Conheça o primeiro ser vivo a orbitar a Terra: Laika

barricada (boitempo)
Laika: o primeiro ser vivo terráqueo a orbitar o planeta ou a mártir que não quis ser

  • Laika
  • Autor: Nick Abadzis
  • Colorista: Hilary Sycamore
  • Letrista: Lilian Mitsunaga
  • Barricada (selo da Boitempo)
  • 208 páginas
  • Julho de 2017 [2008]

Por Anne Caroline Quiangala

Laika é um romance gráfico quadrinizado por Nick Abadzis e vencedor do Prêmio Eisner (o mais importante no mundo dos quadrinhos!) em 2008. Sessenta anos após o lançamento do Sputnik II, esta obra chega ao Brasil inaugurando o selo Barricada da Editora Boitempo. Se, assim como eu, você sempre quis saber o porquê de terem enviado Laika ao espaço, eis a sua chance de entender o processo!

NARRATIVA E CONTEXTO


O plot deste romance gráfico é a vida da cadela Laika, desde o seu nascimento até o lançamento do satélite artificial que ela tripulou em 1957. O contexto desta história é a corrida espacial entre a União Soviética e os Estados Unidos no período conhecido como Guerra Fria (1947-1991). Um dos méritos gerais que podemos destacar da obra é a força de sua contra-narrativa, que mostra um ponto de vista diferente daquele contexto que tanto conhecemos a partir da perspectiva estadunidense (quase sempre desumanizando os russos). Um lançamento como Laika num ano de exibição de Estrelas Além do tempo (ambos no Brasil) é um contraponto ao discurso da hegemonia dos Estados Unidos. Neste sentido, Laika de Nick Abadzis é uma experiência altamente recomendada.

Laika <3

O ROMANCE GRÁFICO


As 208 páginas são distribuídas em quatro capítulos construídos de forma emocionante, daquele tipo que você termina de ler e fica contemplando o "nada". A quadrinização tem um estilo muito original, desde o traço espontâneo (que remonta aos desenhos de anotação, os sketchnotes) e a disposição dos quadros nas páginas (layout), gerando um efeito de temporalidade que focam as sentimentos, até o modo de narrar que nos confunde, engaja e emociona sem que possamos nos defender. 

Abadzis teceu esta narrativa mesclando elementos dos registros da época ao que poderia ter sido. A coesão entre esses dois aspectos possibilitam dar um inicio ao nascimento desconhecido da cadela, uma vez que ela foi recolhida, já adulta, nas ruas pela carrocinha e levada ao Instituto de Medicina da Aviação (IMBP) de Moscou. Nesta instituição, havia um programa secreto de treinamento de cadelas astronautas, que deveriam ter um determinado peso, tamanho e personalidade. Elas passavam por pesados processos que testavam sua resistência às condições de gravidade zero, velocidade e até à alimentação em pasta.

Outras narrativas se sobrepõem ao longo dos capítulos para que seja possível alinhavar a trajetória do ser que não articula e cujos pensamentos não temos acesso, nos conduzindo a nos colocarmos no lugar dela. O contexto de privação material vivida pela população, bem como o clima de suspeita foram ricamente atravessados por distintas subjetividade na história de Abadzis, o que evidencia a relação entre a política externa, a economia e o modo como as pessoas vivem. Há indivíduos que, em meio à privação, dividem o que têm sem olhar a quem, e há aqueles que, não contentes em terem o suficiente, querem o do outro. Esta última visão de mundo é aquela base especista, sexista e etarista incentivada pelo capitalismo, mas não restrita a ele. 

