Séries, Representatividade e Sexualidade

Muito se é dito sobre a importância da representatividade e visibilidade de minorias, principalmente da LGBT na mídia, porém eu sinto que existe uma carência de exemplos concretos de como esses fatores afetam a vida real. Eu acompanho o trabalho da Marina Watanabe no youtube alguns anos e em nesse vídeo, postado recentemente, ela enumera diversas séries que ajudaram no seu processo de autodescoberta e aceitação da sexualidade. E acredito que esse seja um dos grandes, senão o maior, ponto sobre a representatividade LGBT.


Somos influenciados socialmente pela mídia. Não é apenas nossas famílias e escola que nos ensinam e constroem nossos valores sociais quando crescemos. Os livros que lemos, jogos que jogamos e principalmente as séries e filmes que vemos ajudam a construir nossos valores. Isso significa que uma série de TV pode nos tornar gay? Obviamente que não, mas ver um personagem ou casal não hétero ou não cis em alguma formas de mídia pode facilitar nossa autoaceitação.


Eu literalmente não consigo separar a minha jornada de aceitação e descoberta das séries que eu acompanhei. É como se cada série, personagem ou enredo fosse um marco da minha sexualidade tão relevante quanto os relacionamentos que eu tive.

Eu apenas me aceitei e reconheci com uma mulher bissexual aos 21 para 22 anos. Até esse momento eu oscilava em momentos de profunda negação e momentos de eu não faço ideia do que significa isso que eu estou sentindo. E mesmo tendo um vasto grupo de amigos LGBT eu não me conectava com a experiência deles. Muito raramente eu me sentia a vontade para compartilhar minhas dúvidas e questionamentos e mais raramente ainda eu tinha respostas satisfatórias ou que me reconfortassem em algum sentido. No entanto, a televisão e suas séries sempre estiveram lá.

Eu assisto seriados desde muito nova, meus pais acompanhavam séries e eu por falta de controle via junto. Tenho vividas lembranças de Barrados No Baile quando era transmitido pela Globo e por volta dessa época eu já preferisse ver séries como Arquivo X no lugar de desenhos animados.


Existem alguns clichês sobre séries que ajudaram pessoas a se descobrirem. Se assim como eu tem 20 e tantos anos, os homens geralmente vão comentar sobre Queer A Folks e as mulheres sobre The L Word, fora das séries mais obvias, temos Dawson’s Creek e o Jack para os rapazes e Xena e a Willow de Buffy para as garotas. Eu sou uma Buffy type of girl.

Buffy passava no começo da minha adolescência e os anos fizeram eu perceber que não fui a garota mais perceptiva. Meu casal favorito era Willow e Tara, ainda é. Eu sofri com o término delas mais d que com os dos meus namoros na mesma época, eu vibrei quando elas reataram e chorei quando Tara morreu. Elas eram já dizia querer em um relacionamento. A parte desatenta de mim é que eu não havia percebido ainda que queria exatamente o que elas tinham, uma relação entre duas mulheres.

Se tornar pior quando eu lembro que na mesma época que Willow e Tara namoravam em Buffy, eu era obcecada pela Jessica Alba e sua protagonista, Max, de Dark Angel. Estava em uma fase de negação, eu sentia atração por homens, então o que sentia pela Jessica Alba era apenas admiração, coisa de fã, apostava que todas as meninas sentiam isso.


A primeira vez que fui ter contato com bissexualidade foi por volta dos meus 16 anos quando assistia One Tree Hill e na sua segunda temporada fomos apresentados a personagem da Anna Taggaro, uma menina que literalmente tem seu enredo relacionado a sua sexualidade, desde sua mudança para Tree Hill até sua saída dela quando ela finalmente se aceita. E esse foi o primeiro momento que eu vi alguém apontar sobre poder sentir atração tanto por homens quanto por mulheres. Na mesma época era transmitido The OC, porém eu só fui assistir quando tinha 18 anos e mesmo detestando profundamente a personagem da Marissa, acabei sendo profundamente apegada ao romance dela com a Alex, outra personagem bi. Eu deveria ter reconhecido isso como um sinal da minha não heterossexualidade, entretanto a negação foi mais forte e olhe que eu já era fã de America’s Next Top Model e não tenho grande interesse no mundo da moda, então você deve imaginar o que me leva a ver o reality ciclo após ciclo.

