terça-feira, 18 de outubro de 2016

LUKE CAGE é nosso herói negro?

Mike Colter, o Poderoso Luke Cage

"Look, Luke!"

(Lorelai Gilmore em "Gilomore Girls")


INTRODUÇÃO



Começo com uma pergunta: Luke Cage é o herói de que precisamos? Antes de responder à questão é importante lembrar que a Netflix é uma das poucas empresas que produzem/distribuem produtos de massa ao mesmo tempo nas metrópoles e nas colônias. Essa concessão* possibilita uma leitura no timing do contexto que o produziu: os Estados Unidos estão em meio à visibilidade da violência policial contra a população negra através do movimento #blacklivesmatter, e a uma eleição presidencial absurda em que o candidato mais fascistóide diz que "negros o amam" e a menos fascistóide diz que "não, negros a amam". E o povo negro se pergunta: "o que está acontecendo?". Lembremos que a menos fascistóide morre de medo quando encontra homens negros de capuz, sabe?. Enquanto vários homens são assassinados por serem negros - e não apenas nos EUA - nada mais irônico que um homem, negro, encapuzado à prova de balas, isto é, resistente à morte!

A combinação desse contexto com a atualização dum personagem como Luke Cage, desenvolvida por um showrunner negro (Cheo Hodari Coker), abre frestas de discussão sobre racismo, terror racial e democracia da abolição no terreno mainstream de forma empolgante, sensível e direcionada à audiência negra.

O QUE SURPREENDEU
Quando enfatizo que pessoas negras são o público-alvo da série, quero dizer que um universo "negro" como o Harlem poderia reforçar a guetização como a que vivenciamos ao procurar produtos no mercado: de cara, nos depararmos com embalagens de cor marrom/bege/mostarda e o rótulo reiterando: ebony**. Apesar da abertura (bela, porém) estilo "ebony" em Marvel: Luke Cage a ênfase recai numa visão de mundo que desnaturaliza estereótipos em duas frentes: tanto da narrativa em si, quanto nos diálogos.
Após Luke Cage feat. Jessica Jones e de tantas prévias de sua própria série, meu receio era o de que aspectos problemáticos (sexismo. objetificação. "sabor exótico". estereótipos "urbanos") do conceito dos quadrinhos fossem mantidos como assunto qualquer salpicados numa série de ação. Eu temia que Luke Cage fosse uma espécie de personagem do Spike Lee ou um Django: Livre; noutras palavras, que a conscientização racial se desse às custas de outras discussões importantes como a interseccionalidade de raça/ gênero/classe. Apesar de a série bambear em relação às misoginias mulheridades, foi satisfatório em grande medida. No Podcast do Black Girl Nerds (inglês), Coker afirmou que seu intuito, ao produzir a série, foi possibilitar às garotas negras nerds se identificarem - coisa que raramente acontece -, não por conta dum "fan service", mas porque somos pessoas tão complexas e distintas quanto as demais.


Em Cuba, claro.rs.


O "SISTEMA" COMO PERSONAGEM

Quando o personagem foi criado, em 1973, a luta por Direitos Civis estava em alta, assim como a música Disco, os filmes Blacksploitation, assim, a sua presença nos quadrinhos hegemônicos era uma tentativa de inspirar um pensamento antirracista. Quarenta e três anos depois, a estética mudou bastante, mas as desigualdades geradas pelo sistema capitalista, continuam elencando as vidas "que valem" e, portanto, as relações sociais, burocráticas e econômicas. Segundo a filósofa Angela Davis, o sistema prisional estadunidense, nada mais é que a atualização do regime de escravidão. Desde a abolição, a população negra tem sido alvo de políticas que GERAM/ MANTEM/CRIMINALIZAM a pobreza, e se beneficia de mecanismos para manter os homens negros privados de liberdade independente de escolhas individuais. Segundo Chaves:

No período imediatamente posterior à abolição, novas instituições foram criadas para incorporar as(os) negras(os) dentro da ordem social, através do aparato jurídico e do controle dos corpos pelo poder do Estado. A democracia da abolição, expressão utilizada por Du Bois, não poderá ser alcançada pelo segmento negro da população, enquanto esse não dispor de meios econômicos para sua subsistência. A naturalização da criminalidade da população negra esconde o racismo impregnado nas relações sociais e nas instituições políticas, o qual funciona como impeditivo da sua mobilidade social. O sistema penal, tanto brasileiro quanto norte-americano, tem por intuito controlar indivíduos considerados “indesejáveis”, ao mesmo tempo que garante a manutenção das assimetrias raciais (CHAVES via BLOGUEIRAS NEGRAS).