Por meio da história de Laika, em primeiro plano, Abadzis conseguiu evidenciar as conexões entre as opressões sem demonizar os indivíduos, ao contrário, mostrando suas resistências e contradições. As injustiças não são associadas simplesmente a problemas de caráter, mas construídas a partir de circunstâncias coletivamente sustentadas. Inclusive, a vida devastada das pessoas que trabalhavam no IMBP foi registrada na fala de Oliég Georguievitch Gazenko, em 1998:

Trabalhar com animais é um sofrimento para todos nós. Nós os tratamos como bebês que não podem falar. Quanto mais o tempo passa, mas eu lamento. Não aprendemos tantas coisas com a missão que justificassem a morte da cachorra" (in ABADZIS, 2017 [2008], p. 201)

A representação de Gazenko, bem como de outras pessoas da IMBP, é poética porque a sensibilidade dessas pessoas modaliza a nossa inserção, nossa conexão, nossa empatia e a dirigem à Laika.

O triste é que, depois de toda a conexão, descobrimos que a sua viagem sempre fora pensada como jornada sem volta; e isso gera o questionamento: por que ela teve que ser martirizada?




QUESTÕES


Por experiência própria: eu sabia que a Laika morreria no final, mas ainda assim, sofri muito ao longo da leitura porque o autor foi hábil em construir a empatia pelo seu ser: uma cadela. O ponto alto foi o fato de Abdazis conseguir sensibilizar a leitora sem usar mecanismos de "humanização" como falas, pensamentos e gestualidade típicas de homo sapiens. Laika tem valor pelo o que ela é, e nos inspira a repensar a condescendência para com o  especism(separação entre animais de diferentes espécies, que justifica comer, vestir e testar produtos em animais não-humanos) pra além do peso de discussões sobre "ser uma boa pessoa". Em situações de privação, até mesmo "boas pessoas" tomam decisões que custam a vida de quem não pode se defender, mantendo a lógica de certos indivíduos serem "dispensáveis".

Assim como não há aprofundamento em questões históricas ou conceitos científicos, o romance não exige do público familiaridade com a linguagem dos quadrinhos. O modo como ele usa o espaço dos requadros, sequências inteiras de movimento quadro-a-quadro, sobretudo quando envolvem Laika, dão espaço suficiente para devanearmos e questionarmos:

  • O animal não-humano não tem o direito de viver?
  •  Nossa empatia tem que se direcionar apenas aos nossos "semelhantes"?
  • Até quando indivíduos minorizados serão combustível para projetos megalomaníacos e colonialistas?

É cada vez mais urgente para grupos minorizados compreenderem a conexão entre as opressões, a forma como a desumanização tem sido conceito-chave para justificar a violência contra aqueles classificados como "animais", mas que são  antes alvo pela diferença de espécie, se comparada aos animais humanos. Em muitos círculos antirracistas ainda há resistência a enxergar que tanto precisamos valorizar nossas vidas, quanto destruir a lógica que racistas usam contra nós. O custo da vida dos animais humanos tem sido a medida para a conquista de direitos, porém, quando as instituições citam "humano" querem dizer brancos, classe-média, produtivos, heterosseuxuais, magros e jovens (KO; KO, 2017).  Se você nunca parou para pensar nisso, Laika é uma obra excelente para compreender estas e outras nuances da luta por justiça social.

No mais, na última estrofe do poema Eyes of the dead de Mary Spears, temos uma reflexão interessante  que corrobora o que penso sobre isso e que ficou tão bem estetizado em Laika: 

"Qual é o grande problema?" "É só um animal".
Eu poderia ter lembrado duma vez
quando alguém talvez tenha dito o mesmo sobre
mim" (SPEARS in BREEZE, 2009).

Na maioria das vezes, testes em animais são vistos com naturalidade, mas tenho certeza que depois desta leitura você vai pensar diferente - nem que seja só um pouco!


* Laika foi uma cortesia da Editora Boitempo



REFERÊNCIAS


ABADZIS, Nick. Laika. São Paulo: Barricada, 2017.
KO, Aph; KO, Syl. Aphro-ism: Essays on Pop Culture, Feminism, and Black Veganism from Two Sisters (English Edition). New York: Lantern Books, 2017. (Compre aqui)
BREEZE, A. Harper (org.). Sistah Vegan.  New York: Lantern Books, 2009. (Compre aqui)

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