quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O que Ludmilla e Azealia Banks tem em comum?

#racismo
Apesar do otimismo, 2017 já mostra suas asas de Pterodáctilo.



O que Ludmilla e Azealia Banks tem em comum? Talvez a resposta pareça óbvia: "ambas são Negras" ... mas isso é uma questão de perspectiva. De onde estou, o que vejo é a a encarnação do terror branco que assombra qualquer subjetividade Negra diaspórica: o linchamento. Não descreverei aqui a continuidade histórica entre o período colonial e o dia de hoje, mas sugiro que você leia este texto ao som de Strange Fruit, na voz de Nina Simone ou de Billie Holiday.

* * *

Acompanho a carreira de Ludmilla desde que ela era MC Beyoncé e já me aborrecia com a maneira como ela era tratada por alguns integrantes do programa televiso Esquenta. A mídia também sempre celebrou os desastres da vida dela com certo prazer, sobretudo quando ela teve que abandonar o primeiro nome artístico. Ontem foi um desses dias. Eu estava dentro do ônibus quando ouvi a manifestação dos fãs do apresentador Marcão pedindo que a injustiça contra ele fosse reparada. No dia 9 de janeiro de 2017, o apresentador Marcão chamou a MC de "macaca" e "pobre" e, apenas no dia 17 de janeiro houve repercussão porque a Record rescindiu o contrato. Obviamente, logo surgiram defensores da "liberdade de expressão" que passaram a ofender Ludmilla na internet. Os três - a emissora, o ex-apresentador e o internauta - foram processados pela cantora. Infelizmente, sabemos da ineficácia da "lei antirracismo" que sempre leva o racista à impunidade, condenando ao crime de injúria. Imagina a quantidade de "você sabe com quem está falando" estaria encarcerada se racismo fosse um assunto levado a sério nesse País.

Segundo o twitter do programa, o termo "macaca" não passa de regionalismo e nada tem a ver com a história de colonização, segregação e racismo. Não precisa ser formada em letras pra desvelar a falácia, veja:


Programa 'Balanço Geral' fala sobre episódio em seu Twitter (Foto: Reprodução)
Nós não sabemos mais a diferença de "adjetivo" e predicativo do sujeito, OBRIGADA pela aula.


Primeiro, a MC Ludmilla foi insultada "gratuitamente" porque o apresentador se sentiu à vontade pra fazer isso. Será que é porque é branco, rico e homem-cis? No auge da minha leitura, tive que ouvir os gritos dos fãs, comovidos porque perderam seu líder. Assim como eu, o motorista e o cobrador do ônibus tentavam entender aquilo, cujo nível de absurdo nos calava. Daí o cobrador repetia ao motorista (que desconhecia o fato) os termos ofensivos. E ambos diziam que o apresentador "estava errado" e que "racismo é crime", daí então repetia que Marcão havia chamado a cantora de "macaca". Esse looping entre o cobrador (que olhou pra mim encabulado) e o motorista, me fez acreditar na humanidade, apesar do ruído lá fora. Eles estavam perplexos e - quero acreditar - pelo absurdo. Olhei através da janela e não encontrei as pessoas que se julgam de bem e escolhem proteger um agressor. E não param por aí: largam seus afazeres, suas vidas, para protestar na emissora ignorando plenamente os papéis de agressor e de vítima. Inverteram o jogo e Ludmilla se tornou uma vilã, já que não abaixou a cabeça contra o absurdo.


sofreu racismo e processou a emissora e o apresentador
Assim como Azealia, a cantora brasileira tem passado por diversas cirurgias plásticas que mostram o quanto o racismo é deformante. Elas eram tão atacadas com ofensas sobre seus fenótipos, que elas chegaram numa total despersonalização a ponto de mudarem o corpo em busca de adequação. (Não é uma generalização nem uma crítica às cirurgias, apenas a constatação de que o racismo deforma e, quando não nos mata, enlouquece).

Segundo
: esse tipo de comoção das "pessoas de bem" é da mesma natureza daquele esforço de derrubar o twitter da Azealia Banks no início de 2017. Não é de hoje que a rapper está envolvida em conflitos na internet, mas dessa vez o golpe foi baixo. Em 2015, ela não apenas afirmou que o feminismo nada acrescentou às mulheres Negras como se declarou mulherista (womanist). Numa série de twits, ela não apenas desmereceu a luta de muitas mulheres não-brancas como demonstrou uma opinião de senso comum. Até aí, tudo bem. Pessoas brancas famosas erram o tempo inteiro, inclusive opinam sobre qualquer coisa e cometem crimes. Enquanto a maioria daquelas atitudes são ignoradas, o público expressa pela rapper
um ódio assombroso, que é centrado não em odiar o que ela diz, mas à sua existência. É claro que racistas só esperam a oportunidade de flagelarem os corpos negros, exporem nos postes virtuais, pra conferir o efeito da justiça branca, afinal, pra essas pessoas, ela não deveria se expressar. No fim do ano de 2016, Banks postou em seu Instagram o cômodo onde ela sacrifica animais. Dificilmente essa atitude seria recomendada por líderes religiosos e, mais uma vez, Azealia Banks agiu de forma reprovável. Isso, no entanto, não tem a ver com a reação da SIA. (antes de continuar, quero dizer que eu conhecia Banks, mas não sabia quem/o que era SIA exceto Setor de Indústria e Abastecimento, um lugar em Brasília). SIA disse que:

