quarta-feira, 24 de maio de 2017

GET OUT cospe de volta os horrores do racismo

Certa vez, eu fui à casa de uma amiga de banda, para ensaiar, e a mãe dela quis conversar - justo comigo, a única preta da formação - sobre "como o Hitler salvou a a Alemanha da vergonha pós Primeira Guerra". Eu sou do Espírito Santo, lugar cujas contradições são bem escondidas, mas olha,  garanto que Get Out podia ser gravado lá, fácil, fácil.
"Não é porque você foi convidado que significa que você é bem-vindo"

*Tem Spoiler! Caso queira Spoiler Free clique aqui.

Quando Chris Washington (Daniel Kaluuya) passa para uma fase mais formal de seu relacionamento com Rose (Allison Williams) eles vão passar o fim de semana na casa em que ela cresceu com a família, ele começou a ter experiência estranhas que o levam a perceber as intenções sombrias da família dela. (via GRAVEYARD SHIFT SISTERS) 
Escrito & dirigido por Jordan Peele 
Distribuído pela Universal

Sem dúvidas, Get Out (Corra!) é filme que eu adoraria ter assistido na primeira metade da minha vida. Isso porque ele define exatamente a experiência de terror que eu e muitas pessoas negras sentem quando se tornam conscientes de que negro não é cor, mas uma identidade política. Com isso, quero dizer que o filme traz ao centro uma realidade desconhecida por pessoas brancas que "adorariam serem negras": a "paranoia" de não se sentir segura quase sempre.

Definindo a "paranoia": se eu vejo na rua certos símbolos, cortes de cabelo, posturas, visuais e nomes de prédios, eu sinto que preciso conhecer a história para identificar o nível de hostilidade. Isso eu vivo todos os dias: seja identificar se a cruz de Malta é usada realmente por um vascaíno (time com história racial interessante), se é referência à Ordem militar que protegeu nazistas após a II Guerra, ou se o indivíduo quer simplesmente ostentar um símbolo que sintetiza suas crenças místicas... Você sabe o que é ter medo de tochas e de chapéis brancos pontudos a ponto de sentir medo numa viagem rumo à uma cidadezinha do centro-oeste? Pois é, o que muita gente chamaria de paranoia, nada mais é que uma vulnerabilidade real e histórica tornada consciente. Vulnerabilidade simplesmente por ser quem você é num mundo em que interpretações motivam a violência específica. Por isso que o trailer de Corra me pareceu tão potente. Como disse Larissa Ribeiro:


"(...) se o branco precisa que alguém se fantasie de palhaço pra se assustar, o maior risco para um jovem negro continua sendo um branco. Seja ele um policial abusivo, um segurança que o persegue dentro de alguma loja, o pai preconceituoso de uma namorada. Não é preciso imaginar o terror de um monstro do além ou debaixo da terra, quando você se arrisca só por sair a noite, podendo ser "confundido" com algum criminoso." in Get Out, O Que Assusta Os Jovens Negros)

Sem dúvidas, a polícia é um dos medos mais reais que sentimos, a ponto de ser ambivalente a sensação de medo, o tempo todo. Um medo de tudo, todos e de qualquer um.

"MEUS PAIS NÃO SÃO RACISTAS"


Já fica evidente no trailer que o jovem Chris é um rapaz negro que decidiu namorar a pessoa branca errada (Rose). Não porque "negros não podem se envolver com brancos" nem mesmo porque a subjetividade dele seja reduzida à "palmitagem". Ao contrário, Get Out é um legítimo filme de terror negro, ou seja, dirigido a negros e sem espaço para grandes explicações, caso você seja uma pessoa branca.


Rose parece ser uma "pessoa errada" porque, em momento algum, ela mostra disposição para discutir questões relevantes para a concessão de Chris para ir à casa dos pais dela. Como assim "meus pais não são racistas" e "meu pai votaria no Obama de novo" justifica tudo? Ela partir desse pressuposto já significa indisposição para compreender o que significa ser o único negro num ambiente branco e quais os tipos de violência simbólica essa situação proporciona. Há no convite para "curtir" o fim de semana certa perversidade, porque tanto faz uso da insegurança dele em relação à recepção, quanto torna a pergunta "seus pais sabem que sou negro?" uma bobagem sem sentido, ignorando completamente a história dos EUA (Guerra de Secessão, Black Code, Jim Crow, grupos de extermínio disfarçados de irmandades). A escolha errada de Chris não é apenas "ir à casa de familiares da garota branca" e talvez ser escorraçado, mas é se envolver afetivamente com ela, Rose.

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Infelizmente, depois de um Queen Sugar, I will Follow e outras produções da Ava DuVernay fica difícil não comparar o efeito estético do filtro e da luz usados neste filme.

Gostei da construção do Chris como um jovem negro magricela e de pele pigmentada como uma pessoa traumatizada, sensível e insegura - imagem raríssima em filmes. A linguagem corporal dele, assim como o olhar, dão a impressão de que ele sabe que está numa relação desigual em que a maioria de nós já esteve: tudo tem um custo e, pra ele, parece justo seguir rumo à violência desconhecida, provavelmente porque não entende o que "uma garota como aquela" quer com ele. Isso, minhas queridas, é o aspecto relacional do racismo na construção da afetividade. Suas expressões, aliás, são uma espécie de pacto com a plateia que o compreende, e assim, estabelece um elo de realidade que se contrapõe às explicações do que é ou não racismo de Rose, fato também definido como whitesplainingÀ cada cena, a tensão racial entre eles vai crescendo tortuosamente, e com isso, vamos realizando o quanto Rose contribui para a manutenção do mal-estar de Chris, fazendo com que ele pense que "vê coisas". Tudo o que ela diz vai na direção de "ficará tudo bem", mesmo que já não esteja desde o início.


Rose, aliás, é o principal foco de violência: 1) ela afirma que o racismo é uma realidade, 2) ao mesmo tempo que nega as emoções e interpretações de Chris e, 3) assim, cria uma relação abusiva e de dependência paralisante e perturbadora conhecida como Duplo Vínculo (uma dos fatores de desencadeamento de esquizofrenia). Toda a confusão e silêncio de Chris demonstra como estão vinculados e, mais à frente, fica evidente como a fragilidade emocional é o ponto-chave das escolhas da jovem.

Já durante a viagem, Rose dirige o carro rumo à casa de seus pais. Esta sequência introduz a ideia de que a relação entre negros e brancos não pode ser analisada de forma simples. Se, por um lado, parece ótimo que a mulher conduza, por outro, mulheres brancas estão acima de homens negros na pirâmide social e o diretor enfatiza essa realidade para nos cobrar mais tarde. Naquele momento, Chris estava se sentido diminuído no banco do carro, não por ressentimento sexista, mas pela branquitude que ela exerce o tempo todo à medida que ignora a realidade subjetiva dele e, sobretudo pelo porvir. 

