Se a Rua Beale falasse (If Beale Street Could Talk)


por Edileuza Penha de Souza (*)

(…) os movimentos, as atitudes, os olhares do Outro me fixaram ali, assim como uma solução química é fixada por um corante. Eu estava indignado; exigi uma explicação. Nada aconteceu. Explodi. Agora os fragmentos foram remontados por outro eu. Esse “olhar”, do – por assim dizer – lugar do Outro, nos fixa, não apenas em sua violência, hostilidade e agressão, mas na ambivalência do seu desejo.


Certamente, se a Rua Beale falasse ela diria que passados cinquenta anos a juventude negra estadunidense ainda é vitima de preconceitos e racismo, que o sistema prisional é injusto e cruel, como denuncia a diretora Ava Duvernay, no documentário A 13ª Emenda de 2016. No entanto, apesar de tantas agruras, a Rua Beale ainda diria que a população negra vive de amor, esperança e solidariedade.

Baseado no romance de James Baldwin, 1974, o diretor e roteirista Barry Jenkins apresenta um filme impecável. Resultado de uma equipe de profissionais competentes e talentosos, o roteiro do próprio Barry Jenkins, a direção de fotografia de James Laxton, a trilha sonora de Nicholas Britell e o design e figurino de Caroline Eselin tornam o filme irreprochável. 

A história em si é uma narrativa comum a muitos negros estadunidenses e brasileiros. No entanto, é impossível sair do cinema sem querer tomar uns tragos. O primeiro deles para chorar o extermínio da juventude negra: segundo os dados oficiais do governo brasileiro, apresentados no Atlas da Violência, somente em 2018 houve um crescimento de 23%, totalizando 325 mil assassinados na faixa etária de 15 a 29, contabilizando apenas os últimos anos (2008-2018). Vale lembrar que atualmente os Estados Unidos superou os 2,1 milhões de pessoas aprisionadas. O segundo trago é para chorar o racismo, que entre outras mazelas culpabiliza, aprisiona e condena – inclusive pela desesperança – como no caso do personagem Daniel Carty (Brian Tyree Henry), preso sem nenhuma prova de ter roubado um carro. Outro trago pela alienação, rancor, preconceitos e ódio disseminados pelas religiões neopentecostais personificados no amargo papel de Mrs. Hunt (Aunjanue Ellis). As representações das violências convencionais apresentam resposta à sociedade racista e cada vez mais intolerante com a diversidade e as diferenças.




No entanto, façamos um brinde ao amor. Como marca de um trabalho autoral, o diretor (vencedor do Oscar por Moonlight) nos proporciona, em meio a esses goles ao ódio, a celebração de histórias de vida, família, companheirismo e solidariedade. O filme evidencia o afeto em diferentes relações, e, em paralelo à principal história de amor e separação dos protagonistas Tish (Kiki Layne) e Fonny (Stephan James), o filme denuncia estereótipos, racismo, violências e discriminações.

Assim, constata-se que “Se a Rua Beale falasse” é mais do que um mero drama: trata-se de um filme em que podemos conceituar o Cinema Negro estadunidense – diretor negro, protagonistas negros, histórias do cotidiano da população negra.

O acolhimento da família Rivers é um acalento determinante para a palavra de ordem: “Ninguém solta a mão de ninguém”! É como vemos a gravidez de Tish, somente possível pela rede de proteção e solidariedade montada para que, com segurança e carinho, ela receba o seu bebê, bem assim a percepção de gênero e raça ressaltando o afeto como elemento determinante da construção de um cinema de compromisso.

A história de amor é anunciada pela protagonista-narradora, já nos primeiros minutos do filme, ao enunciar impossibilidades e possibilidades. Assistimos, ao longo de brevíssimos 119 minutos, a um enredo onde angústias e desesperanças entrecruzam-se com uma romântica história de amor, sem pieguice. 


O racismo estrutural nas sociedades afrodiaspóricas, como Brasil e Estados Unidos, remete a juventude negra, sobretudo a masculina, a lugares subalternos. Todavia, não é esse o mote do filme. O diretor nos oferece realidade de mulheres negras como Sharon Rivers (Regina Rene King), contando histórias de amor, em que a paixão, o primeiro amor entre Tish e Fonny , a possibilidade de fazer valer “Sim, vidas negras importam!” são determinantes para que possamos plantar, crescer e florescer outras histórias de amor.


Se a Rua Beale Falasse estreia em 7 de fevereiro de 2019
CONFIRA O THRAILER:






(*) Edileuza Penha de Souza

Mulher negra, cineasta, professora da Universidade de Brasília - UnB, historiadora, organizou a publicação: Negritude,cinema e educação: caminhos para a implementação da Lei 10.639/2003, editado pela Mazza.

Nenhum comentário

Antes de comentar, leia nossa política de comentários!

Tecnologia do Blogger.