segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

6 Momentos em que Dirk Gently's tentou ser cool, mas só foi babaca mesmo


Farah Black
Jade Eshete interpreta Farah Black em Dirk Gently's  Holistic Detective Agency

Dirk Gently's Holistic Detective Agency é uma série de humor lançada em 2016 e disponível na Netflix. A série é baseada na obra de Adams e gira em torno de acontecimentos surreais que, apesar de parecerem aleatórios, estão conectados. Assim, o inglês à lá Mr. Bean, Dirk Gently (Samuel Barnett), entra na vida do Frodo estadunidense Todd Brotzman (Elijah Wood) e tentam compreender a ligação entre assassinatos bizarros em meio a puzzles, geringonças, e um ar retrô. Assim como o título, a série, tal como seu título, peca pelo excesso. Há momentos engraçados, sim, mas são muitas informações, narrativas e diálogos sem fim, que parecem uma bagunça até o episódio 4, ou seja, a metade da temporada. Com isso, o objetivo máximo de nos fazer rir é alcançado, mas na maior parte do tempo Dirk Gently tentou ser cool, mas só foi babaca mesmo. Separamos 6 momentos em que a piada não foi nada engraçada, confira:

6) Humilhação nunca foi piada.


Um dos núcleos mais divertidos da série é o de Bart Curlish (Fiona Dourif) e Ken (Mpho Koaho), simplesmente porque ela é uma assassina nonsense que desconhece o básico da vida urbana. Ken é sequestrado por ela, mas logo se afeiçoa e profere palavras positivas, para que Bart vá em frente. Ao longo dos episódios, Bart insulta Ken, mas no quinto nos deparamos com esse diálogo:

Ken (Mpho Koaho)

Bart Curlish (Fiona Dourif)

O que há de inovador numa conversa em que uma personagem branca ofende um negro? O que há de engraçado nisso?


5) Autodefinição não é piada.


A série tenta discutir questões a respeito de sofrimento mental, e isso é muito importante. Apesar da tentativa, ela não avança muito na representação de Wanda Maximoff, a feiticeira escarlate (Marvel). a MESMA ideia do irmão que dá suporte e o MESMO dilema da normalidade. A diferença é que em Dirk Gently's a irmã (Amanda) projeta toda a sua sensação de anormalidade na segurança Farah Black.






Apesar da tentativa de fazer a última frase de Farah "soar como piada", porque a garota tem dificuldade em se expressar, o diálogo só enfatiza a liberdade que a irmã do Frodo Todd sente a ponto de atropelar a perspectiva de Farah sobre ela mesma. 


4) Não adianta repetir o que não é engraçado. 


Mesmo na ausência de Farah, numa conversa com o irmão Frodo, Amanda (Hannah Marks) continua:






Não só é difícil pra ela analisar a si mesma, como ela não compreende que definir Farah como "superestranha" faz do Todd um interesse amoroso. Será um traço de branquitude?

3) OMIXPLICAÇÃO não é piada nem quando tem resposta.


Uma das palavras da moda ano passado foi "mansplaning", que foi traduzido na Casa da Mãe Joana como Omixplicação. É quando um homem (há também o whitexplaning!)  tenta explicar uma coisa óbvia. Dirk tenta explicar o que a Farah é e o que ela faz, e, mesmo que ela negue ele a atropela e reafirma sua opinião. Então vem o "gasligting" ou a "omimanipulação". O gaslighting é uma violência emocional (manipulação) que tem como objetivo fazer com que a vítima duvide de si e da realidade.












Dizer que a vítima não tem opção além da companhia do abusador é gaslighting típico. Mesmo que Farah responda, o sentido gerado com o "Sem querer ofender..." lembra demais os supostos elogios que racistas proferem.


2) Mais GASLIGHTING...














1) ...Mais GASLIGHTING e ZERO piada.








Como assim, "quem diria?". Essa frase de Dirk evidencia o quanto a série investiu na estratégia de tornar violência emocional em humor. O fato de haver uma representatividade incomum nas séries (uma mulher negra relevante e um homem negro, ambos pigmentados) pode motivar muita gente a acompanhar Dirk Gently's, mas a nossa lista mostra que a representação não é positiva. A quantidade de vezes em que o detetive tenta manipular e desacreditar Farah simplesmente faz a série não valer a pena. A manipulação somada ao racismo não é um tópico de discussão, porque há cenas em que Amanda elogia a beleza e o visual cool de Farah. Além disso, o fato da segurança ser interesse amoroso do Frodo Todd tenta construir uma ideia de que os personagens brancos não são racistas, não acreditam nos estereótipos... apesar de esquecerem que amar/desejar pessoas negras não faz de ninguém menos racista. 

