Afinal, a Capitã Marvel te representa?

Afinal, a Capitã Marvel te representa?
Capitã Marve, Carol Danvers

A maioria das críticas negativas ao filme Capitã Marvel partem do esvaziamento do termo representatividade para diminuírem a força, a importância ou a qualidade estética do filme. Por esta razão, convido vocês para uma conversa longa sobre o que é representatividade e o lugar do filme nesta discussão.

A TAL DA REPRESENTATIVIDADE
É contraditório pensar que filmes de heróis "padrão", que foram desenvolvidos ao longo da década, no MCU, não trazem a representatividade como o tema. Isso acontece, não apenas porque neutralidade é uma falácia, mas pelo fato de que representar significa substituir um objeto real por linguagem, e fazer uso estético, político ou científico dele. O que é representado passa pelo filtro de percepção, objetivo, interesse e poder de quem representa (SPIVAK, 2010). E isso é sempre, não apenas quando grupos minorizados representam.

Num mundo desigual, quem pode representar, geralmente substitui e fala por todos. Exemplo disso é  o fato de Zakk Snyder ser diretor, produtor executivo e tudo o que envolve decisões, mesmo com fracassos de bilheteria do DCU. As histórias que ele conta, sob o olhar que ele representa, são valorizadas, legitimadas como "histórias que valem a pena serem contadas", diferente da original Netflix One Day At A Time (cancelada em 2019). Ou de filmes protagonizados e dirigidos por mulheres, que são cobrados por pessoas que se sentem muito superiores às profissionais.

Histórias de dor, sofrimento e superação vividas por homens brancos são uma presença maciça nas grandes mídias e têm como objetivo informar que eles existem de múltiplas maneiras, e que "podem tudo, sim". Se não tiverem poderes, têm dinheiro; ou são herdeiros pródigos de um trono, e, mesmo sendo prisioneiros, as coisas vão dar certo pra ele em algum momento. A vitória é inerente à experiência de serem quem eles são.

Ou seja, essas experiências falam com as pessoas, são representativas pra elas; assim, toda vez que vestem o emblema do herói favorito, os rapazes se sentem identificados com a dor e com a força deles. Podemos arriscar dizer que o arquétipo do herói, ao ser ficcionalizado, trata exatamente da representatividade como tema, ao menos, desde a Odisseia, pois, como sabemos, o protagonista reunia os valores mais elevados daquela sociedade e deveria representar (falar por, substituir) todo o povo grego e ditar diretrizes. Curiosamente, representantes estéticos são sempre políticos, e, esteja você querendo ou não entender, isso também é um alinhamento político.

Quem não conhece gente que se identificou super com o vilão abusador, e desprezou a heroína?
"Hã? E nunca sei se alguém está fazendo o que quer, ou se estão fazendo o que mandei fazer!"
(Killgrave em Jessica Jones)

Como disse a Rebeca Puig, se você tirar a repetição do tema de Batman: Begins, o filme perde o sentido. A repetição intencional é usada como ferramenta pra criar um clima, pra dar o tom do devir Homem-Morcego. "Não entendo" por que com a Capitã Marvel seria diferente.

Acrescento que, se tirar do tema o fato de Bruce Wayne ser um rapaz branco e rico, a história não existe; o personagem vivencia a sua história no próprio corpo. Quando falamos de narrativas, estamos tratando das contradições vividas no meio social, e ninguém está isento da historicidade, nem o Tony Stark se reposicionando no mercado.

EXPERIÊNCIA UNIVERSAL VERSUS A ESPECÍFICA
Dito isso, podemos observar que a maioria dos filmes de super-heróis tem uma camada bastante naturalizada que eu vou chamar de "recompensa por ser quem é". Existe um holofote despejando a luz no "escolhido", que "mereceu" os poderes, e que, por mais desconfortável que ele esteja, para "nós", parece estar sempre no lugar certo. Com o decorrer da narrativa, ele pode receber benefícios materiais e emocionais que parecem ser porque ele é "bom", mas não passam duma mistificação da meritocracia.

"EU MERECI"

As roupas caras, os apetrechos tecnológicos e todo o saber científico, parece que "combinam", porque "cabem no modelo" de expectativas. Exemplo disso é um rapaz loiro e rico ser o grande herdeiro duma cultura tibetana, dizendo no subtexto que nenhum tibetano é capaz de portar o super-poder; outro rapaz branco "pode" ser traumatizado e punir àqueles que considera "bandidos" porque ele acha  que o sistema de leis é ineficaz (Demolidor, Batman, Justiceiro...); por fim, também temos aquele senhor das armas que, ao decidir se tornar a própria arma, dá importância ao próprio ego e autoriza a si mesmo a invadir outros países com a desculpa de "proteger os nativos deles mesmos". Até aí "tudo bem" para muita gente, mas se uma garota Negra assume qualquer uma dessas funções, as coisas mudam.

