sábado, 2 de janeiro de 2016

STAR WARS VII: PRECISAMOS FALAR SOBRE COMO...


"Todas  as mulheres são brancas, todos os negros são homens"


John Boyega (Finn) e Daisy Ridley (Rey) no trailer de "Star Wars: O despertar da Força"



*SPOILER*

Quando recebi o alerta do Collant Sem Decote intitulado "Vamos falar sobre a Rey" eu já delineei muitas coisas sobre o que seria a experiência de assistir Star Wars: o despertar da força, mas só li  o texto e vi o review depois de assistir ao filme. Imaginei, a partir do título, que Rey seria uma heroína independente, forte, que transmitiria valores positivos ligados à mulheridade de forma inovadora dentro daquele universo narrativo. O mercado está clamando por isso: Mad Max. Jessica Jones. A vindoura Capitã Marvel (Carol Danvers). Não são por acaso que essas personagens estão aparecendo agora: depois das ondas de ódio sofridas por Anita Sarkeesian, Zoe Quinn, Shoshana Kessak e outras. Como mudança forçada pela demanda do mercado, temos uma mudança drástica incidindo sobre Rey: cultura de massa e nerdice/fandom, não são frutos do acaso. Tanto Anita Sarkeesian, quanto o Black nerd problems analisaram os aspectos positivos e negativos, mas, em geral, não contemplam nosso olhar interseccional.

Não por acaso, a personagem Rey é impecável, atende a todos os clamores das gurias nerdes e das feministas que vêm acompanhando a ficção científica setentista. Não objetificação da mulher? Ok. Autonomia?Ok. Não ser picotada e guardada no congelador? Ok. Não ser entubada? Ok. Não ser uma donzela em perigo? Ok. Não usar a sexualidade como arma? Ok. Ok. Ok.

Outro detalhe chamou a minha atenção bem no início do filme: a metáfora usada para tratar do especismo. Rey tem muita compaixão pela vida do robô R2-D2, compaixão que se transforma em perigo de morte; contrabandistas desejam desmontá-lo e lucrar com a venda de suas peças. Em  nossa realidade, essa atitude consistiria na consciência da exploração capitalista dos animais. Essa questão reforça a construção impecável da heroína, de modo a agradar qualquer feminista que se chateava com ressalvas sobre Leia e sobre todo o universo de supremacia masculina-branca da franquia Star Wars. Sim, eu adorei a Rey por isso tudo, fora que ela estabelece uma relação de companheirismo com Finn (um garoto negro), o que torna mais impecável a construção da personagem. Enquanto Rey entende o valor que cada vida tem, a construção da narrativa lembra a gente do discurso comum transmitido pelos ativistas veganos que não se desvencilham da branquitude: comparar a escravidão de animais à escravidão de negros. Assim como brancos abolicionistas (escravidão histórica) feministas (brancas) já disseram que "mulheres são os negros de hoje". Em todos esses casos, as mulheres Negras são apagadas: não estão presentes e não têm voz própria. Falar da questão negra continua sendo falar dos homens-negros-hétero, assim como Hitler continua sendo sinônimo do mal em tempos de "guerra o terror". Não estou criando similaridade, mas enfatizando a importância de a mídia  atualizar temas, metáforas e discussões. 

Sobre o Finn:

1) A redefinição da masculinidade
embora eu ache muito bacana que um personagem masculino seja colocado em situação menos de "salvador do dia", "ativo" e sem emoções, o gênero é sempre racializado. um homem negro apaixonado (e não correspondido) por uma guria branca é um lugar comum da realidade e da ficção. Embora eu acredite que tratar esse modelo como "palmiteiro"  seja atacar uma consequência, não a causa, acho essencial a discurso sobre masculinidade de homens negros. Só que é óbvio que não são eles a matriz das opressões - nem o (fálico) sabre de luz e dele, nem a jaqueta. Redefinir a masculinidade em termos mais espontâneos no contexto de Finn só coloca a masculinidade dele na hierarquia racial de ue mulheres brancas-cis importam muito mais que eles. Ele ser colocado em posição vulnerável diz mais sobre a supremacia branca do que sobre uma discussão produtiva a respeito do gênero. uma mulher branca salvando o dia é bastante empoderador (se você for mulher e branca), mas isso sempre houve; todas as garotas na cultura de massa são brancas, independente dos modelos: princesas, guerreiras, donzelas, caçadoras de vampiros. O Finn não é um personagem gangster, pantera negra, supr choque ou Jay Z, mas é um tipo do Chris que todos odeiam (e riem).

