DEADPOOL 2: (mais um) filme pra boy rir?

Confesso que assisti ao primeiro Deadpool apenas na semana passada, e, ainda, que esperava encontrar tudo o que fosse mais odioso no que se convenciona chamar de humor negro, mas não é. Apesar de inúmeras piadas desagradáveis, o filme me surpreendeu pela estrutura narrativa: gostei muito do modo como cada flashback se encaixa até gerar o efeito de profundidade psicológica de Wade Wilson. E quando digo "efeito", a ideia é enfatizar que o filme perdeu a oportunidade de discutir questões como a pansexualidade do herói, bem como suas "emoções  mais profundas" de forma convincente.

ryan reynolds
Deadpool, Wade Wilson ou Ryan Reynolds 
Pra mim, foi interessante ver que o segundo filme pega muitos "ganchos" de piadas presentes no anterior, sobretudo a partir do retorno de personagens adjuvantes que dão ao  humor um tom mais relevante que o protagonista em si. Noutras palavras: se compreender referências for importante pra você, se puder assistir ao primeiro filme, assista, mas se seu objetivo for apenas se divertir pode ir com tudo para a sequência!

Por Anne Caroline Quiangala


Alerta: Spoiler


HISTÓRIA


O final feliz do primeiro filme tornou o início do seguinte previsível: o par-romântico de Deadpool, Vanessa (Morena Baccarin), morre. Assim, cessa o clima Doce Novembro e voltamos a "filtrar a dor pelo prisma do humor" que se vangloria do fato de não ter limites.

Uma vez morta, Vanessa se tornou uma fonte de sabedoria para Wade (Ryan Raynolds), com pena de si mesmo e sem perspectivas. A tragédia abriu espaço para o retorno dos X-Men, especificamente, Colossus (Stefan Kapicic) e a adolescente  Ellie Phimister (Brianna Hildebrand) e uma convocação que muda o rumo da história.

Durante a missão, Deadpool conheceu um jovem mutante que chamava a si mesmo de FireFist (Julian Dennison) e estava sendo perseguido pelo homem "fortemente armado" e do futuro, Cable (Josh Brolin). Com o objetivo de salvar o garoto, o protagonista montou sua equipe "multicultural" e "multiétnica" X-Force.

Em meio à interação com os colegas, e mesmo com Cable, o "herói" tomou consciência de sua "vocação" para o bem, contrariando as falas do cientista que o transformou em mutante: "Você é feio por dentro e por fora".

Vanessa Carlysle (Morena Baccarin) é uma personagem decorativa, cujo ponto alto da personalidade pouco explorada é a sua agência sexual. Se compreendido do ponto de vista de que Baccarin é brasileira e, portanto, latina (!), talvez a característica não seja tão transgressora assim.

CERCANDO A CRÍTICA


Deadpool 2 é uma espécie de clipe dos anos 2000 repleto de "feat.", e referências, a tudo o que você possa imaginar da cultura pop em geral, só pra aumentar a audiência. Tudo isso é sustentado por uma crítica autoconsciente, que tanto repete "uau, que roteiro fraco", quanto quebra a quarta parede, a barreira entre Marvel/ DC. O excesso de "piadas" transfóbicas, racistas e capacitistas tenta ser comparável ao "rir de sua própria condição privilegiada" representado por Ryan Reynolds e isso certamente tem um porquê.

Em tese (e isso está diluído no filme) desmistificar práticas racistas, inserir mensagens positivas sobre "aceitação" e "tolerância" são formas de manter as piadas desnecessárias na versão final e mostrar que tudo foi intencional, que sim, eles sabem muito bem o que significa "gênero fluido".

A questão é que a estratégia usada para tentar legitimar o "humor branco" só paralisaria a crítica se acaso fossemos ingênuas a ponto de acreditar que fazer piada de "bigode de homem branco hétero" e também sobre "asiático com pau pequeno" (sic), por exemplo, são a mesma coisa. Essa contradição entre "explicar o que é racismo o tempo todo" e "ser racista o tempo todo" é uma das verdadeiras causas da legião de fãs do filme, que acredita na real (e quase incensurável) falta de limites do mercenário.

É como se, automaticamente, "ser louco" cancelasse tudo o que parecesse "nonsense", naquela pegada do branco que se diz não racista e ainda justifica "eu votei no Obama".


Desde o primeiro filme, Dopinder é o deslumbrado motorista

PIADAS "ÉTNICAS"


Uma das primeiras cenas do filme já oferecem momentos de violência gráfica contra asiáticos, que não apenas são derrotados física como moralmente, quando Deadpool retoma o estereótipo racista de emasculação dos homens amarelos, que se completa com o personagem Dopinder (Karan Soni), "o grande amigo indiano taxista que ele paga com..sim, amizade", reencenando o colonialismo ainda bastante aceito no "Ocidente".

Em todas as relações com indivíduos racializados, o Deadpool tira vantagem a partir de certa "camaradagem" e a sequência de piadas nas quais ele insere Cable como pivô de sua Whitesplaning (branco explicando o que é racismo) podem ser simultaneamente educativas e, de fato, engraçadas, mas a quantidade de referências musicais e ícones negras e negros soam como o desejo reprimido da tal "Palavra com N" (The N word). Dentre elas, há uma referência à traição de Jay Z, que Beyoncé cantou: "Por favor, não me traia".

