Vidas negras na tela: 5 episódios em que a série Um maluco no pedaço nos fez refletir sobre a questão racial.

Por: Dê Ferreira - @deferreira_s


Contextualizando


Nas últimas semanas, uma onda de protestos tem ganhado repercussão nas mídias nacionaise internacionais. O estopim das manifestações ocorreu após George Floyd, um
afro-americano de 46 anos, ser assassinado por um policial branco em Minneapolis,
Minnesota, nos Estados Unidos. Derek Chauvin, o policial em questão, manteve seu
joelho pressionando o pescoço de Floyd por vários minutos, enquanto Floyd clamava dizendo “não consigo respirar”fui assistir oitnb era oz, a cena foi gravada espalhada nas redes sociais e todo o processo que culminou na morte do sr. Floyd durou aproximadamente 30 minutos. A brutalidade e o abuso de poder por parte da polícia
norte americana, causou e tem causado grande indignação na população. Historicamente,
as ondas de manifestações e protestos contra esse tipo de violência tem se repetido sem
grandes impactos no número de mortes.
Para Warren (1999), os movimentos sociais são ações coletivas reativas que podem acontecer sob várias formas, como: denúncia, protesto, explicitação de conflitos, posições organizadas, cooperação, parcerias para a resolução de problemas sociais, ações de solidariedade. E podem desenvolver simultaneamente a dimensão contestadora, solidarística e propositiva. 

Além das manifestações por parte da sociedade civil, muitos artistas se posicionaram quanto à injustiça e aos recorrentes casos de assassinatos contra a população negra. O ator Will Smith publicou no Twitter: “O racismo não está piorando, ele só está sendo filmado”. No Brasil, Will Smith ficou amplamente conhecido pela série Fresh Prince Of Bel-Air – Um maluco no Pedaço, no qual interpretou o Will, um jovem negro vindo da periferia da Filadélfia para a luxuosa Bel-Air, em LA. A série é marcada pelas aventuras e desventuras de Will, tendo como recortes sociais a questão de raça e classe. Curiosamente, esta série faz parte de um grupo de séries norte americanas com recorte racial, que tem grande aceitação no Brasil.


Um maluco no pedaço, Eu a patroa e as Crianças, Todo mundo odeia o Chris, As visões da Raven e Kenan e Kel são exemplos de sitcoms norte americanas reproduzidas em canal aberto no Brasil e que abordam direta ou indiretamente a questão racial. Tenho como hipótese que a popularidade dessas séries aqui, deve-se a:

  1. A representação e a representatividade.
  2. Identificação de com os personagens e de suas vivências.
  3. A forma bem humorada de lidar com adversidades, característica geral da sociedade brasileira.

Retomando o motivo central da escrita: Sabe-se que a violência policial não é uma particularidade da sociedade norte americana. Apesar das diferenças econômicas, sócio-históricas e culturais, o Brasil e os EUA, possuem dados alarmantes quanto ao racismo institucional. Reiner (2004) afirma que são os processos estruturais que fundamentam a prática discriminatória da polícia, apesar de existir a possibilidade do policial individualmente ter atitudes preconceituosas, é a estrutura, ou seja é um somatório de fatores que compõem a instituição, que endossam a violência policial. Para Junior e Lima (2003)o racismo institucional, pode ser definido como o fracasso coletivo das instituições em promover um serviço profissional e adequado às pessoas por causa da sua cor”.


Ouça o ritmo das ruas, escutem o martelar dos sons”- Raphael do Ghetto



A omissão do Estado, frente ao racismo institucional, a violência de gêneros e tantas outras ações que colocam em risco a manutenção da vida de grupos sociais como a população negra, as mulheres, os povos indígenas e a população LGBTQI+, demanda de nós, sujeitos políticos, um posicionamento: seja movimento ou inércia, enfrentamento ou apatia, resistência ou conformismo, embate ou aceitação.Ciente da relevância do tema, da necessidade de um posicionamento e da popularidade da série Um maluco no pedaço, no Brasil, selecionei 5 episódios da série que nos permitem refletir sobre a questão racial, para que juntos possamos rever nossas ações e posicionamentos frente às atrocidades e a vitimização constante da população negra.


