segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Moonlight - Um filme sobre a masculinidade preta


Esse é um daqueles filmes que você não respira, esquece do mundo e entra nos sentimentos do personagem, ele não precisa de muitas falas para ser entendido, é uma obra que vai a fundo na subjetividade humana e nesse caso, na masculinidade negra.




Fui assistir Moonlight sabendo que era um filme sobre a descoberta da sexualidade de um garoto (Chiron) numa comunidade negra em Miami que vive com a mãe (Naomie Harris), uma usuária de drogas. Na sua infância ele é apadrinhado pelo chefe do tráfico local, Juan (Mahershala Ali) e Tereza (Janelle Mónae), era atrás deles que Chiron ia quando a situação em casa tava insustentável. Na sua infância, Little (como era chamado) manteve apenas uma amizade, o Kevin, pois ele era o único que o tratava bem e, de certa forma eles ficam marcados para sempre na vida um do outro. 

O filme tem uma fotografia espetacular dirigida por James Laxton, as cores frias predominam durante todo filme, principalmente o azul, que pode ser captada pelas camisas brancas muito utilizadas, como também nas belíssimas peles pretas, essas cores não são por acaso, ela transmite ora a paz que ele precisa através da luz da lua refletida no mar, ora a repressão que sente na pele por não se encaixar no padrão de menino/homem negro e o vazio impreenchível dentro de si. Essa fotografia é sentida com o passar das fases. A edição é, indiscutivelmente, muito boa, não por ter sido liderada por Joi Mcmillon, única mulher negra indicada à melhor edição, mas porque ela soube dividir muito bem os silêncios e feições. Foi uma parceria que deu certo. O roteiro e a direção - também indicados - foi responsabilidade de Barry Jenkins e não por acaso ele está na lista, pois a divisão da vida de Black em três fases com começo, meio e fim em todas não deixou a desejar. Chiron é muito calado durante todo filme, seus diálogos são fortes e impactantes, o silêncio mais ainda, os sentimentos foram muito bem construídos com o passar do tempo, ele passa as tensões, alegrias, medos e inseguranças de cada momento. 

Pulando essa parte mais técnica, o que mais me deixou feliz foi o fato de não ter nenhum (nenhunzinho) branco durante o longa inteiro e a discussão sobre a masculinidade imposta ao homem negro levada pelo fio condutor da sexualidade. Os gêneros nos são impostos desde a primeira infância, não se foge disso dentro de um contexto social, quando se é negro isso é ainda mais agravado, pois a supremacia branca nos impõe as "responsabilidades" da força física e psicológica, nossos destinos já são traçados, sabemos em quais lugares podemos e devemos frequentar, quais profissões podemos seguir, quais grupos sociais devemos permanecer e isso é passado de geração para geração, portanto isso já fica enraizado em nossa educação. Chiron é o clássico exemplo do negro que fala sempre baixo e se mantém de cabeça baixa, ele tem vergonha de ser quem é, de não ser igual aos outros meninos, de não se interessar por lutas e futebol, de ter que cuidar da mãe drogada, de viver fugindo dos meninos fortes na escola, de ser apaixonado pelo seu único amigo, de não se compreender.


Resultado de imagem para Moonlight filme

A sua infância tivera sido salva por Juan e Tereza, que mostraram a ele a existência do afeto e carinho, apesar do contexto que vivem. Na adolescência, em seu único ato de coragem, Chiron é preso e na idade adulta se transforma em Juan, sua única referência boa de homem negro adulto, um traficante local que preenche seu vazio com trabalho, carros, status e silêncio. Ele não muda, o vazio continua intacto, mas a sua imagem é do homem negro forte e viril. 

O filme não mostra muito sobre mulheres - apesar da atuação excepcional da coadjuvante Naomie Harris - e suas perspectivas, o que para mim foi ótimo, porque os homens negros precisam ver e notar como eles se tratam, como a agressividade que recebem da supremacia branca é revertida em ódio entre si, como o nosso silêncio muitas vezes são gritos que ecoam em nossos vazios. Tudo isso precisa ser discutido e pensado porque o racismo tem muitas faces. 

Moonlight é mais uma obra que vem provar quão o cinema é racista, pois um filme excelente e tão bem construído (atuação, direção, fotografia, edição, roteiro...) é comparado com filmes bons que só por serem brancos são tão aplaudidos quanto. 




sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

12 VOZES INTERSECCIONAIS para ouvir e se amar

artistas interseccionais para ouvir e se amar
Skye Edwards, vocalista da banda britânica Morcheeba



"Como eu aprendi a me amar" foi uma questão levantada no vídeo  da Nataly Neri semana passada. Para a ativista, "se amar é um aprendizado". E ela tem toda a razão. Numa sociedade racista, sexista, LGBTfóbica e gordofóbica nos somos forçadas a nos odiar e a enxergarmos o mundo com outros olhos, os olhos que nos enxergam da pior maneira. Com o passar do tempo, uma voz se instala em nossa cabeça e diz coisas horríveis duma crueldade absurda. E durante algum tempo acreditamos cegamente nesta voz. 

Às vezes, essa fase dura muito, mesmo quando nos tornamos feministas. Esse horror se estende até que percebemos que a autoestima é construída lado a lado com a consciência de quem somos. Pode parecer um jargão, mas pessoas cujas identidades, aparência e corpo fogem dum padrão idealizado desafiam as estruturas de poder ao existir. O fato de existir e resistir é um ato político em si. Mas como resistir às investidas desumanizadoras?Como aprender a se amar mais? 

