Por que eu, mulher negra, amo Star Wars

Rey e Finn são personagens que mudaram tudo pra gente no universo de Star Wars


Por Carina "Kika" Silva Soares

Eu sou fã dos filmes de Star Wars. Eu poderia demonstrar isso pelas várias camisetas, dois androides e um sabre de luz, mas acho que a expressão máxima disso é que a introdução da minha monografia da faculdade começa com “há muito tempo, numa galáxia não tão distante...”.

A princípio, gostar de Star Wars foi fácil. Eu sempre gostei de imaginar um futuro cheio de tecnologia, veículos voadores, viagens intergalácticas, máquinas que facilitariam a vida das pessoas, e a tecnologia como algo corriqueiro, algo que até uma pessoa sem posses conseguia construir com partes de sucata naquele mundo futurista, já me fascinou.

Mas fantasias geek à parte, a maturidade chega, e precisei parar pra pensar em como eu, uma mulher negra, consigo ser tão fã de uma franquia que não me contempla como tal.

Parte disso se deve ao fato de que meu contato com Star Wars começou pela segunda trilogia (episódios I, II e III), sim, aquela odiada por muitos fãs. Essa trilogia é uma crítica política poderosa e necessária sobre a manipulação de pautas por vezes justas, e do medo das pessoas para convencê-las abrir mão de sua liberdade. Ela é um conto de cautela sobre como o totalitarismo nasce e se estabelece, e sua atualidade segue intocada (e preocupante). Esse alerta me toca, e o acho ainda mais crítico entre mulheres negras, pois embora isso não fale diretamente das questões de raça e gênero, quem já está na base da pirâmide social paga o preço maior quando a sociedade se deixa iludir com aspirações ditatoriais.


A segunda trilogia não ainda divide opiniões de fãs da franquia

Também é positivo que nessa trilogia há uma demonstração mais efetiva sobre a República, e, por consequência, a resistência ao golpe, ser um feito de muitas espécies (representativas de raça, nesse gênero de filme), não sendo apenas mais um conto sobre o salvador "humano" – leia-se, homem branco. Penso nele como um filme educativo sobre como conduzir nossas lutas no campo da política pública, em que, não raro, nossas pautas são desviadas para propósitos que não são os originais. 

A primeira trilogia (episódios IV, V e VI), é certamente a mais problemática, mas ainda funciona pelo poder da metáfora que traz em si. Pra mim, a história fala sobre seguir lutando pelo que importa, seja depois da amarga batalha perdida, seja depois da incrível batalha vencida, e mesmo quando o inimigo apresenta um desafio ainda maior, você segue em frente pra encontrar ou construir um meio de continuar a vencer, porque é preciso. E eu sei que parece um clichê bem raso, mas é um sentimento que fica com você. Claro que é difícil ultrapassar a ausência de representatividade, mas quando me afasto pra olhar essa história, vejo minha vida enquanto mulher negra, que enfrenta batalhas vencidas e perdidas e “inimigos” que reagem violentamente tentando aprofundar desigualdades a cada passo adiante que se dá, mas segue firme nos ideais porque é preciso, porque isso importa, construindo seus caminhos para uma vitória que talvez nem chegue a vivenciar plenamente, mas sabe que precisa ser alcançada. A luta por emancipação é a nossa luta, apesar de nosso Império ser outro.


A primeira trilogia 

Já a terceira trilogia (episódios VII, VIII e IX) é, sem dúvidas a mais apaixonante de todas, mesmo com seus problemas. Se você tiver que escolher assistir apenas uma trilogia, indico essa. Posso dizer que senti minha identidade dividida em dois personagens ali, Rey, que embora branca, era uma menina inteligente, desenrolada, e todo mundo sabia que ela podia se virar, e Finn, o rapaz negro que se recusou a viver o papel social que foi designado pra ele. Embora não substitua a falta de representatividade com centralidade de uma mulher negra, admito que foi onde me senti mais contemplada. Essa trilogia vai viver eternamente no meu coração, porque fala sobre se libertar da prisão de viver a vida que escolheram pra você, seja social, seja biologicamente, e fazer suas próprias escolhas, seguir seu próprio caminho, e construir um futuro brilhante, e essa é uma mensagem de esperança fundamental para tantas das nossas, mulheres negras. Paralelamente, a trilogia também chama a atenção para o fato de que o mal que se combate nunca está muito longe, e no mínimo descuido ele se ergue mais uma vez, e por isso é preciso seguir vigilante e consistente na luta para a construção de um futuro melhor.

Ainda sobre a terceira trilogia, eu que amo frases de efeito seguirei levando a frase “eles vencem nos fazendo acreditar que estamos sós… mas não estamos” como o que define este meu momento no mundo, em que, quando tudo parecia desabar, a internet vem lembrar que não estou só.



Hoje eu ouço a música tema de Star Wars, associada à Aliança Rebelde e à Resistência, e meu coração se eleva, e eu sinto que posso conquistar qualquer coisa, desde que eu siga em frente construindo com quem está comigo o caminho para isso.

Dê uma chance, venha sentir isso também!! 

Você já olhou pra Star Wars dessa forma?






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