessoas insistem em dizer que "não concordam" antes de lerem/ouvirem. Naturalmente, não sou contra discussões e discordância. O que estou dizendo é que há uma série de pressupostos sobre raça, racismo, injúria, consciência e orgulho negro que as pessoas brancas e não-negras precisam compreender antes de se posicionarem/engajarem nas discussões. E, mesmo após compreender os conceitos, é preciso aprender a ouvir as pessoas desprivilegiadas. É preciso saber calar e dar espaço para que a pessoa negra relate sua história, suas experiências, suas opiniões, seus interesses. Certamente, após compreender os conceitos e ouvir uma pessoa negra falar, você vai se deparar com a sensação de que:

-nunca tinha pensado nisso;
-não faz sentido pra você;
-não entendeu;
-é exagero; a pessoa é impulsiva;
-você não é brancx/você é negrx.  - neste caso, antes de prosseguir ver o conceito de : Colorismo, por Aline Djokic e sobre as políticas envolvidas aqui em "Colorismo, quem decide?" por Consuelo Neves.
-você não é racista.

Isso não faz de você um monstro. Isso não é exatamente personalista. Não sejamos maniqueístas, por favor. Se você continua interessada em compreender é possível que busque em sua vida alguma dor, alguma experiência que possa embasar a sua empatia pelo que me proponho a explicar aqui. Dificilmente, você é uma pessoa completamente privilegiada, tipo: homem-cis, branco, renda-estável, cristão, heterossexual, de meia idade, magro, isto é, aquele padrão de pessoa considerada humana-padrão socialmente. Embora você possa não concordar, e dizer que não tem privilégios, que não é uma pessoa branca e/ou heterossexual, normativa é importante se localizar no diálogo que proponho.

- Você sabe o nome de três países africanos e suas respectivas capitais?[1]
- Se eu tirar o Egito da disputa fica mais difícil?
-E três países europeus e suas capitais?
-Conhece três artistas Negras que são engajadas politicamente?
-Sabe quem foi Beatriz Nacimento?
- Há algum país na África que você chama de "Camarões"?
- O que foi a descolonização da África? 

O privilégio pode ser percebido nos nossos interesses, nas nossas escolhas pessoais de saber, nas ideias que não costumamos questionar. Achar uma pessoa preta "exótica", não é achá-la linda [2]; "cabelo massa" é um juízo de valor que exotiza, mostra espanto com a diferença, mostra sua sensação de transposição da normalidade. Se você acha que "denegrir" é fazer mal, "cinema negro" é filme de terror", que "mulata" é um termo neutro, chama pessoas de "baianos", "ceará" ou "paraíbas" sem se preocupar com seus nomes e usa expressões como "neguinho isso, neguinho aquilo" precisa centralizar suas reflexões no seu lugar social, no espaço que a sociedade lhe dá para expressar suas sensações sem pensar duas vezes. Isso quando não enxerga o problema, mas, sobretudo quando discorda. Discordar/recusar, aliás, é o primeiro estágio pelo qual uma pessoa branca passa, ao lidar com a questão racial. Recusa porque entender que racismo é um problema negro... mas não é. Racismo é um problema branco. Negros não são racistas.

Na maioria das vezes, a discordância é apenas opinativa. Ou construída a partir de falácias, de ideias frágeis, e que tendem a inverter o que está sendo afirmado pela pessoa negra. Se você não para pra escutá-la, acusa de "agressiva"ou "histérica" você está fugindo do problema e a está silenciando. Independente da sua "consciência" ou "vontade", fato é que sua ação foi violenta. Repito, você não é um monstro por isso. Quanto mais automática é essa (re)ação, mas enterrada está em você a naturalização de pensar que "não há problema algum em se expressar", por mais tratora que seja sua ação. Isso chama privilégio.

Outra forma de negar é  elaborar que escravidão e sociedade de classes "são distintas segundo Marx"; que numa sociedade socialista não haverá racismo porque o problema é APENAS o de classe social; daí pode ser que apoie as causas sociais, mas seja contra políticas públicas específicas. Numa sociedade de classes, portanto, (segundo essa lógica) é justo pagar os 10% ao garçom que passou horas servindo sua mesa porque ele serviu a mesa, como se nada tivesse a ver com raça/cor. Você enxerga a disjunção?