2) Relacionamento interracial
Um affair entre ele e Rey sera sempre mais complexo que Leia e Solo, Anakin e Amidala. O dilema entre poder amar ou não do jovem desertor com a devir jedi é definido por categorias hierarquizadas de raça engendrada. Notei que, ao longo dos 135minutos, Finn não conviveu com nenhuma pessoa negra. Ele é um órfão num mundo hostil, assim como Rey, mas a diferença na vulnerabilidade e na autoconfiança é notável. É pitoresco o modo quanto Finn tenta se mostrar forte para impressionar Rey, mas, quando não se torna ajudante (adjuvante) acaba tendo que ser resgatado. Essa tensão afetiva foi muito celebrada na comunidade nerd assim como a Leitura de que há tensão afetiva entre ele e o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac). Embora sejam possibilidades que podem ser desenvolvidas, melhor seria que ele se desenvolvesse como personagem sem dar todo o peso ao pitoresco e aos relacionamentos.

E as mulheres Negras, onde estão?
No sentido do apagamento (e dos discursos de desumanização) o meu ponto é que um personagem negro homem (coberto de estereótipos) é o suficiente pra eu me identificar. Eu assisti a trilogia clássica, vivi parte do lançamento da seguinte e, portanto, consigo compreender os avanços políticos que têm sido absorvidos pela franquia com o passar do tempo. Fui achando cada vez mais divertido rir das referências, mas o filme que foi vendido com protagonismo do personagem negro não foi uma conquista pra mim. 

1) Seguindo a tradição de Star Wars, que inclui negros (homens) como secundários, vi duas mulheres Negras quaternárias: o close do rosto terrificado na hora da extinsão do planeta e - pior - a musicista extra-terrestre no quarto quadrante da tela. Nenhum delas é personagem com nome, nenhuma delas fala. Aparecem para sumir. Desse modo, a tradição de metaforizar a condição racista engendrada que desumaniza as mulheres Negras e retratam como bizarros monstros/animais a serem exibidos como exóticos. Isso mostra que simulam a entrada dos negros (homens) na categoria de humanidade enquanto as mulheres Negras são consideradas  a segunda parte do binarismo humano/animal.

2) E a Lupita Nyong'o? Alguém viu a imagem dela? Não. Então a presença dela é inexpressiva para a questão da representatividade. A personagem Maz Kanata é otina: autônoma, intuitiva, experiente, guerreira e engraçada na medida certa; ela tem uma relação de guardiã com Rey semelhante ao Yoda... mas é uma et. Mais uma vez a garota feminista é impecável no trato com a não-humana, mas a própria representação de Mez é problemática porque remonta o "bem conhecido" lugar da mulher Negra no universo do Star Wars: o Alien. A descrição de Lupita através da computação gráfica não mostra progresso de raça-gênero, porque lembram o lugar do estigma, do estereótipo que a metáfora central  sugere: bem/mal equivalente a claro/escuro. Se o lado negro da força descreve uma ideia de mal imutável e ligada à uma essência.

Em suma, o filme continua sendo uma fabula sobre supremacia branca. Finn e Rey consistem em avanço considerável, mas não pra mim.  Rapazes negros podem se sentir representados por Samuel L. Jackson ou mesmo pelo John Boyega, fazer cosplay, comprar boneco e tudo o mais; ou podem odiar ver nele a fragilidade que o racismo não lhes permite na vida real. Mais uma vez as mulheres Negras sao invisibilizadas e tornadas Aliens, o que raramente vemos os rapazes notarem. E isso, mas nao esqueçam que a metáfora também e sobre vocês, queridos (Sobre os bonecos Finn que sobraram).


TEXTOS  CONSULTADOS

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