T1- E6: Identidade trocada
Racismo institucional

Este episódio, provavelmente é o que tem maior ligação com o tema que inspirou a escrita do texto. Nele, Will e Carlton são detidos, por suspeita de integrarem uma quadrilha de roubo de carros. Além da ação discriminatória da polícia, é possível observar gatilhos de viés racial na reação de Will quando eles foram parados pelo policial e na chegada de Henry Furth.

T1- E 17: Aula de história
História, História Negra e Lugar de fala

Neste episódio, Will questiona ausência de ícones negros na aula de história, e propõe a atualização e a inclusão da história afro-americana no currículo. É possível observar gatilhos de viés racial, durante a reunião com o conselho escolar, assim como na reação dos colegas de turma de Will e Carlton Banks.

T2- E6: Um noivo muito especial
Relacionamento Inter-racial

Neste episódio Janice, tia de Will está prestes a se casar e todos se surpreendem ao conhecer o noivo momentos antes do casamento. O episódio, fala por sí e traz a tona alguns impasses sobre relacionamentos inter-raciais ou afrocentrados.

T2- E 20: O engajado
Movimento Negro

Neste episódio, a família Banks recebe a visita de uma amiga antiga dos tios de Will, e eles relembram grandes momentos em que juntos lutavam por direitos civis dos negros. Inspirado pela visitante, Will decide iniciar um protesto em sua escola.

T4- E 8: O que conta é o sangue
Negritude e Fraternidade

Neste episódio, Will e Carlton, são calouros e se submetem a atividades para admissão em uma fraternidade, a diferença de tratamento entre os dois traz a tona algumas questões emblemáticas sobre Carlton e seu posicionamento político ao longo da série.


                                                                                    cena da série: T1-E17


São muitos os momentos da série em que a questão racial é apresentada de forma explícita, sem falar na quantidade de vezes em que figuras importantes da história afro-americana são mencionadas. Sem dúvidas, a série causou grandes momentos de reflexão nos espectadores, grande comoção e empatia. O que podemos aprender com programas como este? O que nos tira do local de espectador, ouvinte unilateral e nos coloca como agente ativo e membros daquela narrativa? Will nos lembra que a questão racial se expressa de diferentes formas e é latente, independente de classe social. Will nos lembra, ainda de forma humorada, que resistir é preciso, que a violência e o racismo institucional existe e persiste e que já foi televisionado e/ou filmada, seja por meio de filmes, séries ou atualmente, por Smartfones. A questão central é: estamos fazendo a coisa certa? Questionando, produzindo, nos mobilizando, intervindo? Afinal, mesmo com tantos protestos, manifestações e passeatas a população negra, continua sendo assassinada. Não basta gritar para que nos deixem viver, não basta clamar enquanto nos sufocam, nos arrastam pelas ruas e nos surpreendem com bombas, balas e tiros de fuzil. Numa sociedade que se cala diante da barbárie, de um Estado omisso e ineficiente, nos resta bancar o maluco do pedaço e enfrentar o caos que nos cerca, já dizia Angela Davis, não basta não ser racista é preciso ser antirracista.


DEIXE NOS VIVER, VIDAS NEGRAS IMPORTAM!










Em memória de George Floyd, Ahmaud Arbery, David Nascimento, João Vitor, João Pedro, Claudia Silva Ferreira, Amarildo de Souza, Roberto, Carlos Eduardo, Cleiton, Wilton, Wesley, Marielle Franco, Agatha Félix, Kauê Ribeiro, Kauãn Rosário, Jenifer Gomes  e todas outras vítimas do racismo institucional no Brasil e no mundo.


Referências


JUNIOR, Almir de Oliveira; LIMA, Verônica Couto de Araújo: Boletim de Análise Político- Institucional 4. Segurança Pública e racismo institucional. Rio de Janeiro: IPEA, 2013. Disponível em:
https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/boletim_analise_politico/1301017_boletim_analisepolitico_04.pdf

REINER, R. Desmistificando a polícia: Pesquisa social e prática policia. A política da polícia. São Paulo: EDUSP, 2004. Disponível em:
http://www.ppgsp.propesp.ufpa.br/ARQUIVOS/editais/Edital%202012/TEXTO%201.pdf

WARREN, Ilse Scherer.Cidadania sem fronteiras ações coletivas na era da globalização.. Ed. Hucitec. São Paulo 1999.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-52731882
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52832621
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52857371
https://braziljournal.com/george-floyd-um-brasileiro
https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Fresh_Prince_of_Bel-Air



























 







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