Exemplo disso é que, nos quadrinhos, o Capitão América convidou a Mônica Rambeau a liderar os Vingadores em Avengers #279 (maio de 1987), e, homens desconstruídos de hoje, como o Thor, desejam retirá-la do cargo porque não aceitam serem comandados por uma mulher. Ela é punida obviamente por ser mulher, não apenas isso, como uma mulher Negra.

Avengers #279 (maio de 1987) - Detalhe

Mais recentemente, temos a Riri Williams sendo "criticada" pelo fato de ter um blackpower e ele "não caber no capacete de Homem de ferro". Essa tensão entre a experiência "universal" e a  específica é resolvida quando entendemos que a diversidade é como o mundo funciona, e que ela não é pretexto para transformar a história em "gabinete de curiosidade", nem para alguém carregar o fardo de ser sacrificado em prol da motivação do protagonista "padrão". Ora, mais um exemplo de heroína "fora do lugar" é a Kamala Khan, Miss Marvel, que precisou superar toda a internalização do racismo e xenofobia que fez com que ela desejasse ser, literalmente, a Carol Danvers.

Eu sempre pensei que, se tivesse um cabelo espetacular, se ficasse bonita com umas botas legais,  se pudesse voar.../...Isso faria eu me sentir forte. Me faria feliz. / Mas o cabelo cai no rosto, as botas apertam.../ ...E esse maiô está entrando até onde não bate a luz do sol. (Trad. Rodrigo Barros e Rodrigo França)
Miss Marvel: Nada Normal, São Paulo: Panini, 2015. - Detalhe

É evidente que nos conectamos com qualquer personagem bem construído, e quanto mais camadas, mais ele representa a experiência humana de contradição, e de nuances. O problema é que só temos histórias contadas sobre a experiência vivida pelo corpo e identidade convencionado como padrão. Homens-cisgênero não menstruam, portanto, nas narrativas deles pra eles mesmos, isso, ou é irrelevante, ou é alívio cômico, e nós nunca vemos ser representado de forma com a qual consigamos nos identificar.

Antes que alguém queira perguntar "qual o problema em ser padrão, já que algumas pessoas estão inseridas nele, e elas não têm culpa", vamos reiterar que estamos criticando o discurso sobre a diferença e como ele influencia as nossas vidas, não as pessoas, ok? Mas se a reivindicação disfarçada de dúvida for sobre adaptação cinematográfica contradizer o cânone, aí a discussão é outra, e, sinceramente, não vamos falar disso agora.

"Capitã Marvel quer VOCÊ na Carol Corps"
Fonte: < The Kernel>

AFINAL, CAROL DANVERS TE REPRESENTA?
A Carol Danvers dos quadrinhos tem tudo pra ser uma supremacista, mas não simplesmente porque ela é uma mulher cisgênero loira, alta e forte; mas porque ela é movida pelo "privilégio da ignorância" de não ser racializada, portanto de não ter que pensar sobre o fato de o sistema prisional não ser neutro. Claro que muita gente branca é sensível à questão e também pode ser aprisionada (o Homem-Formiga exemplifica bem), mas sabemos que, no mundo real, a população negra vive o ciclo de ser presa por ser negra, não sair porque é pobre, e não ter emprego porque foi presa, como aprendemos no documentário a 13ª Emenda (2017) e no livro O que é encarceramento em massa? (2018). Vejam que somos historicamente punidas por sermos quem somos, enquanto avatares da justiça com superpoderes (ou super dinheiros) ascendem com mais facilidade e entram num ciclo de bonança ou, como no caso do Gavião Arqueiro, no mínimo, não terá nada subtraído por ser quem ele é,  e como é.

Nos quadrinhos, em especial na Guerra Civil 2, Carol representou um dos pólos das perspectivas e, com isso, passou a falar por muito mais gente do que ela compreendia, afinal, era uma Major Capitã Marvel.

Naquela época, ela namorava o Máquina de Combate, que é (ao lado do Falcão) um exemplo da contradição do mundo em que vivemos; habitar um corpo socialmente marcado como "diferente" não garante consciência e consistência dos valores e das ações. Por que uma pessoa negra apoiaria Carol na sua proposta de encarcerar pessoas consideradas "potenciais perigos"? Não faz sentido, mas essa falta de compreensão de quem se é, de onde está na pirâmide social é amplamente motivada por essa massificação dos valores encorpados por homens cisgênero brancos nas concepções estadunidenses que excluem a branquitude contextual de latinos, romenos, judeus, ou quem tem "1/8 sangue negro" (sobre isso, tem um episódio "ótimo" em The L Word), por exemplo.