"O amor cura" já dizia bell hooks no famoso ensaio Vivendo de amorentão ele é uma das grandes tarefas que pessoas negras têm numa sociedade hostil. Não o amor ultrarromântico porque esse nunca nos salvou. Precisamos abandonar aquela voz cruel e direcionar os nossos sentidos ao pensamento feminista negro como forma de nos enxergar e viver. E ele não está apenas nos livros, segundo a socióloga Patricia Hill Collins, o pensamento feminista negro é difundido de diversas formas inclusive através da música. E nada mais eficaz contra aquela voz, que uma voz mais potente, não é mesmo? Confira a lista de 12 vozes interseccionais que nos ensinam sobre o amor, auto-amor e autoestima. São 49 minutos que vão te deixar imbatível!

Você não vai (Karol Conka)

Karol Conka representa uma nova geração de mulheres Negras empoderadas e mostra que é possível chegar lá.

O alcance e visibilidade da rapper brasileira Karol Conka mostra para jovens negras e negros que tudo é possível. Seu primeiro disco, Batuk Freak, é intenso e quase todas as músicas fazem sentir a voz de Karol como presença que fortalece. Em suas letras, o enfrentamento às violências é um dos temas recorrentes, mas numa perspectiva empoderada, segura e ciente de suas qualidades. A primeira pessoa se impõe pela ironia duma rima sagaz e pela consciência de seu próprio valor. 

Em Você Não Vai ela se direciona a alguém que subestima e mostra o quanto oportunidades desiguais não são determinantes, noutras palavras: quem "ri por último ri melhor". 

"Weirdo" (Sammus)

Sammus é uma rapper negra, nerd e acadêmica.


Sammus é uma rapper estadunidense que representa um perfil de comportamento bem diferente dos estereótipos associados às garotas negras: é nerd e acadêmica. Sabe aquela sensação de que você é estranha? Pois é, racismo, sexismo e tudo mais faz com que sintamos fora do lugar e isso adoece. Você é tida como estranha porque reage ao que é imposto e, se não fuma ou bebe, pior. Em seu álbum Pieces of space, lançado no fim de 2016, cada letra discute essas sensações todas de modo confessional. A primeira faixa, Weirdo (Estranha, em português), reflete bem essa condição: "nós não somos estranhas por conta de nossas roupas ou piercings, mas por conta de nosso ethos [modo de viver]" que inclui não sair de casa, preferir séries, jogos e músicas em vez de pessoas. E qual o problema nisso?


"Meu mundo é hoje (eu sou assim)" (Teresa Cristina)


A voz suave da cantora Teresa Cristina encarna em Meu mundo é hoje uma lição interessante, que vem após a nossa reflexão sobre quem somos. "|Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim" é parte alta do refrão. Esses versos não enfatizam  a arrogância de nascer e morrer do mesmo jeito, mas a transparência de agir conforte os valores nos quais acredita. É importante mudar motivada pelo desejo interior, não apenas porque as pessoas tentam nos moldar. Se não gostar? Se quiser gostar de mim, eu sou assim..

"To be young, gifted and black" (Nina Simone)


Pra mim, uma das canções mais marcantes de Nina Simone é Young, Gifted and Black (Jovem, talentosa e Negra, em português). A cantora fala do brilhantismo que se expressa na subjetividade de jovens negras e negros enfatizando o quanto é motivo de orgulho. Além disso, se dirige aos jovens "com coração aberto" para que reconheçam o quanto somos muitas garotas e garotos negros,  especiais, capazes de alcançarmos os nossos sonhos! (mas é preciso tê-los!)

"Boot" (Tamar-Kali)




Tamar-Kali é uma das minhas teóricas favoritas, e não porque ela escreve música com intenção política. É porque suas letras refletem sua experiência de negra e queer como raramente vemos (e ouvimos). Numa entrevista ela afirmou que o simples fato de ser Negra e narrar sua história é um ato político em si, que contraria as estruturas de poder. Sua canção Boot (em português, bota) descreve uma garota que tem cabelos curtos, de pernas marrons,l ábios são cheios,  olhos não são azuis, bunda grande e que tem o gosto de fruta doce, cujo suco são lágrimas amargas. Assim como sua música mais famosa (Pearl), em Boot  a cantora descreve a experiência de ser uma garota negra preciosa, que apesar de toda a violência que sofreu e não esquece, precisa se conectar consigo mesma e descobrir o valor que tem escondido dentro de si. Pode parecer que a temática seja violência - porque é impossível pensar o nosso agora sem ela - mas ela sugere sempre que a gente combata fogo com fogo (Fire with fire)! 

"Mulher" (MC Linn da Quebrada)




Um dos aspectos mais incríveis da experiência interseccional é o modo como se constrói a identificação somado a empatia à dor de outra pessoa. Não preciso ver alguém com a mesma identidade, corporalidade e experiência para admirar e captar a mensagem (num mundo utópico isso seria uma máxima real). MC Linn, que se autodeclara uma "terrorista de gênero" performa em Mulher uma vivência que questiona o termo de forma não-binária, favelada, negra. MC Linn dá voz a um empoderamento negro não-binário incrível, que também ironiza e desafia as atitudes de homens-cis que usam seu privilégio pra oprimir corpos, perspectivas e autoestima de sujeitos mulheres. 