Olivia Wilde, a atriz que interpretou a Alex de The OC, é por si um marco no meu processo de autodescoberta. Além do fato dela ser estonteamento linda, ela interpretou a Thirteen de House, uma médica bissexual, e eu me sentia extremamente desconfortável assistindo as cenas delas com meus pais presentes pois deveria estar escrito na minha cara o quanto eu apreciava as cenas dela com outras mulheres. E esse foi o primeiro momento em que pensei que isso é um tanto não hetero da minha parte.

Uma série muito querida minha é 90210 e na sua segunda temporada, Adrianna tem um envolvimento com uma garota. Nessa época eu já escrevia sobre séries para um site, já acompanhava as notícias e lembro de celebrar bastante esse enredo com um amigo meu. E até parar pra escrever esse texto eu jurava que esse plot havia acontecido quando eu era assumida ou estava me assumindo, acabei de descobrir que não, ele aconteceu quase que exatamente um ano antes e talvez tenha sido o ponta pé oficial da minha saída de Nárnia.


O que eu sei com toda certeza que aconteceu simultaneamente com a minha saída do armário eu tive Emily Fields em Pretty Little Liars e Santana em Glee pra me espelhar. Glee é uma série muito ruim e errado em quase qualquer sentido que você puder imaginar, ela é bifóbica, racista e misógina, eu sei disso perfeitamente bem. E ainda assim eu não posso negar que ela foi um passo importante para mim, ver a Santana com todas as suas características e todos os erros de roteiro aprendendo a ter orgulho de ser uma mulher não hetero me inspirou a fazer o mesmo. Foram incansáveis as vezes que utilizei frases delas seja em declarações para a garota com quem estava envolvida no momento seja para encontrar as palavras certas para me assumir para familiares e amigos.

Emily Fields é um caso a parte. Toda sua jornada dentro da série é a minha, sua personalidade, atitude, alguns momentos cheguei a questionar se a autora da série não estava me seguindo de tão similar que nossas histórias eram. E a medida que via a personagem ganhar confiança em si mesma, eu também ganhava, isso foi o mais difícil ao ver a série acabar, perceber que eu não teria mais uma companheira de jornada, que depois de 7 anos repartindo uma experiência tão significativa e me vendo em alguém, a série estava acabada e eu não teria mais esse vínculo.

Então, Eu sou bissexual. O que? É verdade e é real. Veja, é chamado LGBTQ por um motivo. Tem um B nisso e não significa bambambam. Okay, meio que significa, mas também significa bi.

Claro que depois outros personagens e séries surgiram. Callie Torres em Grey’s Anatomy e especialmente sua intérprete, Sara Ramirez, que também é uma mulher não branca bissexual e que é bem vocal sobre as questões bissexuais. Chasing Life com Brenna sendo uma adolescente bi bem resolvida e que foi a primeira série que não apenas usou a palavra bissexual com todas as letras como chegou a abordar como a comunidade LGBT também oprime pessoas bis.

The Fosters, a primeira série que me mostrou como é possível ser mulher, casar com outra mulher e ter uma família saudável. Recentemente The Bold Type com Kat se descobrindo bi aos 20 e poucos. San Junipero, Sense8 onde temos um casal de uma mulher trans branca e uma mulher cis negra. Skins que influenciou uma outra leva de adolescentes. Por sorte, hoje em dia existem muito mais opções para se encontrar representatividade e o melhor que essas opções são cada vez melhores e menos problemáticas. O número de artistas abertamente bissexuais, gays ou lésbicas é cada vez maior e tudo isso contribui para uma naturalização.

Por que através desses exemplos uma garota de 12 anos talvez seja capaz de entender com mais facilidade esses “confusos” sentimentos que ela tem sobre a sua melhor amiga e perca menos tempo do que eu em finalmente poder viver quem de fato ela é.

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