"Rei do Show": o cavalo de Troia perfeito pro seu natal!

Hugh Jackman é o Rei do Show


Por Anne Caroline Quiangala


Apesar da promoção de O Rei do Show na CCXP  ter sido um karaokê - ideia que a Netflix aboliu desta vez por motivos de Sense8 - e do trailer mostrar o ator Hugh Jackman (conhecido pelos filmes como Logan)  interpretando um cantor e dançarino excêntrico, eu te garanto que vale a pena sair de casa no Natal e assistir esse filme levíssimo e, ainda assim, com uma mensagem fantástica para os dias atuais.

O Rei do Show é uma livre adaptação da história de vida dum empresário e showman chamado P. T. Barnum (Hugh Jackman), que revolucionou o mundo do entretenimento no século XIX com suas ilusões e shows de "curiosidades". Acompanhamos a sua trajetória, desde a infância pobre até o sucesso na fase adulta, passando por uma série de elementos de Sessão da Tarde que aquecem o coração: um amor impossível, a mudança de classe social catalizadora duma ambição desmedida, uma moral no fim. Tanto Jackman quanto esta narrativa principal são um tipo de estratégia válida de convencer o grande público a assistir, mas o que realmente me interessou foram as outras camadas do filme relacionadas ao "grotesco". 




A normatização é a matriz do grotesco


Barnum é um forte candidato a "sujeito ideal", visto que é branco, homem, heterossexual e sem nenhuma deformidade física, porém o fato de não pertencer à elite faz com que ele seja visto e tratado como um ser grotesco na sociedade estadunidense (RUSSO, 2000). Graças a essa experiência de "diferente", ele não subestima o poder da arte considerada popular de emocionar e de ser rentável; seu olhar não-burguês enxerga o contexto fora do cânone como válido, desde os corpos abjetos até a "baixa-cultura" circense e, por essa razão, ele ousou misturar tudo isso e criar espetáculos para o povo. Neles, a diferença era o centro, vozes dissonantes, aparências, performances, tudo aparece simultaneamente coordenado, e com batidas bem marcadas no melhor estilo We Will Rock You (porém, mais pop que a medida certa).

A necessidade de aprovação pelo pai de Charity (Michelle Williams) evidencia a ferida mais profunda de Barnum que é a humilhação sofrida por ser filho do alfaiate da família dela. Essa é a motivação para o esforço em mudar sua condição material e conquistar o direito de casar com sua amada. O filme é muito bem acabado uma vez que tal premissa poderia sustentar mais uma história de meritocracia, mas a discussão é mais profunda do que pode parecer. Num primeiro momento, uma das filhas do casal se depara com a realidade de que ter dinheiro não garante o pertencimento à elite e aquela antiga revolta de Barnum se torna combustível para ele buscar um real conhecimento pela "alta sociedade". Interessante que, por mais aberta à vida de privações que Charity seja, seu poder de escolha faz com que ela interprete a realidade de maneira totalmente diferente do marido, afinal:

É difícil compreender riqueza e privilégio quando se nasce com eles

Esta mensagem atravessa o drama de Barnum e passa a outro núcleo relevantíssimo. Assim que decide se tornar "respeitável" diante da elite, o empresário revela seu poder de persuasão e visão de mercado. Se no início parece que seu recrutamento de jovens "esquisitos" era pura sensibilidade, a partir do momento em que ele começa a fazer alianças, o capitalismo selvagem pulsa e seu veio para a exploração adquire destaque. A primeira aliança é a equipe de atores, dançarinos, acrobatas, a mulher barbada, os gêmeos siameses, o homem gigante e toda a sorte de indivíduos excluídos devido à aparência; embora estes fossem o centro do espetáculo, Barnum ficava com a maior parte do lucro por ser o proprietário; a segunda aliança foi o jovem privilegiado Phillip Carlyle (Zac Efron), que viu nas promessas de Barnum a possibilidade de viver uma vida de aventura e autonomia.