Em suma: o clichê não é piada.


Apesar do ponto positivo de mesclar ficção-científica e romance policial e ser até divertida, a coprodução da Netflix com a BBC America mostrou ao longo da sua primeira temporada, que desejava seguir a tendência estética cool, seja nas cores e efeitos visuais que remetem à década de 1980 e mesmo na presença de vários personagens não-brancos. Essa presença, necessariamente gera discussões sobre raça/racialismo/racismo já que a sociedade capitalista é estruturada por esse marcador. Notando isso, os produtores estão investindo cada vez mais em piadas que tomem o racismo como tema (vide Orange is the new black), mas repetem estereótipos, reduzem tempo em tela e, pior: fazem personagens não-brancos sofrerem exagerada e repetidamente, tal como apresentamos nos 6 momentos em que a série Dirk Gently foi babaca.


farrah black


Além desses 6 momentos, há um fato: clichê não é piada, nem quando tenta ser cool.

Na série Gilmore Girls, a privilegiada Emily Gilmore profere em certo episódio que o clichê nada mais é que uma verdade que todos ignoram. Segundo a lógica dela, a correspondência entre Farah Black e a agente 355 (Y: O último homem), mulheres negras, fortes, cujo trabalho é cuidar da segurança pessoa de pessoas brancas corresponderia a uma verdade. 

Podemos até acrescentar Michonne (The Walking dead) e Montoya (Gotham) para evidenciar o quanto essa construção de "negra protetora de brancos" repete a interpretação duma perspectiva branca igual a de Gently, Bart e Amanda. Em Dirk Gently's não há contraponto ao clichê encarnado por Farah e sua inabilidade social fica perdida em meio às agressões infligidas por pessoas brancas. Seu pai foi segurança duma família branca e rica, ela seguiu os passos dele e "tudo bem", porque a narrativa enfatiza o afeto da garota "quase da família". "Tudo bem" coisa nenhuma. Esse plot existe há 300 anos. Assim como esse clichê não é engraçado, reconstruir a realidade diária de violência sem questionamento, também não é nada cool, é só babaca mesmo.




sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

"Tua companheira inseparável": QUIMERA #1


pagu comics
Quimera #1
Roteiro e Cores:Cris Peter
Arte-finalista: Dika Araújo
Letrista:Ariane Rauber
Capa: Bilquis Evely



Social Comics: novo fôlego ao quadrinho nacional


A maior dificuldade que a o mercado de quadrinhos independentes enfrenta é a distribuição. Quem produz ou consome quadrinhos independentes, no Brasil, sabe que é muito mais fácil encontrar quadrinhos estrangeiros nas bancas e livrarias que os nacionais, fato que sempre afastou  o público médio do nosso mercado. Em tempos de webcomics, a Social Comics trouxe uma solução interessante e adequada aos nossos tempos e bolsos: o streaming de quadrinhos. A maioria das fãs de quadrinhos conhece serviços sob demanda como Spotfy, Netflix e HBO-GO que possibilitam consumir produtos/serviços de qualidade por um preço inferior ao dos meios convencionais. Afora isso, tais empresas possibilitam que a consumidora escolha "o que" e "quando" deseja assistir/ouvir.


social comics


Se, por um lado a Social Comics democratizou o acesso aos quadrinhos nacionais e, principalmente, às continuidades, por outro, ao convidar a artista Ana Recalde para comandar um selo produzido exclusivamente por mulheres - Pagu Comics - cobriu outra lacuna que tem sido denunciada há tempos. Sim, mulheres produzem e consomem quadrinhos, o que existe é um esforço de apagamento articulado com a boa e velha broderagem. Não é à toa que as Lady's Comics afirmam que "HQ não é só pro seu namorado". Em 2016, as iniciativas de coletivos, artistas, críticas e pesquisadoras brasileiras (Revista Risca, MnQ, Encontro Lady's Comics, Valéria Fernandes) se tornaram visíveis com a criação do selo Pagu Comics que, assim como Patrícia Galvão:


[...] representa tudo isso. A liberdade de sermos mulheres e, ainda assim, nos rebelarmos contra o que não queremos, de falar em voz alta o que nos incomoda. Sermos tanto musas quanto produtoras de nós mesmas.
(Ana Recalde via Blog Social Comics)

Um ponto importantíssimo da curadoria da Ana Recalde (Beladona) é sua agenda política. As equipes criativas, bem como as personagens, são compostas por mulheres que, além de nomes e conversas entre si sobre um tema que não seja homem, representam diferentes experiências, perspectivas e identidades da melhor forma. Estética, divertida e combativa.

