Pantera Negra: primeiras impressões! (SEM SPOILERS)

Da esquerda pra direita Michael B. Jordan (Erik Killmonger) e Chadwick Boseman (Pantera Negra)

por Anne Caroline Quiangala

Este texto é livre de Spoilers!

Vocês sabem que uma das coisas que eu não sou é positivista, mas posso assegurar que Pantera Negra tem tantas qualidades que o único ponto negativo - os trolls que tentaram derrubar o filme - não diz respeito ao filme em si. Na sala em que eu estava, na pré-estreia, havia muitos "especialistas" daquele tipo que foram assistir a um filme que julgaram "previsível" ou "sem diversidade". Eles não poderiam estar mais errados, mas eles não importam. Não mais. Este filme é o passo decisivo para um futuro em que o mundo não será mais sobre eles, mas sobre um amplo e plurivocal "nós".
M'Baku (Winston Duke) só tem a dizer "#UH-UH-UH"


Pantera Negra é (muito mais) supremo do que os trailers prometeram, tanto porque a narrativa é descoberta a medida que assistimos, quanto pelo fato de todas as cenas, referências e diálogos serem conectados de tal forma que não há excessos. O humor, o romance e as lutas estão todas na medida correta, sem perder de vista a profundidade das discussões políticas que tanto desejávamos ver. Aliás, todos os meus anseios foram atendidos, desde a representação digna das Dora Milaje até um discurso contundente sobre a pluralidade que a consciência negra pode assumir. Mas vamos por partes.

#WAKANDAFOREVER
Ryan Coogler dirigiu uma obra de arte definitiva, repleta de camadas que podem ser acessadas a partir de nosso repertório de história da África, design, música, moda, estilo e beleza, ativismo e quadrinhos produzidos por pessoas negras, mas, sem dúvidas há diversas outras formas de acesso.

Pra mim, a entrada foi a narrativa principal, pois o tema guarda uma série de assuntos que são profundamente caros para nós (pessoas negras da diáspora). Vou falar mais sobre isso no texto com spoilers, mas se você já leu Uma nação Sob nossos pés, roteirizada pelo Ta-Nehisi Coates, está familiarizada com o novo rumo de discussões, que incluem a crítica ao nacionalismo negro e à lógica de respeitabilidade da Associação para o progresso das pessoas não-brancas (NAACP). A abordagem não é nem didática nem simplista, portanto, para uma compreensão profunda, é exigido da expectadora um conhecimento que vai desde uma noção histórica do que é negritude, quanto da vivência "aqui e agora" pós-colonial.

à esquerda temos Lupina Nyong'o (Nakia) e, à direita, Letitia Wright (princesa Shuri)

Um dos milhares de aspectos apaixonantes é a atenção dada ao quesito solidariedade, tanto para com aqueles de quem discordamos, quanto dedicando bastante tempo em tela para imagens em que vemos pessoas negras exercendo empatia entre si. A mensagem é unívoca: não há justificativa para ser empático para com os colonizadores, porque o nosso esforço coletivo deve ser direcionado para "curar nosso self", para o futuro e para a nossa reconstrução. Contudo, "não criar barreiras" é um mote muito importante para o tempo sombrio em que vivemos e confere as ferramentas para vislumbrar o futuro. Isso foi apresentado de forma mais do que satisfatória: exemplar.


Futuro aliás, define a nação mais avançada do Universo Marvel: Wakanda, estruturada por um metal alienígena (Vibranium), mas não por isso, redutora da habilidade, sabedoria e inventividade da população das cinco tribos fundadoras. Se temos numa cena pós-créditos de X-Men um mutante como responsável pela construção de pirâmides no Egito, em Wakanda temos, em vez duma negação deste discurso eurocêntrico, uma exaltação da excelência negra (#blackecxellence) que não precisa viver em função do mundo branco, menos ainda de sua permissão.


