segunda-feira, 3 de abril de 2017

Capitã Marvel: Ser uma “boa” feminista não é o bastante


A maioria das pessoas talvez não saiba, mas até a década de 1980 foram criadas mais personagens negras e negros nos quadrinhos de super herói do que até bem recentemente. Após uma série de retrocessos (backlash), como transformar personagem negro em branco e queer em heterossexual, a Marvel finalmente voltou a dar importância às minorias políticas, em 2012, sob a iniciativa Nova Marvel. Claro que, com ressalvas. Nesse contexto, vamos conhecer um pouco da história da Capitã Marvel.

Quem é a Capitã?

Na década de 1980, o título do Capitão Marvel havia passado de forma aleatória para Monica Rambeau, uma mulher Negra com blackpower, pele pigmentada –  quase o oposto de Ororo Munroe – e uma voz própria que não se calava ante ao sexismo racializado de figurões como Tony Stark. Não raro, Monica é descrita pelo público como seca, sarcástica e rude, simplesmente porque ela não se cala em relação às injustiças. Sua carreira de líder dos Vingadores é ignorada pela maioria dos/das fãs de quadrinhos, além de eclipsada por diversas vezes que se viu desalojada de seu nome. Capitã Marvel, Fóton e Pulsar, cada mudança mostra que nem sua expertise, nem todos os seus poderes são o suficiente para se estabelecer como super-heroína, ao passo que muitos dentre os Vingadores são humanos comuns, ou heróis de terceira.
Reconhecida a presença de mulheres no hall de produtoras e consumidoras de quadrinhos, o ideal social encarnado pelos homens-brancos-ricos-cis-gênero foi suavizado em prol do aumento da presença de mulheres, pessoas negras (em geral, homens) e LGBTQ+. Este afã de criar um título feminista trouxe Carol Danvers – uma personagem bem antiga, aliás – a primeiro plano aleatoriamente como Capitã Marvel. Sim, eu sei que ela tem sangue Kree, mas a insistência do Capitão América/Steve Rogers mostra que “Capitão Marvel”, não é um nome, mas um manto que ela deve assumir. Ele disse:

“O negócio é o seguinte, você foi líder dos Vingadores. Já salvou o mundo. Chega de ser coadjuvante. Assuma o manto” (Capitão América in Capitã Marvel #1, 2012, p.10)

Será que ele não disse isso à pessoa errada?
Captain Marvel (2012) 1 Page 9 Capitã Marvel
Capitã Marvel (2012) #1 Página 9 (Roteiro: Kelly Sue DeConnick/ Arte: Dexter Soy, Emma Rios, Rich Elson. Karl Kesel, Al Barrionuevo/ Arte Final: Mario Lopes com Emma Rios/ Cores: Jordie Bellaire, Wil Quintana & JavierR Rodriguez)
Apesar de Steve Rogers ter sido um grande amigo de Monica Rambeau  na época em que ela fazia parte da formação principal, existe uma visível identificação entre Mar-vell, Carol Danvers e Steve Rogers que nada mais é que o pertencimento racial. Sim, sabemos que Mar-vell não era humano, mas a forma que ele assumiu na Terra era de um ideal de sujeito branco e, assim como Steve, serviu como vetor ideológico que reforça o imaginário social do indivíduo forte, correto e justo. Num primeiro olhar, a grande questão é que cada hífen  da expressão “homens-brancos-ricos-cis-gêneros” representa uma fronteira, ou seja, o limite que define se você é mais ou menos considerada humana.
Mar-Vell
Ser considerada humana define a dinâmica de socialização, isto é,  se vão tentar lhe agredir ou matar pelo o que você é ou se lhe chamarão pelo nome, com delicadeza. Neste sentido, não nos referimos a indivíduos específicos, mas à espinha dorsal de nossa sociedade, o racismo. E de como os indivíduos, investidos de poder social, se apropriam das vantagens que o racismo lhe concede – inclusive o de não ter que pensar sobre raça (falamos de raça no sentido social, não biológico!).
É uma vitória quando uma das identidades que nos constitui conquista direitos, mas nós não podemos esquecer que os sujeitos mais beneficiados com os avanços são aqueles mais próximos das áreas interiores, mais longe das fronteiras. Como o racismo estrutura a cultura ocidental, não é exagero dizer que na maioria das vezes que há exaltação do feminismo nos quadrinhos, quem protagoniza é uma mulher branca que representa interesses do feminismo branco. Essa é a Capitã Marvel Carol Danvers.

