Sobre ser Preta, Nerd e mais uma estranha

Cassandra, personagem não-jogável (NPC) do multiplataforma Mafia 3 (2K Games, 2016)

Por Anne Caroline Quiangala

Ano passado, uma querida amiga da blogosfera me marcou num tweet sugerindo que eu assistisse a uma série da Netflix da qual eu nunca ouvira falar: Crazyhead (2016). De início os diálogos me incomodaram, mas logo eu me vi tão absorvida que a minha vida como “fã de Buffy a Caça Vampiros”, garota, nerd, mulher e feminista passaram por mim numa perspectiva nova. Isso me levou a escrever sobre o porquê de precisarmos dum feminismo nerd interseccional, no qual explorei minhas diversas características subjetivas recalcadas porque representavam uma contradição fundamental: ser negra, ser estranha e – pior – ser nerd.

É claro que a vida é cheia de coincidências mortais (isto é, transformativas, segundo o Tarot ou a Deusa Kali) e, aquele ano de 2016 foi marcado também pelo lançamento duma obra prima, chamada Pieces in Spaces, um álbum de rap da cantora estadunidense Sammus. Todas as letras do álbum falam, basicamente, da experiência de ser Negra, acadêmica e nerd, três identidades que, em termos de contextos sociais, são insolúveis, distintos e, até opostos. Em Weirdo [Estranho], Sammus diz uma série de coisas como “eu sou uma introvertida”, “eu sou apenas uma estranha” e Homeboy Sandman contrasta: eu não bebo, nem fumo nem digo “nego”, não acredito em jesus, não odeio gente, porque não gosto de gente; e, por fim, Sammus é enfática “nós não somos estranhos pelas roupas ou body modification, somos estranhos pelo nosso ethos [modo de viver], nossos heróis e interesses”.

Crazyhead e Pieces in Space, isto é, uma cabeça louca de quem tem identidades espalhadas pelo espaço, em diferentes linguagens, racionalizam as contradições, as violências específicas e a experiência de ser Negra e estranha e assim dão nome à experiência, e dar nome significa fazer existir. Em 2016 eu já era bem resolvida com a minha identidade de Preta, Nerd e já escrevia neste blog homônimo (www.pretaenerd.com.br) desde 2014, mas não havia criado uma narrativa desde infância que recordo até aquele momento. Apesar disso, a minha experiência específica, logo ela que fez toda “a diferença na socialização, nos afetos e no sucesso”, foi personificada por Raquel e ela:

(...) me fez encarar o que eu lutei para esquecer e jamais admitir, quando decidi não mais ser estranha. Fato é que nós nunca deixamos o que somos (no máximo negociamos o que expor), mas a Rachel encarna o que eu realmente era: deslocada, socialmente inábil, péssimas piadas e falas fora da situação. Havia, claro, a ironia mas todos esses aspectos absolutamente invisíveis pra mim, se tornaram um problema também invisível aos 10 anos de idade. Eu, que adorava pesquisas, não desejava mais ir à escola e até mesmo ao inglês.

(QUIANGALA, 2016)

Nessa trajetória, não ser exatamente pobre como pretendiam me enquadrar para “ser negra”, ou ser nerd demais para ser negra ou feminista demais pra ser nerd eram contradições subjetivas (porque empurrões da realidade social) impossíveis de expressar pela linguagem que eu conhecia.

(...) eu era inteligente, bonita, limpa, leal, educada e tinha brinquedos legais.

(Roxane Gay, 2016)

E nada era suficiente pra me fazer sentir menos deslocada em qualquer lugar que eu fosse. Entre os 7 e os 10 anos eu me frustrei sozinha pela repentina e injustificável morte de Kendra, conheci Max e Original Cindy, e tive que queimar quilos de fosfato pra assentar minhas identidades de forma saudável. O racismo e o sexismo influenciam absolutamente tudo o que, de fato, me encaminhou para além dos trilhos do trem: a teoria e a prática feminista. Uma prática, muitas vezes, desastrosa, é verdade, mas ao menos sou ciente de que “tanto pelas expectativas moldadas por estereótipos racistas serem frustradas, quanto por ser mulher e direcionar meu consumo à cultura pop, o feminismo nerd é tão importante e tão inalienável pra mim”. Meu ativismo, minha prática acadêmica, minha vida, minha alimentação e diversão fazem parte duma mesma teia combativa, cada um desses elementos está junto no meu caminho de autoconhecimento e da minha saúde mental. Hoje em dia, eu vejo em Raquel e em Sammus um reflexo do que eu já fui, do que eu recalquei, mas também do meu cotidiano presente, e está tudo bem.

Ciente de que "Eu sou mais uma estranha" [Yeah, I'm just another mad weirdo], como afirma Sammus, é muito mais confortável, e finalmente eu sinto que tenho um lugar e ele é interseccional. Não sou menos Preta, tampouco menos feminista ou menos Nerd. Nesta trajetória, o mais importante não foi mapear e entender cada uma destas identidades que me compõem, mas sim, em que medida elas são inalienáveis.

REFERÊNCIA
GAY, Roxane. Má Feminista: Ensaios provocativos de uma ativista desastrosa. São Paulo: Novo Século, 2016. (Compre aqui!)

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