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Chris é muito expressivo, e isso reforça que a narrativa parte de sua perspectiva

Surpreendentemente, um animal cruza a estrada e é atingido pelo carro de Rose. Esse fato dá a impressão de ser um presságio para marcar o sobrenatural na obra, mas o ponto aqui é a visível diferença das reações do casal em relação ao fato. Enquanto Rose se desespera com a situação,  Chris se identifica com a fatalidade e se emprenha no mato. Quando seu olho marejado encontra o do animal abatido, fica evidente que:

"A supremacia branca não se restringe ao racismo dos policiais batendo em negros" (KO, 2015). O conceito de "animal" é uma construção social usada para objetificar corpos e justificar seu abuso, exploração e violência. É bastante comum dizer que a vida humana vale mais que a de um "animal" e, curiosamente, chamam pessoas negras de macacos; e agem institucionalmente como se nossas vidas valessem menos. Aliás, a lógica especista embasou a escravidão, porque conduzia cientistas a tentarem provar que negros não são humanos e que brancos são superiores. Não pararam por aí, a partir da ideia de "animalesco" encarceravam em zoológicos e explicavam que negros são mais resistentes à dor, ao trabalho excessivo... assim como os animais de tração?!. (via Preta, Nerd & Burning Hell)

Se lembrarmos lá da passagem no apartamento de Chris, a relação afetuosa de Rose com o cachorro Sid (e mesmo a pelúcia de leão) passa a ter um novo significado: ela se identifica com ele e não com o cervo. Esse comentário sutil enriquece a obra de significados e cria uma teia de respostas que o filme não nos responde diretamente. A primeira vez que assisti fiquei incomodada com a aparente falta de ancoragem do racismo deles, quero dizer, um estado do sul é sempre um estado do sul, mas senti falta de referências históricas sobre a Nova Inglaterra. Apenas na segunda vez, consegui montar o quebra-cabeças. Lembrando que a experiência diaspórica é um tecido fragmentado e com partes faltando e isso se reflete nas obras.

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"O AMOR É REAL"

Ao mesmo tempo que ela demonstra amar, valorizar o namorado como pessoa e o defende da truculência policial (fazendo uso de seu privilégio social), ela insiste em brincar com a insegurança emocional dele através duma simulação de que se sente atraída pelo melhor amigo de Chris, o policial da TSA, Rod Williams (Lil Rel Howery). Assim, cada gesto de leveza vai escondendo uma violência distinta, um custo emocional, e se soma à experiência do silente Chris que vai suportando toda a sorte de dor imaterial e indescritível sozinho como o fardo proporcional à qualidade do que tem em troca. Num comentário sobre a mulheridade em Get out, a professora Kinitra D. Brook (Universidade do Texas) afirma que "o paradigma da mulheridade branca como figura de maior valor na sociedade não é uma questão resolvida no longa" porque as escolhas de enquadramentos e situações mostram a violência gráfica contra homens brancos e uma mulher negra, enquanto duas brancas são presumivelmente violentadas. Essa hierarquia na edição reforça a ideia de "troféu" ligada à mulheridade branca, "e olha que é o filme mais negro da década", afirma. Rose representa um lugar específico de privilégio social, e toda vez que afirma amar Chris, ela está indiretamente cobrando esse amor de volta.


Antes de chegarem ao destino, já está explícito: o que falta a Chris, excede em Rose. Enquanto nós passamos a angústia junto com ele, de temer uma reação do policial que abusa do poder, ela continua impassível, apaixonada por sua própria condição. Isso vai crescendo ao longo do filme de forma agoniante e nos lembra a diferença entre terror e horror: enquanto a primeira é a agonia psicológica, a segunda é a apresentação gráfica do que temos medo. Em relação ao gênero, o filme segura bastante bem se há incursão sobrenatural ou não.


O QUE PARECE ERRADO, ESTA ERRADO


Não é tão simples descrever o terror que sentimos, muitas vezes é impossível. Quando Rose descreve seu pai, Dean Armitage (Bradley Whiteford), como alguém que "votaria no Obama de novo" parece um comentário inofensivo, assim como a simpatia e brincadeiras dele na acolhida. Esse mesmo individuo que "não vê a cor das pessoas, mas sim as habilidades" odeia cervos, os compara a ratos, fazendo entender a diferença de categorias entre os animais que roubam ("destroem o ecossistema") e os demais. Curioso quando ele diz que, "ao abater um animal, seus semelhantes se afastam", porque soa como um alerta. "Assim como um assaltante não interpelará sempre com "Prepare-se para e encrenca", um branco supremacista não traja veste cerimonial branca na vida comum ". Durante a tour pela casa de decoração "eclética", que exala orientalismo, a personalidade e crenças de Dean vão se revelando: "é um privilégio conhecer diferentes culturas". Ele é filho do atleta que enfrentou Jesse Owens nas eliminatórias das olimpíadas de Berlin em 1936. Ao mesmo tempo que Dean afirma que "Hitler estava lá com sua baboseira ariana", é possível captar seu ressentimento. Mais tarde descobriremos aonde chega o ímpeto de desejar ser melhor. Essa ambiguidade do discurso do patriarca, amplifica até culminar na cozinha, quando encontram com Georgina (Betty Gabriel), uma mulher negra cujo visual remonta à outra época e com Walter (Marcus Henderson), o caseiro de trejeitos robotizados. Dean se aproxima de Chris e diz: "Eu sei o que você está pensando. Família branca, serventes negros. Um verdadeiro clichê". Tanto a frase quanto a expressão de Chris, trazem um alívio cômico à cena: mais uma dose de whistesplaining. Nada mais previsível, pra quem se importa tanto em frisar que votou no Obama, como se isso fosse a maior ação antirracista do universo.

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Georgina é a criada da família. Ela é uma das personagens mais assustadoras, porque quase não fala... e está sempre sorrindo

Enquanto Dean "odeia com o que isso parece" (racismo), a matriarca, Missy Armitage (Catherine Keener), é mais reservada - e logo saberemos o porquê. Ela é a típica psicanalista de filmes: calma e igualmente perigosa. A hora do refresco é o momento em que temos mais acesso às falas dela. Primeiro ela começa sutilmete a sondar as emoções em suspensão de Chris, lendo sua linguagem corporal e identificando seus traumas explícitos (a morte da mãe e ausência do pai). A ideia de um órfão negro, num interior repleto de brancos é outra fonte de terror! Interessante como mensagens contraditórias continuam: "não julgamos ninguém", mas tabagismo é "um hábito desagradável, podemos te ajudar....Com hipnose". Nessa sequência, são tantas mensagens verbais e não-verbais que negam, afirmam e reafirmam, que parece tudo parte duma coerência da qual Chris e Georgina não fazem parte. O paternalismo em relação à Georgina, quando ela tem um mal-estar é assustador.