É o arco de Carlyle (de burguês intelectual a dono de circo) que abre espaço para a personagem Anne Wheeler (Zendaya) se desenvolver. Wheeler é uma acrobata talentosíssima, com uma presença marcante, pra além da proposta de ser mero par romântico. O filme poderia facilmente cair em problemáticos discursos sobre relacionamento inter-racial, mas o acabamento é satisfatório. Partindo do clichê dos diferentes se atraírem, acompanhamos a paixão nascer silenciosa, mas enfatizando a assimetria, os privilégios (e a falta deles) em jogo para a materialização deste amor. Por mais que haja reciprocidade no relacionamento, a narrativa chama a atenção para o fato de que é Carlyle quem deve abrir mão de seus privilégios e que isso não é nenhum favor, muito pelo contrário. Na sequência em que este casal decide conversar sobre a assimetria, o refrão na voz do rapaz fala sobre


Mudar o mundo para ser nosso

Pode parecer ambicioso o desejo do jovem, exceto se considerarmos que a mudança de mundo é, na verdade, o deslocamento dele do seu próprio mundo abastado, de normatização e de privilégios. Antes de conhecer Barnum, ele não tinha contato com a diferença e sequer imaginava que pudesse se encaixar noutro lugar que não fosse o de sua origem. O amor entre Carlyle e Wheeler só é possível devido à mudança de perspectiva e abertura para além dos limites da compreensão elitista e, por mais chapada que esta passagem seja, notei um esforço em não reforçar a ideia de homens brancos salvadores. Tudo o que eles fazem pelos desviantes soa no filme como um favor a eles mesmos - isto é, o mínimo como seres humanos.




A extravagância do show promovido por Barnum revela o aspecto intolerante, retrógrado e destrutivo da sociedade capitalista. Os odiadores assumem o seu papel de tentar abafar as vozes e existências e tentam destruir o prédio de Barnum então aí está o fabuloso Cavalo de Troia. A biografia do criador do show business assume um patamar diferente do que é vendido e se revela um espaço para ouvir a voz dissonante, múltipla e coletiva com o auge em This is me. Nesta canção, toda a equipe do espetáculo tira de cena o drama de Barnum e assume a enérgica performance na qual reconhecem seu próprio valor, abandonam a necessidade de aprovação e entoam que "são assim" e estão prontas para encarar o mundo hostil que sempre as escondeu.

Cada um de nós é especial e ninguém é igual ao outro. Ninguém faz a diferença sendo igual.

É realmente a mágoa carregada por Barnum o que possibilita que as demais narrativas desabrochem, mas isso não desmerece a importância de cada subtrama e personagem secundária - sobretudo Wheeler. Quando menos se espera, Jackman some de cena e a Mulher Barbada Lettie Lutz (Keala Settle) assume uma das sequências mais emocionantes junto àqueles que iniciaram o filme como meras "curiosidades" e se tornam os sujeitos de si, cheios de atitude e autoestima.

Conclusão

Grande apaixonada que sou pelo clássico O Grotesco Feminino: risco, excesso e modernidade de Mary Russo, enxergo a apropriação do grotesco como estética, ética e performance funcionam em O Rei do Show como metáfora para evidenciar que a diferença é o melhor território de existência. A plasticidade do filme é um ponto alto, diferente da maioria das canções - há um momento em que aguardamos uma ópera e a música é uma balada pop sem graça -, mas nada disso reduz a qualidade geral da obra. E quando falo da qualidade, não ignoro os clichês, as performances chapadas e a estrutura convencional, apenas reconheço que nem tudo precisa ser cult para ter valor (aspecto até metalinguístico deste filme). O Rei do Show cumpre bem o seu papel de transportar o público para outro tempo e lugar e ainda transformar uma grande aposta (filme comercial é sempre uma grande aposta) em um discurso necessário.

Em suma, a mensagem que o filme privilegia é relevante para o presente porque ainda somos submetidas às normatizações da Modernidade que nem se consolidou, nem se consolidará, mas cujos efeitos são visíveis nas deformidades emocionais e psíquicas promovidas pelas forças sociais (RUSSO, 2000). Essa mensagem, camuflada num musical estrelado por Hugh Jackman e estrelas da Disney, é tudo aquilo que conservadores acham que querem ver, e também é tudo aquilo que ficou engasgado na sua garganta na ceia de Natal, portanto, eu repito: O Rei do Show é o Cavalo de Troia perfeito para ser curtido em família em sua estréia no cinema dia 25/12/2017.





Referência
RUSSO, Mary. O Grotesco Feminino: risco, excesso e modernidade. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

Ficha Técnica
Diretor: Michael Gracey
Elenco: Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron, Zendaya.
FOX Filmes




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