Cientes dessas assimetrias, em vez de "Luke Cage é o herói de que precisamos? " devemos perguntar de outra forma: Luke Cage é um dos tipos de heróis de que precisamos? Nesse caso, sim. No Universo Marvel, dois dos expoentes negros heroicos são o Pantera Negra e Luke Cage. Enquanto o primeiro é um personagem africano, nobre e poderoso que representa uma trajetória de exceção com que a maioria de nós QUER se identificar, Luke Cage é um guerreiro do "novo mundo" que luta contra o racismo e a desigualdade social, tal como nós VIVEMOS todos os dias. O primeiro é uma utopia e o segundo um desvendamento do "aqui-agora". Ambos são importantes porque mostram a diversidade que nossa identidade comporta e como classe, tempo e cultura determinam o modo como nos tornamos pessoas negras (levando em conta o aspecto identitário que é ter a consciência negra). Essa diversidade quebra tanto o essencialismo que o termo "negro" pode representar nas sociedades pós-coloniais, quanto a ideia duma cultura pop negra abarrotada de patriarcas de clãs cômicos.

O fato de Cage estar exposto às desigualdades como todas nós, por um lado, cria uma identificação, e, por outro, expõe as engrenagens dum sistema invisível e suas consequências para a população negra. O modo como Cheo Hodari Coker optou por descrever a experiência de cárcere do Luke Cage, bem como sua impotência em relação ao assassinato de Pop e ao abuso dos policiais contra o adolescente, é uma forma de intervenção crítica porque desnuda o fato de que a conquista dos direitos civis, até hoje, não significa cidadania plena. Não há perda de tempo contrastando centro/periferia na série, mas ênfase no resultado dessa relação. Certamente a concentração de renda dum Tony Stark é um dos condicionantes da violência no Harlem, mas focar nessa interação não é necessário para compreender que ela existe. Desse modo, a presença de personagens negros vilões não reforça estereótipos, apenas evidencia modos de vivenciar a desigualdade. Para o "Boca-de-Algodão" a riqueza era entendida como sobrevivência, conquista de autonomia além duma tentativa falida de se "empoderar". Não está em jogo na minha leitura julgar a sua motivação, mas compreender que "independente do que faça, ser negro leva à injustiças, senão à cadeia" (Episódio 7), portanto, a inocência de Luke, na prática, não o diferencia de Cornell.

Um herói que é deslocado do plano dos privilégios (como os Vingadores principais) para a vida "real" alerta sobre a "cidadania de segunda classe" e questiona o seu cerne. O armamento "Hammer" que migra do submundo, para a legalidade através da manipulação política e midiática de Miriah, marca a complexidade que o antagonismo entre os vilões da "primeira fase" representam. O proprietário da fábrica de armamento não aparece na trama, mas o objeto em si é usado no intuito de destruir um individuo negro. Ora, por que essa tentativa exterminação bem como a política contra o terror protagonizada por Mariah não soa como "os negros matam a si mesmos"? Há um sujeito oculto que se beneficia muito mais dum Harlem sem Cage, que a própria Mariah. Essa "luta contra o terror" é representada de forma crítica com um comentário político "a lá" Noam Chomsky de que "Terrorista é o Estado" que tem poder de investir contra indivíduos e populações inteiras.

Esse "sistema" também estava ausente quando o corpo do herói foi submetido às mais diversas violências e, até mesmo, uma intervenção científica sob a tutela do Estado (consegue ver um rastro colonial?). Ainda assim, depois de salvar o dia, a burocracia o conduz à Geórgia (de onde escapou). Assim, Cornell e Mariah não representam mais que a agência mínima do individuo que nasceu em desvantagem. "Ora, mas o crime não é o único caminho!", não, não é. Mas dificilmente quem está em condições ideais, com perspectiva, autoestima e acessos se sentirá pressionado/a a seguir este caminho, não é?

Muita gente pode ter visto a crítica à brutalidade policial como uma suavização, porém, me parece que a representação da violência policial é aterradora, exatamente pela sutileza como é descrita. Não foi necessário apelar em demasia ao gráfico para compreender que o aparato jurídico não beneficia a população oprimida, nem mesmo quando se está dentro. Essa questão é focada na ansiedade de Misty Knight e em diálogos em que ela explicita o poder do medo da candidata "menos fascistóide": "Ele é um homem negro perseguido por policiais" (Episodio 12), vão atirar primeiro pra não ter o que perguntar depois. Nesse ponto, a retórica narrativa e dialógica se encontram no ápice dos acontecimentos e - surpreendentemente - me satisfazem. Evidente que a série não poderia escapar dum comentário político, já que esse é o conceito do protagonista, mas a forma como foi costurada à estética e à narrativa proporcionou uma diversão afinada com a agenda política.


CONCLUSÃO: Um homem contra o sistema

Luke Cage é um dos heróis de que precisamos ver na grande mídia, para desfazer aquela imagem de personagens negros cômicos, fracos e sem agenciamento. Sua luta contra a complexidade do mundo capitalista/racista faz com que sua posicionalidade desafie a hierarquia social duma economia que deseja vê-lo morto. Ele nos alerta sobre injustiças, inspira à luta e prova que ideias são à prova de morte. O grande mérito de Marvel: Luke Cage é a sensibilidade diaspória que norteia a narrativa: um olhar comprometido com a descolonização das mentes, evitando maniqueísmos simplistas e abrindo espaço para outras interpretações da realidade social.



