Democracia em Colapso | Silvia Federici, Patricia Hill Collins e Angela Davis


 Por Alessandra Costa


Em outubro de 2019, tive a oportunidade única de participar do Seminário Internacional “Democracia em colapso?” promovido pela editora Boitempo que, na minha interpretação, buscava entender o momento que nós vivíamos naquela época. Por sinal, deste então, o mundo já mudou e MUITO, e agora vemos que se acirrou aquela persistente sensação de que nossos direitos democráticos estavam ameaçados por um governo que flerta e MUITO com o autoritarismo e afins.

A grade de cursos e debates era bem vasta, então escolhi os temas que mais me interessavam e, é claro, não poderia deixar de envolver grandes mulheres. E quero contar pra vocês o que aprendi com elas e como foi essa experiência.


Mulheres e a caça às bruxas

Palestra de Silvia Federici, comentários de Bianca Santana (Mediação de Eliane Dias)


Mulheres e a caça às bruxas. Da esquerda para a direita: Eliane Dias, Silvia Federici e Bianca Santana. Foto: Alessandra Costa


Silvia Federici, escritora e historiadora italiana, conhecida principalmente pela sua obra Calibã e a bruxa, lançava no seminário o seu novo livro, Mulheres e a caça às bruxas e, no debate homônimo, foram discutidas questões sobre quem é mais afetado com a fragilidade da nossa democracia e as formas modernas de perseguição às mulheres, como bruxas.

O primeiro questionamento deixado por Federici foi "O capitalismo já foi democrático?". Responda esta pergunta a si mesmo como eu fiz naquele momento e, com certeza, a resposta imediata é NÃO!
Nosso mundo não é olhado de baixo para cima, uma premissa para colocar a se estabelecer uma democracia e tanto Silvia Federici quanto Bianca Santana trouxeram exemplos desta situação.

Não olhar a base e a minoria da nossa sociedade afeta principalmente a vida das mulheres, principalmente as negras, que veem seus direitos e suas lutas sofrerem constantemente tentativas de invisibilização.

Federici traz ao debate a luta das mães negras pelo direito aos programas de assistência social do governo (welfare). Essa política abrangia principalmente mulheres brancas. Ao reivindicar esse direito, as mães negras questionavam: "quando precisam de soldados, tomam nossos filhos, mas quando pedimos ajuda para criá-los, isso é problema nosso". Como resposta, foram perseguidas tal como bruxas, carregando a culpa de serem consideradas parasitas do trabalhadores.

Esse debate também abriu meus olhos para uma outra visão do trabalho doméstico. Somos lembrados o tempo todo de que o trabalho doméstico é inferior. Até mesmo o feminismo, ao tentar combater a ideia de que a mulher não está limitada aos serviços do lar, não questiona o papel social do trabalho doméstico, que é fundamental para manter o sistema que vivemos, pois ele propicia que aquele que sai para trabalhar tenha alguém que cuide do seu asseio, organização e alimentação para que este trabalhador esteja em boas condições para executar sua função. Esse tema é melhor explorado no próprio livro Mulheres e a caça às bruxas, que por sinal foi um dos livros lidos no nosso #PretaRead que recomendo a leitura, nossas discussões e a nossa nossa resenha sobre a obra.

Bianca Santana, escritora e jornalista paulista, conhecida pela obra Quando me descobri negra, aprofundou as questões negras e mais atuais ao comentar as falas de Federici, através do reforço da discussão sobre a busca incessante pelo controle dos corpos negros, seja pela da esterilização das mulheres negras, seja criminalizando mulheres grávidas por supostas atitudes irresponsáveis com sua gravidez, seja criando criando políticas como o Pacote Moro que intensificam o encarceramento em massa de uma população carcerária composta por 67% de negros, segundo dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias em 2014, compilados por Nexo Jornal.

Trazendo ao debate o nome de mulheres como Selma Dealdina, Mariana Belmonte, Vilma Reis, Preta Ferreira, entre outras, o legado de Marielle Franco e nome de grupos como a Coalisão Negra de Direitos e o CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), Bianca reforçou a resistência e luta dessas mulheres e grupos para reivindicar direitos e combater injustiças e finalizou com uma frase que me impactou muito: "Estamos despertas, estamos em movimento e não passarão".

Me lembrando que é preciso resistir às perseguições, que infelizmente não ficaram no passado, nas fogueiras onde mulheres inocentes pereceram. Essas fogueiras se modernizam, mas precisamos estar atentas e saber quais são nossas fogueiras atuais e combatê-las, para juntas conquistarmos uma democracia pelo povo e para o povo.


Feminismo Negro e a política do empoderamento

Palestra de Patricia Hill Collins, comentários de Raquel Barreto. (Mediação de Winnie Bueno)

 

Feminismo Negro e a política do empoderamento. Da esquerda para a direita:
Winnie Bueno, Patricia Hill Collins e Raquel Barreto. Foto: Alessandra Costa.

