Qual é a graça em mascar chiclete sem gosto?

Por Thânisia Marcella*

Aproveitando as poucas horas de folga que tive nos últimos dias, segui a indicação do povão e assisti um pouco de Chewing Gum, a sitcom da Netflix. Me senti viciada e continuei vendo, dias depois. Em duas horas, estava lá eu: com raiva da série e anestesiada, ao mesmo tempo. 

Mas por qual motivo assistir uma coisa que, visivelmente, me faz sentir mal? 


Estava conversando com uma amiga e ela disse: - Véi, geral curtiu. As minas tudo curtiram. Deixa de problematizar as coisas. 

Na hora, rimos juntas, pois de fato há alguma coisa nessa série que vicia. 

Por motivos diferentes, existem algumas sacadas ou piadas inteligentes e combativas com cunho racial ou de gênero que, apesar da tentativa, machucam mais do que um tapa na cara. E esse humor da série vai por esse caminho (Veja aqui o que A.Q. do Preta Nerd Burning & Hell tem pensado sobre isso: O que é humor negro?). 

Na pegada telespectadora insaciável, acabei descobrindo, durante o planejamento de uma aula que Chewing Gum é a tradução (ou alguma marca que popularizou) para chiclete tanto no inglês quanto no francês. A partir desse momento, percebi que eu queria terminar a série para ver se aprendia mais coisa em termos de expressões, etc. Ledo engano. 

Passei só nervoso mesmo. Porém, agora, uma raiva/um nervoso anestesiada/o pelo seleto conteúdo musical da série. Como uma fã irrecuperável de Hip Hop, Indie e várias produções alternativas do mundo negro por aí a fora, o coração e a boca cantaram Sampha, N.E.R.D, Ja Rule, Amerie, RAY BLK e Major Lazer em diversas cenas que o conteúdo não passava de tosqueira. Comprovando que músicas muito boas e de cantores(as), por vezes, até militantes (com ressalvas) podem ser trilha sonora de cenas ruins.





Foi aí que surgiu a analogia: por qual motivo continuar mascando um chiclete sem gosto? 

Sempre ouvi dizer que mascar chiclete é horrível para o organismo. Sem gosto, então, só serve para criar ácido no estômago.  

Em relação à série, por que tive o ímpeto de ver até o final se tudo de errado acontece em apenas uma cena? 

Por exemplo, na segunda temporada, Tracey (Michaela Coel) se vê despejada por sua mãe cristã fervorosa (mulher negra sempre irritada ou falando alto) e morando em um abrigo para desabrigados(as) com seu (não) namorado branco - que rouba as coisas do local em que ela trabalhava, que não tem a perspectiva de buscar um emprego (não é um julgamento) e muito menos de deixar de ser infantil. Desesperada por perder a virgindade (não é um julgamento), ela (aparentemente, passando por uma bad trip) acorda o (não) namorado e o chama para ir ao banheiro, pois havia preparado o ambiente e sabia que ali rolaria uma transa. 

Ao chegar lá, tudo dá errado e uma jovem negra (moradora do abrigo) aparece para ver o que estava acontecendo. Nessa hora, Tracey - extasiada - tenta seduzir seu (não) companheiro, diz que quer e depois diz que a garota até emprestou um consolo (pênis de borracha) para ela que não aguenta mais esperar para perder a virgindade. 

Tudo continua a dar errado, Tracey vomita no (não) namorado, vomita em si e suja a outra garota. Por fim, Tracey, abandonada pelo (não) companheiro, cansada de tentar transar, diz uma meia dúzia de palavras sem nexo e completa toda a cena abraçando a outra garota e dizendo: me beija, você é lésbica (!!!!!!!!!!!). Ao passo que a garota se sente ofendida, mas, ainda assim cuida dela a colocando no banho.

Podemos fazer uma escala de partes mais bizarras da série. Entre piadas bem elaboradas (?) que, talvez, só funcionem na Inglaterra, e cenas bem estranhas surge a questão: Tudo isso é diferente da vida real? Queríamos que fosse, querido pessoal... 



Então qual é o problema?

Pedir demais por representatividade, agora, está fazendo parecer que o tiro saiu pela culatra. Como ser representada por uma coisa escatológica demais, que está dando piada pronta para racista e não dialoga com o que muitas mulheres negras estão falando há tempos? 

A Semana da Educação para a vida na escola em que trabalho está chegando e essa não seria a obra que eu mostraria para conversar sobre a autoestima de mulheres negras com estudantes, entende?

A arte pode ser diversa. O papel dela é esse mesmo. A ficção pode inventar, recriar ou representar a realidade. A função dela é o entretenimento. Além disso, estão aí para serem consumidas mesmo. Todavia, existem coisas que são difíceis de compreender. Nesse caso, podemos ver e ouvir de tudo, mas sem nunca esquecer que aquilo que quer fazer rir também pode fazer chorar. 


Originalmente postado em Coletivo Yaa Asantewaa (4 maio de 2017)
*Thânisia Marcella é uma pessoa que está esperando, ansiosamente, a chegada do segundo sol.

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