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Quando Georgina derrama justamente o refresco de Chris, parece que algo mais transborda nela...

A chegada do irmão de Rose, Jeremy Armitage (Caleb Landry Jones), duplica o mal-estar do filme. Quando ele aparece, já sabemos que é um estudante de medicina cujo desejo é trilhar os rumos do pai; ou seja, mesmo que pareçam diferentes na forma, são iguais em conteúdo. A perturbação de Jeremy é uma ansiedade estranha, agressiva, que tenta contaminar os demais. Quando ele pergunta a Chris se ele gosta de MMA, tensiona de novo o rapaz que parecia à vontade. A censura do pai é respondida com um gancho "talvez eu nem o conhecerei". Como uma visita educada, Chris tenta manter a conversa: "é muito violento pra mim", mas Jeremy lembra um sulista típico, e não perderá a chance de demonstrar sua ligação com aquele prazer perverso de assistir a homens negros escravizados lutando entre si (mandingo) que já vimos em Django: Livre (2012). Jeremy o ignora e rasga a o teatro dos pais e da irmã: "com a sua genética, se você cuidasse bem do seu corpo...Você poderia se tornar uma fera". Mais uma vez a animalização demonstra que:

"Branco" não é apenas uma categoria de superioridade racial; Se refere, também, a um modo superior de ser/estar. No topo da hierarquia racial o branco é considerado humano, assim, espécie e raça coincidem com [a ideia de] ser superior. Com isso, resta aos demais a abjeção, oposta à branquitude, e a (necessariamente) nebulosa noção de "animal"  - trad. livre. (Via Aph Ko in Aphro-ism).

Além da agressividade explicita e sem constrangimento, o perfil de Jeremy evidencia como o enraizamento cultural de práticas racistas é multifacetado. Rose termina o jantar revoltada com o mata-leão que Jeremy investiu contra Chris, assim como a grosseria contra Georgina, mas esse súbito "pé no chão" culmina em "será que meus pais fariam o mesmo com o policial?' como se ela fosse diferente de todos os outros brancos; algo como "o racismo existe, mas eu não sou racista". Como sempre, entender o que Chris está pensando/sentindo através de suas expressões faciais, dá um alívio, afinal, alguém mais está vendo isso. 

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 "Nossa, eles são tão brancos!".


Durante a primeira noite, Chris tem uma crise de insônia e vai para o quintal, automaticamente, como que para fumar... mas retorna e si e percebe que não precisa mais. Tudo o que parecia errado começa a se tornar mais compreensível: Walter corre no quintal enquanto Georgina observa o próprio reflexo na janela e reforçam a sensação de presa que Chris tenta negar desde o acontecimento na estrada. 

Aterrorizado, ele retoma pra casa e encontra Missy, que explica o conceito de alta indução e começa a escavar as emoções de Chris. A cena da hora do refresco se repete: o movimento circular da colher e o tilintar da batida no recipiente. As perguntas geram respostas que descem mais e mais níveis da psique e a prepara, como que para instalar um novo drive. O rapaz se debulha em lágrimas e, se percebe totalmente distante da superfície de sua mente, como se vivenciasse uma tela de boot. É agonizante como essa zona de flutuação metaforiza o isolamento emocional causado pelo racismo.



A aterrorizante zona de flutuação


Quando desperta, é como se aquilo não tivesse acontecido, e ele tenta espairecer fotografando a paisagem. Mais uma vez, Georgina parece aficionada pela própria imagem e o olhar de Chris se dirige ao Walter em busca dum território amigável. Chris tenta se conectar com uma pessoa negra que entenderia o desconforto de estar submerso a tanta branquitude, mas Walter não é um sujeito negro, ele é um sujeito com a pele negra. A primeira afirmação dele é a de que Rose é lindíssima e que ela é "uma em um milhão" que se envolverá com um "cara tipo ele", ou seja, Rose é o verdadeiro troféu. À medida que Walter eleva Rose, ele deixa subentendido que um sujeito como Chris não é digno do amor - fato que se soma à agoniante brincadeira dela quanto a desejar todos e quaisquer homens negros que apareçam. Se por um lado, ele não é a típica beleza negra nem a masculinidade estereotipada, por outro sabemos que o sentido do fetiche não custará a ser revelado.


"FESTA ESTRANHA, COM GENTE ESQUISITA"


Mais uma vez, a conversa entre Chris e Rose é interrompida por uma acontecimento. Carros pretos, de luxo, chegam em comboio e de dentro deles saem idosos brancos cumprimentados afetuosamente por Walter. Aqui temos um comentário sobre aqueles comentários que ouvimos com frequência "os negros são os primeiros a se discriminar" ou "olha lá o capitão do mato". É como se o cineasta conhecesse os versos de Mano Brown "eu visto preto por dentro e por fora", porque esta é a grande diferença entre Chris e os outros negros daquele contexto. Negros gratuitamente hostis interiorizaram uma lógica de branquitude perigosa para si mesmos.

Durante a festa, Rose apresenta seu namorado a todos os convidados, até que uma mulher diz que ele é bonito. "Você é bonito?' pergunta Rose a Chris, e antes que ele possa responder, a convidada insinua a superioridade sexual, à medida que o toca. Outro convidado o interpela com a frase "preto tá na moda", como se negritude fosse uma questão mutável e estritamente ligada à cor da pele. Essa sequência abusa de situações em que vemos um perturbador "gosto pelo exótico" com uma perversidade naturalizada. É muito sábio da parte de Chris não responder, porque o desgaste é iminente. 

Quando ele decide fotografar para espairecer, vemos uma sequência que aparece no trailer: Chris avista um homem negro de costas, com vestes que indicam outro tempo e o aborda: "como é bom ter um irmão aqui". Quando o homem vira, a hostilidade se apresenta antes dele: "ah sim, claro que é". Como um bom sobrevivente, o fotógrafo percebe que a coincidência de todos os negros ali serem estranhos, tem uma raiz sombria. Logo chega uma senhora branca, bem mais velha que ele: Philomena. O homem se apresenta como Logan King e mostra, mais uma vez, que Chris não está errado: conta para ela sobre o fato de Chris se sentir reconfortado com ele. Na despedida, Chris oferece o punho e Logan aperta como se fosse um cumprimento formal. Este momento evidencia o quanto o domínio do vernáculo negro (gestualidades, gírias e experiências) é um território de pertencimento que se constrói na presença de um igual e o quanto a saúde mental demanda isso. Chris se vê totalmente só, observando Logan em exibição, até que encontra Jim Hudson (Stephen Root), um idoso branco com deficiência visual.