"Vai Virar o Placar" (Luana Hansen e Drika Ferreira)

"Não desacredita, porque o nosso corre é dobrado"


As rappers Luana Hansen e Drika Ferreira se juntam em Vai virar o placar para convocar a todas para tomar o poder. A metáfora dum jogo de futebol mostra que o time da "sororidade", "feministas negras" e "sapatão nagô" não vai mais perder, independente de serem subestimadas. "Juntas somos mais fortes", porque garante o fim da violência isolada. A consciência de ser minoria de direitos, mas maioria numérica indica uma hora o placar muda.

"Azul" (Mahmundi)



Mahmundi (que tem uma peça de fight like a girl) é uma cantora e guitarrista carioca que emplacou ano passado com um álbum homônimo. Na faixa Azul, ela nos conduz a outros tempos e a nenhum tempo. Sua voz suave cantando versos simples e a batida oitentista junto ao visual vintage me fazem vislumbrar outros tempos - é como ler Octavia Butler! O que há de mais marcante é o modo como a melodia esvazia a mente de preocupações triviais e a faz vagar fora do tempo e espaço. Acredito que seja mais fácil vislumbrar um mundo novo ouvindo seu álbum Mahmundi (2016).

Poetry, How Does It Feel (Akua Naru)


Akua Naru é uma das rappers mais charmosas, devido à perfeita junção de rap, jazz, blues e o compromisso expresso com o pessoal político. Em Poetry, How Does It Feel [Poesia, como se sente - tradução aqui] o clima é intimista, minimalista e profunda como a relação sexo-afetiva que Naru descreve. A cada verso ela explora a liberdade humana de ser, sentir e transbordar através da arte. Gosto particularmente da construção do amor como uma sensação concreta e abstrata, assim como o suporte em que ela transborda pode ser poesia ou outra pessoa.

"Ambience" (Aina More)




Aina More é famosa por seus clipes em que questiona padrões de beleza ao exibir sua maravilhosidade sem esperar validação. Ambience é uma canção bem diferente das demais. O clipe é particularmente encantador, porque mostra uma relação afro-centrada saudável, não-hierárquica,  íntima, em que ambos estão prontos para o amor recíproco e maduro.

"Is your love big enough" (Lianne La Havas)



Quantas vezes você já quis saber se sua/seu amante ou "cousa amada" te ama muito, pouco ou o suficiente? O single Is your love big enough? (seu amor é grande o bastante?) da cantora Lianne La Havas, assim como a maioria das faixas fala de relacionamento.  Poderia ser um clichê neorromântico como Au Cinema, mas não. Ciente de que ama muito, deseja saber se a pessoa amada ama o bastante para chegar e fica implícito, através de Forget que, se não ama o bastante, não precisa ficar, vá, esqueça. Por mais inocente que a letra possa parecer, ela mostra que o empoderamento, a consciência de si e do seu valor fazem diferença e viram o jogo. Ninguém precisa se contentar com menos que bastante, não é?


"Gimmie your love" (Morcheeba)


O amor curaA plasticidade do clipe de Gimmie your love da banda de trip-hop Morcheeba diz tudo sobre os caminhos da cura: saber pedir, saber receber. Sentimos na voz de Skye Edwards o desejo de receber amor: "venha, me dê o seu amor e me faça sentir viva". Não é uma questão de buscar completude fora, mas de compreender que é o amor é necessário e saber recebe-lo é um aprendizado. E você só tem essa sensação, quando percebe seu valor, se empodera e se ama o suficiente para entender o quão grande é o amor direcionado a você.

"Dura na queda" (Elza Soares)



Do Cóccix ao pescoço é um dos álbuns mais arrepiantes dos meus 27 verões. A faixa que abre o disco é Dura na queda, cuja letra narra a vida duma mulher que rejeita a dor, para construir uma vida bela, valorizando as coisas simples da vida. Apesar das desventuras, revezes e tudo que dá errado,  a uma melodia animada à letra que reforça que a protagonista é "dura na queda" e não deixa a amargura vencer. "Mas para quem sabe olhar/A flor também é/Ferida aberta" indica que estar bem consigo, não é esquecer os males que transpôs, mas compreender que toda a experiência faz parte de quem somos, e devemos reconhecer a pérola que reside em cada uma de nós, mesmo quando sentimos o peso das violências (porque elas vêm). O desejo de viver, o autoamor e a sabedoria que acumulamos ao aprendermos a receber amor faz de cada uma de nós, cada vez mais amadas, amantes e duras na queda!












Ouça a Playlist aqui ou abaixo:






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TRADUÇÃO: Idade, Raça, Classe e Sexo: Mulheres redefinindo a diferença (Audre Lorde)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O que Ludmilla e Azealia Banks tem em comum?

#racismo
Apesar do otimismo, 2017 já mostra suas asas de Pterodáctilo.



O que Ludmilla e Azealia Banks tem em comum? Talvez a resposta pareça óbvia: "ambas são Negras" ... mas isso é uma questão de perspectiva. De onde estou, o que vejo é a a encarnação do terror branco que assombra qualquer subjetividade Negra diaspórica: o linchamento. Não descreverei aqui a continuidade histórica entre o período colonial e o dia de hoje, mas sugiro que você leia este texto ao som de Strange Fruit, na voz de Nina Simone ou de Billie Holiday.