O Real Problema

Carol Danvers é uma heroína loira que encarna valores positivos de liderança, força, inteligência, autonomia e excepcionalidade. Obviamente existem pessoas assim no mundo, mas a quantidade dessas representações é desproporcional à quantidade de heroínas racializadas representadas de forma positiva, sejam latinas, nativo-americanas, negras ou asiáticas. Apesar disso, muitas feministas podem discordar dizendo que “Carol Danvers em si é o produto, assim como não é ela quem escolhe suas roupas, ela também não escolhe suas atitudes”. Será?
Muitas vezes, para nos sentirmos identificadas, nós fechamos os olhos para aspectos negativos de personagens que amamos. Essa “negociação” é o cotidiano de qualquer pessoa nerd que pertence a minorias sociais. Compreendo perfeitamente esse fenômeno, mas é preciso admitir que a imagem de Carol funciona como um aparato cultural supremacista, uma espécie de contraparte dum Steve Rogers. É preciso reconhecer que isso é um problema, o que mostra o quão importante é o Feminismo Interseccional, isto é, um feminismo que abarque também as reivindicações de indivíduos que habitam as fronteiras nas áreas de convergência das “diferenças”.
Carol Danvers pertence a um corpo social privilegiado e, portanto, não é impelida socialmente a pensar nas desigualdades raciais, apenas de gênero. Sua melhor amiga é latina, mas isso não acrescenta discussões políticas à revista. Em vez disso, as atitudes de Carol invisibilizam, silenciam e hostilizam Monica Rambeau em vários momentos, como em Capitã Marvel #7 (2012). Muita gente pode não ter percebido, mas a interação de Carol com Monica é atravessada de silêncios que localizam a atual Capitã como feminista branca. Ela não percebe que ela se apropriou do manto de Mar-vell que foi expropriado de Monica.
Em vez de um simples pensamento histórico, que poderia revelar que essa desapropriação do nome metaforiza a trajetória de negros no ocidente, Carol Danvers replica que o título nem de Monica era. Essa negação e indiferença em relação à Monica se estende a total ausência de vontade de tornar-se aliada. E sim, porque o desconforto de Carol é latente, e tem tudo a ver com a inversão discursiva que pessoas brancas acríticas usam: você está sendo racista, ao contrário. O mítico racismo reverso.
Captain Marvel (2012) 7 Page 8 Capitã Marvel
Capitã Marvel (2012) #7 página 8
É desconcertante como se constrói uma oposição discursiva de carisma e delicadeza entre Carol (positiva) e Monica (negativa). É mais desagradável ainda que. apesar da inclusão duma pauta feminista, prevalece nos quadrinhos da Capitã Marvel a lógica colonial que hierarquiza grupos sociais por raça/cor e, assim, a Marvel continua valorizando a branquitude, mas agora personificada pela feminilidade branca.

Nós podemos fazer isso?

