Entrevista Laila Garroni do Evoé Collective: a gente precisa se fazer visível

Exaltação ao corpo, relação com viés sexual, malandragem e ilegalidade. Provavelmente você já visualizou estas nuances em personagens brasileiros em filmes estrangeiros. Além da baixa representatividade, não é difícil encontrar atores de outras nacionalidades interpretando estes papéis, tornando ainda mais difícil a tarefa dos aspirantes brasileiros que buscam uma chance de representar seu país sem o famigerado estereótipo.

Cansadas dessa concepção unilateral duma suposta latinidade, quatro mulheres brasileiras criaram em Nova Iorque a Evoé: um coletivo cultural que busca a mudança desse entendimento, além de promover a arte do Brasil mundo afora.



Bárbara Eliodorio, Isabella Pinheiro, Laila Garroni e Ma Troggian: fundadoras do Evoé Collective
Fonte: Evoé Collective

Por Débora Machado

Bárbara, Isabella, Laila e Má rumaram em períodos distintos à Nova Iorque em busca de conhecimento e impulso para suas carreiras artísticas. Se encontraram e, a partir de uma motivação em comum, tornaram realidade este movimento que completou seu primeiro ano em julho.

O grupo iniciou com o projeto “Brazil Reads Brasil” que são eventos que promovem a leitura cênica de obras brasileiras em inglês, tornando-as mais acessíveis ao público internacional. A primeira apresentação foi baseada no clássico Sete Gatinhos, texto de Nelson Rodrigues, que levou a Evoé a seis indicações ao Brazilian International Press Awards 2018, sendo vencedora na categoria de Melhor Produção Local.



Leitura Cênica de Sete Gatinhos, de Nelson Rodrigues, pela Evoé

Fonte: Evoé Collective

Avançando a passos largos, o coletivo acaba de filmar seu primeiro curta-metragem, o qual foi escrito e dirigido por uma das fundadoras do grupo, a atriz e produtora Laila Garroni. Stand Clear of the Closing Doors é a primeira incursão da gaúcha como Diretora, em um filme baseado na sua própria experiência: um caso de racismo sofrido em seus primeiros meses nos Estados Unidos.

Conversamos um pouco com Laila sobre a Evoé Collective e seus pensamentos a respeito da representação da arte brasileira fora de nosso país.

PNBH: Em um ano, a Evoé já percorreu muitos passos e com sucesso: teve obra premiada, está em fase de pós-produção do primeiro curta... Como tu analisas a jornada do coletivo nestes primeiros 12 meses?
Laila Garroni: Eu vejo a jornada deste coletivo como uma prova de que quando tu achas a tua voz, as coisas parecem se desenrolar facilmente. Eu não sabia que este seria o meu fim aqui em Nova Iorque, que eu criaria um coletivo, que eu traria peças de teatro para cá, que eu estaria escrevendo um curta. Todas essas coisas foram acontecendo de forma orgânica e a cada novo evento, projeto que começamos a fazer, a forma natural que as coisas foram desenrolando, as pessoas que atraímos, as parcerias que fizemos, vinham sempre como um recado do universo dizendo que: “vocês estão no caminho certo”. E faz só um ano e isso é muito louco... Pensar nas coisas que a gente já conquistou, nos trabalhos que a gente já desenvolveu em 12 meses, mas eu acho que isso tem uma relação de que Nova Iorque é carente de arte brasileira, de história brasileira. E acho que a gente ouviu esse chamado e atendendo uma demanda que a gente acredita que exista, um espaço que existe para a arte brasileira.