* * *

Acompanho a carreira de Ludmilla desde que ela era MC Beyoncé e já me aborrecia com a maneira como ela era tratada por alguns integrantes do programa televiso Esquenta. A mídia também sempre celebrou os desastres da vida dela com certo prazer, sobretudo quando ela teve que abandonar o primeiro nome artístico. Ontem foi um desses dias. Eu estava dentro do ônibus quando ouvi a manifestação dos fãs do apresentador Marcão pedindo que a injustiça contra ele fosse reparada. No dia 9 de janeiro de 2017, o apresentador Marcão chamou a MC de "macaca" e "pobre" e, apenas no dia 17 de janeiro houve repercussão porque a Record rescindiu o contrato. Obviamente, logo surgiram defensores da "liberdade de expressão" que passaram a ofender Ludmilla na internet. Os três - a emissora, o ex-apresentador e o internauta - foram processados pela cantora. Infelizmente, sabemos da ineficácia da "lei antirracismo" que sempre leva o racista à impunidade, condenando ao crime de injúria. Imagina a quantidade de "você sabe com quem está falando" estaria encarcerada se racismo fosse um assunto levado a sério nesse País.

Segundo o twitter do programa, o termo "macaca" não passa de regionalismo e nada tem a ver com a história de colonização, segregação e racismo. Não precisa ser formada em letras pra desvelar a falácia, veja:


Programa 'Balanço Geral' fala sobre episódio em seu Twitter (Foto: Reprodução)
Nós não sabemos mais a diferença de "adjetivo" e predicativo do sujeito, OBRIGADA pela aula.


Primeiro, a MC Ludmilla foi insultada "gratuitamente" porque o apresentador se sentiu à vontade pra fazer isso. Será que é porque é branco, rico e homem-cis? No auge da minha leitura, tive que ouvir os gritos dos fãs, comovidos porque perderam seu líder. Assim como eu, o motorista e o cobrador do ônibus tentavam entender aquilo, cujo nível de absurdo nos calava. Daí o cobrador repetia ao motorista (que desconhecia o fato) os termos ofensivos. E ambos diziam que o apresentador "estava errado" e que "racismo é crime", daí então repetia que Marcão havia chamado a cantora de "macaca". Esse looping entre o cobrador (que olhou pra mim encabulado) e o motorista, me fez acreditar na humanidade, apesar do ruído lá fora. Eles estavam perplexos e - quero acreditar - pelo absurdo. Olhei através da janela e não encontrei as pessoas que se julgam de bem e escolhem proteger um agressor. E não param por aí: largam seus afazeres, suas vidas, para protestar na emissora ignorando plenamente os papéis de agressor e de vítima. Inverteram o jogo e Ludmilla se tornou uma vilã, já que não abaixou a cabeça contra o absurdo.


sofreu racismo e processou a emissora e o apresentador
Assim como Azealia, a cantora brasileira tem passado por diversas cirurgias plásticas que mostram o quanto o racismo é deformante. Elas eram tão atacadas com ofensas sobre seus fenótipos, que elas chegaram numa total despersonalização a ponto de mudarem o corpo em busca de adequação. (Não é uma generalização nem uma crítica às cirurgias, apenas a constatação de que o racismo deforma e, quando não nos mata, enlouquece).

Segundo
: esse tipo de comoção das "pessoas de bem" é da mesma natureza daquele esforço de derrubar o twitter da Azealia Banks no início de 2017. Não é de hoje que a rapper está envolvida em conflitos na internet, mas dessa vez o golpe foi baixo. Em 2015, ela não apenas afirmou que o feminismo nada acrescentou às mulheres Negras como se declarou mulherista (womanist). Numa série de twits, ela não apenas desmereceu a luta de muitas mulheres não-brancas como demonstrou uma opinião de senso comum. Até aí, tudo bem. Pessoas brancas famosas erram o tempo inteiro, inclusive opinam sobre qualquer coisa e cometem crimes. Enquanto a maioria daquelas atitudes são ignoradas, o público expressa pela rapper
um ódio assombroso, que é centrado não em odiar o que ela diz, mas à sua existência. É claro que racistas só esperam a oportunidade de flagelarem os corpos negros, exporem nos postes virtuais, pra conferir o efeito da justiça branca, afinal, pra essas pessoas, ela não deveria se expressar. No fim do ano de 2016, Banks postou em seu Instagram o cômodo onde ela sacrifica animais. Dificilmente essa atitude seria recomendada por líderes religiosos e, mais uma vez, Azealia Banks agiu de forma reprovável. Isso, no entanto, não tem a ver com a reação da SIA. (antes de continuar, quero dizer que eu conhecia Banks, mas não sabia quem/o que era SIA exceto Setor de Indústria e Abastecimento, um lugar em Brasília). SIA disse que:

“Sacrificar animais para o seu benefício é a pior merda que já ouvi. Siga em frente sendo incrível, boa e trabalhando bastante” 
SIA via PAPEL POP

É evidente que o privilégio impede SIA de enxergar que todas as festividades cristãs sacrificam animais também. Ou a páscoa e o natal são celebrados exclusivamente com cardápio de vegetais? Ainda que SIA fosse uma WhiteVegan (aquela ala do veganismo colonizador, salvador da pátria) estaria errada. Religiosidade não é uma questão de opinião e ironia, neste caso, é apenas uma camada de desdém pelo que não compreende. É claro que Banks respondeu (quase) na mesma moeda:

“E a sua cara feia e seca de mulher branca de inverno é a cara mais feia que eu já vi, deve ser por isso que você esconde o tempo tudo. Tenha alguma merda de respeito na porra da minha tradição religiosa africana, sua vadia branca”. 
Azealia Banks via PAPEL POP
Apesar de SIA ter feito um comentário que desmerece práticas ligadas às religiões de matriz africana, seu "erro" é interpretado pelo público como uma opinião neutra. Os principais "formadores de opinião" noticiaram que Banks "fez barraco" com SIA, porque a chamou de "branca de inverno" e "arrumou briga com brasileiros"... como se existisse racismo reverso e como se ela fosse obrigada a ser violentada em silêncio por homens "brancos" porque são gays.