Esse encontro se inicia com um pedido de Jim para que Chris entenda que nenhuma daquelas pessoas é má, elas só não entendem "o que pessoas reais passam". Algo próximo a não serem culpadas pelo racismo que perpetuam. Em seguida, ele diz: "Eu sou um grande admirador do seu trabalho. Você tem um grande olho" com um tom que envolve aquele mesmo ressentimento de Dean na tour. À medida que elogia as "imagens brutais e melancólicas" de Chris, ele deixa transparecer que adoraria ter o talento e a sensibilidade do jovem. Outra sacada é que ambos dizem "A vida não é justa", mas a frase tem significados diferentes: a doença genética fez Jim perder o sentido que mais adorava enquanto o fenótipo de Chris carrega uma história de expropriação e violência.

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Logan é a prova final de que não dá mais pra Chris ignorar os instintos

Até a metade do filme, o incidente com o cervo, os negros com a "alma sequestrada" e a flutuação ainda dão um clima de suspense sobrenatural, mas quando Chris percebe que seu celular está desconectado da tomada mais uma vez, vem a tona que  não existem meras coincidências. O celular simboliza o esforço de desconectar Chris de sua única fonte de conexão com o real, seu amigo Rod. Quando questiona Rose sobre isso, ela mais uma vez o infantiliza e ridiculariza "Então, você é tão sexy que as pessoas tiram o seu telefone da tomada?'. É muito desagradável assistir às tentativas de Chris para agradar, as tentativas desesperadas de pertencer.

Outro momento de exibição interessante é quando Dean chama Chris para a situação. Há diversos brancos e um único amarelo, chamado Hiroki Tanaka. Por quê? É através dele que é tratado o tema "performance de branquitude". Essa situação é bastante comum, assim como Tanaka, uma professora do mestrado perguntou na aula em que eu estava, se pensávamos muito sobre a vida no século XVI. Afinal, "ser um negro é mais vantagem ou desvantagem no mundo moderno?'. Como individuo também racializado, pode parecer um alívio sentir que pode exercer o racismo anti-negro, mas isso não torna branco. Tanaka, assim como a tal professora, ainda que podendo estar do outro lado, não significa que a ele pertence. Para estar, ele se submete a um isolamento, em muitos sentidos também debilitante. 

Um único personagem de origem asiática mostra que o racismo anti-negro é apropriado por outros grupos racializados, mas isso não salva.

Quando Chris chama Logan para responder o questionamento, a resposta é tão absurda que decide fotografar. O flash faz com que ele desperte da transe e ordene a Chris que fuja logo dali "Get out! Get Out!"

Mais uma vez, Rose surge como solução para o contexto, e mais uma vez nega o que Chris viu agora fazendo uso do argumento de autoridade "meu pai é cirurgião e disse que foi uma convulsão", só faltou dizer "quem é você para dizer o contrário?'. Enquanto isso, Dean organiza o bingo cujo prêmio obviamente é Chris. Até então ainda parece que o vencedor terá o oportunidade de machucá-lo, mas não é tão simples.

QUEBRANDO A ANGÚSTIA NO MEIO: O ARCO DE ROD


Por mais cômico e sexista que o melhor amigo de Chris possa parecer, ele é o mais real da história. A comicidade vem de sua aparente fixação por casos macabros envolvendo violência de brancos contra pretos (em especial queer). Enquanto Rod alerta o amigo a todo tempo sobre não permitir que invadam sua mente, Georgina afirma que é "tratada como parte da família", frase típica que soa como domesticação, mas que na obra fala sobre o real: não somos nós que depomos contra nós mesmas, mas sim a voz branca que nos habita, o mesmo para situações em que pareça que "negros são mais racistas do que os próprios brancos". Não é sobre ser investido de poder, mas sobre internalizar a ausência dele.

Assim que Chris envia a foto de Logan (Lakeith Stanfield), Rod já identifica como um homem negro desaparecido há seis meses: o jazzista Andre Hayeworth. A partir daí, o casal decide voltar para casa. Arrumando as malas, Chris encontra uma caixa de fotos de Rose que revela que ele não é a única pessoa negra com quem ela se relacionou. Foram várias pessoas, dentre elas Georgina e Walter. Podemos depreender o perfil de pessoas isoladas, com a identidade fragmentada, e que sumiriam sem serem notadas. Ou seja: fetiche tem múltiplas formas. 

Felizmente, Chris tem Rod um amigo que fará tudo por ele. Em companhia do cão Sid, Rod vai à delegacia prestar uma queixa de desaparecimento. A detetive Latoya (Erika Alexander) que o atende, assim como Georgina, tem a epiderme bem menos pigmentada, se comparada aos rapazes, e isso é um dos pontos fracos do filme. É importante mostrar a variedade de peles das mulheres, para não reafirmar a ideia de que quando mais "clara a pele, mais feminina" que predomina em clipes de hip hop. Apesar disso, a dureza e objetividade com que ela conduz quebra um pouco essa ideia de feminilidade padrão.

Enquanto o caricato Rod descreve a situação de Chris e Andre, a expressão da detetive indica que ela acha ridículo e paranoico da parte dele interpretar daquela forma. Embora a maneira como ele expresse não seja objetiva, é curioso uma policial negra duvidar que homens negros sejam sequestrados por pessoas brancas para fins tortuosos. Por mais estranho que seja é como se ela como mulher ignorasse uma denúncia de estupro. Ela chama outros policiais, também homens negros, para se juntarem a ela nas risadas.

DO TERROR, À FICÇÃO CIENTÍFICA


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O cerco se fecha, e então Chris percebe que sua namorada é igual aos demais - afinal, namorar um negro não faz de ninguém menos racista. Como já estamos familiarizadas com o processo de flutuação, dessa vez é mais direto. Ele desperta numa sala, de frente para a cabeça dum cervo empalhado. Uma televisão antiga é o veículo do famoso discurso do vilão que explica seu plano malévolo. Um idoso (Roman Armitage, avô de Rose) explica que,o interlocutor foi escolhido devido aos "benefícios físicos desfrutados o suficiente", podem ser somados à determinação igualmente natural através dum procedimento chamado Coágula. Objetivando alcançar a perfeição humana, a Ordem fundada por ele, desenvolveu a técnica de transferência da consciência deles para um corpo "mais apto" cuja mente não chega a tanto (querem nossos corpos, não nossa mente). Particularmente me lembra aquelas gravadoras que investem em cantoras loiras de música negra, devido ao produtor negro, ou mesmo o lendário Elvis.

