Monstros, robôs e a natureza humana

No mundo da ficção científica, robôs, carros voadores e naves espaciais são lugar-comum, mas por trás dessa exuberância tecnológica, estão grandes discussões filosóficas e sociais, como da natureza humana, do tratamento de minorias e do lugar da mulher na sociedade.


Por Anna Gabriela Teixeira

Já em Frankenstein, lançado em 1818 por Mary Shelley, considerado por muitos como a primeira obra de ficção científica a existir, temos uma bela reflexão sobre esses temas. O monstro criado pelo Doutor Frankenstein só é visto assim pela sua aparência, apesar de alegar ter bons sentimentos e desejar fazer parte da sociedade, que o rejeita e ataca, mesmo após salvar uma jovem do afogamento. A criatura acaba excluída de todo convívio humano, renegada por seu próprio criador, e pela sociedade, tornando-a um monstro de fato, em busca de vingança contra uma humanidade que nunca a aceitou.

A criatura chega a sugerir que seu criador lhe faça uma mulher, como forma de tirá-lo da solidão e, em troca, promete nunca mais fazer mal a nenhum ser vivo. Frankenstein concorda com a proposta, porém, em um momento de lucidez, ele se questiona: “E se ela não concordar com o acordo feito antes mesmo de sua criação?”. Em uma óbvia referência ao Gênesis, Mary Shelley contesta a função de servidão da mulher e lhe dá o direito de escolha, ainda que esteja representada na forma de um monstro, reforçando ainda mais a alegoria de que “o monstro”, na verdade, são os excluídos da sociedade, como negros, mulheres, dentre outros

O clássico Frankenstein de Boris Karloff

Outro criador de monstros é Isaac Asimov, que, ao conceber as três leis da robótica em 1950, na obra Eu, Robô (que inspirou uma polêmica adaptação cinematográfica), estabeleceu a forma como vemos robôs e androides nos dias de hoje: seres dotados de inteligência e capazes de raciocinar por conta própria, porém, incapazes de sentir, o que os diferencia de nós. Seu conto Reason gira em torno da história do androide Cutie, que começa a questionar sua origem, mas nega todas as explicações dadas pelos homens que trabalham junto dele. Cutie chega, inclusive, a parafrasear o filósofo Descartes ao concluir: “Penso, logo existo”. O androide se torna, então, um fanático religioso que acredita ter sido criado pelo motor da nave onde trabalha, e assume uma função de profeta, convertendo outros androides.

Nota-se que Cutie não quebra nenhuma das leis da robótica e, de fato, é uma máquina criada pelo ser humano, mas, sua racionalidade nos faz questionar se é realmente justo, ou ético, tratá-lo como uma simples máquina, indigna do tratamento dado aos humanos. Em diversas outras histórias da compilação de contos que formam Eu, Robô, os androides se revoltam pela forma como são tratados como criaturas inferiores cuja única função é servir, e passam a atacar seres humanos. Assim como o monstro de Mary Shelley.

O nem tão clássico Eu, Robô de Will Smith

A série da HBO Westworld, uma obra recente, baseada no filme homônimo de 1973, acompanha a rotina de um parque de diversões que simula o faroeste norte-americano. Nesse parque a população é composta por robôs que acreditam serem humanos em um mundo real, e os visitantes são seres humanos - majoritariamente do sexo masculino - que vão ao parque se divertir em uma simulação digna dos filmes da Trilogia dos Dólares.
O comportamento dos visitantes beira a anarquia, com direito à assaltos, assassinatos e estupros. Toda noite é preciso apagar a memória dos robôs, como forma de destruir as lembranças das violências que suportam diariamente e, assim, mantê-los na ilusão de sua realidade. É uma espécie de Caverna de Platão futurista.

Na série, eventualmente, alguns dos androides começam a encontrar pistas de que algo está errado, até que a cafetina Maeve (Thandie Newton) consegue escapar do parque e entrar na parte de produção e restauração de androides. Lá, Maeve encontra um funcionário, Felix Lutz (Leonardo Lam), e o questiona para saber como ele tem certeza que é humano, e sua resposta é: “Eu nasci. Você foi criada”. Mas isso realmente é suficiente para nos tornar donos dessas criaturas que pensam, sentem, falam e agem como nós? E se nascer é o bastante para nos tornar humanos, o que nos difere de outros animais, que também nasceram e ainda sentem dor, medo, alegria?