Oprimir é violentar o Outro, mostrar o seu poder diante de alguém que não o tem. O que obviamente não é possível quando você está na mesma posição que ele/ela. Outro é uma forma privilegiada de perceber/descrever categorias que são marginalizadas. Desse modo, a opressão que consiste em uma pessoa branca não reconhecer que subordina a negra é racismo. Isso é tão naturalizado historicamente, que você pode até pensar conscientemente que "todos são iguais e humanos", que "todos merecem direitos iguais" mas será que se preocupa que tem  alguém que serve uma bandeja sempre que você vai comer? E que esta pessoa, em geral, é negra? Você acha que elas devem ter ACESSO e OPORTUNIDADE igual? Se você é privilegiada/o, certamente, a sua função não é a de "desvendar" o que subalternizadxs sentem, querem, desejam sem consultá-las/os e sem ouvir o que têm a dizer. Sua função é repensar a sua construção para, então, desconstruí-la. O que é ser branco? Como é sentir-se branco? O que isso lhe permite ser? O que isso influencia nos seus sonhos?Com isso, quero dizer que o fim do racismo tem a ver com a desconstrução da "branquitude", porque são os brancos quem mantém o racismo operando, porque é confortável. Pessoas negras, mulheres, gordas, transsexuais, pobres, idosas que falam contra si mesmas, seja através de piadas, seja expressando opiniões, na verdade, estão REPRODUZINDO o que elas aprendem diariamente, na televisão, nos filmes, nas revistas, nos telejornais, na escola, nas ruas. Essa falta de consciência de si, essa despersonalização, é efeito de um racismo continuado e cotidiano há séculos.Não existe racismo inverso. Essas situações, servem para você imaginar o quanto é dolorido ser agredido em todos os espaços os quais se transita. TODO DIA. TODO DIA. TODO DIA. TODA HORA.

Até aqui, não temos patologização, não temos demonização, não temos culpa. Não se trata de um problema individual, menos ainda de um problema moral. Você foi ensinada/o a entender que, ser branca/o é bom, desejável, positivo, merecedor/a de cuidado, paciência e direitos. Você aprende a vida inteira nos jornais que a sua vida vale muito, que é absurdo ser violentado/a. Você aprende, também, que o lugar da pessoa negra é o contrário. O problema é COMO você vai mudar essa sua realidade de bem-estar.

É a partir dessa aprendizagem que o racismo estrutura as relações. Primeiro você aprende que existe uma diferença "visível" entre as pessoas, a raça, pela cor e estrutura do cabelo, do corpo etc. Você também aprende a dar valor às características físicas de forma subjetiva (bom/mau, bonito/feio, inteligente/devagar) - racialismo - e depois você vai cristalizando o ensinamento, isso fica natural a ponte de virar uma "verdade". Fica natural interromper uma pessoa preta, esperar que seja criminosa,  violenta, interesseira e que seja menos inteligente ou menos sensível - racismo. Se você disser que "nunca percebeu a raça/cor" de alguém isso significa que você é branco e que, na verdade, não percebeu A SUA cor. Essa suposta "não cor" vai te fazer ver o mundo de uma forma específica que não para pra imaginar outras formas de ver, estar e sentir o mundo, 

Tal dificuldade de expandir os horizontes mostra a centralidade de suas percepções em si mesmas. Uma autorreferência, tal como aquele Homem Vitruviano do topo da página, aquele homem que é a medida de tudo, a chave de interpretação do mundo. Lembrando que esse "tudo" é centralizado e deixa muitas categorias "de fora", mas sem esquecer sua opinião sobre elas. O mundo ocidental é isso: branquitude, sexismo, homofobia, classismo, gordofobia, capacitismo.