PNBH: Há peso em ser a única Negra do grupo? Como tu enxergas o teu papel na inclusão da realidade da mulher Negra na Evoé?
Laila Garroni: Eita! Essa segunda pergunta aí é f... Há um peso muito grande, na verdade, agora eu vivo um dos momentos de mais crise em relação a isso. Como a gente é um coletivo muito ligado a questões de minorias, sociais, a gente tem muito cuidado com os trabalhos que escolhemos, com quem a gente escolhe trabalhar, e eu sou a voz do negro dentro deste coletivo. Eu sou a voz que fala o “isso não é legal”, “não pode falar assim”. Então, eu me sinto, constantemente, educando, e isso é exaustivo. E é... Até existe uma coisa na qual, muitas vezes, eu me pego me questionando... As meninas costumam falar: “que o jeito que tu fala é muito grosseiro" e eu recentemente comecei a trazer muito à tona a relação disso com a questão racial. E eu chego a me perguntar “se eu tivesse num coletivo de mulheres negras, será que o jeito que eu falo seria um problema ou uma questão?”. Ao mesmo tempo que é exaustivo, que tem essas questões que a gente se estranha, que eu tenho que falar “ó pera aí, pera aí...”, ao mesmo tempo é, pra mim, um exercício que, na verdade, a gente precisa fazer porque eu acredito que é muito f... admitir isso, mas a gente vive num mundo que ainda é comandado por pessoas brancas e saber se infiltrar nesse mundo e saber comunicar nesse mundo é uma coisa que a gente tem que fazer um esforço. Porque é só infiltrado que a gente vai conseguir mudar essas coisas. Então, por mais cansativo que seja isso, as meninas são muito conscientes em várias questões e não tão conscientes em outras. Mas elas têm uma predisposição a ouvir e isso, pra mim, já é o suficiente. Querer que as pessoas não sejam racistas de uma hora pra outra, não sejam preconceituosas de uma hora pra outra é muito ingênuo, acho que é um trabalho que é feito assim, nas relações humanas. E eu gosto que a gente não tem medo de debater cada questãozinha que aparece até o fim, sabe.. Porque mostra que a gente quer evoluir, por mais que a gente tenha nossas limitações, por mais que elas tenham as limitações delas como mulheres brancas, elas têm comprometimento em querer evoluir e querer mudar, e isso pra mim já é um primeiro passo.


Laila Garroni é também graduada pelo Studio Stella Adler de Nova Iorque 
Fonte: Facebook



PNBH: Vocês pensam em fazer algum projeto com grupos e artistas que estão produzindo no Brasil?
Laila Garroni: Este curta metragem que eu escrevi, dirigi, produzi e atuei (primeira e última vez que faço isso - risos), nasceu de uma situação que aconteceu comigo aqui em Nova Iorque. Primeira vez que eu encontrei um racismo mais descarado. Eu estava cuidando de uns gatos de uma amiga e quando eu fui entrar no prédio uma mulher me viu e eu estava tentando achar a chave. Eu não conseguia achar a chave e essa mulher começou a puxar papo. E o papo foi, foi, foi e, na verdade, ela só estava querendo se certificar de que eu não estava ali querendo roubar o apartamento, o prédio...  E eu confrontei ela nisso, eu falei pra ela que eu estava vendo o que estava acontecendo e que ela podia entrar, que eu tinha a chave. E eu comecei a viajar na ideia de como seria a conversa entre eu e essa pessoa...e se ela fosse me pedir desculpas. Tem essa primeira parte que é verídica e tem essa segunda que eu criei pra ver como seria essa comunicação, esse pedido de desculpas. Não vou contar se a minha personagem aceita ou não esse pedido de desculpas. O objetivo é levantar um questionamento sobre onde a conversa sobre o racismo para, onde ela fica presa. E, pra mim, tem uma coisa que é a dificuldade de a pessoa branca reconhecer algumas ações dela como racismo. Então, essa personagem branca vai pedir desculpa não porque foi racismo, ela vai pedir desculpa porque ela acha que foi um mal-entendido e a questão toda se desenrola ao redor disso. Pra mim, essa questão toda de dirigir, atuar foi exaustivo e é um reflexo de como ainda a gente precisa se unir e se colocar em posição de comando. Eu tentei procurar uma diretora negra brasileira para dirigir e não consegui achar. E isso fala muito da nossa experiência no mundo, pelo menos é como eu me sinto. Por exemplo, eu tenho uma ideia, quero comunicar essa história e eu que tenho que fazer acontecer: eu tenho que produzir, atuar, fazer faxina, limpar, arrumar porque senão não acontece. E a nossa necessidade de contar nossas histórias tem que ser muito maior do que qualquer dificuldade que a gente venha a encontrar no caminho, porque a gente precisa comunicar nossas histórias, a gente precisa se fazer visível, pra mim é uma emergência do agora.



Para saber mais sobre a Evoé Collective e acompanhar seus projetos, siga o grupo:





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