A naturalidade como é exibida a tecnologia wakandana desloca o modo de avaliar a suposta distinção entre sociedade simples e complexa. Na nação comandada pelo Pantera Negra, temos a união da tradição e da tecnologia, ampliando aquela ideia de África meramente mágica. Se para a maioria daqueles que se consideram Ocidentais há uma oposição hermética entre ciência e "pensamento mágico", Wakanda representa uma perfeita compreensão de que a transmutação da natureza em favor de humanos não precisa ser selvagem, isto é, predatória, colonizadora e egoísta. Noutras palavras: existe alternativas ao capitalismo.

Outro ponto positivo para clamar Wakanda pra sempre é representar uma tradição em que o questionamento, a mudança e o bem-estar coletivo se sobrepõem aos desejos individuais, sem reprimir ou minimizar sua importância. Apesar de monárquica, Wakanda exerce uma utópica soberania do povo.

Orgulho de ser Negra numa só imagem: Lupita Nyong'o na premier de Pantera Negra expressou a excelência negra (charme, empoderamento e uma nobreza inspiradora!)

ELENCO, NEGRITUDES E MULHERIDADES MIL
A sofisticação de Pantera Negra atravessa fronteiras inimagináveis se tomarmos como medida os filmes de super-heróis do universo cinemático da Marvel (MCU). Primeiro que o arcabouço de valores morais, políticos e estéticos são performados de formas diversas, por pessoas que são únicas, com histórias, emoções e experiências que fazem delas importantes. Em diversas passagens do filme, o humor serve como um dispositivo que confere capital vital (não usarei o termo humanização por motivos de #BlackVegansRock) sem precisar dizer que "as vidas negras importam", porque elas são vividas ali como importantes. Cada piada mostra uma dimensão das personagens para além do corpo biológico, e, com isso, confere o sentido de que esses corpos são tão valiosos pra os indivíduos em si mesmos quanto para os demais.

Também cabe destacar a pluralidade étnica que constitui o mundo negro, em especial, a sutileza em que temos as estrelas renomadas, lado-a-lado às que estão em ascensão: Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Angela Basset, Letitia Whight, Michael B. Jordan, Daniel Kaluuya e Forest Whitaker. Este elenco oferece uma miríade de biotipos, timbres de voz, corporalidades que mostram a pequenez dos discursos coloristas (da vida real) em face da necessária quebra da imagem unívoca da mulher negra de caráter forte como uma badass. O rompimento é certeiro por mostrar mulheres fortes em dimensões também físicas, mas morais, intelectuais e, ainda assim, divertidas e divertindo-se. O amor também permeia suas existências e infunde sentido à luta, aspecto que define as Dora Milaje, dando destaque a sua general Okoye, interpretada pela Danai Gurira.

Outra pessoa que inspira um amor incondicional por sua leveza, humor e autenticidade é a irmã mais nova de T'Challa, a princesa Shuri (Letitia Wright). O fato de ser uma jovem cientista altamente qualificada e com recursos ilimitados, responsável pela tecnologia dos equipamentos do Pantera Negra, ela é totalmente descontraída. Em seu contexto, não é necessário provar sua capacidade a ninguém e, pra ser sincera, sequer existe o estereótipo dum Einsten como paradigma de cientista.

Outras performances de mulheridade em Pantera Negra são (apesar de cis gênero e heterossexuais, tal como um filme da Marvel!) importantes para ampliar a ideia de que podemos lutar por nossas causas, sermos guerreiras, espiãs, cientistas e mães sem estarmos necessariamente acorrentadas à continuidade de sexo biológico e função social. Evidentemente, em Wakanda, existe uma distinção entre os sexos, mas o protagonismo de Nakia, Okoye e Shuri mostram que isso não é limitador. Nenhuma delas é donzela em perigo, mas a preocupação em fazer delas mais que músculos e rigidez foi completamente assertiva.

Pantera Negra e Killmonger encarnam uma dicotomia real

DESAFIOS DA DIÁSPORA
Numa dimensão narrativa, a negritude como tópico de discussão é completa. Jogar o holofote nos trailers em sequências de Ulysses Klaue (Andy Serkis) e na aliança deste com Killmonger (Michael B. Jordan) foi uma excelente estratégia de construir expectativas, jogando uma premissa conhecida. Entretanto, o poder real de centralizar masculinidades negras conferindo-lhes sentimentos, causas e visões de mundo sobre o futuro da negritude, abre o debate sobre "o que é negritude autêntica". Como nós sabemos, ser negro é muito mais que ter a pele pigmentada e traços diacríticos; A consciência histórica é um fator determinante para o modo de interpretar a realidade e de vislumbrar o futuro. Eu achei particularmente catártica a demonstração de que o real só é acessado a partir da interpretação humana.

