A branquitude num contexto de poder, reflexão e empatia - Marielle presente!



Por Dê Ferreira

Penso no lugar de fala como um espaço de empoderamento, de crítica, de subversão e representatividade. E parto da compreensão, de que ocupar um espaço de narrativa da história do seu povo, de seus ancestrais e dos seus semelhantes, seja uma oportunidade irrefutável de permitir que tomemos as rédeas da nossa história, rompendo assim com uma lógica comunicativa baseada na reincidência histórica, onde o colonizador e seus descendentes continuem a contar a história do colonizado.

Djamila Ribeiro (2017) aborda em sua obra O que é Lugar de fala, questões e referenciais fundamentais acerca deste tema. Em síntese, a autora define os lugares de fala como espaços ou locus de construções de narrativas e discursos diretamente relacionados aos recortes de classe, raça e gênero. Podendo estas, serem categorizadas como contra hegemônicas, a depender da relação de poder ocupada por aquele que ocupa o local de fala sendo, portanto, uma questão de perspectiva. Vale ressaltar que tal relação de poder é dada a partir da noção de pertencimento a um dado grupo social.

"Entendemos que todas as pessoas possuem lugares de fala, pois estamos falando de localização social. E a partir disso, é possível debater e refletir criticamente sobre os mais variados temas na sociedade. O fundamental é que indivíduos pertencente a um grupo social privilegiado em termos de locus social, consigam enxergar as hierarquias produzidas a partir desse lugar e como esse lugar impacta diretamente na constituição dos lugares de grupos subalternos.

Numa sociedade como a brasileira, de herança escravocrata, pessoas negras vão experienciar o racismo do lugar de quem é objeto dessa opressão, do lugar que restringe oportunidades por conta desse sistema de opressão. Pessoas brancas vão experienciar do lugar de quem se beneficia dessa opressão." (P. 48)


Tropa de Elite é um filme controverso em diversos níveis é especialmente problemático na reapresentação racial

Marielle por Padilha


Nos últimos dias, o anúncio da escolha do diretor de uma série ficcional, movimentou as redes sociais. José Padilha fora escolhido para dirigir uma série sobre Marielle Franco. Marielle era vereadora no estado do Rio de Janeiro e foi assassinada em março de 2018, tornando-se um símbolo de resistência no cenário brasileiro. Padilha é um cineasta internacionalmente conhecido e famoso por dirigir obras como Tropa de Elite e Robocop. A inquietação não se vale de aspectos sobre mérito ou capacidade do diretor, mas sim sobre os possíveis motivadores de tal movimento.

O que gerou incômodo foram elementos inerentes a persona do diretor - Padilha - ou a aquilo que sua figura enquanto homem, branco de classe dominante possa vir a representar? Fica a questão...

Acredito que em meio a tantas manifestações contrárias a escolha do diretor e a quantidade de argumentos apresentados, seja interessante pensar não só sobre a persona do indivíduo, mas principalmente sobre as relações subjetivas de poder socialmente atribuída a um grupo específico de indivíduos.


Audiovisual, lugar de fala e representatividade
 


Ao analisar a produção do audiovisual brasileiro, percebe-se a reincidência de uma produção midiática massiva, não representativa e que reproduz visões estereotipadas da população negra. O perfil daqueles que ocupam os espaços de direção e roteiro, pode ser uma hipótese a respeito de tal constatação. A produção de obras a partir da perspectiva de pessoas negras cientes de sua trajetória histórica como corpo social pode ser vista como uma alternativa diante de tal fato, visto que haveria algum tipo de mudança no perfil daquele que historicamente constrói discursos e contribui para a manutenção e compartilhamento de uma ideologia dominante.

Shohat e Stam (2006) afirmam que os estereótipos e distorções de realidades nas mídias implicam num risco, visto que grupos historicamente marginalizados não possuem controle total de sua representação.

A relutância e a permanência da branquitude nesse tipo de prática aflora uma curiosidade sobre as relações de poder e a égide socioideológica subjetivamente impregnada no sujeito de análise. E levanta

a seguinte questão: qual o tipo de ideologia dá suporte a manutenção desse modelo de posicionamento e qual é a essência da relutância da branquitude em abrir mão dos seus privilégios em nome de uma sociedade empática, mais justa, igualitária e contra hegemônica? 


Padilha, diretor de Robocop

A Branquitude e as relações de poder


É imprescindível debater a interseccionalidade, no entanto, essa análise se dá no campo das relações de dominação e poder da branquitude, ou seja, com um viés de raça. Para Lourenço Cardoso (2010) a branquitude é um lugar de privilégios simbólicos, subjetivos, objetivos, isto é, materiais e palpáveis que colaboram para a construção social e reprodução do preconceito racial, discriminação racial, injustiça e racismo.

Vale ressaltar que, para o mesmo autor, a investigação e a análise sobre a identidade racial branca procura problematizar aquele que numa relação opressor/oprimido exerce o papel de opressor em uma situação de desigualdade racial e ele também afirma ser "imprescindível analisar a subjetividade e a natureza infra consciente do mecanismo de poder" para entendermos o cerne dos privilégios e da neutralidade no campo da produção.

