O Infiltrado na Klan e a verdade fundamental (Sem Spoiler)

O Infiltrado na Klan (Blackklansman, no original) é uma adaptação do livro autobiográfico de Ron Stallworth dirigido por Spike Lee (Ela quer tudo) e produzido por Jordan Peele (Corra! / Get Out). Apesar de ter estreado em agosto nos EUA, só chegou agora em novembro pra gente. Veja que não há hashtag forte nas redes, e isso significa que o investimento na divulgação é mínimo, ou seja: cada uma de nós deve se comprometer a falar a respeito e a levar mais uma pra assistir!

O Infiltrado na Klan é um filme que todos deviam assistir
por Anne Caroline Quiangala

SOBRE O ENREDO


O Infiltrado na Klan foi baseado na história real do policial recém nomeado, Ron Stallworth (John David Washington), que estabeleceu contato (até a simpatia telefônica) com David Duke (Topher Grace), grão-vizir da KKK, a ponto de conseguir ser admitido numa célula desse famoso grupo de ódio. Durante as ligações telefônicas, Stallworth performa uma branquitude extremista tão convincente que entra em contato com o grupo local e logo é admitido num círculo mais reservado. 
 
A investigação empreendida secretamente por Stallworth chegou a ponto de reuniões presenciais, que foram possíveis pela parceria dele com Flip Zimmerman (Adam Driver), colega "branco" (no Brasil ele é lido como branco, mas nos EUA, por ser judeu, está na categoria "pessoa de cor") que o substitui nos encontros com os membros de grupo de ódio e descobrindo seu plano. A parceria entre Stallworth e Zimmerman evidencia o quão importante é o compromisso de pessoas não-negras na luta antirracista, sobretudo quando a "organização" reformula seu discurso violento a fim de conquistar o grande público e a esfera eleitoral

O filme foca no fato de Ron ser o primeiro detetive Negro de Colorado Springs, e a complexidade de sua formação identitária: uma mistura de "Preto é lindo", graças ao seu lindíssimo Black Power, e detetive duma corporação que extermina exatamente este "perfil". A consciência de Ron é um dos elementos mais interessantes, porque ele deseja fazer a mudança de dentro, resiliente demais, se visto pela juventude negra mostrada no filme, e radical demais se visto de dentro da corporação. Um entre-lugar perverso em diversas camadas, mas sobretudo pelo fato de Ron ser mostrado apenas "em relação a" pessoas não tão familiares. Apesar de sua visível autoestima estar no rumo "certo", Ron é retratado como um jovem com ideais nobres, focado, e ambicioso, porém, em seu íntimo, bastante solitário. 

Ele é destacado de ambos os mundos, embora o filme siga a linha de sua vontade de se conectar à coletividade negra revolucionária e seu processo de pertencimento. A revolução que ele defende e pratica é o que chamamos de hackear, um processo de atingir as estrutura estudando sua forma original e recriando a inteligência e funcionalidade com a finalidade de destruir as bases. 

Neste ponto está meu verdadeiro encanto com o filme: o poder da metalinguagem é fabuloso!

Spike Lee e John David Washington


CHEGOU A MINHA VEZ DE DEFENDER UM FILME DO SPIKE LEE?


Boa parte da minha formação intelectual feminista negra vem de ensaios que analisam as "controvérsias" do cinema de Spike Lee (sempre preocupado em representar a profundidade da masculinidade negra em detrimento das mulheres). Essa crítica à prioridade dele não reduz a potência de seu cinema militante, nem é a raiz do sexismo nas Américas, apenas analisa prós e contras no sentido de entender melhor o que nós mesmas podemos propor em nossas produções intelectuais. E sim, o cinema de Spike Lee tem como mérito ser intelectual, estético e um cinema político, comprometido com a conscientização.

A recente manifestação de sexismo de Lee está disponível na série original Netflix Ela quer tudo, baseado no filme homônimo de 1986. Disfarçado de discurso pró mulher e pró LBT, ele definitivamente, produziu uma série protagonizada, não pelos desejos de Nola, mas pelo inconfundível olhar masculinista

Apesar disso, vou descrever como e por que ele foi mais do que certeiro em sua versão de O Infiltrado da Klan.