apesar de não concordar com azaelia, as reações contra ela são desproporcionais
Azealia Banks

A reação desproporcional não parou por aí. Os fãs brasileiros tomaram as dores de SIA e começaram tanto a ofender diretamente, fazerem comentários racistas e ironias perversas quanto expor Azealia Banks. Tudo começou com a ofensa desferida a ela por um brasileiro "branco" e gay, que se sentiu à vontade para ofendê-la amparado pelo fato de ser minoria (já aconteceu comigo um sem número de vezes). Segundo o portal G1, ela sofreu críticas porque ofendeu os brasileiros. Mais uma vez a vítima é descrita, não apenas como o problema, mas como algoz. E racismo virou opinião e crítica. É óbvio que não concordo com o que a rapper diz, mas é óbvio que ela reagiu à violência usando as armas que tem (ou julga ter). Chamou SIA de feia, brasileiros de "favelados" dentre outras inferências tolas. No meio disso tudo ela disse algumas verdades sobre o mundo complexo em que vivemos: a classificação racial no Brasil é bastante diferente dos Estados Unidos, o inglês dos agressores não é tão standard como são levados a acreditar e outras coisas como "ser gay não dá o direito de ser racista". Não contentes com toda a agressão verbal, os descontextualizados se mobilizaram em prol de derrubar a conta no twitter da Azealia. Não concordam com ela, mas não são capazes de ignorar sua página. Não são capazes de coexistir com sua voz e expressão. Tiraram o direito de expressão dela pelo simples fato de poderem e da forma mais perversa possível. Simularam uma piada sobre a marca de calçados Azaléa que até virou uma hashtag.

Uma das coisas mais impressionantes é que a mídia noticiou que "Azealia Banks tem conta no Twitter suspensa após briga com brasileiros" e o Twitter, que nunca enxerga racismo e apologia ao ódio como violação de suas regras, mais uma vez excluiu uma mulher negra bem-sucedida da rede. Ela é spam, um lixo, na visão deles. E não esqueçamos do caso da Leslie Jones, atriz de Ghostbusters que foi alvo de uma onda de racismo absurda em 2016, que nenhuma comoção em prol dela foi capaz de intervir. As três foram, injustamente expostas às vistas de expectadores ávidos pelo espetáculo perverso de aniquilação de pessoas negras. Como se reivindicassem seus benefícios coloniais, sessentistas que se atualizam a todo momento afirmavam que não conheciam Azealia, somente a Azalea.

* * *

Ludmilla e Azealia Banks são duas artistas negras bem-sucedidas que, apesar disso, sofrem ataques racistas numa frequência assombrosa. Para quem acredita que "o problema é a classe" ou que "racismo não existe" é uma excelente oportunidade para reconhecer. Nós, Negras, sabemos que as linhas que cruzam as experiências de Ludmilla e Azealia são (dentre muitas coisas positivas) o racismo e o sexismo, mas sabemos que as semelhanças terminam numa complexidade absurda. Afinal de contas, o capitalismo faz com que brasileiros se sintam confortáveis para se identificar com ideais de branquitude menores que sua condição econômica "em desenvolvimento" que ainda tende ao terceiromundismo - graças aos patos e tudo o mais que vocês sabem. O capitalismo faz parecer plausível para a vítima - Azealia Banks - que usar a linguagem do opressor ameniza as coisas. É aí que Ludmilla se mostra madura e eficaz, porque se racistas não serão privados de liberdade, ao menos, devem compreender o efeito da contravenção no "no bolso":


“Não deixaremos impune tais atos, trata se de um desrespeito absurdo, vergonhoso. Fica evidente que esse cidadão não possui nenhum pudor ou constrangimento em ofender alguém em rede nacional. Como já foi dito por Paulo Autran, ‘todo preconceito é feito da ignorância’, visto que os racistas não possuem um conhecimento de moralidade, tratando sua própria cor de pele como superior e única. Isso tem que ser combatido e farei a minha parte, quantas vezes for necessário”. 
Ludmilla via Portal Bol



Faço minhas as palavas dela. Racistas não passarão!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO quebra uma (grande) mentira branca

hidden figures
 As três cientistas que mudaram a corrida espacial na década de 1960.
Da esquerda para a direita:  Mary Jackson (Janelle Monáe), Ketherine Johnson (Taraji P. Henson) e Dorothy Vaughan (Octavia Spencer).

SPOILER

Todas nós sabemos que uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade. Essa é uma lição conhecida particularmente por minorias políticas porque vivenciamos o tempo inteiro a incursão de discursos que buscam nos desestruturar, paralisar e ferir. Devido à crescente divulgação das conquistas, invenções e descobertas empreendidas por mulheres, negros e pessoas não-binárias fica evidente que nós sempre estivemos em todos os lugares, mesmo que não muitas, mesmo que desacreditadas. Esse apagamento é uma estratégia eficaz de nos distanciar da ciência, uma vez que as imagens de referência são o primeiro estalo de identificação sobre o que desejamos ser. 