Ridicularizar a ideia de que os X-Men serviram como metáfora para o racismo e a luta por direitos civis durante a década de 1960 foi mais uma das ideias que o filme gostaria de neutralizar e transformar em piada inquestionável, sob o pretexto de que que "mercenário não tem limites", portanto, "desrespeita a tudo e a todos-todos-mesmo".

No primeiro filme, Deadpool chamou sua companheira de casa, Al (Leslie Uggams) de Ray Charles, enfatizando características "negra", "cega" e "idosa" em detrimento da subjetividade. Com isso, boa parte daqueles que entendem a referência é levada a crer que o comentário é inofensivo.

Outra "Piada Étnica" que não pude deixar de notar é que o Firefist é mutante, jovem, racializado e gordo cujo sonho é ser um poderoso gangster "Eu sou Tupac e você é o Ice Cube", ele diz ao Fanático. O desejo de poder se transforma em estatística: encarcerado estava e permaneceu por algum tempo, mas também com uma metáfora da tornozeleira eletrônica, que neutraliza seu poder mutante, em volta de seu pescoço.

Por fim, a piada que se considera mais contemporânea: o prisioneiro Black Tom (Jack Casy) não ser afrodescendente e usar dreadlock. Quando Deadpool ri da suposta "apropriação cultural", ele esvazia o conceito para soar engajado, mas tudo isso é uma forma do personagem evitar compreender a sua subjetividade moldada a partir da branquidade. Há sim piadas sobre "ser branco", mas elas são todas dissociadas do Wade: ora são aplicadas ao Peter, ora aplicadas ao Cable.


SURFANDO NO "POLITICAMENTE CORRETO"


É provável que uma parcela considerável dos fãs de Deadpool considerem o "politicamente correto" um obstáculo pra "liberdade de expressão", de modo que um herói que destrói todas as barreiras éticas, estéticas e morais simboliza para eles uma vitória. O suposto equilíbrio entre explicar ao viajante do tempo o que é racismo, "o quanto ele está sendo racista", e para a jovem lésbica que ela não é uma X-Men, porque a equipe é "mulher", gera boas piadas, exceto pelo fato de que a sua "falta de limites" também reproduz lógicas sexistas como piada "o bebê será garoto ou garota, nada no meio".


Míssil Adolescente Megassônico (Brianna Hildebrand) apresenta sua colega de X-Men, Yukio (Shioli Kutsuna) como namorada, tornando Deadpool 2 um marco em termos de representatividade LGBT nos filmes de super-gente.
Assim, o mesmo personagem que é pansexual e respeita a orientação sexual da colega mutante, faz piada transfóbica e vive a fluidez do desejo e da performance de gênero como piada - sob o pretexto de não levar nada a sério. 

Driblando o politicamente correto, mas fazendo uso dele a seu bel prazer, Deadpool e seu melhor amigo Weasel (T. J. Miller) selecionam candidatos para entrar na equipe que, mais tarde, somos informadas que se chama X-Force. Numa referência à gestualidade de "Wakanda Forever" notamos a insistência de mais uma referência, mais uma piada inocente que investe em esvaziar o sentido dum ícone direcionado à população negra.

Sem dúvidas, o respiro no meio disso tudo foi a introdução de uma personagem Negra relevante: a Dominó (Zazie Beetz).

Zazie Beetz é Dominó <3
Todo mundo que acompanha a cultura pop atual, sabe que a escalação de Beetz levou o público "tradicional" (a.ka. Burning Hell) a se especializar na personagem até então pouco conhecida, Dominó, e exigir que fosse interpretada como uma atriz branca, porque - segundo eles - uma pele cinza é uma pele branca (?). Felizmente, esta discussão não afetou em nada e temos em Deadpool 2 a sortuda sobrevivendo ao acaso.

Por mais que o filme não foque na subjetividade da Dominó, o fato de não ser reduzida a músculos, apesar de lutar muito bem, é uma adorável surpresa no cinema. Sua coragem e disposição para defender os inocentes faz dela uma das melhores heroínas do MCU.

Além disso, ver uma heroína com blackpower de cabeça erguida e sobrevivendo ao acaso, é tão inspirador quanto profundo num filme que atravessa temas como racismo prisional e sua conexão com instituições abusivas e ciência eugênica

A presença de Dominó é, em grande parte, um alívio ante tanto desrespeito camuflado de liberdade de expressão e nonsense. Sua luta por justiça, aliada ao superpoder da sorte, representam a experiência de interseccionalidade de uma forma que não eu esperava ver no MCU - menos ainda na sequência do mercenário mais desagradável em exibição.

Em suma, Deadpool 2 cumpre o esperado: é mais um filme para privilegiados rirem - na maior parte - perdoados da culpa pelo protagonista. Entretanto, ele também nos faz desejar vida longa e próspera à Dominó dos cinemas!



Deadpool 2 estréia hoje, 17 de maio de 2018.
(Não esqueça de esperar as cenas pós-créditos!)

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