O grande mote dessa nova Carol Danvers é “Nós podemos fazer isso” (we can do it), mas “nós quem, cara pálida?”
Carol não apenas é uma “boa feminista” em suas práticas, como conquistou o lugar de protagonista feminina mais importante na atual fase da Marvel. A maioria das garotas que conheço que leem quadrinhos se sente representada pela Carol Danvers, como se fossem parte da Carol Corps. Assim como elas, acho que os roteiros da Kelly Sue são muito divertidos e acho a relação da Carol com a Kit (uma menininha loira que mora no mesmo prédio e é fã da Capitã) e mesmo com a Kamala Khan (Nova Ms. Marvel) discute muito bem a questão de representatividade para garotas. Por outro lado, em diversos momentos daquela primeira fase,  2012, encontramos uma ode à supremacia racial.
kelly sue deconnick carol corps Capitã Marvel
Kelly Sue DeConnick e um grupo de fãs que se intitula Carol Corps
Alguém tem uma explicação para Carol Danvers ser Coronel da Tropa Alfa? Ela é um Gênio científico ou tático? É a Criatividade? É a Força e poder além da conta? É por Voar no espaço? No mix publicado pela Panini, Avante, Vingadores! mais da metade das histórias é protagonizada pela Coronel Capitã Marvel Carol Danvers – a aposta feminista da Marvel – e isso parece um avanço incrível, não é?
Na atual fase publicada no Brasil (antes da Guerra Civil 2) ela tem sido representada de forma mais fria e externa. Diferente dos roteiros subjetivos de Kelly Sue DeConnick, a Capitã Marvel roteirizada por Michele Fazenkas e Tara Butters é uma personagem plana, previsível e sem profundidade. Algumas pessoas podem argumentar que ela está numa fase muito militarizada e que isso define sua frieza. Curiosamente, há uma rivalidade entre ela e Abigail Brand, a comandante da Tropa Alfa que é representada como perseguição de Abigail contra Carol.
Assim como essa Carol é retratada como uma pessoa sempre hostilizada, ela trata a equipe multi-cultural com muita indiferença e condescendência. Embora seja louvável sua vontade de agir de forma correta e se sacrificar, sua presença na Tropa Alfa é apenas uma posição, um cargo ocupado por alguém que enxerga apenas o que lhe convém, sob filtros humanistas do tipo “somos todas iguais”. Neste caso, o mérito da parceria de Kelly Thompson e de G. Willow Wilson é a capacidade de construir personagens fora do padrão com voz própria e distantes dos estereótipos, mas sempre em posição secundária em relação à Carol.
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Os Supremos (2015 ) – Roteiro: Al Ewing/ Arte: Kenneth Rocafort/ Cores: Dan Brown
Outra coisa que nos faz pensar é em como “O retrato da mulher moderna” que Carol representa se contrapõe a todos os personagens da equipe Os Supremos (The Ultimates). Ela é a única pessoa branca da equipe e, ao mesmo tempo, a pessoa que se sente mais confortável para autoproclamar-se apta, líder, piloto. Pensando que a equipe está repleta de personagens inteligentíssimos, poderosíssimos e deveras experientes e maduros o suficiente para saber lidar com as próprias fraquezas, e com senso de comunidade, por que ela insiste em liderar? Parece uma performance de branquitude. Uma performance de poder.
The Ultimates (2016) 3 Page 11 Capitã Marvel
Os Supremos #3, p. 11 (2016 ) – Roteiro: Al Ewing/ Arte: Kenneth Rocafort/ Cores: Dan Brown
Pode parecer que “Fazer o que pode” (we can do it) é levado ao pé da letra por Carol. Junto a isso, há um sutil comentário retórico de que o affair entre ela e Jim Rhodes (que tem efeito na Guerra Civil 2) faz dela uma progressista, senão um ser livre do racismo.
Muitas de vocês podem falsear o que eu afirmei a partir da informação de que, nos EUA, casamentos inter-raciais eram proibidos até bem recentemente, o que faz dessas relações ainda um tabu. Isso, no entanto, não minimiza a total abstenção dela em relação à desigualdade histórica entre negros e brancos. Sua falta de disposição para rever seus privilégios e, sobretudo, a indisposição ao exercício de sororidade em relação a Monica revelam tanto uma continuidade das feministas que apoiavam direitos civis para homens negros (não para mulheres negras), quanto dá indícios de uma relação colonialista de exotização para com o corpo de homens negros.
Sendo assim, a emancipação feminina representada por Carol Danvers soa muito mais como uma ode a um feminismo branco do que  como um projeto político que envolva a liberdade para todas. E esse “feminismo bom, justo e leal” humanista (“que não separa por cor”) nada mais é que uma estratégia de manutenção da hierarquia racial. Por essas e mais outras que precisamos de um feminismo interseccional, que não deixe ninguém de fora, que seja crítico e sempre aberto ao diálogo. Nesse sentido, o feminismo representado por Carol não é bom o bastante.

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