Você já leu Lovecraft?*


por Anne Quiangala


Narrativa é a matéria mais poderosa da nossa realidade. Nós somos movidas pelo que acreditamos que as coisas são: pelas palavras e expressões convencionadas, que nada mais são que representações. E se já está representado, um filtro definiu - portanto modificou - o real. Se “o real” por si mesmo, apenas “é”, o significado para tudo o que é “nomeado, logo existe”, somos nós quem damos por meio de falas e ações repetidas na esteira do tempo.


Mas quem são esses nós? “Nós” também é uma convenção, e depende de quem está olhando e quem está sendo observada. O “nós” ao qual pertenço e me refiro é aquela coletividade que sabe que enquanto alguém não for livre, ninguém é verdadeiramente livre. Uma coletividade multifacetada, que reconhece as diferenças e as celebra, não como mera festividade, mas como potência criativa contra o homogêneo, a unanimidade e as respostas prontas para tudo. Uma coletividade que representa a maior parte da população, e é, em grande parte, definida pelo poder de quem representa e se identifica com 1%.


Analisar objetivamente o que “narrativas” são, hoje em dia, pode parecer relativismo, ou mesmo um convite a olhar os vários pontos de vista - e até seria, caso esse território não estivesse em disputa. Ah sim, é cada dia mais visível que narrativas são territórios em disputa, tanto que História, Sociologia, Literatura e outras disciplinas acadêmicas consideradas “repositórios da Verdade e da civilização”, tem sido sitiadas por falsários profissionais (poliglotas com diplomas), blindadas por testemunhas do cânone e defendidas por herdeiros dos grupos mais favorecidos. O convite aqui, não é para ouvir os dois lados, em vez disso, podemos refletir sobre porquês.


Mas afinal, o que tudo isso tem a ver com Lovecraft? Como professora de literatura, o que menos me importa é a diretriz do que ler, porque num país onde a média de leitura anual é cinco livros ao ano, dentre os quais, 2,5 são livros inteiros (Agência Brasil, 2020), primeiro precisamos começar a ler, para aí sim, questionar “como” e "o quê”. Debates sobre ler ou não obras de Monteiro Lobato se tornam polêmicas inócuas na internet discutidas, em grande parte, por pessoas que não leem e proclamam o suposto direito de lerem o que… não leem. Isso também é verdadeiro quando defendem toda e qualquer literatura, canal no Youtube ou thread que sustentando por um discurso de ódio (lembrando que os falsários também distorceram o que isso significa). 


Discurso tem a ver com Poder de construir a Verdade que movimenta pessoas em direção a um objetivo, que, em geral, é a manutenção da norma. Assim, norma ou a certeza que se tem sobre a realidade “correta” é uma narrativa erigida por quem colonizou, torturou, extorquiu e deseja manter o legado eternamente vivo. Por isso que, quando damos um passo em direção ao reconhecimento de obras de ficção científica e fantasia produzidas por pessoas racializadas, LGBTQIAP+ e mulheres, sempre vem um efeito backlash: os conservadores querem dar a última palavra, até quando perdem.


N.K. Jemisin, autora da trilogia A Terra Partida

A cerimônia do Hugo Award é um típico espaço narrativo em disputa. E do tipo que faz parecer que lutamos por "nada", senão terreno ficcional, mas sabemos que:


- [...]Todas as coisas são reais. Todos os outros mundos em que os humanos acreditam, sejam por mitos de um povo ou visitas espirituais ou até mesmo imaginação, se ela for fértil o suficiente. Eles existem. Imaginar um mundo torna ele reai, caso ele já não exista. Esse é o grande segredo da existência: ela é supersensível ao pensamento. Decisões, desejos, mentiras, é tudo o que você precisa para criar um universo (JEMISIN, 2021, p. 234) 

Quando a personagem ficcional de Jemisin elabora essa conexão entre a substância narrativa e sua potência criadora do mundo concreto, podemos entender como a analogia descreve sofisticadamente a essência da luta por território na qual nos engajamos. Voltemos.


