Defensores: raça, gênero e poder (muito poder!)

Demolidor (Charlie Cox), Jessica Jones (Krysten Ritter), Luke Cage (Mike Coater) e Danny boy Rand (Finn Jones)

Spoiler!

A novíssima série da Netflix, Os Defensores, já nasceu com a exigência de agradar a gregos e a troianos. Apesar de não sermos nenhuma das opções acima, eu particularmente, hei de convir que a série superou as minhas expectativas de quem mal terminou Demolidor, não vibrou com com o Shane Justiceiro e que terminou Punho de Ferro aos trancos e barrancos. Minha opinião mais impopular, no entanto, é a de que há problemas seríssimos no discurso de quem preferiu Demolidor à Jessica Jones. Além disso, não concordo com maneira de ser didática sobre racismo ao mostrar Jessica sacrificando o próprio amigo prum "bem maior". E, veja, consigo curtir Jessica sem sustentar a ideia de que "a heroína é assim mesmo, porque não se importa com ninguém". E sim, reconheço que Luke Cage acertou em inúmeros aspectos, desde a caracterização de Misty Knight, Boca-de-Algodão e Mariah, mas que se perdeu narrativamente pra agradar aos mocinhos que só querem ver uma "boa" briga de rua. Felizmente, Os Defensores foi muito potente no modo como encaixou (e desenvolveu) tantos backgrounds em apenas 8 episódios.


O MELHOR DE CADA UNIVERSO


Neste sentido, gregos e troianos são fãs do universo de Jessica Jones e de Luke Cage, bem como da marcante estética do universo do Demolidor. Inclusive, podemos enfatizar o quanto a experimentação estética da parceria entre Marvel e Netflix teve seu ápice na série de Matt Murdock porque enquadramentos incomuns para televisão, planos, cores, sons e tudo o mais, contribui para uma experiência realmente sinestésica (isto é, que exige do público todos os sentidos para a apreciação). Por ser uma produção mais acessível que o cinema, é interessante como a experimentação e a construção de cada conceito em volta dos personagens acaba se tornando uma proposta de educação visual, o que indica o quanto uma série de super-heróis pode ser muito mais que pasteurização, e, ainda assim, não ser apenas para os "já iniciados", seja dos quadrinhos ou do "cinema arte".

O universo de Punho de Ferro é repleto de inconsistências (fundo verde, lutas pouco convincentes...) e um protagonista nada atrativo. E não é apenas sobre ele ser branco, "porque nos quadrinhos ele é assim", mas pela ênfase na naturalização de privilégios. Isso não significa que Luke Cage representa a experiência negra universal (que não existe!), mas que supera a crítica dos quadrinhos em termos de interseccionalidade. A presença de Claire e de Misty, duas mulheres Negras complexas e com voz própria, propicia uma discussão inclusive gráfica sobre fenótipos, identidades e negociações. Somada a elas, há a expressividade de Jéssica Jones e um certo cachecol emprestado contra a sua vontade!

O "MORDE-ASSOPRA" A SUPREMACIA


Nos primeiros instantes do episódio 1, já temos uma avalanche de comportamentos de Danny Rand que tornaram o rapaz tema de maravilhosos twitts como:

Eu amei os quatro Defensores: Demolidor, Jéssica Jones, Luke Cage e Claire Temple.




Sem dúvidas, por mais que a narrativa tenha priorizado a jornada do rapaz e, até mesmo os seus vilões, houve uma sutil inversão de valores tradicionais, até certo ponto, interessante. Nenhuma das personagens femininas principais são donzelas em perigo aguardando um herói para resgatar sua integridade, mas o bilionário se tornou um donzelo em perigo que demandou uma força-tarefa de resgate, composta, aliás, por tantas mulheres poderosas (Jéssica, Claire, Colleen, Misty) inclusive, a maioria delas é racializada.

Se por um lado é magnífico assistir às personagens femininas assumindo a posição heróica, precisamos refletir sobre o modo como essas badass são construídas em termos interseccionalidade. 

As expressões de Jessica Jones e de Luke Cage dão clima a muitas cenas

Jéssica Jones é uma clara libertação da feminilidade dócil imposta às mulheres brancas, tanto porque ela não precisa de resgate, quanto pela postura que infringe muitos dos códigos de comportamento tradicionais (vocabulário, ética, postura...). É evidente que ela transita nos espaços e situações, como a entrevista com o arquiteto indica, e, vez ou outra, o contexto reforça o quanto a elasticidade dos privilégios está a seu favor. Apesar deste privilégio permitir à Jessica usar a seu favor a capacidade de performar "delicadeza", a câmera passa pelo seu corpo de baixo pra cima algumas vezes e dum jeito bem diferente dos demais defensores, ainda que ele não esteja tão à mostra - eis a marca da diferença de gênero e as devidas concessões pra gregos e troianos. Realmente, o fato dela ser muito forte, independente e desinteressada com a estética é um grande avanço para os estereótipos que moldam o gênero feminino. Exceto se você for racializada. 