Todas as pessoas precisam se ver para compreenderem que é possível e daí vem a autoestima e assombrosa sensação de legitimidade dum Paul Stafford (Estrelas além do tempo) ou  Sheldon (The Big Bang Theory). Curioso que, ao mesmo tempo que são investidos de todo o poder, um fio de insegurança se soma ao desejo de aniquilação da diferença quase nunca reconhecido. Não reconhecer é uma forma de omitir os fatos, o que tem sido mais difícil com o passar do tempo. Cada vez mais, abre-se o espaço de resposta e de reforço do que não pode ser esquecido. Estrelas além do tempo é exatamente essa lembrança, a quebra duma mentira e a certeza de que podemos alcançar o que formos capazes de desejar. Neste sentido, é muito importante que as pessoas brancas reconheçam seu lugar na história de opressão e usem o privilégio para romper a ordem social - consciência expressada pelo diretor e Estrelas além do tempo, Ted Melfi. Ao ser interpelado sobre o porquê do apagamento das heroínas de Estrelas além do tempo, ele afirma:

"Tem a ver com racismo e sexismo. Nós escondemos as conquistas das mulheres. Temos filmes sobre a NASA  e elas só aparecem como secretárias e esposas" 
(Ted Melfi, diretor de Estrelas além do tempo via Fantástico)

Também sabemos que nem sempre as mentiras são ditas com todas as letras: podem ser mantidas em segredo (como o racismo) ou no esquecimento, para beneficio de grupos sociais poderosos. Contra essas formas de mentira e de ocultação, estreia nos cinemas brasileiros Estrelas além do tempo [Hidden Figures, Theodore Melfi, 20th Century Fox, 2016 - 2h7min], baseado na biografia de mesmo nome escrita por Margot Lee Shetterly (escritora negra, filha de cientistas, e que conviveu nesta zona da Nasa até então desconhecida pela maioria de nós!).

estrelas além do tempo
Numa imagem Estrelas além do tempo [Hidden Figures] desmonta uma grande mentira que começou (talvez) quando disseram que egípcios não construíram pirâmides e sim os X-Men ou extraterrestres.


Estrelas Além do Tempo


Durante a corrida espacial entre os Estados Unidos e a Rússia (Guerra Fria) houve uma equipe de cientistas da NASA totalmente composta por mulheres negras conhecidas como computadores humanos, dada sua habilidade exata de calcular. Dentre elas, destacam-se três amigas: a matemática Katherine Johnson (Taraji P. Henson), a programadora Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e a engenheira Mary Jackson (Janelle Monáe). Àquela época, 1961, os Estados Unidos não apenas viam as consequências sexistas da geração baby boom pós Segunda Guerra Mundial (1940-45), quanto perpetravam a segregação racial de forma ostensiva e sem constrangimento. Além disso, cultivava-se um pânico coletivo em relação ao comunismo e, em especial, à Rússia que demonstrava superioridade tecnológica. Foi exatamente o medo da Rússia alcançar o espaço (e quiçá a Lua) que demandou a missão de lançar o primeiro estadunidense ao espaço, e não apenas isso: fazê-lo orbitar a Terra e retornar em segurança.




O problema era a dificuldade de precisão da velocidade de retorno (go-No-go). Os computadores eletrônicos eram rudimentares e o mercado carecia de profissionais qualificados para a programação das máquinas, neste sentido, foi crucial a expertise de Dorothy Vaughan que liderou as operações nesta área junto às demais profissionais treinadas por ela. Apesar disso, os computadores eletrônicos estavam em fase experimental e não possuíam a precisão para os cálculos necessários. Sendo assim, os cálculos de Katherine Johnson se mostraram mais precisos (com mais casas decimais) que a gigantesca IBM e possibilitaram que a cientista se destacasse. Já a jornada de Mary Jackson inicia com o convite para trabalhar no túnel de vento supersônico, que conferiu a experiência necessária para tornar-se engenheira, exceto pelo fato de ser Negra num estado segregacionista. 

As três superam os problemas sem que pra isso sejam vetores do discurso meritocrático e mostram o quanto o pessoal é político, já que a luta pela sobrevivência as posiciona em locais praticamente impossíveis em tempos de segregação racial. Não tem como narrar uma história nesse período sem levar em conta as violências, mas o filme consegue equilibrar os fatos com leveza e humor que expõem o sistema, sem vilão/vítima em particular. O filme informa sobre o real problema ser o sistema e o modo como as pessoas se apropriam dele, lançando o racismo prum nível político, não moral. Em suma: Estrelas além do tempo  é uma jornada rumo ao heroísmo exatamente como eu desejava ver.

Expectativas? O melhor do melhor!


Verdade seja dita: desde Django: Livre, Histórias CruzadasWhat Happened, Miss Nina Simone? ando cansada de filmes protagonizados por negros que reforçam paradigmas raciais e de gênero. A maioria dos filmes cai no erro de reforçar a branquitude ao contar histórias de pessoas negras libertadas (que não se libertam) e, assim, criar frustrantes ilusões de progresso. Isso fez com que eu fosse assistir a Estrelas além do tempo  com receio de cair numa armadilha e me deparar com uma profunda e interminável representação de sofrimento. Não é o caso. As três personagens são exploradas de forma complexa, tanto em âmbito profissional, quanto da comunidade e da família, o que nos dá um panorama rico que mostra cientistas como pessoas sociáveis e multifacetadas. Essa representação interpela sutilmente a audiência sobre as imagens mentais que temos de cientistas que protagonizam grandes feitos científicos. É provável que mais de dois terços das pessoas que se questionam quanto a cientistas mulheres, só consigam lembrar dos feitos da física Marie Curie. E os negros, onde estão os negros? A resposta é embaraçosa: "não sei". 


Esta reunião é totalmente composta por indivíduos brancos, sendo que uma é mulher (Ruth). 
No filme, essa homogeneidade se mostra tão poderosa quanto ineficaz.



