Moonlight - Um filme sobre a masculinidade preta


Esse é um daqueles filmes que você não respira, esquece do mundo e entra nos sentimentos do personagem, ele não precisa de muitas falas para ser entendido, é uma obra que vai a fundo na subjetividade humana e nesse caso, na masculinidade negra.




Fui assistir Moonlight sabendo que era um filme sobre a descoberta da sexualidade de um garoto (Chiron) numa comunidade negra em Miami que vive com a mãe (Naomie Harris), uma usuária de drogas. Na sua infância ele é apadrinhado pelo chefe do tráfico local, Juan (Mahershala Ali) e Tereza (Janelle Mónae), era atrás deles que Chiron ia quando a situação em casa tava insustentável. Na sua infância, Little (como era chamado) manteve apenas uma amizade, o Kevin, pois ele era o único que o tratava bem e, de certa forma eles ficam marcados para sempre na vida um do outro. 

O filme tem uma fotografia espetacular dirigida por James Laxton, as cores frias predominam durante todo filme, principalmente o azul, que pode ser captada pelas camisas brancas muito utilizadas, como também nas belíssimas peles pretas, essas cores não são por acaso, ela transmite ora a paz que ele precisa através da luz da lua refletida no mar, ora a repressão que sente na pele por não se encaixar no padrão de menino/homem negro e o vazio impreenchível dentro de si. Essa fotografia é sentida com o passar das fases. A edição é, indiscutivelmente, muito boa, não por ter sido liderada por Joi Mcmillon, única mulher negra indicada à melhor edição, mas porque ela soube dividir muito bem os silêncios e feições. Foi uma parceria que deu certo. O roteiro e a direção - também indicados - foi responsabilidade de Barry Jenkins e não por acaso ele está na lista, pois a divisão da vida de Black em três fases com começo, meio e fim em todas não deixou a desejar. Chiron é muito calado durante todo filme, seus diálogos são fortes e impactantes, o silêncio mais ainda, os sentimentos foram muito bem construídos com o passar do tempo, ele passa as tensões, alegrias, medos e inseguranças de cada momento. 

Pulando essa parte mais técnica, o que mais me deixou feliz foi o fato de não ter nenhum (nenhunzinho) branco durante o longa inteiro e a discussão sobre a masculinidade imposta ao homem negro levada pelo fio condutor da sexualidade. Os gêneros nos são impostos desde a primeira infância, não se foge disso dentro de um contexto social, quando se é negro isso é ainda mais agravado, pois a supremacia branca nos impõe as "responsabilidades" da força física e psicológica, nossos destinos já são traçados, sabemos em quais lugares podemos e devemos frequentar, quais profissões podemos seguir, quais grupos sociais devemos permanecer e isso é passado de geração para geração, portanto isso já fica enraizado em nossa educação. Chiron é o clássico exemplo do negro que fala sempre baixo e se mantém de cabeça baixa, ele tem vergonha de ser quem é, de não ser igual aos outros meninos, de não se interessar por lutas e futebol, de ter que cuidar da mãe drogada, de viver fugindo dos meninos fortes na escola, de ser apaixonado pelo seu único amigo, de não se compreender.


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A sua infância tivera sido salva por Juan e Tereza, que mostraram a ele a existência do afeto e carinho, apesar do contexto que vivem. Na adolescência, em seu único ato de coragem, Chiron é preso e na idade adulta se transforma em Juan, sua única referência boa de homem negro adulto, um traficante local que preenche seu vazio com trabalho, carros, status e silêncio. Ele não muda, o vazio continua intacto, mas a sua imagem é do homem negro forte e viril. 

O filme não mostra muito sobre mulheres - apesar da atuação excepcional da coadjuvante Naomie Harris - e suas perspectivas, o que para mim foi ótimo, porque os homens negros precisam ver e notar como eles se tratam, como a agressividade que recebem da supremacia branca é revertida em ódio entre si, como o nosso silêncio muitas vezes são gritos que ecoam em nossos vazios. Tudo isso precisa ser discutido e pensado porque o racismo tem muitas faces. 

Moonlight é mais uma obra que vem provar quão o cinema é racista, pois um filme excelente e tão bem construído (atuação, direção, fotografia, edição, roteiro...) é comparado com filmes bons que só por serem brancos são tão aplaudidos quanto. 




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