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O CINEMA PRA PENSAR


A sagacidade de Lee começa com o título em inglês que junta as palavras e cria o significado ao mesmo tempo que fecha a possibilidade de distorção. Quero dizer, além de eu ter lido na primeira vez Blacklashman (um trocadilho com backlash, retrocesso) o título Blackkkman fecha para qualquer controvérsia ou inversão que poderia surgir, diferente da versão brasileira que adaptou O Preto KKK (centrado no sujeito preto, porém o uso de "KKK" como onomatopéia de gargalgalhada destruiria o sentido) para "O infiltrado da KKK" , centralizando na ideia de que a referência é a KKK e o "alienígena" é o negro. E não, não é a mesma coisa.

Gráfico: Declínio do número de grupos KKK nos E.U.A entre 2000-2017
Precisamos desmistificar: Nacionalismo Negro não é o mesmo que Nacionalismo Branco, porque o racismo estrutural, tanto legitima quanto beneficia ataques de ódio de brancos contra negros. Exemplo disso é o fato de racismo ser um crime inafiançável, no Brasil, e os brancos serem acusados de "injúria". Por outro lado, quando o tema é "guerra às drogas" os brancos são descritos pela mídia como "transportadores de drogas" enquanto negros são estigmatizados como "traficantes".

Quero, antes de tudo, enfatizar que o que se chama de "movimento Negro" não é oposto diametral a KKK, por diversas razões, dentre elas, o fato de o racismo ser um problema estrutural e não atingir a ambos os grupos da mesma forma. Graças a essa iniquidade fundamental, os mecanismos de coerção (e de impunidade) não são os mesmos. Existe uma campanha enorme para igualar discursivamente ambos os grupos como se fossem pontos de vista, "questão de opinião", e exemplo disso é o mapa do ódio criado pela Southern Poverty Law Center (SPLC) que se refere ao neonazismo como grupo separatista tal como nacionalistas negros (como os Panteras Negras), como se ambos fossem grupos de ódio (gráfico acima)

É bastante simples entender que existe um Estado que legítima práticas discriminatórias e fisicamente violentas, tanto nos EUA pré-1964, quanto atualmente, porque empodera os grupos por meio da omissão e suposta neutralidade. Esta é basicamente a ideia de Noam Chomsky ao desconstruir a acepção comum do termo "terrorismo"; para o linguista, Terrorista é aquele que tem recursos, poder e método suficiente para uma coerção sem igual, portanto, defende a ideia de que Terrorista não são aqueles que fazem atentados e sim o Estado.

Se você já assistiu 13ª Emenda, ou Libertem Angela Davis e já ouviu Strange Fruit (na voz de Nina Simone ou Billie Holiday), por exemplo, você já compreende que os linchamentos e outras violências sofridas pela população negra estadunidense, sempre foram atravessadas por iniquidade no cumprimento da lei. Aliás, se a lei já serviu para escravizar pessoas, o que dizer desta ferramenta, não é? Há, claro, avanços consideráveis, mas não podemos perder de vista que as ferramentas do Estado são formas de manter inalteradas as estruturas sociais.

Quem compreende a distinção fundamental, tem repertório suficiente para compreender a premissa de O infiltrado e de que maneira o filme dialoga com medos muito reais e profundos de qualquer pessoa negra consciente de quem é e de onde veio.


Kylo sendo um bro' nos anos 1970 ?


LIBERDADE É NÃO TER MEDO (NINA SIMONE)


Além da primeira muralha (o título), O Infiltrado se constitui como caminho inverso a maioria dos filmes sobre racismo contra pessoas negras, pois é eficaz em mostrar os fatos sem cair na violência gráfica, gratuita, horrífica. Também não trabalha com o pior do nosso imaginário coletivo, as memórias das plantations, para ferir. Isso me chamou particularmente a atenção porque:

  1. me reservei o direito de não assistir (muito menos pagar por) filmes de escravidão e/ou que vendem violência gráfica contra pessoas negras; 
  2. eu quis sair do cinema, quando fui assistir Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi, filme duma diretora que admiro por seu trabalho em Pariah (Dee Rees). Eu me decepcionei com Bessie e, mais ainda com o original Netflix Mudboubd (que, pra minha tristeza, tem trilha sonora assinada pela deusa Gullah Tamar-Kali).