Claire Temple (Rosario Dawson) é a verdadeira coesão entre os universos de cada membro da equipe

Além da investigadora, várias mulheres participaram ativamente da ação. Se tomarmos o universo de Demolidor, podemos notar que a evidente tensão discursiva entre as personagens racializadas (Claire, Elektra) e a branca (Karen) que se relacionaram sexual-afetivamente com Murdock, tem um desenvolvimento menos progressista. Enquanto a Jessica Karen (Deborah Ann Woll) é mantida em segurança, Elektra Natchios (Elodie Yung) é a vilã, perigosa e "desejável" numa ótica completamente exotizante (temos acesso restrito à profundidade de suas emoções) o que torna seu poder uma representação do estereótipo da Dragon Lady, a asiática misteriosa que luta e não se constrange em usar a sexualidade como arma (usualmente designado ao leste, mas não restrito a ele). 

Claire Temple, embora negra, tem uma postura de combate menos dura que a policial Misty Knight - evidentemente em decorrência da profissão, mas tocando o imaginário social de que mulheres Pretas são mais fortes, duras, resistentes e independentes. Segundo Clara Mae (2016):

Esses dois tipos de personagens [Asiáticas e Pretas] dificilmente tem seus próprios arcos de romances bem-sucedidos, porque, muitas vezes, elas estão ocupadas chutando bundas, tomando nomes, e/ou sendo estritamente platônicas ajudantes do protagonista branco (MAE via Women Write About Comics). 

Sem dúvidas que as personagens brancas também estão enquadradas em estereótipos, mas Jéssica, Alexandra Reid (Sigourney Weaver) e Jari Hogarth (Carrie-Anne Moss) podem ser vistas como contrapontos do que há de mais idealizado sobre elas em termos de raça e gênero (embora Hogarth tenha um quê de "lésbica malvada"). Mas já em termos de diversidade racial, todas as personagens são guerreiras (Misty, Claire, Colleen e até a Sra. Gao!) e, mesmo quando o romance tende a dar certo, a ênfase está no ideal de amor encarnado por Matt e Karen.

Qual o ship enfatizado depois de Matt ter se relacionado com Claire, Karen e Elektra? O que isso significa?

Além disso, Collen Wing (Jessica Henwick) passou toda a temporada servido de apoio (ou muleta) moral para Danny Rand, até mesmo quando dispensada desta "função" de escudeira fiel. Enquanto todo mundo tentava fazer com que Danny enxergasse a realidade de uma forma mais objetiva, ela mantinha o "reforço positivo" nos momentos de maior demonstração de imaturidade. Essa substituição afetiva de Bakuto (Ramon Rodriguez) por Danny indica o quanto a subjetividade da ninja é frágil e radicalmente dependente - mesmo que o final da série tente mostrar o contrário. Posso também enfatizar que, além de me irritar bastante com a representação desta personagem estritamente vinculada ao Danny, ela me promoveu um dos melhores momentos: o encontro com a Misty Knight, uma espécie de prévia das Heroínas de Aluguel.

E por falar em Misty, a cena em que ela é atingida no braço é uma das mais proeminentes no que se refere à presença dela na série. Embora nos quadrinhos o braço biônico confeccionado por Tony Stark (Homem de Ferro), junto ao cabelo natural, sejam características marcantes, naquele contexto em que todos lutavam para salvar o Punho de Ferro, é um tanto frustrante que ela não seja protegida, mais uma vez (em Luke Cage ela foi violentada duas vezes), quando precisa. Parece uma punição sibólica, que seu modo de enfrentar as normas, tanto a afaste duma relação afetiva, quanto descreva esse trauma sem focar tanto em suas emoções. É como se o contexto indicasse - do modo errado - que ela não é uma vítima.

Misty e Colleen são melhores amigas nos quadrinhos. Essa aliança, visualmente, já rompe com os paradigmas de mostrar negros e amarelos como inimigos.

Essa repetição da imagem de Misty Knight como fortaleza independente ajuda a naturalizar os estereótipos, quanto continua mostrando a primeira heroína Negra no contexto super-heroico. Assim, tanto progride por mostrar personagens femininas racializadas fortes, importantes e decisivas, como reforça ideias racializantes. Eu arriscaria dizer que a cereja do bolo é a decapitação do "nigeriano traficante de armas" Sowande (Babs Olusanmokun), que enfatiza o quanto os corpos negros estão mais sujeitos ao flagelo e à ideia de descartabilidade que outras raças (vide os contextos das mortes dos demais líderes do Tentáculo).