Não é uma questão moral, você não precisa se perguntar se é racista, sexista, capacitista. Todas nós somos mergulhas nessa lógica. Se você está num lugar social que permite que você violente, mesmo que não perceba as dinâmicas, está caindo nas armadilhas dela. Sua função é desconstruir esse olhar automático e isso só é possível parando para ouvir o que as pessoas subalternizadas têm a dizer. Obviamente, haverá histórias de dor, desconforto, solidão que você reconhecerá de alguma forma, mesmo não tendo sofrido diretamente. Porque, moralmente, você acha que isso é ruim, é injusto. A questão é repensar em quem é você naquelas situações.

O modo cristão como a nossa sociedade se construiu traz arraigada a culpa. Ela emerge sempre quando entendemos que cometemos um erro moral. No caso da experiência de raça/racialismo/racismo, esse segundo estágio consiste em sentir culpa. "É errado não gostar de negros", então vem aquela dor moral, de romper com o ideal de si mesma/o que se idealiza como pessoa boa, justa e nobre. Pessoa independente de "maldade" como "pôr uma pessoa pra apanhar no tronco" pode ser que ache justo não pagar 10% para garçom. Quando você se dá conta da teia que liga sua vida à vida de pessoas marginalizadas aqui-agora e amplia para os séculos de desigualdade, verá que sim, sabe que é confortável ser racista porque a estrutura está pronta. Que é confortável compactuar com o racismo porque não foi você quem criou. Mas perceberá em seu íntimo, que não é justo, que não combina com a ideia de "bondade" que você tem de si mesmo/a.

A questão é que a culpa causa o estágio terceiro: a vergonha. Vergonha é a sensação de que você errou. Sensação que decorre quando percebe que não sabe o nome das pessoas a sua volta. Quando percebe que sua luta política gera sujeira que uma pessoa profissional mulher e Negra terá que limpar. Quando se dá conta de que usa termos pejorativos e reproduz piadas racistas. A sensação de estranhamento ao notar que a África é um continente, que o Egito fica lá, portanto, não há gente branca que nem nos filmes. Quando percebe que Iemanjá não é branca como você. Quando percebe o porquê da representação de tudo o que é positivo ser embranquecida.

Nesse momento, você tem a certeza de que venceu quarto estágioreconheceu que o racismo existe; que ele é sustentando nas relações pessoais, que ele só existe porque há um esforço em fingir que não entendem o que as pessoas negras estão dizendo/denunciando. Entender que a colonização tornou possível o enriquecimento de pessoas brancas e é por isso que você tem acessos diferenciados. Entender que colonizar significa expropriar, espoliar e se apropriar de bens, terras alheias e desumanizar pessoas. Reconhecer o racismo é, também, reconhecer o seu lugar de pessoa branca, sua branquitude, seu direito de ir-e-vir, seu direito de falar mais alto, de interromper...  direitos que ferem outras pessoas, portanto, não direitos, mas uma proteção que a sociedade dá para cada uma das suas práticas de violações dos direitos. Proteção que, inclusive, transforma essa violência em uma ideia de auxílio, de levar o que é bom, levar civilização. Já parou pra pensar nesse conceito?

A solução na qual devem investir é o quinto estágio: a reparação. Quando falamos em reparação podemos nos remeter à reparação financeira, semelhante aquela empreendida pelo Estado alemão pós II Guerra Mundial. No Brasil, porém, essa reparação financeira foi sabotada assim que aboliram a escravidão formalmente: documentos, registros, provas foram todas queimadas. Nesse sentido, verossímil seria aquela peça dirigida por Lázaro Ramos: "Namíbia, Não!" (2013) em que o Estado brasileiro, reconhecendo a injustiça da escravidão, resolve deportar todas as pessoas negras para o seu "lugar de origem" aproximado (determinado pelo fenótipo/etnia predominante). É uma comédia que aponta e cutuca feridas históricas da Nação. Reconhecer não é apenas uma sensação, é o esforço em mudar a realidade que foi entendida, é operar sobre a desigualdade buscando a reparação/igualdade de direitos e acessos.