Por todos esses motivos, QUIMERA #1 gerou entusiasmo até o lançamento, em 8 de janeiro de 2017!


Muito além da "metrópole" dos quadrinhos


pagu comics
Anna em primeiro plano e Nicole em segundo. 
No terceiro, aquela que vocês conhecerão: a companheira inseparável


Uma das primeiras sensações que a capa de Bilquis Evely (Mulher Maravilha) foi a de uma descolonização que os quadrinhos nacionais têm refletido cada vez mais. Se antes o que mais chegava a maioria de nós eram quadrinhos de rapazes que adorariam ilustrar no mainstream (com todo um ranço estético e temático dos super-heróis), hoje, observamos cada vez mais ilustrações com traços autorais. Óbvio que as artes visuais são compostas por uma teia de influencia, o que é bem diferente de cópia. A capa de Quimera conquista de cara por trazer à luz essa ambivalência e fazer pensar sobre novos rumos para o grande guarda-chuvas que chamamos de "quadrinho nacional". Além disso, a capa aponta para uma história original que não tem em vista apenas injetar uma suposta "brasilidade" a tramas estadunidenses, sabe?

E por falar em trama, Quimera é protagonizada por  Anna e Nicole, duas jovens mulheres cujas vidas são completamente diferentes. A partir dum assalto  o destino das duas se une de uma maneira completamente quimérica - surreal, sombria e delirante. Certamente Cris Peter é conhecida por seus trabalhos como colorista no mercado estadunidense  (Marvel, DC) e, portanto, sua paleta e modus operandi já tem sido destrinchados neste caminho, assim, me interesso em focar a narrativa. 

"Acostuma-te à lama que te espera!" (Augusto dos Anjos)


Logo de início somos introduzidas ao cotidiano solitário de Anna e Nicole, que se opõem  de forma familiar a nós, desde o básico (luz/trevas) até as condições materiais, que, num primeiro momento, parecem moldar suas personalidades. Digo "em primeiro momento" para enfatizar que esta primeira edição segue (e muito bem) o modelo de equilibrar ação e explicação, deixando dúvidas que funcionam como múltiplos ganchos para nos atrair para a próxima edição.




Essa primeira página constrói em apenas dois requadros o paralelo de temporalidade (a forma de usar o tempo) de cada garota. A oposição é tão polarizada que gera curiosidade sobre o background das personagem: o que levou cada uma até ali? Quais as suas motivações? O abismo sócio-cultural levará a a história a qual ponto?

Como o lugar não é especificado neste início, uma estratégia adorável para inserir a leitora é a introdução de acontecimentos de outra revista da Pagu Comics, Empoderadas. Além de quebrar o ar de desconhecido, com essa referência, constrói a ligação (e explicação) sem um deus ex machina, aquele tipo de aparição aleatória. Essa página já dá a tônica das outras 25: objetividade e ótima comunicação das ideias. O layout confere um ritmo de leitura agradável e dinâmico, além de  conduzir o olhar de forma harmônica por cada detalhe.




Apesar de, num primeiro momento eu me perguntar sobre as intenções da história ao fazer uso de convenções de raça e classe juntas, com o passar das páginas essa tensão, aparentemente óbvia, vai se complexificando até a interrogação final. Com isso, não estou afirmando que a tensão tende a se resolver, mas que há nesta edição um visível interesse em embasar para os próximos números discussões importantes sobre performance de gênero/raça/classe (há duas situações "donzela em perigo" de Anna). 


social comics
Além de discutir o que é gaslighting, a narrativa nos dá uma resposta excelente!