Apos outra flutuação, Jim aparece na televisão para descrever a sorte de Chris: 1) primeiro eles te hipnotizaram, 2) a fase dois é a da preparação mental para a operação e, por fim, 3) o transplante cerebral. Segundo Jim, um pedaço do cérebro de Chris permanecerá no sistema nervoso para manter as conexões e a previsão é pior que a morte: um pedaço da consciência permanece no corpo, de forma passiva, isto é, limitada a ver e ouvir: às margens de si mesmo. Nesse momento, a "crise" de Logan e o transbordamento de Georgina passam a significar um momento em que suas consciências conseguiram emergir.

"Por que gente preta?' questiona Chris. A resposta é a clássica inversão discursiva que brancos tem usado ao longo dos séculos de violência, exploração e privilégio: porque querem mudar, serem fortes e rápidos ou mesmo vítimas. Não é inveja do olhos do fotógrafo que Jim sente, é apenas a ideia de que negros não podem ter nada. O que essa perspectiva geralmente ignora é que para estarmos vivas hoje em dia, tivemos que desenvolver habilidades de sobrevivência, que incluem respostas rápidas à adversidade e criatividade. Chris consegue transformar a angústia numa estrategia de fugir da flutuação: ele tampa os ouvidos com o algodão da poltrona. Quando Jeremy vai buscar-lo, ele passa de totalmente pacífico para uma reação violenta que o leva a matar brutalmente três pessoas seguidas: Jeremy, Dean e Missy. Por mais que uma situação-limite revele o que há de mais reativo, essa reviravolta não é muito convincente, principalmente porque a mãe dele foi assassinada.

Enquanto isso, Rose - a colecionadora de corpos negros - está tomando leite puro com cereal em busca da próxima vítima. Curioso que ela é como uma página em branco, que se caracteriza conforme a vítima, por isso sua falta de expressividade quando Chris notou sua máscara cair.

Durante a saída, ele se apropria do carro de Jeremy e, acidentalmente, atropela Georgina. Ele sente um compromisso forte com o corpo social a ponto de descer e trazer a mulher consigo. Interessante que quando ela acorda, a primeira afirmação é a de que ele roubou tudo o que ela tinha. Típica inversão. No carro de Jeremy avistamos junto ao Chris um elmo, que explica a cena inicial do filme, que é o sequestro dum homem negro numa vizinhança abastada. Pressupondo que aquela vizinhança é branca, esse prelúdio denuncia a permanência dessa prática, assim como a complacência dos próprios moradores e da polícia (que tanto pratica, quanto oculta).

Ciente de que o flash dá um boot na mente do hospedeiro, Chris dispara a luz e traz Walter à superfície. Ele tem então a oportunidade de se vingar: atira em Rose e em si mesmo. Quando Chris tenta estrangular Rose, eles ouvem uma sirene. Como faltam cerca de cinco minutos para terminar, parece inevitável que, dessa vez, ele será privado de liberdade: negro, estrangulando uma mulher branca ensanguentada, quatro corpos... Mississipi Godaam! Strange Fruit! Precisa dizer mais?

Felizmente quem o encontra é seu melhor amigo Rod. No caminho para casa, o que fica evidente no silêncio é que apenas a consciência nos salva. A colonização de nossos corações e mentes é uma investida constante, que se fantasia das mais diversas maneiras a espera duma brecha ou escolha errada. O filme não se dá ao trabalho de oferecer respostas a "nem todo branco" nem a qualquer branco, porque simplesmente o filme não os tem como público-alvo.

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Jordan, Daniel e Allison


CONCLUSÃO


Sem dúvidas é emocionante ter um filme dessa densidade distribuído tão largamente pelos cinemas comerciais. Eu esperei muito tempo para assistir, ta que enquanto aguardava, ficava elaborando sobre as estratégias de tornar possível. O problema é que tanto a espera quanto as questões levantadas pelo trailer elevaram o meu grau de expectativas. Sem dúvidas é importante celebrar o brilhantismo do filme de Peele, primeiro cineasta negro a superar a arrecadação de cem milhões em bilheteria doméstica

Ele mesmo acreditou que esse filme jamais seria feito, então seu conselho ao público na Morehouse College foi: "eu fiz desse filme o meu filme preferido de horror que não existia", para ele, esse jogo fez dele um escritor melhor. Além disso, ele afirma o quanto produções audiovisuais tem sido importantes para desconstruir a ideia de que vivemos numa era pós-racial. O Terror e o Horror são gêneros enraizados em comentários sociais, então uma equipe criativa negra é capaz de proporcionar uma experiência de terror que tanto reafirmam para negros que o que sentimos é real, como leva indivíduos não-negros, em especial brancos, a se conectarem e entenderem os efeitos do racismo. As vezes a quebra de clichês do gênero horror causam frustração, ao longo do filme, mas a ideia é exatamente mostrar que o racismo é pior que vampiro, zumbi e palhaços.

É fato que todas nós esperávamos mais do filme, como sempre exigimos de nós mesmas. Em certa medida, o trailer contribuiu para que esperássemos uma história mais linear e sobrenatural, mas isso não significa que o filme não tenha qualidade estética e que não traga uma revolução per se. Por experiência própria, afirmo que Corra! não é um filme pra assistir apenas uma vez. Procure juntar as peças e assim construir uma significância que se contraponha ao seu "apenas bom" e veja o que acontece.





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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Tamar-Kali: A Deusa guerreira do Hardcore que você precisa conhecer

Dizer que Tamar-Kali é uma "alma divina e guerreira do hardcore negro" é insuficiente para descrever a revolução emocional e política que suas músicas me inspiram.

DEUSA MELÓDICA

Sem dúvidas, Tamar-Kali é uma das artistas / pensadoras contemporâneas que mais me representam à medida que norteia meu discurso e minhas práticas como Preta, Nerd mergulhada neste mundo em chamas - o Burning Hell. Não, ela não é uma badass, afinal empoderamento é uma estratégia de sobrevivência, não um fruto "exótico" ou show desumanizador para entreter o lugar político do indivíduo branco.

Sua voz é potente, e independente da forma ser melodiosa ou rasgada - porque todas as canções têm ao menos dois arranjos -  sua sensibilidade e performance mesclam pedaços de imaginários para propor novas narrativas. Tamar-Kali é a junção de seu primeiro nome (Tamara) com o nome da deusa hindu de pele preta*, manchada de sangue e ornamentada com caveiras. Ela é a deusa da morte do ego, a transformação (morte simbólica) que destrói a maldade e, por extensão, a desigualdade social. Particularmente, gosto de pensar neste nome como a junção da contradição histórica, agridoce, em busca dum futuro livre e justo, isto é, totalmente sem medo (como disse Nina Simone).

A violência específica a qual estamos submetidas diariamente torna nossa experiência repleta de investidas desumanizadoras. O medo ao qual  Nina Simone se referiu foi à  uma sensação presente do trauma e a certeza de que ele se repetirá enquanto o racismo  for um sustentáculo social. Contra a repetição sistêmica, a arte de mulheres negras possibilita um olhar que alcança toda a humanidade que atos racistas buscam apagar. A conscientização através da voz de Tamar-Kali, herdeira de Beth Smith e Nina Simone, tanto revela camadas de nós que precisam ser destacadas como canalizam a raiva e a impotência de forma seguramente propositiva e empoderadora.