Apesar desta constatação desconfortável, é evidente que ela proporciona uma reflexão profunda sobre quem é o sujeito do conhecimento, o que é o saber científico, quais os interesses políticos/econômicos que comandam a divulgação científica, como o conceito de pátria expulsa sujeitos contribuintes e muitas outras. Como Negra inserida no contexto da divulgação científica sob o viés de gênero esses questionamentos fazem parte do meu cotidiano e não me surpreende que existam cientistas negras como Katemari RosaViviane dos Santos BarbosaMarie Maynard Daly e sim a forma de terceiros narrarem  suas trajetórias. 

Um aspecto doloroso da consciência negra é o legado de violência, usurpação e extorsão que resultam numa hierarquia social que parece intransponível. Um problema recorrente nas narrativas sobre desigualdade racial é a presença de brancos salvadores, abolicionistas, princesas Isabel que se mostram mais conscientes da exploração que os próprios explorados. Ora, se por um lado a hierarquia real faz com que brancos possam (e devam) usar o privilégios para abrirem espaço para negros, por outro, é necessário enfatizar o nosso lugar de agentes - afinal, "o racismo é uma problemática branca". No trailer de Estrelas além do tempo uma das passagens parece ambígua, mas no filme é riquíssima. Ela mostra o diretor do programa espacial, Al Harrison (Kevin Costner), confrontado pela realidade da segregação como vivida por negros: Katherine Johson caminha 1,6 KM para ir ao banheiro "para negras" no precário edifício da zona oeste. Investido de poder, Harrison arranca a placa e institui o uso comum de qualquer dependência. Embora o trailer não evidencie o fato, no filme, o personagem é descrito não como um salvador, mas como "uma pessoa decente" capaz de reconhecer as potencialidades das pessoas.

 Al Harrison (Kevin Costner) destrói a placa que identifica o banheiro precário para "pessoas de cor".

É claro que a experiência de Katherine Johson é muito dolorosa, como a maioria das situações vivenciadas por Dorothy Vaughan e Mary Jackson, mas a forma como elas são apresentadas, não são gatilhos e nunca mostram o horror pelo horror. O racismo é denunciado desde a institucionalização (as universidades, bebedouros e assentos de ônibus eram separadas por raça sendo que os negros ficavam o mais precário) até as falas alegadamente racistas e, acima de tudo, a micro-violência (olhares de reprovação, gaslighting, subestimação, desprezo). A maioria das performances de racismo são construídas numa linha de humor negro (isto é, direcionada aos negros), que nos faz rir de boçalidades e inseguranças que racistas performam dada a sua ignorância. Há respostas muito poderosas junto às situações como a da implacável engenheira:

"Toda vez que a estamos chegando, eles movem a linha de chegada". Mary Jackson em Estrelas além do tempo

Ao mesmo tempo que o sistema racialista é exposto, rimos muito do cotidiano com o qual nos identificamos. Katherine Johnson, por exemplo, é desajeitada, nem sempre sabe o que dizer e pode ser classificada como Preta Nerd no Burning Hell

Um dos "gênios" de Al Harrison recepciona Katherine 'Kat" Johnson identificando-a como servente.
Além desta cena identificar a espontaneidade do racismo, também descreve o ponto de vista de quem é vista como pária.
Os demais a expulsam com os olhos.

A história de Katherine Johnson perpassa vários âmbitos da vida, inclusive o religioso. Seu envolvimento com o coronel James Johnson (Mahershala Ali) é explorado de forma sensível e humana, evidenciando a relação entre afeto, acordo, respeito e admiração. O mesmo acontece com Mary Jackson, cujo marido reconheceu a internalização de seu próprio sexismo e se propôs a mudar a atitude e apoiar a carreira da companheira. Uma mensagem sutil de reconciliamento entre os afetos e os saberes científicos é transmitida nesses momentos, afora o fato de que ninguém está pronta para a complexidade da vida. Somado a isso, a relação entre Katherine Johnson, sua mãe e suas filhas evidencia a diferença que aprender a amar faz em nossas vidas. O amor nos faz mais fortes, não como um clichê ultrarromântico, mas como a chave para lutar contra a desumanização a qual somos submetidas diariamente. A superação das três cientistas não é uma ode à meritocracia, mas à capacidade de se reconectar consigo mesma, de conhecer nossos talentos e protagonizar nossas vidas.


Uma das três filhas de Katherine Johnson a presenteia com a ilustração da mãe num foguete.

A jornada em primeiro plano é a de Katherine Johnson, mas isso não diminui a história das demais. Mary Jackson, por exemplo, decide se tornar engenheira e viver o impossível: ser a primeira mulher Negra a cursar uma pós-graduação na Universidade da Virgínia. O momento em que ela é desafiada pelo Sr. Z (um judeu que teve a família assassinada na Polônia) é particularmente emocionante porque mostra o real sentido de empatia. Sim, precisamos lutar mais, sermos três vezes melhores, mas não podemos desistir jamais. Navegar é preciso.

Mary Jackson (Janelle Monáe) vivendo o "impossível" junto ao judeu Sr. Z.

