O QUE É HUMOR NEGRO?

Michaela Coel é roteirista e atriz da série britânica Chewing Gum

Nesta série de textos, falaremos sobre a celebração do humor protagonizado por pessoas negras, discutem o conceito de "humor negro" e traçam uma reflexão sobre as modalidades e limites do humor. Por meio da #nerdiandade, discutem também a construção do humor em duas séries, que são indexadas no gênero "comédia". Apesar de estarem sob o mesmo gênero, cada uma constrói o humor que se posiciona em um polo: reiterando estereótipo e questionando o status quo. São, portanto, contrastes discursivos inegáveis do humor branco ao humor negro.

O que é humor negro pra você? É rir de imagens mórbidas? Rir de sequências de horror? Rir do sarcasmo ou da perversidade de alguém? Você já sentiu vontade de rir de piada escatológica, racista ou sexista? Se você ri disso tudo e classifica como "humor negro", está um tanto equivocada (ou equivocado) sobre o que esse termo significa, mas o problema não é apenas seu, veja:

Disponível em: <pt.wikipedia.org/wiki/True_Blood>. Acesso em 6 de abr. 2016

TRUE BLOOD É UMA SÉRIE DE HUMOR NEGRO?
Não, resumindo, TRUE BLOOD é uma série sobre brancos num estado predominante negro segundo o censo real, em que só há duas famílias negras ficcionais. Não faz sentido uma pessoa negra rir disso. A forma como pensamos no ocidente é dicotômica. Da forma mais "natural", opomos branco/preto, homem/mulher alto/baixo e por assim em diante. Até aí *não* é tudo bem, porque existe uma hierarquia entre os termos que se estende à percepção da realidade à volta e, em especial, às interações sociais.

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Eu a patroa e as crianças

O problema dessa categorização é que ela direciona sutilmente ao racismo. Magia Negra em oposição à branca marca um juízo de valor moral, como se tudo o que fosse negro fosse perverso e o que fosse branco, benéfico. O mesmo acontece com "lista negra", Death Note, Black Mail, ovelha negra, romance negro (gótico = ?). Com o humor não é diferente: filmes e séries de TV são classificadas como "humor negro" sempre que pende um esforço sujo, desconcertado, horripilante e desagradável. Apesar da sentença "humor branco" parecer sem sentido, é preciso dizer uma coisa: senso de humor que ri de morte e de caos é humor branco porque, se entendemos "branco" como identidade política, avançamos até a compreensão de que o humor branco é aquele investido de privilégios (branquitude) que não se sente ofendido ou tocado pela exposição e ridicularização do outro. Falamos de uma relação de poder.

"Mas feminista não tem senso de humor".
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Aasha Davis é a protagonista da webserie The Unwritten Rules

Na verdade, temos sim. E muito. Adoramos "bom" humor, não o autodeclarado "inteligente" estilo CQC, nem as chamadas "comédias negras americanas". Em geral, chamam de comédia negra aquelas séries de família que ascendeu socialmente (Black-ish, O Maluco no Pedaço) ou da trabalhadora (Todo mundo odeia o Chris, Eu a patroa e as crianças) dentro de padrões heteronormativos e evocando o problema do "jeito certo de ser negro".

Algumas pessoas podem sugerir que as séries dos anos 1980 e 1990 não podem ser julgadas com os olhos de hoje, mas não é isso o que estamos fazendo. O que enfatizamos é a diferença entre o humor direcionado a negros e "rir de negros". Essa diferença é perceptível quando o público e a imprensa se expressam. Recentemente, a produção da Netflix Dear White People (Cara gente branca) foi motivo de incômodo do público branco estadunidense, simplesmente porque ridiculariza os privilégios brancos. O incrível Hidden Figures (Estrelas Além do tempo) é outro exemplo recente do incômodo do público branco.

Personagem Adelaide do programa racista Zorra Total

Por outro lado, esses indivíduos brancos, que se ofendem com críticas à estrutura de poder criada e mantida por eles, não veem nada de errado em pintar a cara dum ator branco de tinta preta. Para eles, juntar elementos visuais estigmatizados e relacionar à população negra é "só brincadeira" ou "liberdade de expressão", então ninguém branco pressiona a Rede Globo como os estunidenses brancos pressionaram a Netflix até que a empresa de streaming tirasse Dear White People do ar.

Não é raro que as minorias repliquem os modelos convencionais, porque o imaginário, a linguagem e os discursos que se sobrepõem são o do humor branco. Produzir uma série ou filme que fuja à regra de ridicularização do negro é um desafio para todos. É por esse motivo que resisto ao julgamento puro e simples das séries como Um maluco no Pedaço, Todo mundo odeia o Chris, Black-ish, Chewing Gum e Eu, a Patroa e as crianças. Afirmo, no entanto, que não me fazem rir.


Black-ish ser uma série sobre negros (higienizados) para branco ver. É perturbadora a forma como o patriarca André vivencia o racismo o tempo todo e parte de lógicas sexistas e coloristas na interação com sua família. É deprimente como ele tenta ensinar o filho a ser preto "de verdade" ora no rap, ora numa África generalizada. Os membros dá família são todos tokens para adicionar diversão a uma platéia branca que acha que entende o que é ser negro. Que, aliás, deseja fazer cinema negro, comédia negra e tudo o mais que represente a experiência de negritude. Neste desejo de representar o outro, os reais problemas dá sociedade branca estão sempre em segundo plano, sufocados pela necessidade de recriar a negritude sob uma ótica de branquitude.