Outro aspecto relevante sobre a reparação é que, em geral, ela tem sido confundida com vingança. Óbvio que violência sofrida causa ódio, mas a solução do conflito proposta aqui não é essa. Não nesse momento histórico. Com isso não desautorizo movimentos de resistência passados, pois o contexto era outro. No presente, quero trazer uma crítica à violência que tanto tem sido incentivada. Um exemplo disso é a "trilogia da vingança" do Quentin Tarantino. O filme Django Livre (2013) tem propagado essa concepção de violência como solução ao racismo, fora a exaltação do sexismo - principalmente, da masculinidade negra do silenciamento da mulher Negra (racismo engendrado). Interessante que o Tarantino é branco-homem-cis-rico-heterossexual, o que nos leva a perceber que o imaginário dele de "violência como solução" é algo distinto do fim do racismo e do fim do sexismo. A reparação nesse filme não é um tópico de discussão. O objetivo da história não é reparar a desigualdade de forma plena.

O que tem sido feito em âmbito nacional, por exemplo, é a Política de Cotas Raciais nas Universidades públicas, e concursos públicos. Temos também a parceria entre brancos e negros que nos possibilita criar ficção que transmita valores positivos à população negra (para nos identificarmos como sujeitos/nos construir) e à população branca (para se desconstruir). 

Em suma, através desses estágios e da disposição ao diálogo/negociação o horizonte se alarga.Você passa a ter a dimensão das experiencias que desconhecia, desnaturaliza o  seu cotidiano, desnaturaliza a branquitude e demais privilégios. Passa a respeitar o lugar de fala e lutar para que a população negra possa lutar, falar por si e exigir melhorias político-sociais, em suma, representar/expressar a si mesma. Reconhecer-se brancx significa, portanto, abrir mão de querer ser herói/heroína que salva o povo de sua condição, como se não houvesse causa, apenas a consequência.


Especial Thanks
Profa. Cíntia Schwantes
Daniela Razia
David Yuri
Profa. Edileuza Penha de Souza
Flávia Reys
Profa. Grada Kilomba
Lélia de Castro
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NOTAS

[1] Fui introduzida às questões na disciplina Pensamento Negro Contemporâneo (Universidade de Brasília) ministrada pela professora Edileuza Penha de Souza.
[2] MC SOFFIA. Princesa que nada! Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=-pxDBJ_tgmE>. Acesso em 10 nov. 15.

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CARVALHO, José Jorge de. Bases para uma aliança negro-branco-indígena contra a discriminação étnica e racial no Brasil.Disponível em:  <www.ciadejovensgriots.org.br/livros/racismo%20indios%20e%20negros.pdf>.

DAVIS, Angela. A democracia da abolição: para além do império das prisões e da tortura. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

LORDE, Audre. Textos escolhidos. [s.L]: Difusão Herética: edições lesbofeministas independentes (folheto), 2013

PHILLIPS, Kayla. What do hardcore, ferguson, and the “angry black woman” trope all have in common? Disponível em: <noisey.vice.com/blog/hardcore-ferguson-and-the-angry-black-woman-essay>.

KILOMBA, Grada. Grada Kilomba: Lidando com o racismo na Europa (subtitled in Portuguese).  Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=DdpUFybJddc>. Acesso em 10 nov. 15.

______.Grada Kilomba in "CONAKRY" a film on Amílcar Cabral. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=J2GeR7k3j44>. Acesso em 10 nov. 15.

______. Grada Kilomba Interview - Part VI. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=DoTxt3YAlYI>.Acesso em 10 nov. 15.

MC SOFFIA. #EP07 - EMPODERADAS [ MC SOFFIA ]. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=yEk2-lolkaA>.Acesso em 10 nov. 15.

É importante assistir:

ORI. Documentário. Direção: Raquel Gerber. 1989; Duração: 131 min. País: BRA. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=qexH85cYfK4>.Acesso em 10 nov. 15.

ATLÂNTICO NEGRO: NA ROTA DOS ORIXAS. Documentário.  Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=FmRrSUesNTY&list=RDFmRrSUesNTY#t=0>.Acesso em 10 nov. 15.

PIERRE VERGER: MENSAGEIRO ENTRE DOIS MUNDOS.  Documentário. Direção: Lula Buarque. 1996. País: BRA. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=FyS53WkYyYI&list=RDFmRrSUesNTY&index=2>. Acesso em 10 nov. 15.



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