Tanto em Bessie, quanto em Mudboubd, há representação da kkk, e o modo como essas pessoas sem rosto foram presentificadas, explorou emoções sem uma finalidade emancipatória, (mesmo na cena em que Bessie os afugenta aos chutes), porém, o mais lamentável foi a sequência de tortura física em Mudboubd. O terrorismo em tela remonta o nosso horror vivenciado no cotidiano e, claro, depois de toda a experiência de ser uma pessoa negra, vejo como é irresponsabilidade jogar tanto gatilho. Sobretudo se não estamos bombardeando amor com tanta intensidade.

Já por meio do humor, e quebra de expectativas, Spike Lee remonta uma série de eventos, símbolos e situações traumáticas sem evocar o fantasma do medo e sem explorar nossas emoções; ele não precisou descrever graficamente o conjunto de violências que já conhecemos para nos aterrorizar, pois em vez de mostrar, ele trabalhou a própria cinematografia para evidenciar o que era violação, sempre apoiado pela ironia e se valendo do sarcasmo em momentos de tensão.



O racismo é uma ideologia arquitetada pela inversão discursiva: premissas falsas e falsa simetria. Completamente ciente disso, Lee resolveu usar o silogismo para evidenciar a inversão, e, assim, inverter a lógica da exposição da mazela gráfica de pessoas negras, dos chicotes e dos linchamentos. Ele evoca fatos na voz do sobrevivente a um linchamento, o ativista Harry Belafonte, paralela ao ritual de iniciação de "Ron" para nos conduzir por um raciocínio dialógico. É bem pontuado o filme inteiro, que a preocupação maior dos membros é a criação de mecanismos simbólicos e judiciais para aterrorizar, violar e extorquir qualquer indivíduo não WASP (Branco, Anglo-Saxão e Protestante), e a a população negra em particular.

Iniciando com a Guerra Civil/Guerra de Secessão (1851-1865), na qual o extremo sul (deep south) lutava pela manutenção de uma lógica escravocrata e o norte pelo capitalismo industrial, pessoas negras foram convocadas a lutar pela libertação ao lado da União, o filme mostra a mazela gráfica dos brancos confederados, que não só perderam a Guerra, como eram celebrados pela mulher branca que atravessava o campo em busca de um Mr. Meat

Esta cena, que demanda da plateia a compreensão de que a Guerra não se tratou de mera polarização, diz bastante sobre o convite para pensar que se estende por todo o filme. Faz sentido chorar por aqueles indivíduos? O raciocínio é que a Guerra é ruim, mas se o grupo social não sabe conversar e ainda perde, por mais injustiçados que se sintam, estão sofrendo uma pequena parcela do que sentem prazer em provocar (podemos lembrar aqui do estilo do personagem de Leonardo DiCaprio em Django: Livre). É moral e ética a atitude dos confederados? Faz sentido, celebrar violadores? Se o racista tem argumentos essencialistas, nem vale a pena demonstrar o erro do raciocínio pra ele, mas Spike Lee nos mostra com maestria, o que verdadeiro humor negro

"É Sério que VOCÊ tá nisso?'
(Patrice Dumas, interpretada por Laura Harrier)

Numa das vezes em que Ron liga para Duke, ele "faz o socrático" e começa a perguntar "como você identifica o modo como um negro fala?" Ou "Qual é a voz de um homem branco?" e o membro de alto escalão do grupo de ódio mais antigo e conhecido dos E.U.A, responde sem grande elaboração, só achismos, mas com seriedade; e, nós nos juntamos a Ron pra rir de tamanha ignorância. Ao longo do filme há outras passagens que transformam a violência pura em absurdo e se tornam tão críticas quando divertidíssimas.

Quero citar a passagem na qual um branco dialoga com a câmera, ideias e construções racistas clichês, misturando com a vitimização e a chamada dos WASP para a ação, bastante presente na fala de Donald Trump "Make América Great Again" (Tornar a América grande de novo), que é ofensiva tanto por se opor diretamente a Barack Obama, quanto por evocar períodos coloniais. Entrecortada com cenas de O Nascimento da Nação, essa fala perde a força de gatilho por reforçar que esses clichês foram consolidados por aquele filme racista até os ossos, e a ofensa é mediada pelo visível desconforto, insegurança e falhas técnicas durante o discurso. Assim, Spike Lee desmonta o que seria uma bomba para subjetividades negras e transmite o recado com maior eficiência.


Ron e Patrice parecem formar, de longe, um casal perfeito para o mundo hostil no qual vivem.

DE HOMEM PRA HOMEM


Em O Infiltrado há três personagens femininas "significativas"; as três são planas e, construídas em relação a um homem. A primeira é a mulher branca procurando seu homem no campo de batalha, ela em si a típica piada pronta.