“Sacrificar animais para o seu benefício é a pior merda que já ouvi. Siga em frente sendo incrível, boa e trabalhando bastante” 
SIA via PAPEL POP

É evidente que o privilégio impede SIA de enxergar que todas as festividades cristãs sacrificam animais também. Ou a páscoa e o natal são celebrados exclusivamente com cardápio de vegetais? Ainda que SIA fosse uma WhiteVegan (aquela ala do veganismo colonizador, salvador da pátria) estaria errada. Religiosidade não é uma questão de opinião e ironia, neste caso, é apenas uma camada de desdém pelo que não compreende. É claro que Banks respondeu (quase) na mesma moeda:

“E a sua cara feia e seca de mulher branca de inverno é a cara mais feia que eu já vi, deve ser por isso que você esconde o tempo tudo. Tenha alguma merda de respeito na porra da minha tradição religiosa africana, sua vadia branca”. 
Azealia Banks via PAPEL POP
Apesar de SIA ter feito um comentário que desmerece práticas ligadas às religiões de matriz africana, seu "erro" é interpretado pelo público como uma opinião neutra. Os principais "formadores de opinião" noticiaram que Banks "fez barraco" com SIA, porque a chamou de "branca de inverno" e "arrumou briga com brasileiros"... como se existisse racismo reverso e como se ela fosse obrigada a ser violentada em silêncio por homens "brancos" porque são gays.

apesar de não concordar com azaelia, as reações contra ela são desproporcionais
Azealia Banks

A reação desproporcional não parou por aí. Os fãs brasileiros tomaram as dores de SIA e começaram tanto a ofender diretamente, fazerem comentários racistas e ironias perversas quanto expor Azealia Banks. Tudo começou com a ofensa desferida a ela por um brasileiro "branco" e gay, que se sentiu à vontade para ofendê-la amparado pelo fato de ser minoria (já aconteceu comigo um sem número de vezes). Segundo o portal G1, ela sofreu críticas porque ofendeu os brasileiros. Mais uma vez a vítima é descrita, não apenas como o problema, mas como algoz. E racismo virou opinião e crítica. É óbvio que não concordo com o que a rapper diz, mas é óbvio que ela reagiu à violência usando as armas que tem (ou julga ter). Chamou SIA de feia, brasileiros de "favelados" dentre outras inferências tolas. No meio disso tudo ela disse algumas verdades sobre o mundo complexo em que vivemos: a classificação racial no Brasil é bastante diferente dos Estados Unidos, o inglês dos agressores não é tão standard como são levados a acreditar e outras coisas como "ser gay não dá o direito de ser racista". Não contentes com toda a agressão verbal, os descontextualizados se mobilizaram em prol de derrubar a conta no twitter da Azealia. Não concordam com ela, mas não são capazes de ignorar sua página. Não são capazes de coexistir com sua voz e expressão. Tiraram o direito de expressão dela pelo simples fato de poderem e da forma mais perversa possível. Simularam uma piada sobre a marca de calçados Azaléa que até virou uma hashtag.

Uma das coisas mais impressionantes é que a mídia noticiou que "Azealia Banks tem conta no Twitter suspensa após briga com brasileiros" e o Twitter, que nunca enxerga racismo e apologia ao ódio como violação de suas regras, mais uma vez excluiu uma mulher negra bem-sucedida da rede. Ela é spam, um lixo, na visão deles. E não esqueçamos do caso da Leslie Jones, atriz de Ghostbusters que foi alvo de uma onda de racismo absurda em 2016, que nenhuma comoção em prol dela foi capaz de intervir. As três foram, injustamente expostas às vistas de expectadores ávidos pelo espetáculo perverso de aniquilação de pessoas negras. Como se reivindicassem seus benefícios coloniais, sessentistas que se atualizam a todo momento afirmavam que não conheciam Azealia, somente a Azalea.

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Ludmilla e Azealia Banks são duas artistas negras bem-sucedidas que, apesar disso, sofrem ataques racistas numa frequência assombrosa. Para quem acredita que "o problema é a classe" ou que "racismo não existe" é uma excelente oportunidade para reconhecer. Nós, Negras, sabemos que as linhas que cruzam as experiências de Ludmilla e Azealia são (dentre muitas coisas positivas) o racismo e o sexismo, mas sabemos que as semelhanças terminam numa complexidade absurda. Afinal de contas, o capitalismo faz com que brasileiros se sintam confortáveis para se identificar com ideais de branquitude menores que sua condição econômica "em desenvolvimento" que ainda tende ao terceiromundismo - graças aos patos e tudo o mais que vocês sabem. O capitalismo faz parecer plausível para a vítima - Azealia Banks - que usar a linguagem do opressor ameniza as coisas. É aí que Ludmilla se mostra madura e eficaz, porque se racistas não serão privados de liberdade, ao menos, devem compreender o efeito da contravenção no "no bolso":


“Não deixaremos impune tais atos, trata se de um desrespeito absurdo, vergonhoso. Fica evidente que esse cidadão não possui nenhum pudor ou constrangimento em ofender alguém em rede nacional. Como já foi dito por Paulo Autran, ‘todo preconceito é feito da ignorância’, visto que os racistas não possuem um conhecimento de moralidade, tratando sua própria cor de pele como superior e única. Isso tem que ser combatido e farei a minha parte, quantas vezes for necessário”. 
Ludmilla via Portal Bol



Faço minhas as palavas dela. Racistas não passarão!

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