[Mortal Kombat XL] D'Vorah e a metáfora do contágio racial

D'Vorah é uma personagem que apareceu,pela primeira vez, em Mortal Kombat X


No último mês, palestrei na Campus Party Brasília e discuti sobre a importância de pensar gênero e raça no mundo dos games. Foi um diálogo rico, em que muitas participantes mulheres se sentiram à vontade para expressar suas experiências, tanto na esfera profissional no ramo da tecnologia, quanto como gamers. Acrescento que, como crítica feminista, o ambiente não é tão animador. Os fãs de franquias como Mortal Kombat demonstram surreal brutalidade quando uma crítica aponta problemas discursivos como a violência gráfica contra a mulher - como se fosse possível separar o social do jogável ou de qualquer outra área da vida. Partindo da ideia de que o jogo faz parte do tecido social, porque é influenciado pelos discursos e também responsável por construí-los, me proponho a dividir com você minha reflexão sobre a personagem D'Vorah de Mortal Kombat XL. Se você observar a imagem acima, notará os elementos insetóides que norteiam minha hipótese de que a personagem D'Vorah é - dentre outras coisas -uma metáfora do contágio racial

>>>SPOILER!

Menu de coleções, em que temos a descrição de personagens (muitos são novos!) e um pouco sobre seus backgrounds.


Você nos enoja, criatura medonha!!!!

—D'Vorah para Kano em Mortal Kombat X Via Mortal Kombat Wikia


QUEM É D'VORAH?


"O exército do imperador ataca Mileena 
enquanto ESTA AQUI recupera o amuleto"
 (D'Vorah)
D'Vorah pertence a uma raça chamada Kytinn, metade humana, metade inseto, que habita a ilha de Amyek. Em Mortal Kombat X, cada personagem tem três variações primárias, e as dela são: Venenosa, Rainha Reprodutora e Rainha do Enxame. Ela é rainha dos insetos, de modo que, em variações ela pode disparar rajadas de insetos para levitar e ferir o oponente, bem como vomitar larvas e usar seus ferrões para perfurar e arrancar os órgãos. Aliás, seus ferrões aracnídeos, dada a forma fálica, dão uma tônica à representação do gênero da personagem, que é fortemente oposta à ênfase aos "atributos femininos", hipersexualização e - pasme - suas vestes impróprias para um torneio até a morte, como Mortal Kombat, combinadas com suas botas de salto alto. A necessidade de identificar D'Vorah, que é meio inseto, como mulher sedutora, revela que, por mais que a história privilegie as ações de heroínas, o público-alvo é necessariamente masculino e heterossexual. O comentário abaixo identifica a razão de ser:


Comentário numa gameplay 


Apesar de o jogo propor uma diversidade de personagens e, com isso, conduzir um discurso de pós-racialidade, é evidente que os estereótipos possibilitam que façamos o caminho inverso de identificar a racialidade. A percepção do individuo acima, acerca da aparência de D'Vorah, revela um ponto de ancoragem que corresponde à experiência específica de mulheres latinas, marcadas pelo colonialismo e dinâmicas complexas de hibridismo como prática cultural. O individuo "birracial" é constantemente representado como subversivo, problemático, insano. No que se refere à codificação de latinidade, há um tropo específico que reúne a : o "mulato trágico". Podemos associar o isolamento, as derrotas e adversidades vivenciadas por D'Vorah como índices desse estereótipo de latinidade.


"O engraçado , no entanto, é que  90% dos personagens não são terráqueos, então eles não tem "raça" porque, bem, eles não são humanos, ou são, no máximo, um tipo de humano"

E por falar em "mulata", "feiúra" e em "tipo de humano", cabe acrescentar que Mulata é um termo de origem colonial ancorado na ideia de entre-lugar, mestiçagem, métis, mestizo, que o IBGE classifica atualmente como "pardo", que somado à categoria "preto" determinar a raça/cor "negro". O termo vem da classificação das relações sexuais entre negros e brancos, materializada em seus filhos, que poderiam se distanciar da pigmentação epidérmica, mas não serem brancos. O colorismo indica que, tampouco podem se identificar como negros, apesar de muitas vezes serem "tratados como tal", uma confusão identitária que desaloja o individuo da possibilidade de pertencer. Durante a Segunda Guerra, na Alemanha, o termo "misturado" era usado com o sentido de degradação da "raça" ariana. Como a branquitude é tida como uma norma absoluta, principalmente em países que foram colonizados, o individuo "birracial" tem sido classificado como "bastardo" e como "fruto da relação entre mula e cavalo" (=mulato) que revelaria o pior de cada raça (KILOMBA, 2010).