O incompreendido Batman do Ben Affleck
O padrão é White, Anglo-Saxon and Protestant... E, se for pobre, seus pares mesmos os "jogam no lixo" figurado, como fica claro no filme Monster: desejo assassino (2003), sobre a primeira mulher serial killer dos EUA.

Na perspectiva abordada neste texto, de que representatividade é a elaboração do real em que o comprometimento, o interesse e o poder convergem, podemos afirmar que a personagem dos quadrinhos não nos representa, embora ela fale por nós, afinal, ela fala por nós, mas contra  nossos interesses e bem-estar. A política partidária brasileira tem usado bastante da ideia rasa de representatividade, isto é, como se os marcadores sociais (negro, indígena e mulher) fossem auto-evidentes, e bastassem pra comprovar um alinhamento de ideias. Ou a negação delas. Noutras palavras, representação estética, é sempre política.

Embora a representação não se resuma apenas à aparência física ou à identidade de gênero, classe e etnia, também não é unicamente dada pela experiência (SCOTT, 1998). Podemos tomar como exemplo a inspiração de Monica Rambeau, no filme, que se identifica com a Amélia Earhart, um modelo de mulher transgressora, que ao se tornar aviadora abriu caminho para as herdeiras saberem que o sonho é possível. Amélia era uma mulher não-negra, mas o seu modelo, na ausência de outro, forneceu um caminho para as herdeiras. Sinceramente? Tudo bem.

É saudável a identificação com pessoas e experiências diferentes das nossas; a empatia é uma prática que nos possibilita nos conectarmos umas às outras, o que é admirável. Isso não significa que devemos nos satisfazer com representação inadequada, seja de corpos cooptados agindo de forma contrária aos próprios interesses, ou que servem como pretextos para a descarga de vingança do protagonista; tampouco devemos simplesmente nos identificar com imagens de padronagem impostas. O ponto é que precisamos ter consciência dessas razões, em que ponto nos identificamos e o porquê.

Identificação é um tema complexo, mas passagens como essa esquentam o coração <3

Com base nos quadrinhos, podemos dizer que é um problema Carol Danvers falar por todas as mulheres e representar o "feminismo" sendo uma mulher alinhada com valores belicistas e com o Estado de exceção. É um problema inclusive porque não existe um sujeito representar efetivamente a todos os que pertencem a uma suposta categoria. Além disso, Carol interpreta o papel da salvadora branca (white savior),  um modelo desgastado que tem em vista representar uma moral superior, bem como superioridade física e belica, em relação àqueles que são oprimidos. Perceba que namorar ou ser amiga de pessoas negras não exclui o fato de Carol Danvers ser amplamente racista nos quadrinhos.

Vale lembrar que heróis tomam decisões por "nós" o tempo todo, a partir do fato de que eles são "super tudo" e nós, não. Curiosamente, se eles são mais fortes, parece que são naturalmente mais sensatos para agir a nosso favor, não? Não. Super-gente ainda é gente, ainda é movida por ideias, perspectivas e traumas. Inclusive o extremismo de Danvers na Guerra Civil é, em parte, reação ao trauma. Eu trouxe este fato pra avançarmos em relação àquela mentalidade maniqueísta; minha abordagem sobre a representatividade de Carol Danvers não é sobre bondade ou maldade, mas sobre a prática dela levar ou não em conta uma proposta de vida que considere a valorização de todos os seres, sem hierarquia e opressão.

Este ponto nos leva a uma das problemáticas que vivemos atualmente no mundo real: representantes políticos que pertencem a minorias sociais e vocalizam mensagens que vão contra os direitos e bem-estar do "seu povo" ou "sua classe" são representativos? Não. Obviamente.

A visão de mundo é o aspecto mais relevante quando tratamos de Representatividade, porque a definição de "experiência legitima", muitas vezes, é uma armadilha, afinal ela passa por filtros de interesse e de percepções individuais (quem não conhece um negro que diz nunca ter sofrido racismo?). Assim, cabe dizer que a representatividade é a concatenação de um conjunto de elementos e símbolos atravessados pela compreensão da historicidade deles.

Exemplo disso é o fato de eu ser uma Quiangala, e não sentir uma identificação  tão potente com a Shuri quanto a maioria das minhas amigas. Não me entenda mal, eu amo a Shuri, mas ela faz parte de um universo de total abstração das problemáticas que eu enfrento diariamente, está apartada do "mundo" e pertence a uma nobreza próspera; ao passo que a Maria Rambeau carrega em sua presença e compreensão do real a consciência do que é ser Negra nas Américas, e isso toca meu coração plantation memories. Shuri é menos legítima por isso? Não, de forma alguma. Significa apenas que a experiência de Maria fala diretamente sobre a minha, eu me vejo nela, eu sou ela.