Dorothy Vaughan é uma personagem absolutamente adorável, e materializa o que Viola Davis disse sobre atrizes Negras: para serem premiadas precisam ter a chance de interpretar papéis importantes. Vaughan é a personagem ideal sobre a pele de Octavia Spencer, que encarna de forma perfeita uma mulher ativista, como o tempo que viveu demandava. Não do tipo que vai à passeatas, mas que pensa de forma coletiva, que ensina os filhos a manterem a cabeça erguida e as colegas a programar. Sua curiosidade é descrita de forma esplêndida, como na passagem em que seu carro quebrou na ida ao trabalho com as amigas. Sem problemas ela decide consertar o veículo, e antecipa sua engenhosidade no campo da programação. No filme, senti falta particularmente de uma solução visual para a sua importância na corrida espacial. Uma solução possível seria a inserção duma sequência  que focasse nela programando junto à equipe de mulheres Negras que treinou e, em off, a explicação narrada por Al Harrison (e que focou em sua figura).


dorothy vaughan


A interpretação encantadora de Janelle Monáe rasga todas as mentiras e convenções conferindo grande charme à Mary Jackson. Ela é uma mulher espontânea, animada e vaidosa descrita não como pedante, mas como uma pessoa que tem consciência de sua potencialidade e que reconhece seu valor. A força de Mary Jackson está em sua impactante presença de derrubar qualquer recomendação de falsa-modéstia. 


mary jackson (janele monae)


Além da atuação individual, a interação em cena das atrizes Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe é absolutamente deliciosa, flui de forma encantadora e representa a força absoluta de não ser a exceção à raça. Juntas, as três personagens são mais fortes porque se apoiam e crescem, sempre juntas mostrando que vencer sozinha não é vitória real.

O Racismo como tema


O longa é rico de significados principalmente porque constrói uma narrativa sobre pessoas negras direcionada a esse público. O sofrimento diário não é diminuído nem capitalizado por meio de cenas tortuosas. As cientistas vivem num mundo real estruturado pelo racismo e sexismo, que perpassam a narrativa como discussões, como um problema branco direcionado aos negros. Assim como diferentes personagens brancos performam branquitude mais ou menos conscientes (negando, reconhecendo,  envergonhados, culpados), em vários momentos, também usam o que podem para possibilitar a reparação.


Oi?


A perversa personagem Mary Jane Vivian Mitchell, interpretada por Kirsten Dunst, é uma mulher ambígua que expressa as armadilhas do feminismo de primeira onda. Ela se preocupa em parecer competente (porque não tem os próprios direitos assegurados),  e de exercer poder sobre a gentil, competente e adorável Dorothy Vaughan. Seu senso de superioridade é tributário única e exclusivamente do privilégio racial, já que não apresenta grandes perícias, e esse é o grande comentário retórico sobre a entrada das mulheres brancas no mercado de trabalho na década de 1960. A sessão feminina representada por Mitchell não é um ambiente solidário para Negras, mesmo se comparado com a cúpula dos gênios liderada por Al Harrison. Por outro lado, no intuito de não vilanizar a Mary Jane Ms. Mitchell nem investir na ideia de que todas as mulheres rivalizam, há a secretária  Ruth que, apesar de pouco tempo em tela, tem um comportamento de não-aceitação mais discreto (que se revela e transmuta para uma quase aceitação). 


hidden figures
O astronauta John Glenn (esquerda) foi o rosto da missão, enquanto Katherine Johnson  (direta) foi o cérebro.

Como no mundo real, o filme apresenta uma multiplicidade de duplos. Assim como o "nerd ideal" Paul Stafford (Jim Parsons) é superestimado, ele  expressa o que há de pior num mundo capitalista, racista, sexista e capacitista simplesmente por ser quem/como ele é, ao passo que o astronauta John Glenn (Glen Powell) se posiciona de forma definitivamente antirracista. É um dos personagens mais simplificados do filme, mas sua presença é marcante por representar ideais radicalmente democráticos àquela época bem como por investir sua confiança no cálculo de Katherine Johnson. O filme não cai no erro de alçá-lo a um pedestal também, ele representa o "racismo diário" (everyday racism) como vivenciado hoje, o da tolerância. Eis uma das discussões mais sutis e que mais me desafiaram em Estrelas Além do Tempo.

Escrevendo uma história de vitórias


Estrelas Além do Tempo é um filme bastante emocionante, construído num crescendo de situações dramáticas e bem-humoradas em que conhecemos as três cientistas, sua missão e os principais opositores. O fato de contar a história de três heroínas Negras de forma justa, estética e política é avassaladora. Diferente do título definido para o Brasil, o título em inglês ("Figuras ocultadas") mostra o esforço de expor essa verdade crucial que nos é negada diariamente pela cultura de massa.  Além de nós, mulheres Negras, podermos nos identificar na tela-grande, a  importância desse filme é a de quebrar mentiras enraizadas tão profundamente quando o racismo e o sexismo. Outra mentira foi derrubada pelo público: a de que protagonistas negras não geram interesse no público. Em cerca de quatro semanas de cartaz, o filme já lucrou mais de 20 milhões nos Estados Unidos e, dada a qualidade e importância, já lança álcool nas labaredas burning hell do Oscar 2017. 

"Nunca pare de lutar" é a lição que perpassa o filme e isso fala direto às nossas Negras vidas, driblando toda e qualquer mentira branca - não a cor - mas a definição política. Sem dúvidas, verdades como essas nos fazem mais fortes e, definitivamente Kat, Mary e Dorothy são as heroínas que lutam pela minha causa e que refletem quem eu sou.




Diretor: Ted Melfi

Roteiro: Alison Schroeder, Ted Melfi, Lori Lakin Hutcherson
Produtores: Donna Gigliotti, Peter Chernin, Jenno Topping, Pharrell Williams, Ted Melfi
Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali, Aldis Hodge, Glen Powell e Kevin Costner.






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