Como ler Angela Davis de forma criativa?

angela davis
A liberdade é uma luta constante é o novo livro da filósofa estunidense Angela Davis. Ao lado, uma anotação ilustrada (sketchnote) que sintetiza as ideias que me impactaram.


Por Anne Caroline Quiangala

Ler Angela Davis, de forma tão popularizada, é uma atividade recente no Brasil. Isso causou uma avalanche de conceitos, temas, conceitos e reflexões que desejamos interpretar, absorver e aplicar de imediato. Mas como estudar tanto, e ao mesmo tempo se apropriar dos conceitos e memorizar?

Na pós-graduação eu senti a necessidade de refinar meu método de estudos e passei pelas clássicas confecções de fichas de leitura, resumo e questionários, mas nada disso foi suficiente para me ajudar a memorizar.

Em parte, isso se dá por questões físicas (horas sem levantar) somadas ao excesso de informações. Então experimentei o mapa mental, que nada mais é que um diagrama que relaciona e hierarquiza as informações. Sem dúvidas, é uma ótima estratégia, mas com o passar do tempo, eu voltava às anotações e não conseguia recuperar as informações de maneira satisfatória.

Foi então que eu descobri as Sketchnotes, isto é, as Notas Ilustradas. Sketchnote nada mais é que uma anotação que combina tipografia (diferentes tipos de letras, negrito, sublinhado), imagens e um formato (layout) cuja lógica conduz as informações de forma lógica.

Antes de dizer que "não sabe desenhar" ou que "não é uma pessoa criativa", saiba que a junção de imagens e cores cria pontos de ancoragem eficazes, tanto no que diz respeito à manter atenção, quanto de unir a racionalidade e a criatividade. Além disso, as notas ilustradas não são uma atividade artísticas, mas um método de exercitar o cérebro, conectar ideias e mapear o pensamento.



Lembre-se que a ilustração serve para comunicar uma ideia, portanto, não se prenda à complexidade de proporções e formas num primeiro momento. Se, ainda assim, você sentir insegurança e continuar pensando que não sabe desenhar, vou sugerir três livros que podem ajudar a quebrar essa barreira:



LENDO ANGELA DAVIS
Em 2016, a Editora Boitempo quebrou a lacuna e, pela primeira vez, tivemos acesso à tradução do clássico Mulheres, Raça e Classe (2016), Mulheres Cultura e Política (2017) e A Liberdade é uma Luta Constante (2018). Para leitoras experientes, a nota ilustrada é uma ferramenta de estudos para aprofundar a experiência de leitura, conectando ao conhecimento prévio. Para as iniciantes, também é relevante porque cria um ponto de ancoragem (memorização) e torna as consultas, após um longo período de tempo, bem mais interessantes.

Por esta razão, compartilho a minha experiência de leitura de A Liberdade é uma Luta Constante. A foto no início do post, é a primeira anotação que eu fiz, ainda durante a leitura, assim, as informações que eu desejava memorizar não estão relacionadas da maneira mais organizada. Comecei já mostrando o ponto de partida para já dizer que é positivo refazer as notas, para refinar a capacidade de síntese.

1. A LEITURA EM SI
Com o livro em mãos, o comum é sublinharmos (ou marcar com folhas adesivas) os trechos mais importantes. Embora seja útil, com o passar do tempo, essas marcas se tornam homogêneas e possivelmente vamos gastar muito tempo para resgatar uma citação ou conceito.

A solução que empreguei, inspirada por Doug Neil, foi a criação dum vocabulário visual, isto é, ícones (símbolo) que representam ideias para marcar ao lado do que sublinhei. Uma lâmpada pode representar ideia, uma estrela a ideia inspiradora e a lupa uma referência a ser pesquisada, mas é importante se sentir livre para escolher as suas.

Com os ícones, é mais fácil filtrar e hierarquizar as informações que serão usadas na Sketchnote. Sem dúvidas, ter um objetivo bem delineado norteia a leitura, os destaques e o resultado final. Uma vez que o livro trata de reflexões sobre a teoria e a prática, eu tinha em vista:

  • Compreender as reflexões e conceitos para me apropriar e usar nos meus próprios textos
  • Conectar o conhecimento de leituras anteriores
  • Exercitar minha capacidade de síntese
  • Criar notas sobre o conteúdo geral e os temas, para fazer o review do livro.



2. MATERIAIS
Uma vez lido e marcado o que era importante, optei por fazer as notas como um slide, assim, elenquei temas para cada folha. Além disso, usei canetas cujas cores remetem ao conceito da capa de A Liberdade é uma Luta Constante: dois tons de azul, preto e cinza:

  • Paper Mate Ink Joy 1.0 (azul)
  • Paper Mate Flair Ultra Fina (preta e azul)
  • Paper Mate Flair Média (preta e azul)
  • Stabilo 0.4 (cinza)

3. SELEÇÃO DE IDEIAS

Os temas que mais me interessaram ao longo da leitura foram as ideias inspiradoras (estrela), a ênfase de Davis em desmistificar e evidenciar as conexões entre as opressões (quebra-cabeças), a importância das alianças entre grupos minorizados (pessoas) e a dialética como um método.