Se conectarmos essas afirmações a uma reflexão acerca da construção de uma narrativa da produção midiática, chegamos a um entendimento sobre a importância da escolha de quem conduz a narrativa de uma história.


A narrativa como possível espaço de contra-hegemonia



Segundo Motta 2005, 

A análise da narrativa é um caminho rumo ao significado e o significado é uma relação, não há um significado sem nenhum tipo de troca. Não se pode fazer análise da narrativa ignorando as relações culturais que se estabelecem no ato narrativo desde o princípio. As narrativas são formas de relações que se estabelecem por causa da cultura, da convivência entre seres vivos com interesses, desejos, vontades e sob constrangimentos e as condições sociais de hierarquia e de poder
(Motta, 2005, p. 11).


Negar o espaço de condução da narrativa a um grupo ou a um movimento que se põe contrário à normativa hegemônica, ainda que não intencionalmente, levanta 4 hipóteses sobre a branquitude:


1- Que a branquitude tenha dificuldade de reconhecer privilégios e de abrir mão deles.

2- Que a branquitude acredita na neutralidade no âmbito da Produção, seja ela acadêmica ou artística. 

3- Que o debate das relações de poder entre classe, raça e gênero ainda não façam parte do cotidiano da classe dominante, ao ponto dela ignorar toda a crítica de um movimento, ainda que hajam dados e estudos que comprovem as indagações dos militantes.

4- De que a branquitude dominante, não só, não quer nos permitir oportunidade de grupos minorizados falarem por si, como teme uma ascenção contra-hegemônica que venha a abalar o status quo das elites.

Reinvindicar o direito de autoexpressão a partir da consciência do seu lugar de fala e buscar uma visão mais fidedigna da história, tornam-se práticas contra-hegemônicas, pois subentende-se que haverá uma mudança no perfil de quem irá construir e conduzir a narrativa.

Ao analisar a categoria cultura, povo e elite Marillena Chauí (1990) afirma que "as ideias dominantes de uma época são as ideias das classes dominantes", é possível complementar essa afirmação, com a ideia de Karl Marx e Friedrich Engels (2007), de que a posição ocupada pelas classes dominantes os torna produtores de ideias e saberes no que se refere a produção de conhecimento científico, entre outras áreas do saber que certamente são influenciadas pelo seu discurso.




Considerações finais


Entendendo que a Branquitude seja um conjunto de símbolos, subjetivos e objetivos inseridos num contexto classista e de dominação ideológica. Assim, é importante pleitear espaço de expressão de grupos historicamente silenciados, de modo que haja a Produção de um discurso da narrativa que esteja de acordo com a realidade do grupo que será representado. Tal fato mostra não só uma questão de responsabilidade, como também de respeito e empatia com a história daquele que será representado. 

A escolha acrítica de um diretor e a sua relutância em desocupar o cargo de contador de uma história totalmente fora da sua trajetória de vida, pode implicar numa série de equívocos e visões negativamente estereotipadas e não só isso. Sua escolha nos permite questionar as reais intenções dos idealizadores, isto é, se eles têm real interesse na causa da protagonista ou se visam apenas o retorno financeiro, independente da forma com que a Produção seja feita.

Sob um aspecto mais individual, me permito questionar até que ponto vale permanecer em um espaço como contador de uma história quando o ouvinte não deseja ouvir seu ponto de vista, e não porque ela não seja boa, mas porque aquele modelo de narrativa, não nos representa.

Me permito perguntar, também, se uma mulher, negra, mãe e cria da Favela da Maré, socióloga com mestrado em Administração Pública, gostaria de ter sua história contada por outros, senão os seus.


Referências bibliográficas


CARDOSO, Lourenço; Branquitude acrítica e crítica: A supremacia racial e o branco anti-racista. Revista Latino-americana de ciências socialrs, ninez y juventud. Disponível em: http://www.scielo.org.co/scielo.php?pid=S1692-715X2010000100028&script=sci_abstract&tlng=pt.

CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia, O discurso competente e outras falas. São Paulo: Cortez Editora, 5ª edição, 1990.

JORGE, Miranda; Branquitude invisível, pessoas brancas e a não percepção dos privilégios, verdade ou hipocrisia in Branquitude: estudos sobre a identidade branca no Brasil. Organizado por Tânia M.P. Muller e Lourenço Cardoso; Appris.

MARX, Karl ; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. 1845-1846. São Paulo: Boitempo.

MOTTA, Luís Gonzaga. Narratologia - Teoria e analise da narrativa jornalística. Edições Casa das Musas, 2005.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala. Belo Horizonte: Letramento, 2017.

SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica da Imagem Eurocêntrica- Estereótipo, realismo e luta por representação. Tradução: Marcos Soares. Edições Cosac e Naify, 2006.

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