FENCES - sobre as cercas que nos limitam

Denzel Washington e Viola Davis 

Fences (Um Limite Entre Nós) é a adaptação da peça teatral de mesmo nome, lançada em 1983. Lançado em 2016, o filme foi produzido, dirigido e protagonizado por Denzel Washington (Troy Maxson) e conta com a premiadíssima Viola Davis (Rose Maxson). 

Desde o início, somos conduzidas pelas ruas a bordo do caminhão de lixo que carrega Troy (Denzel Washington) e seu grande amigo Bono (Stephen Henderson). O movimento do veículo junto às falas dá ritmo ao filme inteiro, como se fosse um longo álbum de rap, inclusive repetindo verdades que, nem sempre, desejamos ouvir. As 2h19min de filme se passam dentro e nos arredores da casa e acabam por enfatizar a mensagem, as emoções e sobretudo os ciclos. Assim como no rap, a linguagem e a experiência se colocam no primeiro plano com o objetivo de denunciar as injustiças e procurar a o entendimento da própria vida. A fixação de Troy pela cerca do quintal é uma tentativa inconsciente de atuar sobre o real e buscar a identidade de sujeito.

Ao longo do filme, muitas verdades são desferidas sobre a cidadania de segunda classe dos negros àquela época, incluindo as oportunidades desiguais e o esforço que não oferece certeza quanto a frutos. Várias gerações convivem lado-a-lado, evidenciando o modo como o social influencia as subjetividades e sensibiliza para diferentes questões.

Troy  (Denzel Washington) é um homem negro que viveu o pior que a escravidão, desde um pai violento a uma vida de desvalorização e impedimentos apesar de sua grande habilidade esportiva. Sua frustração com o universo beisebol vem da recusa do time por ser negro, junto ao humilhante emprego de "coletor de lixo dos brancos". Todo o seu esforço ao longo da vida foi cerceado pelo racismo, que, por um lado não permitiu que sua estrutura familiar e condições materiais fossem adequadas. Por outro, esmagou suas emoções. O racismo é a primeira cerca a qual todas nós - pessoas negras - estamos vulneráveis. Ter consciência disso é bastante dolorido e enlouquecedor.

É sabido que o racismo é um problema branco, porém, em Fences encontramos suas consequências para a população negra sustentada por uma poderosa mensagem política. O filme é isso, um desnudamento realista do que o racismo faz: desumaniza, mata, enlouquece. Isso afeta tão profundamente as relações que os indivíduos replicam as cercas que são incontáveis as cenas nas quais os papeis de gênero são reforçados. Um pai que tem a obrigação de sustentar a família, não de amar; a mulher cumpridora do dever precisa esmagar a própria subjetividade para comportar as necessidades do companheiro provedor, precisa alimentar física, emocional e nutritivamente. Todos são partículas do que deveriam ser.


Troy é um personagem ambíguo, ora descontraído e irreverente, ora egoísta e violento

Apesar de não haver pessoas brancas significativas para a história, o racismo estrutural se apresenta por meio das instituições e pelas contenções da maioria dos personagens. A companheira de Troy, Rose (Viola Davis) assim como ele, vem de um lar desestruturado, em que a sobrevivência sobrepuja qualquer necessidade imaterial, afetiva ou psicológica. Ela representa a ausência porque, ao mesmo tempo que provê a todos ao redor, carece de afeto, companheirismo e reciprocidade. Os filhos de Troy, por outro lado, indicam um futuro promissor que acompanha a abertura de oportunidades, menos desiguais que antes. Suas consciências dão um salto rumo ao afeto, à humanização que fazem do filme uma obra dolorida, mas aberta à esperança, à superação do desafeto por meio da arte, como o musicista Lyons (Russell Hornsbye de novos horizontes, como a carreira de Cory (Jovan Adepona Marinha. 

Gabriel "Gabe" Maxson (Mykelti Williamson) foi atingido na cabeça durante a guerra e apresenta sinais de esquizofrenia. Ele é a pessoa mais doce no trato com Rose e, até mesmo com o irmão Troy. Apesar de ser um veterano de guerra que necessita de cuidado, é tanto rejeitado pelo Estado (que o trata como problema social), quanto pelo irmão, que se apropriou de sua indenização em prol de sua própria sobrevivência. Esta apropriação indevida fala muito sobre o sistema em que todos vivem, em que as necessidades básicas e direitos não são assegurados.

Fences é um filme que fala diretamente à experiência da população negra da diáspora. Primeiro porque ele expressa aspectos comuns às famílias negras no continente americano. Segundo, porque muito nos resquícios da escravidão na construção do gênero e geração dos personagens. Outro tema discutido é  o impacto psicológico que transforma as relações em abismos desiguais, dando ênfase ao modo como o patriarca usa a cerca que o limita para limitar os que estão ao seu redor.  


Troy age de forma truculenta com o filho caçula, Cory



A vida nada fácil do patriarca é contrastada pelas violências que ele pratica com as pessoas mais jovens, mulheres, desempregadas e portadoras de necessidades especiais. Ora, se ele é investido de poder para transferir suas próprias cercas fica evidente a discussão do conceito de interseccionalidade, não é mesmo?






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