Patricial Hill Collins, professora estadunidense emérita da Universidade de Maryland, lançava seu livro Pensamento Feminista Negro no seminário. Uma obra de 1990 que chegou ao Brasil apenas ano passado. Só este fato já demonstra o desinteresse em publicar obras consagradas de mulheres negras aqui em nosso país, vide por exemplo, A Parabóla do Semeador da Octavia E. Butler, publicado originalmente em 1993 e que só chegou ao Brasil em 2018. Este, inclusive é o livro mais recente do nosso projeto #PretaRead.



Patricia reforça que o feminismo negro tem o propósito de trazer a público as experiências vividas, históricas e materiais da mulher negra, logo o feminismo negro não é uma versão negra de algo, nem um feminismo exótico, ele é próprio.


Feminismo negro definido, passamos a profundar sobre o tema no debate. Collins fala sobre a nossa relação com a catividade, que foi exercida pela escravidão e que é exercida também pelo encarceramento em massa e a relação marido-mulher. Situações em que os nossos "carcereiros" utilizam-se de sua impunidade para exercer em nós, através da violência, o medo de morrer e assim, nos controlar. Portanto, nosso desafio é encontrar formas de viver ao redor desse cativeiro, acreditar que não estamos limitados a esse cativeiro. E é assim que surge a política de esperança.



A esperança das mães negras, para Patricia, é o que formou a base do feminismo negro. Criar uma criança, no mundo que vivemos e sempre lembrá-la que apesar de como o mundo a vê, ela é importante e linda como é, é ter esperança. E essa esperança que o feminismo negro herda e carrega em suas lutas, a esperança de transformação da realidade.


As mulheres negras também foram as primeiras a entender a relevância da interseccionalidade. O recorte de raça não era suficiente para falar de suas vivências, logo a questão de gênero precisou ser pautada, assim como de classe. Portanto, a mulher negra não se desvencilha da interseccionalidade, isso abre caminho para que o feminismo negro seja cada vez mais inclusivo, pois está em sua essência.

Raquel Barreto, historiadora e pesquisadora carioca, conhecida pela sua pesquisa sobre o Partido dos Panteras Negras e especialista nas produções de Angela Davis e Lélia Gonzalez, trouxe ao debate a importância de termos um reflexão mais crítica da teoria afro-americana. Não ver apenas com admiração, mas de forma crítica e comparativa com nossa experiência nacional e principalmente consultando nossas intelectuais como a própria Lélia Gonzalez.

Raquel Barreto. Foto: Alessandra Costa


Barreto reforçou que as últimas grandes conquistas de políticas afirmativas para os negros não foram ações de um governo, mas do movimento negro. Eu, por exemplo, ao ouvir essa fala da Raquel me lembrei da minha própria trajetória de vida. Eu consegui desfrutar dessas políticas, entrei na universidade através das cotas raciais e do ProUni, mostrando que essas conquistas já contribuem com a mudança das estruturas estabelecidas através das gerações.

Ao trazer para o debate, figuras importantes do movimento negro nacional e que geralmente são esquecidas, Raquel fala sobre Maria Lurdes Vale do Nascimento, que escrevia uma coluna no Jornal Quilombo nos anos 40 e que, por exemplo, defendia já naquela época a regulamentação do trabalho doméstico. Ela visualizava que o trabalho doméstico ainda mantinha as relações da escravidão.

Essa relação ficou ainda mais escancarada quando em 2013 foi implementada a PEC das empregadas domésticas, onde foram garantidos direitos mínimos dessas trabalhadoras, como carteira assinada e salário mínimo, mas as reações negativas a essa emenda constitucional revelaram o quanto nossa sociedade vê o trabalho doméstico com inferioridade, apesar de essencial para o sistema como expõe Federici e do quanto essas mulheres, que em 2015 correspondia a 65% de mulheres negras segundo o IPEA, não eram vistas como trabalhadoras. Esse episódio me marcou com a capa da revista Veja sobre o assunto, ela aterrorizava seus leitores, que em sua maioria são os padrões dessas empregadas, de que eles que teriam que fazer o trabalho doméstico, ou seja, não levavam em conta os direitos trabalhistas dessas mulheres.


revista veja | Tumblr
Capa Veja - abril/2013

Raquel lembra que nossa democracia é a "democracia dos desiguais" e que o feminismo negro para além de interessar as mulheres negras poderia trazer propostas para projetos mais democráticos e plurais.

Esse debate me mostrou a importância do legado e da esperança. A esperança move as nossas lutas. Não faríamos nada sobre nosso presente se não confíassemos de alguma forma que podemos estar melhores e é graças a essa esperança dos nossos antepassados que estamos aqui hoje e é a nossa esperança que traçará o rumo daqueles que virão. Então, sinto que preciso contribuir de alguma forma para criar esse caminho para as futuras gerações, pois isso é respeito ao meu passado e responsabilidade com o meu futuro.

