Nota sobre a Incrível Jéssica James

Nota sobre a Incrível Jéssica James

A presença de personagens femininas Negras tem aumentado gradativamente, depois do vácuo dos anos 1990-2000, como uma sequência musical com longas pausas: nota por nota. Nesta ânsia por representatividade, acompanhamos personagens terríveis, mortes desnecessárias, personalidades desagradáveis e a melhor amiga consoladora. Nesta década, as personagens passaram a ter nome, ora ou outra, a sobreviver, e até a ter momentos de foco - aqui a nota vira um power chord - em obras ruins e até mesmo ofensivas: Gilmore Girls, Orange is The New Black, The L word, Orphan Black...

Enquanto Chewing Gum desafia a importância e o limite da experiência para a representação positiva, ela como obra ofensiva depõe contra nós todas e contra a excelência negra (Black excellence) e movimentos como Black Girl Magic. Não porque somos individualmente representantes da "raça", mas porque, no mundo real, erros cometidos por minorias custam caro. Talvez o fato de A incrível Jessica James ser escrito e dirigido por Jim Strouse atenue os custos, quem sabe.

No sentido da representatividade, o filme A Incrível Jessica James, é uma obra notável que realmente compele a assistir. Além disso, infelizmente, o movimento oposto, o da narrativa, deixa - e muito - a desejar.

PERSONAGEM


O trailer de Jéssica James (Jessica Williams) sintetizou aspectos da experiência de jovens Negras nerds. Todas as descrições continham elementos da experiência que reconheço no cotidiano, circunstâncias e o tipo de humor. Muitas dimensões de sua subjetividade são exploradas

A personagem é uma roteirista de teatro que atua como oficineira numa ONG enquanto aguarda pela chance de uma montagem por uma companhia. Interessante que, apesar das inúmeras recusas e críticas à indústria a personagem é vetor duma crítica fantástica ao estereótipo do negro mágico. Ela preenche toda a superfície narrativa com sua presença hilária, profunda e cotidiana; como protagonista ela nos possibilita reconhecer elementos da nossa experiência corriqueira e sentir aquele prazer do qual Aristóteles falava n' A Poética. Ora, então é assim que funciona, cara gente branca?

Bem, o estereótipo do negro mágico é uma ferramenta comum nas representações de negros e consiste num personagem que pode ou não ter perícias sobrenaturais usadas para instrumentalizar um personagem branco "você é forte, linda e inteligente". Exemplo de "negra mágica" incapaz de usar sua capacidade em favor de si mesma é a personagem de Viola Davis em Histórias Cruzadas (The Help). O ouro de Jéssica James é que ela usa sua capacidade incrível em favor de si mesma, de sua autoestima e sucesso. Outro aspecto dessa "magia", a transformação de injustiça e frustração em força pra continuar é retratada também em sua relação com a pupila, uma das alunas que mais se destaca em suas oficinas.

Desde a sequência de dança, no trailer, a atuação é plena e excede qualquer espaço físico e emocional do contexto narrativo. Já no filme em si, essa sequência não é tão expressiva e potente quando o prometido. Não porque ela não alcance, mas porque a montagem final não construiu a base duma cena transcendental. Não me entenda mal, não falo de transcendência no sentido "cult", nem da morte iminente, mas dum pico emocional da própria personagem.

SARCASMO


Jéssica James é uma pessoa negra inserida num contexto majoritariamente branco, exceto o seu bairro e a ONG. Assim, grande parte das situações são motivadas pelo contraste racial ou de gênero racializada. Na primeira sequência, em que ela saiu com um rapaz (branco) do Tinder. O modo como ela conduz o diálogo elenca propositalmente diversos estereótipos e funciona como um teste de caráter do acompanhante, mas de fato, o interesse dela é no ex-namorado Damon (Keith Stanfield). A expressividade exagerada dos brancos, aliás - exceto Tasha (Noël Wells) - é um dos recursos humorísticos secundários mais interessantes, porque evidencia os elementos da experiência negra desconhecidos a esse contingente. É como se um idioma desconhecido fosse falado e os retirasse do processo, algo como perguntar "quem escreveu Pele Negra, máscaras brancas, ou quem é Audre Lorde". 

Mals a qualidade, mas não soltaram imagens em qualidade OK ainda

A melhor amiga (branca) é lésbica, portanto, em parte o que escapa à compreensão da experiência específica de raça e gênero é explicada por aí. A diferença entre elas no entanto, não enfraquece a capacidade de identificação e de camaradagem. O foco nesta relação evidencia o quanto os filmes tem priorizado a sororidade em detrimento de envolvimento afetivo-sexual orientado a homens-cis.

O deslocamento de Jéssica James em todos os ambientes - inclusive o famíliar - é uma situação-problema que embasa os eventos. A ironia é a contradição fundamental da identidade: pertencimento tem mais a ver com disposição ao afeto que à semelhanças. Quanto mais interseccionais as suas vivências, menos chances de encontrar alguém com quem realmente pareça contigo.

A contradição não parece se aplicar à relação com Demon. Essa situação nos acompanhamos já depois do término e não temos mais do que possíveis índices do que aconteceu. Ele é um artista e parece ter interesses distintos dos de Jéssica James, mas não o suficiente pra impossibilitar um relacionamento saudável. Isso tanto é verdade que Boone (Chris O'Dowd) é tão diferente de Jéssica James e, ainda assim, ambos se dispõem a construir uma relação sincera.

Fato que essa relação, como tudo que não se trata de Jéssica James é o oposto de incrível. A narrativa é dinâmica, engraçada e tem enquadramentos adoráveis, mas a exploração dos temas como relacionamento interracial, diferença geracional, vivencia LGBT, paternidade negra e infância - pra citar alguns - não são aprofundados e, assim, a chance é perdida. O sarcasmo em si diverte, mas não avança, não acrescenta quase nada.

Jessica e Damon

CONCLUSÃO

Em suma: do encontro da presença plena de Jéssica Williams como Jéssica James com o sarcasmo que representa graficamente a experiência de preta nerd, de Black Girl Magic e do sarcasmo, importantes temas são citados. A leveza como a narrativa transcorre é positiva porque já chega de violência, de representação gráfica de morte e de racismo expresso. Apesar de o público-alvo ser visivelmente a comunidade negra, fica evidente que a história em si não é notável, não é tão dramática nem tão engraçada para ser classificada como gênero. Ao mesmo tempo, se perguntar sobre o que se trata podemos responder única e simplesmente que: o filme é a Jessica James, ela em si mesma, mais que notável, uma incrível uma garota negra mágica como de uma forma ou de outra, nós todas somos.

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