Além do deslocamento necessário sobre o que é ser uma protagonista nos quadrinhos (no geral padrões de beleza eurocêntrica), a história traz comentários  retóricos sobre gaslighting [manipulação psicológica],  que precisam ser realmente desnaturalizados. Quando Nicole responde à altura, torna evidente a violência que é ignorada na maioria das vezes pela sua "sutileza". Apesar disso, Nicole reage como personagens negras costumam reagir na cultura de massa, então, neste sentido, a "fragilidade" de Anna fica intacta. É claro que a sensibilidade e aspectos contraditórios e inconsistentes que compõem a nossa humanidade se apresentam na figura de Nicole, mas estão equilibrados por pouco, na balança de força, altivez e reatividade.

Fato que a relação entre Anna e Nicole não se pauta no estranhamento e que se constrói uma forte relação de amizade desde o primeiro instante. A solidariedade entre elas é uma imagem positiva na representação e tende a transformar a solidão e descrença de ambas, numa força descomunal de aproximação e aderência. Neste sentido, a história fala sobre empatia entre mulheres e reapresenta o conceito de sororidade num nível cotidiano e real. Essa primeira edição me fez pensar muito em como faltam imagens positivas de relação entre mulheres que fuja do padrão "das inimiga" e, também, na beleza de corpos reais como o meu ou o seu, leitora.




Vale muito a pena ler com calma, atenta aos detalhes da arte da Dika Araújo (já falamos dela aqui). O traço cartunesco junto à riqueza de detalhes, equilibram o "maravilhoso" (o surreal perfeitamente explicado na história) com o tom jocoso de rir dos estereótipos como a vizinha alcoviteira ou o homem imaturo que se enxerga como líder!

Conclusão


Uma das coisas que mais me encantou em Quimera foi a representação de mulheres abrir possibilidades de discussão para as próximas edições. Construindo a narrativa do convencional até uma complexidade interessante, o primeiro número trouxe uma abordagem envolvente sincronizada com a bela arte da Dika Araújo. Aguardo ansiosamente a próxima edição para ver a engrenagem, de fato, disparar.

E você, já leu?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Globo de Ouro, Branquitude e Negritude

Essas imagens te causam algum incômodo ou impacto? Se sim, vamos bater um papo? 


Meu sonho era ser documentarista e cineasta, me tornei comunicóloga porque sempre fui apaixonada pela comunicação, o cinema e a televisão, no fim, eu amo (e odeio) a mídia e sim, me tornei documentarista como sonhei. Eu tinha 13 anos quando tomei a "decisão" de ser isso quando crescesse e estava no primeiro ano do ensino médio, mas honestamente achava que não conseguiria por vários motivos, um deles (e talvez o mais forte) é que eu acreditava que aquele não era um espaço para alguém como eu. Ao entrar no ramo comecei a comprovar que de fato não é um espaço que uma mulher negra é aceitada, mas em qual seria, não é mesmo? 

No último domingo aconteceu o Golden Globe 2017 (Globo de Ouro 2017), uma premiação que ocorre anualmente desde os anos 40 para os melhores profissionais e produções do cinema e televisão dentro e fora do famigerado Estados Unidos da América. O que diferencia do Oscar e Emmy é que nesse quem escolhe os vencedores são críticos renomados e especialistas da área. 

Como já disse anteriormente, sou uma apaixonada pela área, porém também sou profissional e, como tal, tento crescer, expandir, conhecer, me especializar, profissionalizar, melhorar, e acima de tudo isso, tenho que - ainda - impor respeito. Eu olhava para todos os lados e só conseguia dizer "quanta gente branca" e como profissional negra isso me entristece, afinal o Afroflix, FICINE, o Empoderadas, a Nossa História Invisível, o Frases de Mainha, o site Mulheres Negras do Audiovisual, diversos Youtubers negros, todos esses (e muitos outros) só mostram que existimos e estamos lutando muito pelo reconhecimento no nosso espaço. Temos tantas produções boas e só citei o exemplo do Brasil, mas nos EUA temos diversas diretoras e diretores negros que estão fazendo o mesmo. Vejo que no fim não estou sozinha, nós somos uma comunidade que mesmo sem saber uns fortalecem os outros. 

Imagem relacionada
Shonda Rhimes

Enquanto assistia, mesmo vendo que Viola Davis ganhou como melhor atriz coadjuvante em FencesTracee Elis Ross como melhor atriz em série de comédia em Black-ish, Donald Glover como melhor ator em série de comédia ou musical em Atlanta, Moonlight como melhor drama e Atlanta como melhor série de comédia, além de ver na platéia a poderosa Kerry Washington (Scandal), Naomi Campbell (Empire), Octavia Spencer (Estrelas além do tempo), Denzel Washington (Cercas), entre outros negros, o que mais eu via se exalando naquele ambiente era a branquitude do cinema e audiovisual nosso de cada dia. Não quero entrar na discussão sobre o que é e o que representa a branquitude, mas é uma escolha deixar de enxergá-la na mídia. 