No clipe do single "Pearl" um dos enquadramentos mais interessantes foca Tamar-Kali contra a luz com movimentos de dança-do-ventre que fazem referencia à deusa Kali. Junção, sobreposição e antíteses são recursos presentes em todas as suas composições.

Tamar-Kali



Sua performance é uma presença que rasga o véu da ignorância, da negação e do ultraje e traz ao centro nossa existência como sujeitos, não apenas sensibilidades individuais, mas também como sujeitos sociais e históricos. A sobrevivência depende do entendimento de que a humanidade de pessoas negras é constantemente sitiada, mas que nossa individualidade é um ponto tão político quanto. Já dizia Audre Lorde, que nossas existências, nossa sobrevivência é um ato político em si. Quem vive, sabe - quem morre também.

Como mulher jovem e negra, nada me tocou tanto em aspectos racionais e emocionais do que quando ela diz:
"Eu definitivamente me identifico como uma feminista negra**. Eu vivo minha vida ciente do meu valor como uma presença humana neste planeta que jamais seria eclipsada pelo meu gênero - o que seria ridículo. Baseado na estrutura de poder em que existimos, caminho neste planeta na condição de "outro" e minhas letas refletem isso; minha raiva, minhas expectativas e desafios e tudo o mais que eu encaro.  Não escrevo com uma intenção política, mas o fato de ser uma mulher negra contando minha história no contexto que estou é um ato político em si" (Tamar-Kali, via Urocyon Meanderings)
Apesar da óbvia relação entre o rock e as vozes marginalizadas, o gênero musical em si é imaginado como redoma masculina e eurocêntrica neutra, com músicas sobre guerreiros vikings, a Bíblia, heróis e dragões. Sem dúvidas, é preciso estar muito próximo do núcleo comercial para ter essa compreensão, mas mensagens como a de Tamar-Kali raramente circulam mesmo no underground. São muitas as fronteiras que deslizam à volta da identidade da cantora, que acaba sendo apagada numa cena que se diz empenhada em ouvir e veicular o discurso do "outro". Em todos os lugares, os inimigos são os mesmos.

Tamar-Kali

A impressão duradoura de Tamar-Kali é tanto imagética quanto rítmica. Na maioria das letras, sua voz poderosa se dirige a uma igual e torna acessível tudo o que encontramos na prosa de Bell Hooks, Audre Lorde, Grada Kilomba, Abena Busia, Alice Walker, Angela Davis e tantas outras. Isso não é um fenômeno isolado, como descreve a socióloga estadunidense Patricia Hill Collins. Para a teórica, o fato de as questões que afetam o cotidiano de mulheres negras serem coletivas, faz com que uma forma de pensamento oposta à opressão emerja em resposta. É por esse motivo que o pensamento feminista negro permeia a produção artística e intelectual de tantas cantoras Negras.

CARREIRA


Apesar de Tamar-Kali estar na cena do Brooklyn desde a década de 1990, seu primeiro EP Geechee Goddess Hardcore Warrior Soul (OyaWarrior Records) só foi lançado em 2005. Apenas em 2010 estreou seu álbum Black Bottom com as marcantes "Pearl", "Boot" e "Warrior Bones". Todas as letras são composições de Tamar-Kali e o álbum foi coproduzido por ela, de modo que suas ideias e ethos não foram limados em prol de aceitação do "mercado". Entre o EP e o álbum foram lançados singles e sua agenda de shows se manteve frequente.

Tamar-Kali

Singles esses que foram lançados em versões diferentes, desde o hardcore e remix até o arranjo clássico para o show em homenagem a Betty Davis e Nina Simone em 2009. Sua incrível voz também foi emprestada às produções da cineasta negra e lésbica Dee Rees: primeiro no premiado "Pariah" (2011, Focus Films) e na recente homenagem "Bessie" pela HBO, em 2015, estrelado por Queen Latifah.

A LÍRICA FEMINISTA NEGRA


No clipe de Pearl desmorona a ideia de neutralidade do hardcore ao mesmo tempo que questiona as generalizações racializadas. A letra descreve a jornada de autodescoberta duma menina de pele negra que, a principio não sabe, mas "Ela é uma pérola" encrustada na urbanidade. Aliás, em entrevista a Jen Williams, ela afirma que Black Bottom é uma referência à experiência coletiva negra, principalmente em Detroit. É necessário usar essa expressão porque, segundo Kali, não é possível pensar em sobreviver sem relacionar ao que acontece externamente, sobretudo pensando nas grandes cidades. A menina ansiosa e insegura, não sabe, mas ela precisa se atentar às próprias respostas para perguntas como "O que é liberdade?" e  "O que é o amor?" e assim, descobrir o quanto é  valiosa.

Tamar-Kali

Já em Warrior Bones, um trecho me chama particularmente a atenção: "Eles tornam pior quando eles dizem que é para a liberdade / E você acredita neles/ Imperialismo, genocídio, nunca um plano B/ Algum dia/ todos nós assistiremos ao Armageddon na TV pay-per-view" (tradução livre)***. Essa letra é uma poderosa ode à revolução e se refere ao antagonismo social como uma realidade que conhecemos e precisamos desafiar, sobretudo quando poderes políticos e simbólicos insistem em manipular: guerra às drogas sempre foi uma política de genocídio da população negra; Imperialismo não é uma forma de possibilitar liberdade, mas a invasão do território geográfico, intelectual e emocional do outro. É preciso buscar por alternativas novas, um novo plano, para liberdade plena.

Pra fechar, o emblemático cover de "Fire With Fire" que adquire outra mensagem na voz de Tamar-Kali. A letra é uma mensagem duma garota que já passou por todas as dificuldades e procura fortalecer uma mais jovem. A voz de Kali empresta um tom específico e poderoso à letra do "The Gossip" por fazer parte da trilha sonora do brilhante longa de Dee Rees: "Pariah". A mensagem central emprestada à letra é a de que é preciso ir contra o mundo para encontrar um lugar nele, e, para isso, "levante e combata fogo com fogo". Não há como correr, nem como esconder o que se é, opressores estão sempre à espreita: " Levante, resista, e mantenha a cabeça erguida". Em Pariah a mensagem central é para que jovens garotas negras lutem pra viver, pois apesar da homofobia, sexismo e racismo, muitas outras vieram antes delas e quanto mais erguida a cabeça, mais "dura na queda" (Como diria Elza Soares).

