[Resenha] O Ódio Que Você Semeia – Angie Thomas


(Esse Texto Não Contem Spoiler)

O assassinato de Oscar Grant, jovem negro de 22 anos, em 2009, foi o que motivou a autora Angie Thomas a fazer seu livro de estreia, O Ódio que Você Semeia. Desde então, diversos outros negros e negras acabaram assassinados pela policia. Michael Brown, Eric Garner, Kendric McDade, John Crawford, Freddie Gray, Kimani Gray, Jonathan Farrell e muitos outros. Essas mortes renderam movimentos como #BlackLivesMatter e esse é o grande mote do livro de Angie Thomas: Vidas Negras Importam.

Pode parecer algo simples, o livro aborda uma situação que, infelizmente, se tornou cotidiana mundialmente. No Brasil, a cada 23 minutos, um jovem negro é morto. Porém, não é apenas na morte de Khalil pelas mãos de um policial, ou pelos atos de protestos que seguem o acontecimento, que temos Black Lives Matter representado. A pura existência de Starr e todos que a rodeiam remete a isso.


Eu fui uma jovem leitora que consumiu muitos livros adolescentes ou young adults [infanto-juvenil], como são chamados atualmente. Meg Cabot não podia lançar algo que eu já estava cheia de vontade de devorar a obra em uma tarde de fim de semana. E essas leituras foram o que me motivaram a querer escrever o mesmo estilo, porém me motivaram a fazer algo totalmente diferente. Pois a literatura que eu consumia era massivamente branca, e eu nunca me via representada dentro daqueles livros.

Ao me deparar com Starr, eu fui pega desprevenida. Ali estava uma personagem igual a mim, com meus traços e que vivia exatamente os dilemas que eu vivi quando adolescente e no inicio da minha vida como adulto.

Eu nunca vi ninguém morrer diante dos meus olhos, mas eu lembro do meu pai, um militar negro, indo tirar um colega de sala do camburão da polícia porque ele havia sido pego pichando durante os jogos de interclasse. De ouvir os meninos falar sobre os sinais de gangue e das brigas que aconteceram no final de semana, no meio da aula da sétima série. Lembro de como meus pais precisaram ralar pra eu estudar o ensino médio em uma escola boa e, por consequência, cheia de gente branca.

Passei maior parte da minha adolescência com pessoas cujo poder aquisitivo era muito superior ao meu e, sendo uma das únicas, senão a única, pessoa negra do grupo. Ainda que meus pais tivessem uma educação afrocentrada, como os pais da Starr tinham, acabava me vendo nas exatas mesmas situações em que a Starr, de ter uma vida quase que dupla, de ser duas pessoas.

Angie Thomas, autora de O Ódio Que Você Semeia

E isso foi o que mais me marcou: um livro mostrar a vivência que negros tem, a nossa realidade de forma honesta. O bom e o ruim, os medos, inseguranças e como aprendemos a ser… Eu não quero dizer forte, porque odeio esse estereótipo, do negro forte e resiliente, mas a compreensão de como essas identidades nos formam e são parte de nós.

Acredito que seja essa a jornada de Starr, de encontrar a sua voz, de como ser uma mulher Negra em uma sociedade racista, na qual um jovem desarmado é morto e todos, policia, mídia e sociedade, estão mais interessados em justificar a morte e criar desculpas para o culpado do que de fato fazer a justiça.

É obvio que esse é um livro extremamente diverso e complexo em seus temas. O titulo original, The Hate U Give, é uma referencia do rapper Tupacm que redefiniu o significado de THUG LIFE (The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody) ou “O Ódio Que Você Passa Para Criancinhas Fode Todo Mundo”, e, apenas isso, já abre muitas conversas.

Pensando nisso, amanhã (17/08) faremos um live falando sobre o livro às 20:30 e, além disso, temos o nosso projeto rolando no #PretaRead até o final do mês nesse link.

Você pode adquirir O Ódio que você semeia aqui.

*O livro O ódio que você semeia
foi uma cortesia da Galera Records,
selo juvenil da Editora Record.

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