Review: Mulheres e caça às bruxas: da Idade Média aos dias atuais (Silvia Federici)

Mulheres e caça às bruxas é um livro importante para os nossos tempos sombrios, tanto para calibrarmos nossos olhares, quanto para tomarmos fôlego e enfrentarmos o porvir. Ao longo da obra, Silvia Federici historiciza a caça às bruxas na Europa do século XV e suas consequências no presente, em especial, no sul global, à medida que preenche lacunas do que aprendemos na escola sobre o fim do Medievo e início da Modernidade.

Arte para o #PretaRead por Alessandra Costa




  • Mulheres e caça às bruxas: da Idade Média aos dias atuais
  • Silvia Federici
  • Editora Boitempo
  • 158 p. 
  • 2019


  • Por Anne Caroline Quiangala


    Mulheres e caça às bruxas: da Idade Média aos dias atuais é um título intrigante, sobretudo porque o subtítulo questiona nossas noções sobre a caça às bruxas da europa medieval e lança um holofote sobre a questão: existem bruxas hoje em dia? Quem são elas? O que fazem? Onde habitam? Tudo isso é respondido ao longo da obra, que possui duas partes: Revisitando a acumulação primitiva do capital e a caça às bruxas na Europa e Novas formas de acumulação de capital e a caça às bruxas em nossa época.

    Na primeira parte, Federici contextualiza o surgimento multicausal da caça às bruxas na Inglaterra, conectando o que já sabemos sobre os cercamentos (a privatização de terras comunais) antecederem o capitalismo como conhecemos hoje às novas práticas sociais que causaram o empobrecimento de trabalhadoras e trabalhadores rurais e estimularam o individualismo. 


    Primeiras impressões da obra
    por Alessandra Costa



    A violência que a acumulação de bens significou e provocou à população campesina gerou uma reação contra a elevação tributária, o desfalecimento das relações comunais que se transformavam cada vez mais em relações monetárias e as leis que desencorajavam a caridade. Para conter tais reações, as classes abastadas, não apenas autorizadas, mas estimuladas pelo Estado passaram a desenvolver tecnologias de punição tanto concretas como discursivas a ponto de gerar uma caçada às mulheres despossuídas e idosas sob a acusação de práticas abortivas ou curativas bem como "inveja" e "encantamento de animais".

    Aliás, o gradual fim de relações comunais, associado à escassez de recurso foi fundamental para o florecimento de um antagonismo no interior das comunidades, gerando medo, desconfiança e condição ideal para a cristalização do imaginário da bruxa como inimigo comum. Em geral, autônoma, crítica e ressentida pelas injustiças, essas mulheres passaram de figuras de respeito a estrangeiras, vítimas de toda a sorte de violências no passado e no presente.


    E O QUE TEMOS A VER COM ISSO?


    Na segunda parte, os ensaios de Federici se aproximam historicamente do tempo em que vivemos, provando que a caça às bruxas nunca cessou. A filósofa demonstra que as agências mundiais, como a ONU, juntamente ao Banco Mundial em parceria com governantes dos países em desenvolvimento, são os causadores da escassez que atinge o bem-estar das comunidades e, de forma "invisível" incita a tortura e execussão de mulheres idosas acusadas de bruxaria.

    Live 29: Mulheres e caça às bruxas (Parte 1)
    Anne Caroline Quiangala


    Live 29: Mulheres e caça às bruxas (Parte 2)
    Alessandra Costa


    Mas quem são as bruxas? Se temos uma imagem mental que responde à pergunta, isso só é possível porque a consolidação da aparência da bruxa na Idade Média ter atravessado gerações através de representações nas obras de arte e, mais recenemente, na cultura de massa. A atualização do que é uma bruxa está relacionada ao contato do europeu com novos povos, territórios e territoriedades, mas mantém a lógica do inimigo como o "diferente" que tem um objetivo e visão de mundo que ameaça a sua construção do real hierárquica, individualista e monetária.

    Neste sentido, também os os cercamentos continuam sendo práticas comuns (e os ataques às aldeias indígenas no Brasil comprovam a proximidade), que se atualiza sempre que um grupo cria condições favoráveis pra si que são inacessíveis para uma parcela muito maior sob o risco de punições severas.


    Sketchnote por Anne Caroline Quiangala (@annequiangala

    Já a caça às bruxas é um fenômeno que podemos reconhecer no presente de inúmeras maneiras, sobretudo motivada pelas mídias de massa e consolidada pelos disparos de notícias falsas por meio de aplicativos em dispositivos móveis. A justifica "lógica" do inimigo reiterada pela mídia reverbera no desespero, medo e escassez de uma população cada vez mais lançada à precariedade do trabalho, saúde e educação e que tem no imaginário a malhação simbólica do Judas como algo presente, tudo convergindo para a concretização da caça.  Nas palavras da autora:

    Como caça às bruxas, refiro-me a expedições punitivas por homens jovens que participam de grupos paramiliares ou se denominam perseguidores de bruxas, muitas vezes resultando no assassinato da acusada e no confisco de suas propriedades.
    (FEDERICI, 2019, p. 108)

    A caça às bruxas tem causado uma crescente onda de terror em países como Quênia, Moçambique e República democrática do Congo, criada e alimentada pelo pentecostalismo e sua ênfase no exorcismo e expiação do "pecado". Federici também chama a atenção ao fato de que o continente africano tem sido afetado de uma forma desproporcional pela caça às bruxas (mulheres idosas são expulsas e até mortas pelos descendentes) e sem qualquer tipo de manifestação ou apoio das feministas ocidentais. Ela, por fim, apela para que todas as feministas se unam para denunciar e propor o fim dessas violências. 

    EM SUMA

    Além de nos alertar sobre uma gama de conceitos que a educação escolar restringe à Idade Média, mas são absolutamente presentes, outro ganho da leitura é a lembraça de formas de resistência já usadas e a proposição de soluções, novos modelos que precisamos construir para tanto combater a violência quanto retornar às práticas que fortalecem o coletivo.

    Mulheres e caça às bruxas é uma uma obra fundamental pra biblioteca feminista contemporânea, tanto por se propor ser uma obra de entrada, como pela forma como a autora nos apresenta passado, presente, público e privado num entrelaçamento que só torna o rigor teórico mais atraente. 

    Isso é absolutamente verdade, e eu acredito que a rapidez como alguns temas são tratados é um convite às leitoras  para, ao menos, consultarem algumas obras como O Martelo das feiticeiras, Pode o subalterno falar?  e Memórias da Plantação.  Em suma, a leitura de Mulheres e Caça às bruxas introduz várias questões sobre o passado/presente e ainda instiga a leitora fazer mais perguntas e buscar mais respostas teóricas e práticas.

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