Enquanto as experiências de mulheres e jovens negras são continuamente negadas nas camadas mainstrem bem como nas comunidades underground, Tamar-Kali irrompe como a presença que nos inspira, constrói e reivindica tudo o que é nosso, como a maravilhosa Ialodê que é.

Tamar-Kali


NOTAS:


*Assim como Shiva é usualmente descrito como azul escuro, há quem traduza a cor da pele como "negra".
**no original "feminist/womanist" pode causar dúvidas para quem teve contato com teorias feministas negras, mulherista e mulheristas africana. A identidade política de Tamar está alinhada a questões espirituais e tradicionais, mas a combatividade e visão de mundo se alinham às teóricas feministas negras como Audre Lorde, Abena Busia com traços do Mulherismo de Alice Walker.
***Letra original: "They make it worse when they tell you it’s for freedom/And you believe them/Imperialism, genocide, never a plan B/Someday we’ll all watch Armageddon on pay-per-view TV"


Originalmente publicado no Delirium Nerd em: 8 de maio de 2017.

Pride!


sexta-feira, 19 de maio de 2017

O que aconteceu à Miss Nina Simone?

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“What happened, miss Nina Simone?” (E.U.A, 2015, 101min)

O que aconteceu à Miss Nina Simone? [*]

por Anne Caroline Quiangala e Edileuza Penha de Souza


O documentário What happened, Miss Nina Simone? (Estados Unidos, 101min, 2015) dirigido e produzido por Liz Garbus, com produção executiva e participação da filha de Simone (Lisa Simone Kelly) e coproduzido pela empresa de streaming Netflix associada à Radical Media, foi um dos dois documentários da Netflix indicados para a Academy Award na categoria “melhor documentário”.


Em termos audiovisuais, 2015 recebeu o título de "ano das mulheres" por parte da audiência devido à divulgação de filmes e seriados televisivos focando uma representação feminina mais plural. O cânone cinematográfico de franquias como Star Wars bem como de Mad Max, além dos longas-metragens As Sufragistas (Dir. Sarah Gavron), Big Eyes (Dir. Tim Burton) e A que horas ela volta? (Dir. Anna Muylaert) focaram a narrativa em mulheres fortes de forma sensível e politicamente compromissadas, respondendo ao apelo do público. Na categoria seriados, destacaram-se, principalmente, Scandal e How to get away with murder e Grey's Anatomy produzidos pela Shonda Rhimes (chamados de Shondaland) e veiculados pela rede televisiva ABC e o streaming Netflix que, dentre as suas séries, a que mais se destacou, sem dúvidas foi Marvel: Jessica Jones

Fazendo o recorte de raça e gênero, teremos, desde 2014, o imprescindível documentário Libertem Angela Davis, dirigido por Shola Lynch, no ano seguinte, a aclamada produção da diretora Ava DuVernay, Selma: uma luta por igualdade, American Masters: Althea (dir. Rex Miller) e a bela biografia da blueswoman Bessie Smith: Bessie (2015), estrelado por Queen Latifah e dirigido por Dee Rees. Salvo os julgamentos que qualquer obra submetida à audiência possui, os filmes e séries citados acima construíram um contexto de expectativas positivas sobre o documentário What happened, miss Nina Simone?, que foram frustradas pelo engajamento político colonizador no modo de Garbus representar Nina Simone.

What happened, Miss Nina Simone? pretendeu dar voz à história da cantora estadunidense Nina Simone por ela mesma. Sendo a diretora uma mulher branca, sua própria condição lança um desafio inicial: como não transformar o discurso sobre o Outro numa "peça concreta" de silenciamento? (Kilomba, 2016). Tomando a metáfora da máscara usada pelos escravizados que os impedia tanto de comer o que plantavam/colhiam quanto de falar, Grada Kilomba (2016) questiona: "O que o sujeito Negro poderia dizer se a sua boca não estivesse tampada? E o que é que o sujeito branco teria que ouvir?". Embora possamos pensar na obsolescência da máscara como peça, podemos considerar os mecanismos simbólicos que impedem que o sujeito negro fale por si mesmo e denuncie sua condição. 


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Quanto ao filme, apesar de ser composto por uma fortuna de materiais pessoais como: fotos, diários, entrevistas em áudio e vídeos que trazem Simone ao centro de sua própria história, é notável que sua complexidade identitária, bem como certos pontos de vista (a família e as amigas de Nina, por exemplo) e questionamentos acerca da biografia que explicariam relações de causa/consequência, resultam em deixar a protagonista fora do campo de enquadramento. Noutras palavras, a voz de Nina Simone não expressa o que o sujeito branco "teria que ouvir", mas o que eles se sentem confortáveis/querem ouvir. Evidentemente, quando me refiro à sujeito branco, refiro-me a uma posição política, a um modo de interpretar o mundo que está interessado em negar o passado colonial e de reforçar (sutilmente) a naturalização do discurso racista.

Segundo Tanya Steele (2015), as escolhas na composição da obra privilegiaram a narrativa do abuso sob a ótica do ex-marido abusador que, nas palavras de Simone, “apontou uma arma na minha cabeça, ameaçou-me de morte e depois me estuprou” (Steele, 2015). A maioria dos trechos dos diários - aos quais temos acesso simultaneamente via grafia e voz - são desabafos em que a cantora descreve as agressões, ora culpando-se, ora afirmando prazer naquele sofrimento. Esses trechos não são problematizados em nenhum momento dentro da narrativa, o que acaba fortalecendo o imaginário colonial de que o corpo negro, em especial, da mulher Negra, é uma “força indomável da natureza” e de que, portanto, é natural que o poder opressor se manifeste sobre ele a fim de contê-lo.
Esses trechos não são problematizados em nenhum momento dentro da narrativa, o que acaba fortalecendo o imaginário colonial de que o corpo negro, em especial, da mulher Negra, é uma “força indomável da natureza” 

Para Steele (2015), o conjunto de escolhas que compõe a obra cinematográfica é totalmente irresponsável, porque erige a imagem de um gênio (em particular) a partir de aspectos que buscam deslegitimar essa genialidade (coletivamente). Para ela, Liz Garbus compactua com a continuidade no modo de representar gênios como “torturados, aflitos e abusivos” (Steele, 2015), ainda ensinando às mulheres Negras lições sobre si mesmas. A complexidade de Simone foi reduzida a “o que aconteceu ao bebê de Nina”, que não tinha maturidade para elaborar o relato além do ressentimento nem de compreender o universo adulto (Steele, 2015). Não há enquadramentos em que Simone quebrou a quarta parede ou mesmo em que mostrasse quem a está entrevistando. Essas imagens laterais dela falando “sozinha”, expressando suas angústias pelo canto e pela dança, acentuam traços estigmatizados de raça e loucura, já que desbotam a genialidade e lançam luz ao modo caricatural (retórica visual) de representar seu aspecto de mulher Preta (“dark skin”). 