Não há espaço neste filme para pedestais políticos, nem para celebração de continuidades. A reflexão demanda que esqueçamos soluções fáceis, conhecidas e convencionais. Usar ferramentas para criar novas fundações é urgente, mas sabendo reconhecer que violência, toxidade e ódio não são chaves efetivas de transformação. Ao revelar o pior dos sentimentos que nosso corpo social carrega - mas não porque quer - o filme Pantera Negra representa em maior medida o que há de melhor em nós.

Perceba que usei "demonstração" no intuito de enfatizar o quanto o filme cumpre seu papel estético e político sem explicações. Não há lugar em Pantera Negra para o mediano, sequer para o simplório, porque é pura e simplesmente a excelência negra: aquilo que há de melhor produzido e inspirador, aquilo que nos infunde do poder simbólico clamado há tempos. E, por hora, não canso de pensar nas palavras mágicas que nos transportam para um futuro promissor: WAKANDA. PRA. SEMPRE.

7 comentários:

  1. Ótima critica fugindo do lugar comum e dando profundidade ao assunto "cor", assim como os personagens do filme tem profundidade, principalmente as mulheres sem meias palavras, assertiva em tudo com seu texto, assim como foi a perola negra do diretor Ryan Coogler, que fez um filme memorável e espero o inicio de uma evolução!
    Ganhaste um novo e fiel leitor, continue o bom trabalho.

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  2. Anne,
    Adorei o texto, em especial a madura sofisticação de como você analisa os itens, elenco, mulheridade e diáspora.
    Muito sucesso, sempre!
    Edileuza

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  3. É um excelente filme (fica fácil entre o top 3 de super heróis da última década), mas tem os problemas que todos filmes de super heróis têm. A batalha final achei chata e meio sem sentido, os personagens todos são inteligentes como para terminar se matando daquele jeito no final. Mas acho que tudo isso é mais pressão dos produtores que do roteirista ou diretor. Outra coisa que me incomodou é que eles são um povo com tecnologia avançada e socialmente avançados, mas o sistema político de escolher o líder com uma luta é idiota para uma sociedade evoluída como aquela.

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    1. Eu discordo de você sobre a questão das batalhas políticas, seja a ritual para escolher o Pantera, seja a final (que é chata mesmo). Lembre que , no fundo, Wakanda ainda é uma teocracia e forjada encima de valores ancestrais. A batalha entre os chefes de clãs é uma forma de mostrar a vontade da deusa Bastet (aliás, acho que em algum momento ela devia ter aparecido no filme). Já a batalha final, embora fraca em termos visuais, faz sentido em questão de humanidade. Killmoguer trouxe um novo caminho a Wakanda e muitos o compraram. Faria sentido eles sentarem e debaterem? Não. Claro, eles são realmente mais evoluídos, por isso a batalha foi relativamente rápida, só até perceberem o erro.

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  4. Eu gostei muito do filme, como não gostar. Foi maravilhoso do inicio ao fim. E concordo com todo o texto. Fazendo uma pequena adição.
    O último arco foi o mais fraco, principalmente na total previsibilidade do que iria ocorrer. O pantera iria cair para então se reerguer ainda mais forte.Se prestar atenção ao longo do filme existe um esforço muito grande para mostrar que o Pantera nunca matou ninguém, acentuando que ele é um Herói.
    Isso não é uma critica ao filme em si, mas a forma da Marvel produzir filmes, que possuem esse estilo.
    Ainda assim foi o melhor filme de heróis em anos.

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  5. Eu senti falta da presença da deusa Bastet. É uma teocracia, afinal. Poderia ser uma oportunidade para representar as religiões animistas.

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  6. Primeiro texto que leio do site e adorei a análise! Texto completo e complexo! Passarei a acompanhar!

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