Não há como esquecer, também, a influência de Philip K. Dick e seus questionamentos a respeito do que é a realidade e qual é o seu valor. Ele aborda essas questões em obras como We Can Remember It For You Wholesale, que deu origem ao filme O Vingador do Futuro e seu remake de 2012, e Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?, que originou o cultuado filme Blade Runner e sua continuação Blade Runner 2049.

Schwarzenegger em O Vingador do Futuro

Tanto os personagens de Dick quanto os robôs de Westworld não sabem se o que vivem é real ou ilusório, nem se eles próprios são reais ou apenas máquinas. O que os move é a busca pela verdade a respeito de sua existência, mas nenhum deles duvidam da veracidade de seus sentimentos e desejos, o que os intriga é a sua origem e o mundo que os rodeia. Em Philip K. Dick não é possível atingir essa realidade “final” e objetiva do mundo, enquanto que em Westworld essa possibilidade existe, porém, quando Maeve tem a chance de escapar de sua ilusão, no fim da primeira temporada, e ir para a “realidade”, ela desiste, preferindo viver em uma ilusão familiar do que encarar uma realidade desconhecida.

Como é possível notar, além de questionar filosoficamente o que nos torna humanos, há a problematização de como nos tratamos enquanto humanos. Mary Shelley aborda questões sociais de seu tempo, e, infelizmente, ainda atuais - ao criticar o tratamento da mulher, e outros setores excluídos da sociedade, e questionar o que forma um monstro. Já em Westworld, apesar de uma maior diversidade de elenco em relação à média da televisão americana, podemos dizer que a série peca na retratação das mulheres. Dolores (Evan Rachel Wood) é violentada constantemente pelo personagem de Ed Harris, The Man In Black.

Se, por um lado, é compreensível esta retratação pela época em que Dolores supostamente vive, por outro, o uso do estupro como forma de castigar personagens femininas e adquirir profundidade de desenvolvimento no roteiro tem sido recorrente na cultura pop, inclusive na própria HBO, como em Game of Thrones, onde Sansa se ”fortalece” graças aos estupros que sofreu, uma verdadeira romantização do abuso sexual. Já Maeve, que é negra, trabalha em um bordel, reforçando a sexualização do corpo negro, e mesmo Charlotte Hale (Tessa Thompson), outra personagem negra, sendo uma diretora executiva, é retratada de maneira mais sexualizada que outras personagens, como a própria Dolores, ao encarnar o papel de femme fatale e protagonizar cenas de nudez e sexo na série.

Asimov e Philip K. Dick focam mais em questões filosóficas e menos em questões sociais. Embora existam personagens femininas não estereotipadas protagonizando muito dos contos de Asimov, algo muito diferente acontece com outros autores de ficção, como Philip K. Dick - basta ver a forma como mulheres são retratadas tanto em O Vingador do Futuro quanto em Blade Runner e Blade Runner 2049.

Blade Runner 2049

Asimov é um exemplo de alguém otimista dentro do universo sci-fi, prevendo um futuro próspero, onde a ciência é usada para o bem, os problemas de suas histórias costumam acontecer por erros de programação e por consequências não imaginadas do uso de androides. Enquanto isso, Mary Shelley prevê um mundo aonde o homem é levado à ruina pela sua própria soberba, ao tentar criar a vida, e o final para aqueles que são monstros para a sociedade é trágico, não há salvação.

Philip K. Dick imagina um futuro distópico, dominado por um capitalismo predatório que irá minar a nossa capacidade de distinguir o sonho da realidade, tornando o conhecimento e o contato com criaturas vivas e experiências reais uma exclusividade dos mais ricos, enquanto o restante da população deve se contentar com simulações. E em Westworld, há uma esperança para os androides, caso consigam escapar de seus mundos de ilusão e chegar à realidade objetiva, ou aquilo que nós acreditamos ser a realidade.

O que nos torna humanos? De onde vem o nosso direito de criar a vida, e usá-la ao nosso bel-prazer? O que é a realidade? Ainda são questões que discutiremos em muitos anos por vir.

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