Através das lutas sociais começamos a ver e ter negros nas universidades, no mercado cinematográfico, na frente e por trás das câmeras. Coitado daquele que pensa que um rosto negro na tela é o suficiente para que possamos nos sentir "representados", porque se seguirmos essa lógica, sempre tiveram negros nas telas, claro, porém sempre estavam sendo explorados, objetificados, hiperssexualizados, subalternizados e humilhados, e foi desse jeito que a mídia conseguiu moldar gerações de pessoas negras com baixa autoestima. Se você é negro, sabe bem do que estou falando. A representação molda a identidade. 

Se puxarmos em nossas memórias, lembraremos de poucos super heróis e heroínas negros, desenhos, novelas, séries e filmes protagonizados por negros sem estereótipos, reais e interseccionais, não é mesmo? Se tentarmos lembrar o máximo de nomes de diretores famosos, não lembraremos de muitos negros, muito menos de mulheres. E não estou falando apenas no espaço Hollywoodiano, quero que você tente listar quantos diretores, criadores, roteiristas e produtores você lembrar, desses, quantas são mulheres e negros? Isso quer dizer que homens brancos sejam incapazes de falar sobre vivências diferentes das suas? Não né, porque nesse raciocínio, os negros só falariam de temas relacionados às lutas raciais, LGBTs e mulheres seguiriam o mesmo e não é para isso que existem as lutas das minorias no cinema. Quando um homem branco (até mesmo uma mulher) faz uma brilhante produção sobre negros, ele é muito ovacionado e ainda receber a carteirinha de bom coração solidário, em contrapartida diversos profissionais negros querem simplesmente ter a oportunidade de trabalhar, produzir e ganhar seu espaço e respeito. Enquanto pessoas com privilégios lutam para ter seus trabalhos reconhecidos, quem não está na mesma posição precisa batalhar o dobro (ou triplo) para conseguir simplesmente trabalhar. Não por menos que ver minorias em espaços como esse ainda causa uma surpresa.

Ao passo que uma produção branca basta fazer um filme bom, com boas atuações, bem roteirizado, produzido e dirigido, as produções contra hegemônicas de - sobre e para - minorias precisam estar acima da média, ser excelentes, não pode simplesmente ser bom, ser bom não basta, tem que ser o melhor para, só assim, ser reconhecido pelo cinema branco, por críticos brancos, pelo público branco, pela mídia branca. Consegue ver que o erro não está em nós?

Gosto de ver (e me reconhecer em) todos esses profissionais talentosíssimos que estão dirigindo, roteirizando, produzindo, atuando e, principalmente, sendo reconhecidos por suas produções brilhantes, isso além de revigorar quem já trabalha e estuda na área, também mostra que sim, podemos estar onde quisermos, mesmo que não sejamos aceitos e respeitados como tal, porque no fim das contas, nosso sobrenome é e sempre será resistência. 


Viola Davis ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante por 'Cercas' (Foto: Jordan Strauss/Invision/AP)
Viola Davis ganhou como melhor atriz coadjuvante em Fences

Tracee Ellis Ross levou como melhor atriz em série de comédia, por 'Black-ish' (Foto: Mario Anzuon/Reuters)
Tracee Elis Ross como melhor atriz em série de comédia em Black-ish

Resultado de imagem para atlanta serie globo de ouro
Donald Glover como melhor ator em série de comédia ou musical em Atlanta





segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

3 Surpresas e 1 Indignação que tive em 2016

Por Larissa Ribeiro

the get down

4 º The Get Down sendo ignorado no Grammy


Não querendo bancar o Kanye West aqui, mas como The Get Down não foi indicado ao Grammy, e Stranger Things sim? Não é uma discussão sobre séries e nem vou entrar nesse mérito, até porque assisti às duas, mas por favor. Uma trilha sonora forte, marcante e com personalidade, contra outra que tirando Foreigner ninguém lembra de nada?

insecure

3 º Insecure é ótima!