Assista o debate na íntegra:




A liberdade é uma luta constante

Conferência de Angela Davis. Mediação de Adriana Ferreira da Silva (Marie Claire Brasil)

Angela Davis, professora e filósofa estadunidense, referência na luta pelos direitos civis esteve pela primeira vez em São Paulo para falar sobre sua trajetória, suas perspectivas para a luta das mulheres negras e sua compreensão da nossa democracia.


Eu e uma plateia lotada, estávamos agitados e ansiosos para encontrar, em carne e osso, essa grande figura da nossa história.


Público aguardando a chegada de Angela Davis ao auditório. Foto: Alessandra Costa


Davis, começa falando sobre a esperança que depositava no Brasil como um país que pudesse despontar como um redefinidor da democracia, através da ascensão dos governos petistas, mas que o resgate atual do militarismo e saudosismo a ditadura nos impediu de alcançar a democracia de fato, pois ela não reside no passado.

Ela estabelece também uma relação entre a escravidão e o cárcere: "Nós sabemos que somos livres porque não somos escravos. Nós sabemos que somos livres porque não estamos em cárcere." e diz que o aprisionamento é uma ferramenta no modelo atual de democracia que possuímos hoje, onde pequenos delitos já retiram liberdades.

Relembrando que os Estados Unidos seria a primeira democracia moderna, Angela diz que não se identifica com a "identidade americana", porque as relações igualitárias nos EUA não existem.

Ela se dirige a plateia e pergunta "Por que vocês precisam buscar referências fora, nos EUA?". E cita a importância de Lélia Gonzalez, a liderança das mulheres no candomblé e diz que o trabalho doméstico no Brasil é muito mais organizado, reforçando que nós precisamos conhecer nossas próprias referências, porque até mesmo ela considera que tem muito a aprender com nossa vivência.

As vitórias individuais não são suficientes, nos lembrou Davis ao dizer que incorporar mulheres em posição de poder e principalmente em instituições responsáveis por manter nosso status quo, responsáveis pela violência do estado não resolvem nossos problemas. É necessária uma transformação radical, socialista.

E novamente falando sobre reflexão crítica, ela relembra que nos governos Lula e Dilma, o encarceramento feminino cresceu 700%, então é preciso ter consciência dos ganhos e perdas que tivemos em um governo que para muitos é considerado o mais próximo de democrático que já tivemos.

Davis termina falando sobre a importância da raiva para impulsionar a luta. Não somos incentivadas a demonstrar raiva, mas sim ser mansos e, consequentemente, passivos ao que nos acontece. Então, devemos nos perguntar: "O que há de errado em ser uma preta raivosa?"

Angela Davis. Foto: Alessandra Costa
 
Ainda carregada do discurso sobre legado, senti o peso de ouvir e presenciar Angela Davis e não deixar tudo que ouvi e compreendi apenas dentro de mim. Precisava dizer que aprendi com ela, naquela tarde, que precisamos refletir sempre sobre nossa liberdade. Se temos liberdade, se nossa liberdade tira a liberdade de outras pessoas, se quem nos diz que busca nossa liberdade verdadeiramente contribui para ela e transforma a sociedade.

Assista o debate na íntegra:


 

Minhas percepções do Seminário "Democracia em Colapso"


A realização do seminário foi uma ótima reação ao momento que vivíamos, de incertezas e inseguranças sobre a estabilidade da nossa ainda imperfeita democracia, por conta da chegada ao poder de um grupo de extrema direita. Esse sentimento que estava em todos nós, mas que por ainda estarmos de certa forma sentindo a "derrota", não tínhamos nos reunido ainda para discutir sobre, propor possibilidades de se viver nessa nova realidade.

Essa discussão deveria chegar a todos os ouvidos, deveria atingir a massa. Não só aos acadêmicos, aos militantes, mas principalmente a quem se tanto se defendeu nesses debates: a discussão deveria chegar à base. Acredito que muitas pessoas que eram ouvintes naquele auditório, junto comigo, já conheciam os conceitos e reforçaram o que acreditam. Eu mesma senti falta de ter mais base para entender melhor os conceitos e até mesmo entender melhor o inglês para não ficar tão dependente da tradução simultânea, pois apesar de ser muito boa, ela causava um delay. Por exemplo, enquanto quem entendia inglês, ria de alguns momentos de descontração, eu ainda estava tentando entender do que se tratava.

Acho que a informação deve se transformar em conhecimento e o conhecimento em ações, mas se ele se limitar às quatro paredes de um auditório em uma zona nobre de São Paulo é em vão. Eu espero que todos tenham levado o que aprenderam para mais longe, foi o que tentei fazer aqui agora, espero ter conseguido e agora preciso correr atrás de conhecer todas as referências que me foram apresentadas e me fizeram brilhar os olhos.


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