#PretaRead - O Movimento antiescravagista e a origem dos direitos das mulheres.


Nós do Preta, Nerd & Burning Hell estamos com um projeto de leitura coletiva chamado #PretaRead e o livro selecionado agora é Mulheres, Raça e Classe da Angela Davis. Bom, hoje é dia do capítulo dois.

O Movimento antiescravagista e a origem dos direitos das mulheres
Por Naira Évine

Eu gosto muito da escrita de Angela Davis, ela só falta falar "Era uma vez...", como uma historinha interessante e instigante merece ser contada. Nesse capítulo, ela traz o início da união entre a luta das mulheres e a luta antiescravagista, assim eu consegui ver as três lutas pautadas nesse livro de forma mais separada. Como eu havia lido o capítulo 3 antes, eu tinha tido um outro ponto de vista sobre as mulheres em questão, então pra mim foi muito importante ver o início dessa união.

Ela já começa o capítulo falando de um homem negro, ex-escravizado, ativista do movimento antiescravagista e um grande defensor e apoiador da luta pelos direitos das mulheres, Frederick Douglass (que vai aparecer mais no capítulo 3). Ele era ridicularizado pelos homens em geral, sua virilidade era contestada e, ao ser rotulado de "o homem dos direitos das mulheres", dizia não sentir nem um pouco diminuído por isso.

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Frederick Douglass (1818 -1895)

Ainda na primeira página a autora sana nossa curiosidade com as seguintes perguntas:

Por que tantas mulheres se juntaram ao movimento antiescravagista? Havia algo especial no abolicionismo que atraía as mulheres brancas do século XIX de um modo que nenhum outro movimento reformista havia conseguido?

(p.43).

O primeiro ponto que Davis traz são os "instintos maternos". Era Revolução Industrial e a vida da sociedade como um todo mudou completamente, inclusive das mulheres. Como a autora cita "o lugar da mulher sempre tinha sido em casa", mas como a maior parte das famílias sobreviviam da terra, os homens geralmente cuidavam da agricultura e as mulheres eram manufatoras. Elas não se limitavam a ser apenas mães, esposas e donas de casa, elas produziam e eram importantes para a economia. Com a mudança drástica para a industrialização, a ideologia da feminilidade ganhou muito mais força e a partir de então, os homens saíam para trabalhar, enquanto as mulheres se resumiam a ser "do lar".

A década de 1830 foi de suma importância para diversos movimentos sociais. Por um lado greves e paralisações em fábricas impulsionados, principalmente, por mulheres e crianças (o que me lembra muito os filmes de Charlies Chaplin). Além disso, em 1831 é fundado o Movimento Abolicionista Organizado. Mulheres brancas, tanto as operárias quanto as de classe média donas-de-casa que estavam se organizando em lutas pelos seus direitos comparavam as opressões pelas quais passavam com a escravidão:

Aquelas de melhor situação econômica começaram a denunciar o caráter insatisfatório de sua vida doméstica, definindo o casamento como uma forma de escravidão. Para as trabalhadoras, a opressão econômica sofrida no emprego tinha uma forte semelhança com a escravidão."

(p.46)

Apesar de que, segundo Angela Davis, quem teria mais motivos para fazer tal comparação eram as trabalhadoras, quem tinha mais voz nessas lutas eram, claramente, as mulheres brancas de classe média. Com tal comparação elas acabavam colocando a escravidão e o casamento no mesmo patamar o que é, no mínimo, injusto. Mas foi a partir de tal pensamento que algumas mulheres se sentiram atraídas pelo movimento abolicionista.

Em 1833, mulheres brancas fundaram a Sociedade Antiescravagista Feminina da Filadélfia que, apesar de não terem sido a primeira associação (a primeira foi criada um ano antes por mulheres negras), atraíram um grande número de mulheres simpatizantes com a causa. Nesse mesmo ano um caso tomou grande repercussão, foi quando a professora Prudence Crandall desafiou a população branca da cidade ao aceitar uma menina negra na sua escola. Sua luta tomou grande proporção quando, indignada com todo ódio, ela decidiu matricular mais meninas negras e depois de todo boicote vindo de vários setores da cidade, de famílias brancas, do governo, etc etc, a professora Crandall foi presa.

De forma lúcida e eloquente, as ações de Crandall falavam sobre as vastas possibilidades de libertação caso as mulheres brancas, em massa, dessem as mãos a suas irmãs negras.

(p.48)

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Prudence Crandall (1803 - 1890)

Apesar das operárias oferecerem todo seu apoio ao movimento escravagista, infelizmente a questão de classe é um impeditivo, então são as donas de casa de classe média que tomam a frente da classe feminina abolicionista. Ao participar das reuniões predominantemente masculinas, mesmo sendo brancas, era dever delas ficar em silêncio e apenas observando. Porém numa convenção Lucretia Mott levantou a mão e expressou sua opinião. Aquilo era novo e estranho.

De fato, seu [da mulher branca dona de casa] envolvimento político na luta contra a escravidão talvez tenha sido tão intenso, apaixonado e total porque podiam vivenciar uma estimulante alternativa à sua vida doméstica. E estavam resistindo a uma opressão que se assemelhava àquela que elas mesmas viviam. Além disso, no interior do movimento antiescravagista, aprenderam a desafiar a supremacia masculina."

(p.51)

Angela Davis também conta sobre as irmãs Sarah e Angelina Grimké que após crescer numa família proprietária de escravos decidiram, quando adultas, mudar-se e unir-se à luta abolicionista em 1836 sendo oradoras. Elas falavam sobre suas vidas e o que achavam da perversidade da escravidão. Porém, mesmo com uma adesão cada vez maior nas palestras, de homens e mulheres, com o tempo elas começaram a ser ofendidas e atacadas pelo simples fato da oratória ser uma atividade masculina. O principal ataque veio de pastores. Foram obrigadas a encerrar a carreira de oradoras, pois, segundo os religiosos, elas estavam indo contra a vontade de Deus. Com isso, mesmo não sendo a intenção delas em falar sobre os direitos das mulheres, após sofrer essas agressões, Sarah escreveu cartas a favor da igualdade dos sexos que contestava a compreensão de que essa desigualdade havia sido designada por Deus.

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irmãs Sarah e Angelina Grimké

Angela Davis finaliza o capítulo com alguns pensamentos das irmãs Grimké. Na concepção de alguns abolicionistas, a luta pelos direitos das mulheres poderiam atrapalhar sua luta, e as irmãs contestavam argumentando que as duas lutas precisavam ser enfrentadas juntas, pois "o que a mulher poderá fazer contra a escravidão, quando ela mesma estiver subjugada ao homem e humilhada no silêncio?". A autora pauta também que suas falas não se restringiam à vida das mulheres brancas, pelo contrário:

Elas [as mulheres negras] são mulheres de nosso país - elas são nossas irmãs; e têm o direito de encontrar em nós, como mulheres, a compaixão por seus sofrimentos e os esforços e orações para sua salvação.

Por estar envolvidas na promessa de uma poderosa aliança dos dois pólos, as irmãs Grimké incluía uma luta n'outra e tinham a esperança de realizar o sonho da libertação. Como elas diziam em suas falas:

Quero ser igualada ao negro(...) Enquanto ele não tiver seus direitos, nós não teremos os nossos.

Bom, da década de 1830 pra cá muita água rolou.
Até o próximo capítulo.

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