A representação de Simone, no documentário, é tributária do imaginário do século XIX, quando faz uso da ideia de que seu corpo negro está fora do lugar e que deveria ser mantido única e simplesmente no espaço doméstico. Ao construir a imagem da cantora de forma dicotômica (um eu-político radical público e o eu-condescendente com a violência doméstica), agressiva e estereotipada, nuances de sua personalidade são apagadas em prol do fortalecimento daquelas associações pejorativas sobre mulheres Negras. A sucessão de frames em que ela demonstra emoções (tidas como) exacerbadas ou taciturnas encadeia conceitos como "infantilização", "vulnerabilidade", "incivilidade", "força física" e "sexualidade animalesca" (Kilomba, 2012) de modo que o corpo negro engendrado torna-se repositório desses significados negativos e, à medida que comprova, instaura uma "verdade social". O discurso veiculado pelo filme mostra-se, portanto, engajado na manutenção das relações violências. Em Plantation Memories, Grada Kilomba (2010) descreve a consecutividade da violência colonial como o "racismo diário" que é uma realidade histórica/contemporânea traumática que aprisiona o sujeito negro como um Outro exótico e subordinado.
 
A partir de encadeamento de conceitos pejorativos e da plasticidade, o discurso racista busca, por meio de “hierarquias de cor” (colorismo) disfarçar a desigualdade e desestruturar articulações e lutas por direitos nas comunidades e nas pessoas marginalizadas. A importância histórica de Nina Simone está - inclusive - na sua compleição física e na sua genialidade, que, juntas, desafiam séculos de afirmações negativas sobre mulheres Negras. Ao firma-se como cantora conhecida cuja arte é apreciada mundialmente, sua imagem passou a expressar uma retórica visual que transcende o imaginário convencional e, assim, corresponde a um contra-imaginário poderoso como o próprio feminismo negro. 

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Com essa compreensão, podemos afirmar que a trajetória musical de Nina Simone é um processo de encontrar sua própria expressão, sua voz, bem como é alcançar um lugar, uma chance de “expressar o que tem dentro”. Tanto a frustração quanto as violências sofridas diariamente, segundo a narrativa, foram transformadas em experiências que marcaram suas atitudes, afetos e escolhas, nem sempre de forma positiva. É preciso compreender que, embora as opressões tenham sido transformadas em estética, isso não pode ser explicado a partir da ideia de que mulheres Negras são mais fortes, e sim porque esta é uma característica humana.

A todo o momento, a narrativa de Simone é interrompida pela fala de Lisa S. Kelly (quando não do ex-marido agressor), que a compara com "um peixe na água". É possível perceber o discurso animalização de Simone em diversos momentos através de expressões despretensiosas como essa. Enquanto a cantora descreve a solidão em termos sociopolíticos (isolamento como segregação racial, como musicista que opera na diversão dos outros), o ponto de vista da diretora, Liz Garbus, se projeta (tanto do ponto de vista fílmico quanto psicanalítico) privilegiando a alteridade acrítica. Isso formata um conteúdo político ancorado em sua branquitude, que mascara a dramaticidade visceral sob a pretensão documental. A voz do sujeito branco, desde o passado colonial, localiza o discurso negro às margens, como um tipo de ideia incompreensível e um conhecimento desviante, enquanto seu discurso se mantém ao centro como norma e objetividade.
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A representação de Nina Simone em What Happened é, portanto, uma redução dos fatos por meio do discurso emitido por uma perspectiva interessada em manter as desigualdades discursivas. Desse modo, as forças deformantes que atuam sobre a psique humana, a experiência traumática de escravização, segregação racial e racismo cotidiano que ocasionam uma experiência coletiva de sofrimento virtualmente invisível, indescritível e inaudível ao indivíduo branco é transformada em espetáculo e açoita simbolicamente. 


É um filme ancorado numa perspectiva política branca que não superou o mecanismo primário do ego: a negação. Por esta razão, ao descrever a individualidade de Nina Simone, o sofrimento mental dela é reduzido à representação da "loucura" e sua naturalização. 

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Cabe ressaltar que essa descrição redutiva é usada como epíteto de uma população inteira e essa é um questão pouco discutida em se tratando de celebridades Negras que entram em conflito com a lei ou agem de forma agressiva como Naomi Campbell, Lauryn Hull, Azealia Banks. Desse modo, a imagem ambivalente de um contingente negro descrito como "disfuncional", "louco" e "animalesco", pode tanto servir como legitimação do discurso racista quanto de problematização dos mecanismos que produziram a "loucura" conforme a abordagem. Interpretação não é fonte de verdade, mas exercício de poder e, nesse sentido, o as estratégias retóricas que construíram Nina Simone como uma mulher Negra e louca não pode ser vista como isolada e, menos ainda como ação inconsciente ou "não proposital". 

É importante frisar que o lugar social de Liz Garbus é investido de poder, e que o próprio fato deste filme ter sido aprovado, distribuído e premiado, evidencia o quanto o racismo é naturalizado, político e nada individualizado. Não é uma questão moral, de culpar Liz Garbus por esse filme desastroso, mas é preciso evidenciar que artistas devem sempre se responsabilizar pela obra, pesquisar e sair desse lugar de "genialidade" e "inspiração". Se comprometer com a equidade. E se responsabilizar pela arte que produz. Sempre.


[*] Esse texto é uma versão do artigo acadêmico publicado sob o título Gênero, Raça e Loucura: O que aconteceu com a Miss Nina Simone? no livro AVANCA|2016 da 7ª edição da Conferência Científica AVANCA|CINEMA que ocorre no distrito de Aveiro (Portugal). O livro pode ser adquirido neste link: Avanca Cinema.



REFERÊNCIAS

KILOMBA, Grada. Plantation Memories: episodes of everyday racism. Budapeste: Unrast, 2010.
______. Grada Kilomba Interview - Part VI.  (2012) In  Philipp, Carolin; Kiesel, Timo. "White Charity" (2011). Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=DoTxt3YAlYI>. Acesso em: 16 abr. 16.
______. “Descolonizando o conhecimento” Uma Palestra-Performance de Grada Kilomba. (2016). Trad. Jessica Oliveira. Disponível em:<www.academia.edu/23391789/Tradu%C3%A7%C3%A3o_para_o_Portugu%C3%AAs_de_DESCOLONIZANDO_O_CONHECIMENTO_Uma_Palestra-Performance_de_Grada_Kilomba>. Acesso em 16 abr. 16.
STEELE, Tanya. The Irresponsibility of 'What Happened, Miss Simone?'. Disponível em: <blogs.indiewire.com/shadowandact/the-irresponsibility-of-what-happened-miss-simone-20150629>. Acesso em 14 abr 16