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NÃO PERCA!


Notas


*que não significa ser contada como audiência "relevante".

** A palavra sempre me parece acompanha de uma invisível "only", porque duvido que pessoas brancas, compram produtos para "negros". As demais linhas são direcionadas a elas.



Textos Consultados

BETTS, Tara. THE LUKE CAGE SYLLABUS: A BREAKDOWN OF ALL THE BLACK LITERATURE FEATURED IN NETFLIX’S LUKE CAGE. Disponível em: <blacknerdproblems.com/the-luke-cage-syllabus-a-breakdown-of-all-the-black-literature-featured-in-netflixs-luke-cage/>. Acesso em 17 out. 2016.

CARDIM, Thiago.CODE OF THE STREETSA música como personagem de Luke CageDisponível em:<judao.com.br/musica-como-personagem-de-luke-cage/>..Acesso em 10 out. 2016.

CHAVES, Marjorie. NO RASTRO DA PANTERA: A DEMOCRACIA DA ABOLIÇÃO E O BLACK FEMINISM DE ANGELA DAVIS. Disponível em: <blogueirasnegras.org/2014/03/11/no-rastro-da-pantera-a-democracia-da-abolicao-e-o-black-feminism-de-angela-davis/>. Acesso em 17 out. 2016

COSTA, Dany Vamos Falar Sobre Séries: Luke Cage (Netflix, 2016).  </plus.google.com/114893417931703201178/posts/hS7BVWx1HwS>..Acesso em 10 out. 2016.
Dyce, Andrew. Jessica Jones Easter Eggs, Marvel Connections, & Comic Nods. <screenrant.com/jessica-jones-easter-eggs-netflix-marvel-mcu/?view=all.>. .Acesso em 10 out. 2016.

DAVIS, Angela Y. A democracia da abolição: para além do império, das prisões e da tortura. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

DESCHAIN, Yasmin. Desculpe o transtorno, preciso falar sobre Luke Cage [SPOILERS] - Avengers: Random & FandomDisponivel em:  <https://vingadoresdadepressao.blogspot.com.br/2016/10/desculpe-o-transtorno-preciso-falar.html>.  Acesso em 10 out. 2016.

HALL, Stuart. Que negro é esse na cultura pop negra? Disponivel em: <uninomade.net/wp-content/files_mf/112410120245Que%20negro%20%C3%A9%20na%20cultura%20popular%20negra%20-%20Stuart%20hall.pdf> . [What is this 'black' in black popular culture?". ln: Gina Dent (org). Seattle: Bay Press, 1992. (Também se encontra em: David Morley e Kuan-Hsi ng Chen (org), Stuart Hall: Critical dialogues] in cultural studies. Londres, Nova York: Routledge, 1996.]

JACOBS, Guilherme. Quentin Tarantino diz que não é muito fã do Luke Cage da Netflix.<omelete.uol.com.br/filmes/noticia/quentin-tarantino-diz-que-nao-e-muito-fa-do-luke-cage-da-netflix/>..Acesso em 10 out. 2016.

PUIG, Rebeca S.  BRODERAGEM, MERCADO E EXCLUSÃO. <collantsemdecote.com.br/broderagem-mercado-e-exclusao/>. Acesso em 10 out. 2016.
______. ONECAST #3 – JESSICA JONES (podcast). <collantsemdecote.com.br/jessica-jones-a-melhor-serie-do-ano/>.Acesso em 10 out. 2016.
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______.A Mulher como Objeto de Cena. <collantsemdecote.com.br/a-mulher-como-objeto-de-cena/>. Acesso em 17 out. 2016.

SARKEESIAN, Anita. Some Thoughts on Jessica Jones. <femfreq.tumblr.com/post/134336278616/some-thoughts-on-jessica-jones>.  Acesso em 10 out. 2016.

VACHON, Rebecca Theodore. A love letter to black women - Cheo Horadi Coker - the gender dynamics of Luke Cage. Disponivel em:  <www.fastcocreate.com/3064174/a-love-letter-to-black-women-cheo-hodari-coker-the-gender-dynamics-of-luke-cage>.  Acesso em 10 out. 2016.

ZANETTI, Laysa. Luke Cage: Crítica da primeira temporada. 
Disponível em <www.adorocinema.com/noticias/series/noticia-124819/>. Acesso em 10 out. 2016.

Dossiê Violência e racismo. Disponível em: </www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/violencias/violencia-e-racismo/ >. Acesso em 10 out. 2016.

'Luke Cage' é o heroi que todos estavam esperando, cravam críticas de nova série da Netflix. Disponivel em: <www.tudocelular.com/tech/noticias/n78156/luke-cage-netflix-primeiras-criticas.html>. Acesso em 10 out. 2016.

Race and Racism in Marvel Comics. Disponivel em: <marvel.wikia.com/wiki/Race_and_Racism_in_Marvel_Comics>. Acesso em 17 out. 2016.




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