sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Luke Cage: o que esperar?

Mike Colter, o Luke Cage


Luke em minha vida


Christos N. Gage (Roteiro),
Mike Perpkins (Arte) e Laura Martin (Cores)
Luke Cage foi o primeiro herói Negro que conheci e foi mais um dos meus "ataques de sorte" como pesquisadora: estava perambulando pela Feira do Livro de Brasília e me deparei com a capa de Marvel Especial  8 - Vingadores: Dinastia M (jan/2008)Até então, eu não me interessava pelos Vingadores, não tinha noção da Dinastia M e nunca tinha lido nada do Capitão América, nem do Homem de Ferro. Não quer dizer que não me interessava por quadrinhos: estava no meio duma iniciação científica pesquisando mulheres Negras nos quadrinhos da Marvel, meu foco era outro. Imagine meu choque quando avistei aquela capa: uma mulher negra de blackpower na capa? Comprei logo aquilo, sem saber a mudança drástica que daria na minha vida: Misty Knight é minha heroína.

Claro que eu lia a antiga Marvel Max, mas tanto Cage em Alias: Jessica Jones, quanto suas histórias solo naquele título "adulto" não me atraíram na adolescência. As histórias pareciam masculinistas, violentas, sem sentido e estereotipadas demais. Curioso que, já cursando o mestrado, a Salvat decidiu lançar o encadernado reunindo edições imprescindíveis do Poderoso. Antes de  terminar essa trajetória, ele foi apresentado no seriado Jessica Jones  e terá uma série própria, tudo original Netflix. Sorte? Acaso?





Quem é Lucas "Poderoso" Cage? Quais discussões ele traz?


Chris Cleremont; John Arcudi (escritores)
John Byrne, Dan Green, Mike Zeck & Lee Elias;
Eric Canete & Pepe Larraz (desenhos)
Archie Goodwin, Jim Shooter e Bob Hall;
Chris Chuckry & Andres Mossa
(Arte Final)
Tratando de quadrinhos mainstream, é evidente que a Marvel historicamente tem uma posição mais preocupada em representar heróis e heroínas negras. Falcão (1969), Pantera Negra (1973),  e Tempestade (1975) são personagens que representam valores que inspiram a juventude negra e trazem discussões políticas que ainda são relevantes para nós, por isso a ansiedade pela série!

Cage nasceu no Harlem (Nova Iorque), numa vizinhança historicamente negra e conhecida pela violência, briga de gangues e problemas sociais sérios o que faz de sua motivação e inimigos questões ancoradas numa realidade - diferente da maioria dos heróis até então.

O que Luke Cage (1972) tem de especial é que ele foi o primeiro herói negro a ter um título próprio: Luke Cage: Herói de aluguel (Luke Cage: Hero for Hire). Como àquela época as equipes criativas eram compostas por homens brancos sem muito contato com a realidade negra, as histórias eram marcadas por um tom de enaltecimento bastante artificiais, exaltando a masculinidade de Cage de uma forma que lemos hoje em dia como problemática. E, entre rompimentos e continuidades, veremos no encadernado da Salvat histórias da década de 1970 e de 2000 e podemos ter um comparativo desde sua origem Blaxploitation, urbana e anti-heroica até sua renovação "higienizada" (cabeça raspada) e estereotipada ligada ao hip hop MTV. Gosto particularmente de sua história de origem, porque o mote é "o que é justiça?" e mostra o diferencial de não ter privilégio social. Pertencer a uma raça/cor negra fez com que ele tivesse menos oportunidades, levou a guardar drogas em casa que não foram vendidas, daí sua mulher Reva foi assassinada. No fim das contas, Cage foi encarcerado na Flórida, onde sofria toda sorte de abusos físicos, até a experiência que lhe conferiu pele invulnerável e super-força. Para boa entendedora, tudo isso introduz a noção de bio-poder e questionamentos acerca do sistema prisional estadunidense e do racismo institucional.