Selecionar esses quatro temas, cujas representações iconográficas eu desenhei nas bordas ao longo da leitura, facilitou a coleta de passagens mais relevantes para atingir os meus objetivos. Sem dúvidas, os demais temas continuam facilmente escaneáveis, caso eu deseje retomar para outras finalidades, como um artigo acadêmico, por exemplo.

Na primeira folha, elegi como importantes as informações de autoria, título e os principais temas que elegi para este estudo.

4. CITAÇÃO

Acima de tudo, A Liberdade é uma Luta Constante é uma obra sobre pensar a respeito de novas ideias e práticas. Uma figura como Angela Davis oferecendo seu olhar tão lúcido e motivado, é inestimável no atual contexto sócio-político, por essa razão, elegi a frase acima para iniciar minha nota. As palavras destacadas de azul foram o ponto de partida para o diagrama imediatamente abaixo que conecta o pensamento de coletividade ao desejo de mudança.

Essa síntese levanta o debate a respeito da necessidade de pensarmos soluções para a lógica neoliberal internalizada. A contradição entre o desejo desmedido de "ter" e a urgência de imaginar alternativas evidencia uma fratura que demanda atenção.

5. TRÊS REFLEXÕES INSPIRADORAS

Acima elegi três frases que aprofundam o tema da lâmina anterior. Lembrando que as estrelas simbolizam as ideias, os números em negrito reforçam a ordenação que eu escolhi. O contraste entre azul e cinza é reiterado pela fonte e o negrito, de modo que, lendo o azul temos a ideia central de cada frase. Note que muitas das palavras destacadas são verbos, enfatizando a ação humana, a potência de mudança e a Vontade.

6. ROMPIMENTOS E CONTINUIDADES

O passo seguinte foi pensar numa solução mais gráfica sobre a conexão entre Racismo, a Violência Policial e o Sistema Prisional. Se você for familiarizada com a obra de Judith Butler "Corpos que pesam", já deve ter compreendido que a balança é uma referência a ele.

7. ALIANÇAS E RECIPROCIDADE

Uma das melhores sensações ao ler Angela Davis é a de que ela tem um real desejo de que compreendamos a ponto de aplicar as ideias. Muitas vezes, a explicação dos conceitos já prevê questionamentos e críticas e a ênfase na palavra "reciprocidade" é um dos casos. Se você notar, todas as vezes neste livro em que ela se refere à importância das alianças, enfatiza que a reciprocidade é imprescindível.

Aqui foi a primeira vez na presente série de Sketchnotes que conectei um conhecimento prévio ao aprendido no livro, você deve notar que é o conceito de lutar de escuta. Também quis registrar a elucidação de Davis de sua perspectiva sobre interseccionalidade, conceito que tem sido usado indistinta e acriticamente no lugar de conexão.

8. A DIALÉTICA

Uma das lições mais importantes em A Liberdade é uma Luta Constante é a demonstração da dialética, sem explicar diretamente. Ao longo das entrevistas, artigo e discursos, Davis poe em diálogo ideias, conceitos e atitudes contrárias enfatizando a terceira via, a implicação que traz em si os dois pólos, mas se distingue deles. Acima, uma das reflexões que mais me marcaram neste sentido.

9. AGORA É COM VOCÊ! FAÇA E COMPARTILHE.
No meu processo de fazer uma nota ilustrada do livro A Liberdade é uma Luta Constante, notei o quão útil é este método para estudar teoria ou mesmo não-ficção de um modo geral (texto instrucional, biografia, notícia). Por meio das #sketchnotes observei uma crescente melhoria na sintetização de ideias e capacidade de lembrar, mas não apenas isso. A qualquer momento, posso consultar no próprio livro guiada pelos ícones e otimizar meu tempo de pesquisa.

Você também pode ilustrar as notas de obras ficcionais. Quando eu li Kindred, foi exatamente o que eu fiz e recomendei:



Em suma: ler Angela Davis é muito mais que estudar e compreender. O que ela ensina também diz respeito a compreender, refletir e agir, portanto, aprofundar a teoria, memorizar e imaginar são tão necessários quanto sentar por horas e fichar os textos. E qual a melhor maneira de ler e estimular a criatividade senão as notas ilustradas?  Testa e conta pra gente a sua experiência, usando a #PretaIndica nas redes sociais!

2 comentários:

  1. Bem bacanas essas dicas, vou tentar aplicar nas minhas próximas leituras. ��

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    1. YEAH, que fera que você curtiu! Eu tenho achado um exercício muito bom também de "não julgar", sabe? O rolê é exercitar e transmitir a ideia, e quanto mais fazemos mais vai ficando com a nossa cara! <3

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