Essa tensão entre feminilidade e raça, em Os Defensores, é um verdadeiro morde-assopra, pra gregos e troianos se divertirem, mas, como não somos nenhuma das duas perspectivas, isso tudo foi bastante previsível e desagradável. O verdadeiro avanço se deu no núcleo dos futuros Heróis de Aluguel: Luke Cage e Punho de Ferro.

"ESCUTA AQUI"


SOBRE PODER GENUÍNO



Apesar de toda a inconsistência que assolou a série do Punho de Ferro, o que mais me incomodou foi a superficialidade da discussão sobre embranquecimento, estereótipos asiáticos e a ênfase acrítica na superioridade moral, social, estética, financeira e técnica que o herdeiro bilionário representava em face de personagens marrons e amarelos. Sem grandes dificuldades, ele venceu um lutador que pratica um estilo de luta antiquíssimo, e não apenas ele, como todo e qualquer asiático, além de surgir no dojo alheio impondo suas regras; em quase nenhum momento houve contexto para ele refletir sobre sua postura impulsiva e ridiculamente imatura, o que foi construindo uma ideia de que ele foi escolhido por ser mais apto, afinal, derrotou o dragão. Curiosa e nada nova esta história do forasteiro que é melhor em tudo que qualquer autóctone, cuja legitimidade é reduzida a sentimentos "pouco dignos" como a inveja, certo?

Uma ambivalente discussão sobre poder entre Luke Cage e Punho de Ferro desmantelou o mosaico supremacista em que o time dos heróis - majoritariamente homens e brancos - estão acima dos vilões, quase totalmente racializados. Os Defensores são uma equipe de heróis urbanos, que precisam lidar com questões concretas - diferente dos Vingadores - e, portanto, racismo, dependência química, violência policial e concentração de renda são pautas essenciais para tornar a narrativa relevante. Infelizmente, nos oito episódios não pudemos ver além dos indícios da atual vida do vizinho de Jessica Jones, Malcolm Ducasse (Eka Darville), mas a questão de Danny Rand ser confrontado por sua infinidade de privilégios foi bastante produtiva.

Quando ele decidiu focar o individuo em sua luta contra a instância crime, porque "é um gerreiro, não um empresário" (segundo a Colleen) foi levado por Cage a pensar sobre lugar de fala e sua contribuição para as desigualdades, afinal, ser bom ou "sentir muito", não resolve questões que estruturam a sociedade. Neste sentido, quando ele diz que "o dinheiro não o define", ele só quer fugir mais uma vez da responsabilidade e enfatizar a narrativa de prestígio do forasteiro (branco) que foi escolhido. Certamente, crer em destino, e poder mágico imputado, no caso de Dany Rand, é ignorar o fato de suas "faculdades místicas", tanto quanto sua herança, serem bens que influenciam a realidade social de formas complementares que não devem ser usadas pra esmagar



Enquanto Luke tem super-poderes porque foi abusivamente submetido a testes científicos (tudo porque a estrutura racista o levou à prisão de Seagate), o poder místico de Danny enfatiza que "sua vida importa" e, não apenas isso, está completamente nos moldes. A fala de Luke traz ao centro a verdadeira questão quando nós falamos de super-heróis aqui no Preta, Nerd & Burning Hell: o poder é quem você é ou o que você faz? Bem, depende: se você for o "Karatê Kid" ou a "Joan Jett"  ou se você precisa ser à prova de balas (e decepações).

Noutras palavras: Os Defensores tem muito poder devido às faculdades sobre-humanas, mas sua inserção numa trama urbana tão complexa quanto a que foi apresentada desde Demolidor a Punho de Ferro, proporciona profundidade o suficiente para discutirmos temas como lugar social, estruturas de poder, racismo, branquitude, feminismos e tudo o mais que compõe nossos parâmetros de Feministas Pretas Nerds. Sem dúvidas, interpelar o significado de poder, sem explorar a naturalização e "o individuo em si" foi uma excelente abordagem para tratar dum tema tão delicado e complexo quanto a relação entre grupos minorizados e conflito com a lei. 


Apesar de termos uma série com uma presença feminina notável e um leve esforço para romper estereótipos de gênero, a falta duma percepção interseccional mais progressista me fez focar nas diversas cenas de cooperação, empoderamento e empatia entre as heroínas racializadas, em especial, Misty e Colleen. Talvez, mais do que super-poderes, cada frase de incentivo de Colleen e de Misty para Claire, reconhecendo que ela é uma verdadeira heroína, trouxe ao centro outro tipo de poder (examente o que faltou à Mulher Maravilha) que desafia a lógica encarnada por um Danny Boy: a potência da empatia, não apenas defender, como também empoderar mulheres racializadas umas às outras. Assim, mais do que super-poderes, o que está em jogo daqui por diante, é o ato ou efeito de empoderar!




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