"Estou feliz que a D'Vorah esteja representando as garotas amarelas"


Apesar da pele da personagem representar uma pigmentação fictícia, todas as atitudes e nuances de sua personalidade traiçoeira constituem uma essencialização identitária que constroem uma imagem unificada e genérica de latinidade. No modo história, observamos que D'Vorah esteve associada ao Shao Kahn, ao Baraka, à Mileena e ao Kotal Kahn e traiu a todos, no intuito de beneficiar a si e - presumimos -  ao seu povo. Sua gestualidade remete à ideia de exotismo, "malemolência" e sensualidade associada comumente às cantoras latinas, enquanto sua preferência por referir a si mesma na terceira pessoa ("Esta aqui..."), se aproxima do vernáculo negro.

O ferrão é a arma que faz de D'Vorah uma das mais perversas de Mortak Kombat XL


Angel Salvadore


Assim como podemos identificar nas cantoras latinas, há um investimento discursivo na imagem de D'Vorah como feminina, dona dum sex appeal e um dos tropos mais difundidos: a sexualização do corpo de tons oliva (oliver skin) e uma sexualidade cindida da afetividade. O primeiro comentário define a mensagem plasmada no corpo da personagem, enquanto o segundo tenta negar a racialidade e a reafirma. Por fim, o terceiro comentário evidencia que o jogador compreendeu a metáfora, de que D'Vorah representa uma mulher racializada, mas seu repertório não permite identificar os elementos de diferenciação de raça e gênero. Os insetos que ela controla e, em parte, habitam seu corpo, retomam a ideia de maternidade monstruosa que gera parasitas, semelhante ao que interpretações meritocráticas da realidade capitalista atribuem às famílias racializadas - em especial negras e chefiadas por mulheres-, que recebem auxílio do Estado. 

Um exemplo desse padrão é a personagem Angel Salvadore, que pertenceu aos X-Men e aos Novos Guerreiros (Marvel). A jovem é uma personagem negra com aspecto insetóide, que, ao se relacionar com um homem branco (Bico) e teve filhos com ele, deu à luz a insetos semelhantes a ela. Essa imagem é carregada de sentido de que, quando a divisão é atravessada, ocorre uma espécie de "contaminação racial" (KILOMBA, 2010). Se pensarmos nas palavras relacionadas à contaminação, não demoraremos a lembrar de "nojento", "desagradável" e "sujo", exatamente as palavras relacionadas à perspectiva racista ao se referir a indivíduos racializados, que, por serem opostos ao padrão de beleza física são interpretados pela ótica da branquitude como "feios, mas desposáveis" (BROOKS;  HÉBERT, 2006)

QUEERBAITING E RACISMO!


Outro elemento que corrobora a nossa leitura sobre a personagem é a passagem em que:

Depois que elas [D'Vorah e Cassie Cage] chegam à selva, elas encontram Rain e Tanya,e D'Vorah envolve ambos em combate.Depois que D'Vorah derrota os dois, ela planeja matá-los, mas é impedida por Cassie Cage. As duas entram entram na barraca para pegar o amuleto de Shinnok, só para serem descobertas por Mileena. D'Vorah enfrenta Mileena e a derrota, levando tanto o amuleto e Mileena para Kotal Kahn. Com a permissão do imperador, D'Vorah executa Mileena com um beijo mortal matando-a, alimentando seus inúmeros insetos parasitas. (Via Mortal Kombat Wikia).