Nossa, legal super-heróis sexualmente ativos, mas acho essa cena particularmente problemática.

Vejamos, todo esse desencadeamento de ações pode parecer "má sorte", mas é um ciclo vicioso longe da experiência individualComo vocês devem saber, ele é casado atualmente com  a heroína Jessica Jones, com quem teve uma filha (Danielle). Apesar desse casal representar avanços políticos interessantes, na perspectiva estadunidense, é sempre importante pensar em como ele reforça o lugar-comum de homens negros poderosos selecionarem afetivamente mulheres brancas [1]. Sabemos, por exemplo, que ele namorou por bastante tempo a enfermeira Claire Tample, interpretada por Rosario Dawson (Sim, aquela que vive remendando o Demolidor e a Jessica Jones na série deles!) e isso parece não ser lembrado nunca. Um outro ponto relevante é a construção da masculinidade negra como "poderosa".


Marvel Especial 8 - Vingadores: Dinastia M
2008, p. 26 (detalhe)


A heterossexualidade de Luke, assim como da detetive biônica Misty Knight é sempre reafirmada. Ambos apresentam um comportamento de "ir em busca do que querem" e um desembaraço sexual que se distancia dos super-heróis tradicionais e beiram estereótipos coloniais ligados à visão racista a respeito da negritude. Em Vingadores Dinastia M, o roteirista investiu em cenas que mostram Cage como um típico machão dominando sua presa que, curiosamente, no exemplo acima, é a Felina.


Marvel Especial 8 - Vingadores: Dinastia M
2008, p. 27 (detalhe)

Para que Luke Cage seja "o maioral", nos quadrinhos, ele é justaposto à agente Misty Knight, personagem que é representada sem muito relevo desde a década de 1970. Há rumores de que ela foi inspirada pelo ícone da Blaxploitation Pam Grier o que é verossímil. Apesar de Cage e Knight colaborarem há bastante tempo é notável como ele a trata de forma distanciada, porque ela é mulher e não configura um interesse amoroso. Atualmente a encontramos (AINDA) como "sidekick" tanto nas Defensoras Sem Medo (2013), ao lado de Valquíria, quanto em Novíssimo Capitão América: Sam Wilson (2015). basicamente, na função de o assediar "pesado" sem ser correspondida.

"Um homem negro à prova de balas"


A violência institucional na forma de extermínio da juventude negra, masculina (entre 15- 23 anos) mostra que o tempo em que vivemos ainda exige que os homens negros sejam à prova de balas. Não há mais uma constituição estadunidense que legitima o"Black Code" nem mesmo as "leis de Jim Crow" , no entanto, a diferença para o "hoje" é o senso comum sobre a inadmissibilidade de matar um inocente SÓ PORQUE ELE É NEGRO, então as narrativas (reais e ficcionais) sobre justiça insistem em criar mocinhos BRANCOS e seus avessos, NEGROS.

Assim, respondendo ao mundo "real" em que os policiais alvejam inocentes puramente motivados pelo racismo, temos o (re)nascimento do herói Luke Cage em sua série. Renascimento porque trata-se dum herói não muito conhecido, mas bastante relevante para enfatizar a situação da população negra periférica. Cage luta - a seu modo - por justiça social, não importa que ele cobre por isso, afinal, sobreviver é necessário. O que geralmente esquecem - tanto a audiência quanto os artistas - é que não podemos desconsiderar o atrito nunca: Cage representa uma população que sobrevive há séculos de abuso, usurpação e exploração. Em sua versão clássica, ele apresenta ícones dessa historicidade: correntes que não deixam a leitora esquecer. Gosto bastante deste visual clássico, porque as correntes e o blackpower simbolizam a identidade e a consciência negra de forma visual, ao passo que as demais versões careca/cavanhaque mostram um visual de menor impacto político [2]. É claro que, num país em que as estruturas sociais foram construídas para matar e/ou deixar morrer, a sobrevivência é um ato político e a importância da personagem é bastante reconhecida pelo showrunner Cheo Coker:

“Como você sabe, não há muitos super-heróis negros, e Luke Cage se destacou. Ele não é só forte, ele é engraçado, ele é legal. E mesmo agora, mesmo que o personagem tenha surgido em 72, quando eu penso o que tá rolando nesse momento, o mundo tá pronto para um homem negro à prova de balas”. (Cheo Coker via Judão)

É claro que a frase tem mais a ver com uma aura, hype e tudo o mais que envolve marketing, mas a verdade é que não tem nada "rolando nesse momento", na real isso nunca parou, desde a colonização. Luke Cage responde aos problemas "de agora" porque houve conquistas históricas (como a Luta por Direitos Civis), acomodações políticas e avanços tecnológicos como a internet que é substrato do #blacklivesmatter e outros mais. A eclosão de denúncias não é novo e a visão econômica da Marvel menos ainda, daí temos um seguimento interessado em consumir uma franquia, tanto quanto na década de 1970! Mas vamos ao que interessa.





O que esperar da série:


Se você assistiu ao primeiro teaser, já teve contato com os três pontos que parecem nortear a série: consciência, Reva e muita porrada. Há um investimento em mostrar as habilidades do herói e seu modo criativo de "resolver os problemas". Apesar disso, há certo aprofundamento psicológico nestas cenas, o que mostra um equilíbrio entre incertezas humanas e a busca por ser "alguém melhor". De qualquer maneira, Mike Colter já deu uma ideia do que podemos esperar lá em Jessica Jones, por mais que sua personagem não fale tanto.  A paleta de cores, bem como a trilha sonora parecem ser o elo com o conceito clássico da personagem, assim, devemos encontrar a camisa amarela em algum momento, assim como a Coleen Wing (parceira de Misty em Filhas do Dragão)). Embora Reva não apareça, espero que explorem a relação e permitam que a Parisa Fitz-Henley tenha voz e vez e não seja uma presença muda, passiva e sem conexão com o público. Cara, cadê a Misty Knight? Quero ver a Claire Tample sendo mais que uma cuidadora, mais que uma figura motivacional que aparece e some estilo Mestre dos Magos!

O ponto alto a ser discutido na série deverá ser "o que é justiça" e o dilema moral sobre "o que é ser herói". Em Jessica Jones esses temas foram pincelados na perspectiva dela, que pende para um olhar feminista. Luke sabe que "lutar pelo certo" é uma questão de contexto, mas a prévia da série me fez pensar se, por acaso, esta série é uma tentativa de agradar aos rapazes que amaram Demolidor e preferiam essa à Jessica Jones. Basicamente, são 2:09 de muitos tiros, lutas e explosões, tudo muito altivo, forte e impactante. Espero que a série avance em relação à discussão de estereótipos de masculinidade, porque nos quadrinhos isso deixa a desejar - e muito. Não precisa nem dizer que a personagem não precisa ser um Jay Z, 50 Cent ou Kenye West, não é mesmo?


Luke Cage - Trailer Legendado HD


E você, já leu os quadrinhos, já conhecia Luke Cage? Quais são as suas expectativas? 

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No elenco teremos Mike Colter, Mahershala Ali, Simone Missick, Theo Rossi, Frank Whaley, Rosario Dawson, Alfre Woodard e a brasileira Sonia Braga e, no mais, aguardamos TODOS os episódios de Luke Cage na Netflix no dia 30 setembro de 2016.
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NOTAS
[1] Não questiono aqui a legitimidade do "amor" e não entrarei no assunto "palmitagem" (caso se interesse, Stephanie Ribeiro escreveu um texto sobre o tema que concordo em partes: Tu palmitas, e nós preteridas). 
[2]Tudo é político, sabemos, no entanto, que um homem negro sem cabelo e barba, abre mão de traços distintivos importantes para ser identificado 

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