Produzido por Issa Rae (criadora da websérie Awkward Black Girl) e Larry Wilmore, a comédia da HBO explora a experiência feminina negra de uma forma mais... simples. Mais próxima da realidade.

Como estava falando com uma amiga outro dia, a mulher negra é muito cobrada. Querem que você esteja forte 100% do tempo. Simplesmente não pode tirar um tempo, porque é cobrança pra todo lado. E é assim com Issa e Molly, duas amigas que estão se sentindo inseguras sobre o rumo da vida delas.
Acompanhamos Issa, que acabou de fazer 29 anos, e praticamente está tendo uma crise de “ ¼ da idade”. Ela é a única negra no lugar onde trabalha, uma ONG que planeja mobilizar crianças carentes, mas não sai dos velhos moldes pra isso. Fora o emprego que não dá espaço pra suas opiniões, seu relacionamento, definitivamente não vai bem. Para complicar ainda mais,um namorado antigo volta, e parece mexer muito com Issa.

Já a sua amiga Molly, vai muito bem em sua carreira como advogada, ganha causas que ninguém conseguiu antes, tem um apartamento muito bom e vive bem. Sua preocupação é achar que nunca vai se casar, porque não encontra nenhum cara que queira algo sério.

Tem espaço pra falar sobre racismo, sobre o cara que disse que não queria algo sério e fica noivo de uma branca, sobre a colega de trabalho meio sem noção que se acha sua irmã de alma, a chefe que acha que lhe fez um enorme favor por te contratar... tudo de maneira bem humorada.

A trilha sonora é divertida, quase toda com rap, alguns inclusive da própria Issa.

E é uma série muito boa. Não é a melhor série sobre pessoas negras, nem a melhor série sobre mulheres, mas é absolutamente mais empolgante e se destaca justamente por abordar as duas coisas.


2º  O Projeto Brasil : DNA África


Sabe quando se conhece alguém que tem noção sobre uma grande parte da própria árvore genealógica, e você mal sabe sobre seu bisavô? Alguns descendentes de italianos ou portugueses, conseguem rastrear seus antepassados. Mas e nós? Os nossos antepassados foram simplesmente arrancados de seus países e jogados aqui. Nos negaram o direito de saber sobre o passado. Aliás, só nos permitem lembrar da escravidão.

Então, surgiu a iniciativa do projeto Brasil: DNA África, pelo Cine Group , onde se propôs uma descoberta da origem de parte dos brasileiros, ao contar a história de cinco pessoas que se submetem a um teste de DNA e descobrem suas origens na África. E o documentário é emocionante demais. Com cinco episódios, é mostrado como é maravilhoso descobrir suas origens, e ao mesmo tempo triste por perceber o quanto a maior parte da população africana ainda sofre. Nas palavras do plano do projeto : "Os afro-brasileiros são, ainda hoje, identificados como filhos e descendentes de escravos, quando, na verdade, são filhos e descendentes de africanos.".

O debate em relação à abertura das Olimpíadas no Brasil


Os brasileiros sabiam bem que desde o início, o evento estava sendo encarado com incredulidade. Desde piadas sobre Zika até  matérias tendenciosas, a descrença internacional causou muita preocupação. Nossa imagem estava em jogo.

Claro, o que se viu foi um show. Muita tecnologia, muita cor, muita luz e música, tudo visualmente bonito, mas no fim das contas não passou disso.
Acreditem, tem uma matéria que se refere à abertura como um show de "índios, portugueses e negros escravos".Parecia um livro de história sem revisão. Indígenas como espectadores passivos que só existem no início do Brasil, portugueses como desbravadores, e africanos sendo lembrados apenas como escravizados.


Enquanto muitos ficaram só nos elogios, outros estavam questionando e procurando o "empoderamento" prometido. E isso mostra que por mais que tentem camuflar essas "sutilezas", a conscientização está acontecendo. Não houve realmente uma preocupação por mostrar que mesmo oprimidos e sendo ESCRAVIZADOS, os negros (e indígenas) resistiram e deixaram sua própria marca dentro da identidade brasileira. Até houve uma parte com passinho e funk na favela, mas se fosse realmente voltado para "exaltar", onde estavam os favelados na arquibancada?

Não estou rebaixando o evento, a abertura foi muito bonita sim, foi uma vitória na cara de quem não acreditou que o Brasil poderia impressionar o mundo. Porém, se o conceito era empoderamento, passou bem longe.