O beijo fatal de D'Vorah


D'Vorah outrora serviu a Meleena, mas não exita em executá-la, quando Kotal Khan ordena que o faça. Enquanto, até então, ela havia matado seus oponentes principalmente com seu ferrão, ela beija Millena e transfere seus parasitas para o interior dela, que é consumida em segundos. Aquela oposição inicial entre a arma fálica e a hipersexualização, somada à autonomia e, por fim o beijo em Mileena codificam D'Vorah como personagem LGBTQ+ racializada. Seria positiva essa construção interseccional, se houvesse desenvolvimento de um arco afetivo como o de Jacqui Briggs e Takahashi Takeda, mas não passa de uma jogada midiática para gerar tensão sexual inconclusiva (queerbaiting).

Em Seguida, quando D'Vorah encontra Johnny Cage - o personagem masculino mais preocupado em performar heterossexualidade - ela "o contamina" com suas larvas, mas demonstrando certa repulsa e nojo por ele em si, e pelo que representa.


Família Cage, contaminada por "fatores externos  não-loiros".


A história de Mortal Kombat XL é centrada na família Cage. A relação entre ele e a General Sonya Blade, gerou a militar Cassie Cage. A relação próxima com o pai, que tenta agradar a todo tempo, e distanciada com a mãe que a trata com frieza, faz de Cassie a típica heroína indecisa, ineficaz e insegura. Ela lidera a equipe que vai pra Exoterra e, na ânsia de parecer uma "líder de verdade", toma decisões não somente equivocadas, como perigosas. Uma delas é buscar o amuleto de Shinnok junto à D'Vorah, contexto que, somado ao "beijo meio fatality" da Rainha Inseto na Mileena foi interpretado como tensão sexual pelo público. Isso tanto é fato, que encontrei essa "fanart":


Fonte: <www.tumbex.com/tumblr/xentho/photo/page/2?tag=Pose>. Acesso em 10 de julho de 2017.


CONCLUSÃO


Mortal Kombat XL é um jogo claramente interessado em manter sua base de fans (que cresceram com o debate sobre jogos influenciarem a personalidade nos anos 1990), mas também dialogar de forma rentável com os tempos atuais. Para isso, nada que um "épico moderno" marcado pela jornada da heroína... Branca (Cassie Cage), no Brasil, dublada por uma das personalidades que mais tem se destacado na mídia como pró-feminismo: a cantora Pitty. 

Essas escolhas progressistas são marcadas por uma negociação de discursos reificadores tais como o racismo engendrado e o queerbaiting como modo de não omitir a homossexualidade como experiência empírica. Sem dúvidas, a toxidade dos ambientes tradicionalmente reconhecidos como gamers, revela que o investimento em representar grupos sociais que não possuíam espaço e voz até então, é um passo significativo. Apesar disso, é imprescindível que o público continue a protestar e exigir que os jogos sejam produzidos por equipes criativas compostas por indivíduos de diferentes backgrounds e pertencimentos.

Assim como não existe pós-gênero e pós-feminismo, a ideia de pós-racialidade é uma falácia. A construção discursiva da personagem D'Vorah revela que, por mais que o objetivo da narrativa seja trazer diversidade étnico-racial e de gênero, o imaginário racista e sexista que classificam seu pertencimento racial e de gênero no campo da repugnância, ainda são maciços demais. Neste sentido, seguimos resistindo na esperança de avanços reais no modo de representar a latinidade queer nesta franquia tão querida.


Arte: Kaol Porfírio
"Julho é o mês da celebração da luta e da resistência da mulher negra. Marcadamente, o dia 25, representa o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. Durante todo o mês, núcleos e coletivos articulam entre si, campanhas de cultura, identidade e empoderamento dessas mulheres. 




TEXTOS CONSULTADOS

KILOMBA, Grada. Plantation Memories: episodes of everyday racism. Budapeste: Unrast, 2010.

BROOKS, Dwight E.; HÉBERT, Lisa P. Gender, Race, and Representation (2006). Disponível em: <www.corwin.com/sites/default/files/upm-binaries/11715_Chapter16.pdf>. Acesso em 10 de julho de 2017.

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