"OK, mas do que vocês riem mesmo?"
Pra nós, assim como o cinema negro e a música negra são gêneros protagonizados por negros e direcionados aos semelhantes, o humor negro é uma forma estética de denúncia e de libertação. O impacto é automático porque o humor negro evidencia fenômenos cotidianos que enfrentamos simplesmente por sermos negras. Pessoas brancas não só fazem comentários automáticos como não precisam pensar sobre eles, então pode lhes parecer que expressões exageradas e a exposição do quão ridículo é perguntar se lavo o blackpower são ofensas pessoais. Essa sensação de ofensa sentida pelos brancos é a típica negação "não sou racista não". Ademais, é necessário que compreendam que não é sobre você como individuo, mas duma crítica à construção ideológica da qual você se apropria/beneficia a cada instante.

Aph Ko é produtora e protagonista da websérie Black Feminist Blogger

O humor negro é aquele discurso antirracista, que evidencia a "micro violência", a violência epistemológica e simbólica que precisamos enfrentar diariamente. Web séries estadunidenses como The Unwritten Rules (As leis não escritas) e Black Feminist Blogger mostram situações do cotidiano de jovens mulheres negras com formação profissional e acadêmica além de consciência racial e hábitos que fogem do senso comum sobre pessoas negras.

Basicamente tudo o que a protagonista de Unwritten Rules faz, pensa e é chocam os colegas de trabalho. Em um dos episódios, ela está almoçando no escritório e é surpreendida pela chefe (sempre com expressões hilárias de surpresa). Na sequência a chefe diz: "Como assim, você não come carne? Uau, o que é isso que você está comendo? parece gostoso. Posso comer?". Cenas como essa mostram o quanto é ridículo ser quem somos, porque não se espera nada disso duma pessoa negra. Isso é bastante marcado quando somos as únicas no espaço, o que é quase sempre.

Afora isso, há o exotismo, o prazer em evidenciar o quanto somos diferentes, incompreensíveis e a necessidade de tocar o cabelo. No fim das contas, esse tipo de humor ensina sobre o quanto a branquitude é absurda e que gera diferenças gritantes em relação à negritude como construção de consciência política.

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Susie Wokoma interpretou Raquel na série original da Netflix Crazyhead

Apesar de não ser humor negro, uma série digna de nota é a original Netflix Crazyhead. Nela temos um enfoque em Raquel, uma personagem complexa, irreverente e muito espontânea. Diferente das series que assimilam o estereótipo da mulher preta engraçada, Crazyhead explora o que há de engraçado no cotidiano e, sobretudo, na hierarquia social.

Em suma, o humor negro é uma expressão artística que evidencia pela comicidade o quanto é violento e assustador o cotidiano de ser uma pessoa negra graças ao racismo. E racismo é um discurso tão absurdo e tão recorrente que as séries de humor negro funcionam como catarse e espécie de lembrança de que não estamos vendo coisas. Quanto mais as imagens nomeiam as experiências que normalmente são mantidas em segredo (seja pelo limite da linguagem, seja pela falta de pares com quem compartilhar), maior o desconforto da população branca que tem medo da igualdade. E se elas e eles tremem e se ofendem com a nossa risada, é porque a série fez as escolhas certas.

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5 comentários:

  1. As séries de humor negro nos lembram que "não estamos vendo coisas" foi a cereja do bolo, ops da matéria. Adorei e voltarei ao blog, que a propósito é fantástico, continue escrevendo!

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    1. Ei Merú! Pois é, a maioria das vezes que expressamos esses desconfortos as pessoas dizem que estamos "vendo coisas" então, acredito que é muito importante construir essa certeza coletivamente. Obrigada por comentar e até logo :*

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  2. O problema dessa leitura é cair num purismo e uniformização sobre a experiência de ser negro e não enxergar as diferenças individuais que temos mesmo estando dentro de um mesmo grupo identitário. Ou de cair na violenta delimitação de que a vivência de negros seja definida pelo racismo, e não que ele faça parte dela bem como outros elementos.

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    1. Ei Marcus! Então, a própria lógica dum blog sobre cultura pop, preta e feminista já foge da ideia de homogeneização da negritude. Entretanto, reconhecemos a importância do que Gayatri Spivak, Stuart Hall e Homi Bhabha chamam de "essencialismo estratégico"; Esse conceito, nada mais é que partir duma experiência comum do corpo social negro para propor análises e ações políticas pontuais. Apesar de sermos individualmente diferentes, precisamos todas e todos termos uma consciência histórica que enfatize inclusive o racismo diário. A vivência das pessoas negras não é definida pelo racismo, de forma alguma, afinal subjetividade é uma característica humana, mas há de convir que enfatizar a experiência histórica comum está longe de definir o que cada sujeito negro é. Segundo a Grada Kilomba, a função do povo negro neste mundo racista é se focar nas subjetividades, na humanização, o que não é oposto à compreensão de que o racismo influencia o cotidiano, a subjetividade e as escolhas.

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  3. Eu pensei que leria toda uma matéria falando sobre a definição (errada) sobre o humor negro, mas mesmo depois de ler toda a matéria ainda tenho o mesmo pensamento sobre o humor negro, o que é o humor negro?, um humor feito principalmente (mas não exclusivamente) para quebrar taboos, como por exemplo; "ei, você não pode chamar esse negro de preto, porque isto é errado", "ei você não pode chamar esse deficiente de deficiente porque é errado", isso (ao menos na minha opinião) é humor negro, um humor feito para arregalar os olhos do ouvinte e fazer ele falar "Nossa cara, não acretido que você falou isso", enfim uma boa regra do humor negro é que se alguém te ofender (como por exemplo ofender sua etnia) você possui o direito de *retribuir com a mesma moeda* esse alguém.

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