Enquanto Killmonger representa uma masculinidade tóxica estrondosa, a catálise de Pantera Negra (2018), que levou muitos homens não-negros inclusive, a se identificarem, e muitos jovens negros a adotarem o visual e se sentirem empoderados, a discussão sobre  racismo e sexismo, bem como a luta antirracista ativa de Capitã Marvel iluminaram um caminho pra mim no MCU.

Maria Rambeau é divertida, borra as barreiras de gênero em várias direções (mãe solo, militar, heroína) e se mantém forte, importante e inspiradora mostrando que ter emoções fortes é um fato humano, legítimo e fortalecedor. Amo a compreensão histórica que Maria carrega e transmite como legado para Monica.

Mas o filme não é protagonizado por ela, não é?

Monica Rambeau: mini heroína

Confesso que fiquei muito apreensiva com o que poderiam trazer no filme da Carol Danvers, mas amei a forma como superaram os quadrinhos. Sem se apoiar naquela história de que Mar-vell ser loiro o tornava alvo de preconceito entre os Kree, o roteiro de Capitã Marvel está carregado de temas que vão, desde a liberdade do sistema de crenças sexistas até a função das pessoas brancas num "universo" racista. Nem isso, nem o fato da melhor amiga ser Negra faz de Carol uma pessoa não-racista, mas sua prática como heroína evidencia a reflexão orientada pela ação e a ação orientada pela reflexão. Carol Danvers sabe que a ação muda a realidade, e nisso, concordamos.

Talvez você acredite que sou uma "militante negra pouco radical" porque quero fazer parecer que me sinto mais representada por Carol do que pelo Pantera Negra. Mas, talvez o que você não saiba é que, depois de ler Kindred, tenho uma clareza forte a respeito de "eu existo" ser diferente de "migalhas". Uma visão do mundo sem racismo é essencial,  uma abstração importantíssima, aliás, mas dois homens lutando por poder, não é uma experiência que conversa tanto comigo, quanto a de duas heroínas lutando juntas para libertar um povo oprimido que só deseja viver em paz. Isso não é sobre identificação com pessoas verdes pesar mais pra mim, mas sobre o poder desta metáfora junto ao fato de que, quem liberta efetivamente e, quem dirige o avião? Eu  liberto, eu dirijo o avião!

Dora Milaje, o exército wakandano, é uma presença incrível em Pantera Negra, exceto pelo fato de apanharem do Killmonger.

Assim, posso afirmar que Capitã Marvel, o filme, representa a minha experiência, minha visão de mundo, meus objetivos e onde eu deposito meu "poder" de dialogar (digamos que este texto é meu capital intelectual, capital tempo e as minhas emoções). Danvers é o avatar de uma visão irrestrita de liberdade, direito à vida e do uso de seus recursos e competências para a construção da Utopia, então, sem dúvida, ela representa alguns dos meus interesses e objetivos, mas não o meu "poder". Por outro lado, o filme entregou em Maria toda a minha vontade de mudança e objetivo, mas como militar, isso exclui parte do que acredito e desejo. Neste "ir e vir", fato é que seu o núcleo é incrível, ela fala por mim, sem ressalvas, neste filme.

A quebra da programação feminina de Carol só foi possível porque ela é empática e capaz de se conectar com pessoas diferentes dela. Isso é mostrado como natural, não um favor ou resultado de culpa branca. Então o filme é uma grande dose de sororidade, propõe a elevação de valores historicamente associados ao feminino e, como tal, diminuídos. Tornar-se mulher, ter uma mão que puxa sua cabeça pra trás, o shot de Gaslight de cada dia, lutar ao lado das minhas amigas pela concretização da Utopia de uma sociedade pacífica e confortável para toda a coletividade? Sim. Isso super me representa.

TEXTOS CONSULTADOS
BENDIS, Brian Michael et al. Guerra Civil II (1-6). São Paulo: Panini, set, 2017-fev. 2018.
JODELET, Denise (org). As representações Sociais. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2001.
KILOMBA, Grada. Plantation Memories: episodes of everyday racism. Budapeste: Unrast, 2010.
QUIANGALA, Anne Caroline. A fantasia deles sobre nós: a representação das heroínas negras nos quadrinhos mainstream da Marvel. 2017. 313 f., il. Dissertação (Mestrado em Literatura)—Universidade de Brasília, Brasília, 2017.
RUSS, Joanna. To write like a woman: Essays in feminism and science fiction, 1995.
SCOTT, Joan. A Invisibilidade da Experiência. in Revista Proj. História , São Paulo (16) fev, 1998. Disponível em: <hrevistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/11183>.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010

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