A segunda é Connie (Ashlie Atkinson), a "esposa" do membro mais odioso do grupo de ódio: Felix (Jasper Pääkkönen). Ela é uma versão plasticamente realista da mulher branca do pós segunda guerra mundial vivendo numa área menos urbanizada. Marcadamente cidadã de segunda classe, cada vez que é impedida de auxiliar nas ações terroristas da kkk, ela reitera sua disposição e desejo de propagar o ódio como eles. Ela é rejeitada até ser necessária para "a causa", mas a gordofobia assume um lugar marcado na forma como ela é apresentada (elemento cômico e ignorante), semelhante a um dos adeptos que também é gordo. Pra mim, mostrar pessoas gordas como piada foi um baita anticlímax, porque ao focar nisso, o roteiro reduz a atenção do que é importante frisar: o grotesco nelas não é o corpo, e sim o pensamento. Além do fato óbvio de que a audiência pode se sentir agredida sem necessidade.

A terceira mulher é a ativista Patrice Dumas (Laura Harrier). Ela é uma versão macérrima, com a pele bem menos pigmentada que a de Ron, óculos, Black Power e roupas de couro, possivelmente inspirada em ativistas da época como Angela Davis (eu reconheço alguns enquadramentos que remetem a fotografias dela naquela época).

Muito lindos! Confesso que passei o filme inteiro torcendo pra Ron ouvir mais, ler uns livros e se conscientizar pra esse casal se consolidar real/oficial.

A despeito de toda a firmeza e coragem que a estudante encarna, no contexto narrativo, ela simboliza a feminilidade "correta, porém, radical demais" do ponto de vista dele. Esta representação me cansa bastante porque associação de tons de pele a performance de gênero é um equívoco tão nocivo, quanto a imagem do homem negro policial que tenta dissuadir a namorada, pontuando a todo o tempo que ela exagera. 

Curioso um homem negro representar isso em 2018, sendo que já vimos isso em Captain America and Falcon #137 (1971), quando Sam Wilson, o parceiro de Steve Rogers, se interessou afetivo-sexualmente por Leila. A associação simplista entre estilo, intelectualidade e rebeldia é o ponto mais fraco do filme, porque volta aquela ideia de que a política do Spike Lee, cada vez que reitera inverdades sobre nós, decide não convergir conosco, mulheres negras. Sem dúvida, aquela performance de ativismo existe, mas esse recorte não considera a subjetividade nem quando Ron e ela passeiam conversando sobre "algo que não política": os gostos dela são marcadamente políticos, e ele demonstra desconforto com isso, afinal, policial, filho de policial.

Apesar de Ron não ser fisicamente abusivo, como Falcão foi algumas vezes com Leila, ele apresenta o mesmo raciocínio de que ela deveria falar menos sobre política.
 Captain America and Falcon #137 (1971) - Detalhe

É bastante interessante a construção da brotheragem entre Ron e seu amigo Kylo Flip, o compartilhamento de sofrimento e vulnerabilidade, a formação de uma equipe para a resolução de um problema. A cooperação deles é muito importante na trama para indicar que o fim do racismo não está na mão unicamente do povo negro, mas que é uma atitude que as pessoas brancas precisam protagonizar tanto quanto protagonizam o racismo. Alias, nossa função é nos desintoxicarmos da lógica eurocêntrica, que inclui o sexismo tal como vivenciamos. Inclui também representar mulheres negras complexas, (não sexualizada é o mínimo) sem apelar para a resposta padrão "não tenho lugar de fala" ou "não é a minha experiência". Ué, como sendo um homem negro é possível saber tanto sobre como é ser um homem branco? E outra, não estar no lugar social de alguém, não exime de estar no seu próprio lugar social de escuta, autocrítica e responsabilidade.

EM SUMA


Se eu consegui dizer tudo isso sobre O Infiltrado na Klan sem spoiler, imagina as emoções e reflexões que este filme suscita? Este filme é recomendado principalmente para as pessoas que evitam rir usando a onomatopeia kkk, mas todas as pessoas negras e não-negras devem assistir e divulgar, porque, sem dúvida, a verdade fundamental que esse filme aponta é problema de todas e todos nós.


O Infiltrado na Klan estreia 22 de novembro de 2018

REFERÊNCIAS

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