Criado em 1953 para premiar as melhores obras de ficção científica e fantasia, Hugo Award laureou pela primeira vez uma pessoa negra, na categoria Romance (Novel), em 2016: a notável N.K Jemisin. Jemisin, aliás, foi pioneira ao receber nos anos posteriores a premiação por toda a sua trilogia Terra Partida. Isso não agradou em nada aos fãs conservadores, mas estes tiveram momentos catárticos na cerimônia de 2020, já que a apresentação de George R. R. Martin contou com piadas transfóbicas, pronúncia errada dos nomes de pessoas nomeadas e, por fim, uma fala focada em autores do passado. No ano em que mais pessoas com marcadores sociais de diferença foram nomeadas e laureadas, “o prêmio retcon” ** (uma homenagem para autores que precedem o Hugo) homenageou o escritor H. P. Lovecraft e o editor John W. Campbell (que se negou a publicar contos com protagonismo negro, como atesta o escritor Samuel Delany), duas figuras que contribuíram ativamente para a percepção racista que o grande público tem do que é “o verdadeiro clássico” de horror, fantasia e ficção científica.


Não surpreende que um autor como Martin, conhecido por suas descrições estereotipadas de pessoas racializadas e objetificação feminina, celebre a narrativa que modela o mundo que o privilegia. Assim, a grande questão não é “ler ou não ler” Lovecraft, mas em que medida você está ciente de que te empurraram goela abaixo uma percepção unívoca de mundo? Cada mentira, distorção e equívoco ramifica mais e mais os desafios que “Nós” enfrentamos nesta sociedade pavimentada pela colonização. É por isso que os arautos do 1% vendem uma ideia de futuro que replica a monstruosidade da colonização, racismo, misoginia do passado e tentam parasitar qualquer alternativa presente e se empenham em infectar de futuro. Eles, mais do que ninguém, sabem que  “a arma mais potente nas mãos do opressor é a mente do oprimido” (Steve Biko). É por isso que constroem cercas simbólicas como o cânone. 


É pressuposto que a ficção especulativa seja aquela com potencial alquímico de moldar a substância real, criar alternativas para o futuro e resistir a definições externas. Na prática, entretanto, graças ao sistema literário, a maior parte do tempo estamos sofrendo “ataques artísticos de outra dimensão” (JEMISIN, 2021, p.127) com direito a portais para o passado e viagens só de ida.


Então, o lastro de ódio que artistas como Martin usam para ofender simbolicamente é o cânone, a interpretação histórica e sociológica de quem convém laurear Lovecraft. Como a realidade não é binária e o terror como narrativa literária e social parte do ponto de vista de quem nomeia a monstruosidade, se você prefere esquecer o estereótipo e a ofensa em nome da suposta boa arte, você é parte do problema. Mas, caso você queira se engajar numa percepção mais complexa, recomendo ler urgentemente Nós Somos a Cidade, da N.K Jemisin, que é, sem dúvida, a melhor maneira de ler Lovecraft!



NOTAS

* O título deste texto vem de um diálogo em que R'lyeh questiona se a bibliotecária Aislyn leu Lovecraft (JEMISIN, 2021, p.262)
** O prêmio retcon não existe como categoria, mas homenagear figuras ativamente engajadas numa política excludente não poderia ter outro nome para efeito de crítica. Retcon é um tipo de remendo, uma adequação narrativa para continuidade retroativa. 


REFERÊNCIAS


AGÊNCIA BRASIL. Brasil perde 4,6 milhões de leitores em quatro anos (2020). Disponível em: <agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2020-09/brasil-perde-46-milhoes-de-leitores-em-quatro-anos>. Acesso em 30 set. 2021.

JEMISIN, N. K. Nós somos a cidade. Trad. Helen Pandolfi. Rio de Janeiro: Suma, 2021.


TEXTOS CONSULTADOS


BRUNEY, Gabrielle. George R.R. Martin's Controversy At the Hugo Awards Highlights a Power Struggle in Sci-Fi/Fantasy. Disponivel em: <www.esquire.com/entertainment/books/a33532809/george-rr-martin-hugo-awards-2020-controversy-explained/#>. Acesso em 30 set. 2021.
FEDERICI, Silvia. Mulheres e caça às bruxas: da Idade Média aos dias atuaisTrad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo Editorial, 2019.

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