Raça: o filme que (também) poderia ser sobre nós

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Miúda dos Santos

A primeira pergunta que deve ser feita é o que está sendo considerado "nos" aqui neste texto. Em conformidade com a descrição do site, afirmo que a nossa comunidade Preta, Nerd & Burning Hell é constituída por um "nós" mulheres/garotas negras, nerds que se identificam com o feminismo negro como método, abordagem e visão de mundo. E com essa visão de mundo, assisti à pré-estreia do documentário Raça: um filme sobre igualdade, codirigido por Joel Zito Araújo (As filhas do Vento) e Megan Mylan (Lost Boys of Sudan), em 2013.

O FILME


Financiado por fundações estrangeiras como a Kellogg's (quem leu Mulhere, Raça e Classe entenderá a ironia disso), o documentário Raça se propõe a discutir representação e representatividade de pessoas negras brasileiras em três esferas: a midiática, política e cultural. Para isso, são construídos três perfis : do cantor e apresentador de televisão Netinho de Paula, do senador Paulo Paim e da quilombola Dona Miúda (nesta ordem). 

Embora eu pudesse interpretar o modo como as ironias (exemplo: Pelé e Xuxa) lançadas sem comentários explícitos ao público geral podem ser prejudiciais à nossa causa política, prefiro analisar a representação feminina no filme que deixou ( é muito) a desejar.


NATUREZA VERSUS CULTURA


A meu ver, o primeiro ponto que se apresentou problemático no filme foi a escolha dum número ímpar para a representação dos perfis. O conceito de representação discutido no filme deveria levar em conta que a presença não é suficiente para garantir representatividade, pois a representação é a construção de quem é observado a partir das perspectivas do observador. E quem garante que o indivíduo "real" representado se vê na obra? Como o uso da imagem desse indivíduo representado pode ser usada para transmitir ideias opostas ao que ele acredita?

Os perfis são compostos por dois homens negros do topo econômico, heterossexuais que representam a cultura letrada e capitalista, o mundo do poder e das decisões. Os homens destacados no documentário, assim como Joel Zito (que é um cineasta reconhecido também no âmbito acadêmico internacional), representam o máximo de privilégios sociais conquistados por pessoas negras brasileiras até o presente, e isso é significativo.

Em oposição discursiva, temos uma mulher negra trabalhadora numa área rural, líder política e religiosa duma comunidade destituída de representatividade na câmara, senado e na mídia. A presença dessa cidadã, que pertence à uma comunidade quilombola do Linharinho, no Espírito Santo, é sim uma dádiva para a obra, mas as escolhas discursivas dos autores mina seu potencial à medida que a reduz ao "inculto", "popular" e à"natureza" - aspectos historicamente reduzidos.

Talvez, o filme devesse chamar-se "gênero", o "primeiro" na verdade. Ele não precisa mostrar pessoas brancas para me lembrar o desserviço que muitas sufragistas defenderam de voto para homens negros. Desserviço apreciado por muitos homens negros, aliás.

Raca Mylan Araujo
O brasileiro Joel Zito Araújo e estadunidense Megan Mylan 

No fim das contas, a base do documentário que se propõe a discutir a complexidade que é ser uma pessoa racializada, no Brasil, é reduzida à clássica dicotomia questionada pelos feminismos, desde a primeira onda. E veja, embora eu compreenda a dignidade e resistência que Dona Miúda representa, é evidente que esta oposição no filme retoma as polaridades que embasam violências que buscamos combater diariamente.

Se, por um lado, mostrar o cotidiano da comunidade tradicional evidencia que seus direitos são conquistados (e não concedidos), por outro, gravar um rito religioso sem permissão objetifica esse grupo social tanto quanto qualquer trabalho de campo de antropólogos comprometidos com o status quo. Lembro do assombramento de Dona Miúda na sessão e de sua ênfase no fato de terem gravado o que não deveriam. É absolutamente chocante um intelectual negro, militante, compactuar com esse nível de desrespeito. Mais chocante ainda porque ele é o autor do belíssimo As filhas do vento.

Nas duas vezes que assisti ao filme ele estava presente, a platéia era majoritariamente negra e houve debate. Seu discurso não apontava em nenhum nível uma sabotagem, edição ou qualquer outra informação que não fosse de seu arbítrio. Sim, eu sei que isso seria pouco estratégico, mas convenhamos: temos uma responsabilidade com tudo o que fazemos e precisamos ser intelectualmente honestas sempre. Sempre.

Representa quem?

A ESCOLHA DO PERFIL COMO DISCURSO

 

Além disso tudo, é preciso problematizar a presença de Netinho de Paula. Sabemos da importância de sua iniciativa de construção de um canal de televisão de negros para negros, bem como sua presença na mídia. Por outro lado, é bastante ofensivo selecionar o perfil de um estereótipo colonial de homem negro (conhecido pelo gravíssimo ato de violência contra a mulher) e desrespeito às mulheres negras como símbolo da "raça". Enfatizar suas atitudes de "bom pai" para com sua filha "nega japa" não minimiza a absência dos demais filhos (vários), ainda mais em tempos de debates profundos sobre a solidão da mulher negra e da participação dos homens negros nisso. A representação de Netinho, se comparada à de Dona Miúda beira a broderagem.

Seria uma escolha política revolucionária trazer o perfil dum homem negro da mídia que tivesse uma história de comprometimento e de ética política que dialogasse de forma respeitosa com o(s) feminino(s). Não podemos ignorar que homens negros, apesar do racismo, são investidos de poder social, inclusive para oprimir mulheres negras e, sobretudo, quando não há pessoas brancas. 

O perfil de Paulo Paim é focado apenas na sua atuação profissional ( o que reforça a broderagem para com Netinho de Paula). As filmagens acompanhavam com doses de espontaneidade (câmera nos ombros, momentos de descontração e hora do cafezinho) as negociações com os "coronéis" para a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial. A sua presença marca tanto a perseverança necessária para alcançar o objetivo quanto a missão autoatribuída de fazer pelos "nossos", quando se é um "preto que ascendeu socialmente". A pergunta que ele personifica é: o que posso fazer pelos meus?

Como o filme foca apenas o cotidiano profissional do senador, ele se torna a personificação da burocracia, da "civilidade" do universo masculinista e da política partidária. Ora, neste caso não seria muito mais interessante trazer o perfil de Benedita da Silva?

De fato, senti muito orgulho de ser capixaba (nascida no Espírito Santo) quando assisti ao documentário. Dona Miúda representa o orgulhoso, a resistência e a dignidade da população negra. Sua luta por direitos evidencia o quanto precisamos avançar como povo ao mesmo tempo que nos inspira.

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CONCLUSÃO


Por mais que as escolhas que constituem um filme não sejam sempre restritas ao que o diretor deseja (mas também ao que é possibilitado pela produção) assinar significa assumir as escolhas que constituem a obra. Neste sentido, foi bastante frustrante assistir a um filme negro tão masculinista. 

Reforço: o problema não é simplesmente a presença. Dona Miúda me representa sim, mas também há mulheres exercendo cargos políticos e na mídia. O apagamento histórico de intelectuais negras, bem como a representação do ranço de masculinidades privilegiadas torna o documentário o retrato não do problema racial no Brasil, mas uma ode às ardis sofrências dos homens negros focados muito mais em desafios de serem homens que numa crítica atual, que reflita o projeto de sociedade igualitária e justa.


Assista ao trailer:


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