[Burning Bujo #2] Seja criativa: escreva uma carta de fã


Por Anne Caroline Quiangala

Um dos livros mais impactantes que eu li ano passado foi Roube como um artista: 10 dicas sobre criatividade, de Austin Kleon. Sim, um best-seller sobre criatividade e aperfeiçoamento pessoal. Sim, é autoajuda. Embora muita gente bem-instruída possa argumentar que é um compêndio de clichês, basta perguntarmos quantas das obviedades ali, o crítico ou a crítica coloca em prática diariamente. Isso acontece porque gente bem-instruída, raramente é estimulada a equilibrar dualidades como razão/emoção, mente/corpo e eu/outro, mas nosso caminho aqui é bem diferente.

UMA GRATIDÃO CLEPTOMANÍACA


Com muito humor, Austin Kleon escreveu um livro inteiro sobre criatividade ancorado na tese não tão nova de que "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", ou seja, não existe originalidade. Ao levantar a bandeira de que artistas são "cleptomaníacos" de ideias e DJs (não porque todo mundo é DJ, mas) porque roubar ideias é uma prática que leva a um fim (a mixagem), o autor reserva toda uma seção para a proposta "Escreva cartas de fã", afinal:

"O importante é mostrar sua admiração"
Austin Kleon


No capítulo 8, Kleon já espera que estejamos despidas da resistência inicial, buscas por aprovação, e que não vejamos problemas em "parecermos ridículas", ou mesmo de temermos uma rejeição, recusa ou resposta. Para mim, a ideia de mostrar publicamente a admiração foi me permitir retomar uma daquelas características "esquecidas" em virtude das adversidades enfrentadas no ambiente acadêmico, no caso, a minha capacidade de expressar a admiração pelo trabalho das pessoas. Esse capítulo me fez lembrar que sempre fui colecionadora de autógrafos, sempre prestigiei livros, álbuns e peças de teatro produzidas não apenas por "famosos", como das pessoas próximas que eu admirava com uma verdadeira paixão. Em algum momento, eu percebi que ser apaixonada pelas ideias das pessoas fazia com que elas sentissem um poder de tamanho equívoco, que não havia como explicar que era sobre "ideias" não sobre seu ego, sua "subjetividade".

Além disso, quando caloura, eu sempre abordava as pessoas a partir duma conversa ou dúvida sobre seus artigos que eu havia lido, fossem professores ou colegas. As reações, ora expressavam surpresa, ora beiravam o pavor, afinal, nós mudamos de ideia e a vulnerabilidade de sermos criticadas pelo que já fomos é automática. Com isso, eu mantive o hábito de recolher referências, usar artigos como diálogo com as ideias e focar no estudo e refinamento da compreensão do que eu consumia com tanto amor: música, literatura, quadrinhos. Apesar da atrofia na comunicação, eu sabia, no fundo, que "nós somos talhados e moldados por aquilo que amamos".

Se nós somos resultado do cruzamento de referências, nada mais justo do que creditar a importância publicamente, sobretudo pessoas que não são reconhecidas como achamos que deveriam ou divulgar as ideias e obras que acreditamos que deveriam ser apreciados por mais gente. Precisamos lembrar que a internet não é só terra de ódio, e mais, precisamos nos apropriar da internet para compartilhar o que conhecemos de melhor, o que nos enche o coração e a alma, o que nos inspira. Precisamos reconhecer, celebrar a realização e elogiar mais às pessoas, sobretudo, Negras. Precisamos nos tietar, nos conectar de forma profunda, nos vermos umas nas outras sem barreiras de "validação" ou da "reação". Eu aprendi essa importante lição com a inspiradora youtuber Adriana Arcebispo do canal Família Quilombo (@familiaquilombo).

ESCREVENDO A MINHA CARTA


Quando eu terminei a leitura de Roube como um artista, eu imediatamente busquei o Roube como um artista: o Diário, que nada mais é que uma extensão que funciona como caderno de anotações com atividades e prompts retirados daquelas 10 lições. Quando eu me deparei com o prompt "Escreva uma típica carta de fã", imediatamente a enxurrada de referências veio e fui levada a confrontar a minha maior barreira que é a de parecer puxa-saco ou qualquer outra coisa que eu não sou. Então, escrevi uma carta para a CEO da Cortes Acessoria e Agenciamento, a Egnalda Cortes:

Brasília, 30 de novembro de 2018.
Prezada Egnalda,
Qual é a fonte da inexplicável coragem dessa mulher?" é um questionamento de Angela Davis (2017) ao observar a trajetória pessoal e política de Winnie Mandela. É a indagação que todas nós fazemos quando observamos nossas iguais atravessando marés de violência para além do nosso vocabulário, das imagens conhecidas e mantendo sua essência. As "pessoas da moda" classificariam como resiliência, desejo, força, mas eu dispenso a reflexão por aquele caminho. De certa forma, o absurdo da violência todas nós atravessamos diariamente neste mundo, possivelmente há certa limitação na forma como encaramos nossa jornada. A violência torna-se transparente, dissolvida no mar que atravessamos, em múltiplos níveis do físico e dos corpos mentais. Apesar do que a racionalidade compreende, a violência é sempre concreta. Esta imagem, a população negra tem aos montes ao longo dos séculos, mas felizmente vivemos num mundo em que faróis e faíscas ocupam lugares impensáveis 3, 6 ou 9 anos atrás, questionando, redefinindo e descolonizando os nossos selfies (KILOMBA, 2010). É neste ponto que voltamos: qual é a fonte de ialodês implacáveis, incansáveis na luta contra as injustiças, com a sua espada empunhada por um lado, e a sua profunda compreensão, responsabilização e afeto por si mesma, como indivíduo e como coletividade? (WERNECK, 2005). Aos poucos, o que parecia turvo assume sua forma e, à medida que pessoas como nós alcançam o topo, podemos celebrar e nos espelhar; podemos sentir em nosso interior a transformação, a beleza, o desejo, a vontade, ubuntu - tudo se movimentando dentro de nós.
Fã que eu sou da [ideia de] engenharia reversa, comecei a segui-la, Egnalda Cortes, seu cotidiano profissional em sintonia com a sua educação profissional, familiar, militante enfim. Num primeiro momento, o que mais me chamou a atenção foi o olhar de Nataly [Neri] e Gabi [Oliveira] grato e afetuoso, que demonstrou muito mais do que declarações ou qualquer stories que possamos assistir [acho que o afeto por nós diz mais sobre a gente do que nossa persona é capaz de expressar]. A ideia de "erguemo-nos enquanto subimos" (Davis, 2017) é a chave do desenvolvimento coletivo da população negra, a capacidade de inspirar umas às outras em nível de imagens, ideias, e afetos; a capacidade de nos re-conectar para além de todas as perversidades sistêmicas. Apesar de não ser fã do termo "humanizar" [devido ao veganismo], aprender com a Grada Kilomba que a função de pessoas negras é buscar a sensibilidade e a essência de cada uma de nós, e que isso é o exercício diário de combater âncoras [foi revolucionário]. Somente quando sentimos uma real conexão com nossos iguais, somos capazes de reconhecermos a "maravilhosidade" umas das outras, e nesses 28 anos [agora 29], tenho aprendido que mulheres negras inspiradoras, do real ou da ficção, cortam as corridas das âncoras. Quando amigas Negras sentem que "seu sucesso é meu sucesso" (aprendemos isso em Star Trek: Discovery) damos um salto enorme, porque" erguemo-nos enquanto subimos" (DAVIS, 2017).
Esse sentimento, esse efeito é o que a sua imagem transmite pra mim, Egnalda. Receber seu feedback positivo pôs fim àquelas dúvidas traiçoeiras e substituiu pela expressão "estou no rumo certo". E, e para além disso, a generosidade, confiança e compartilhamento apontam [a bússola que direciona] o meu barco para o norte, não como ídolo - imagem esvaziada -, mas como Horizonte, uma expectativa em "tornar-se" por meio da dedicação, do amor pelo que faz, disciplina, fortaleza, fragilidade e, acima de tudo, à disposição de conectar-se com as pessoas sem perder-se de si mesma. Obrigada [pela inspiração e] pelo conhecimento!

E AGORA?


A compreensão racional de que não precisamos agradar às pessoas é mais fácil do que ousamos praticar. Evidentemente não estou dizendo que precisamos ser rudes, mas que é necessária certa audácia para protagonizarmos nossas vidas. Acredito que isso é mais verdade ainda pra quem é da geração millenium, porque somos acorrentadas pela expectativa de autonomia, conhecimento, informação e conforto na mesma medida que falhamos em nos comunicarmos. Somando a isso os efeitos do racismo, que inibem a capacidade de expressar, comunicar e a disposição para conectar, só tenho uma coisa pra dizer a você que leu até aqui: escreva uma carta de fã e depois me conta sobre quão libertador foi contar para o mundo o que você sente!

Até o mês que vem :) 


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OBRAS CONSULTADAS


CARROLL, Ryder. O método Bullet Journal.  São Paulo: Fontanar, 2018.
DAVIS, Angela. Mulheres, Cultura e Política. São Paulo: Boitempo Editorial, 2017 [1989]
KILOMBA, Grada.  Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. Münster: Unrast Verlag, 2. Edição, 2010.
KLEON, Austin. Roube como um artista: 10 dicas sobre criatividade. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
______. Roube como um artista: Diário - um caderno de anotações para cleptomaníacos. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.
WERNECK, Jurema. De Ialodês e Feministas. Artigo publicado na Nouvelles Questions Féministes – Revue Internationale Francophone, vol. 24, n. 2, 2005. Disponível em: <mulheresrebeldes.blogspot.com/2008/10/de-ialods-e-feministas.html>

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