Jogador Nº 1 - gamer é gamer em qualquer lugar

Tye Sheridan é o protagonista Parzival de Jogador Nº1


Por Anne Caroline Quiangala

O FILME


O filme Jogador Número Um (Ready Player One) é baseado no best seller homônimo de Ernest Cline, que foi publicado em 2011. Cline, inclusive, participou da confecção do roteiro para garantir que a liberdade na adaptação da trama pudesse também agradar aos fâs do romance. Segundo o diretor Steven Spielberg, dialogar com Cline foi imprescindível para a criação deste universo fílmico e, por sua vez, o escritor afirmou que, sem ter assistido aos clássicos assinados por Spielberg, não teria escrito Jogador Nº1.

Ambientado em 2045, Jogador Número Um descreve o mundo após incontáveis colapsos, em que "em vez de procurar soluções para os problemas, todos resolveram aprender a sobreviver". A rotina na pequena porção territorial que acompanhamos, numa periferia de Ohio, contextualiza uma crise profunda que inclui a falência das relações entre os seres humanos e a natureza e uma sobrevida, alinhavada pelo total esvaziamento das utopias e sentimentos "humanos". 

Neste mundo em que o capitalismo venceu, as pessoas encontraram refúgio no OASIS, um amplo universo de realidade virtual criado pelo genial e excêntrico James Halliday (Mark Rylance), que era nada menos que um nerd clássico oitentista. Quando Halliday morreu, ele deixou sua fortuna para a primeira pessoa que, após desvendar suas três dicas, encontrasse um easter egg escondido em algum lugar do OASIS. Esse desafio deu origem a uma competição mundial, na qual o mundo concreto e o virtual, por vezes se chocaram. Quando um jovem adulto chamado Wade Watts (Tye Sheridan) decidiu participar da competição, encontrou um sentido justo e nobre que sentia faltar na sua própria vida, afinal, a virtualidade permitia que fosse quem quisesse ser e lá não havia limites intransponíveis. O antagonista, por sua vez, é o ambicioso Sorrento (Ben Mendelsohn), um homem descontextualizado, egoísta e tão centrado no objetivo de preencher seu vazio interior com benefícios materiais, que ouve de Wade: "um geek sabe reconhecer um hater".


Sorrento é o vilão que representa uma vontade de poder pelo poder. Todas as suas falas mostram o total esvaziamento afetivo além de criatividade e sexualidade atrofiadas.

NOSTALGIA E O BAITA EASTER EGG


Jogador Nº1 é uma distopia que tem seu ponto de ancoragem na década de 1980. Isto é reiterado pela estética, estilo de narrativa e abordagem, tornando-se metalinguístico, inclusive ao injetar um sumo da produção mainstream daquela época com referências que até nós (que não vivemos aqueles tempos) somos capazes de compreender. A recorrente sensação de flashback constrói uma convincente ideia dos anos oitenta como uma época de ouro da criatividade em todos os campos do conhecimento, do entretenimento e da arte em oposição ao 2045 infecundo, insalubre e esvaziado de esperança. Doses de referências saltam aos olhos e ouvidos a todo momento, seja pela caracterização, riff ou por meio de uma piada. É particularmente prazeroso notar que, a despeito de ser narrado do ponto de vista dum geek daquele tipo enciclopédico, o filme não se reduz ao nerdsplaining, ao contrário: toda explicação é usada para conduzir o maior número de pessoas pela jornada, tenham elas jogado clássicos do Atari ou não.

Neste filme, a cultura pop é apresentada a nós a partir do olhar do protagonista Wade Watts naquele tom de "saudade do passado" semelhante ao da poesia romântica do século XIX, e, como ela, questiona o propósito da vida num mundo arrasado e sem perspectivas. Se para um jovem Alvares de Azevedo a Idade Média era um passado glorioso, para o jogador Watts os anos oitenta oferece uma fuga da privação material e da miséria emocional que sente por ser órfão. 

Tal como o romântico e o emo dos anos 2000, o gamer que sente necessidade de fugir do real tem uma fragilidade emocional tão grande que, apenas no OASIS suas fantasias de heroísmo, abnegação e lealdade arturiana se encaixam. A aventura contra uma visão de mundo esmagadora, que detém os recursos, mas não a nobreza de caráter, por meio de clichês narrativos que tanto adoramos, evidencia que "não importa de onde você vem, mas o que você faz" e nos ensina um tanto sobre mérito, atualizando aquelas crises burguesas finisseculares. Como professora de literatura, vejo nesta trama uma adorável atualização da "sofrência" romântica para o mundo da desumanização, dos ciborgues e duma mercantilização radical da vida que inspira reflexões a respeito do sistema capitalista, comódite e a centralidade do amor romântico na nossa cultura.

Tye Sheridan e Lena Waithe

REPRESENTAÇÃO


A primeira sequência de Jogador Número Um é a dinâmica passagem de Wade, desde a casa de sua tia Alice, no topo dos contêineres empilhados até o nível a rua. Nesta passagem, não há falas, apenas a introdução de um dos clássicos do Van Halen (Jump) e uma contextualização daquele lugar precário do qual toda aquela gente almeja ansiosamente fugir. É interessante observar que os sobreviventes são pessoas de todas as idades, gêneros e plasticidades e, todas elas preenchem suas vidas na virtualidade, saltando do "real" para o OASIS com aquela mesma naturalidade com a qual navegamos atualmente pelas redes sociais, fóruns ou jogos online. Os avatares são moldados a partir do que os usuários desejarem, possibilitando reinscrever novas performances nos corpos sem backgrounds, tanto para quem aspira por liberdade quanto para quem possui recursos para silencia-la.

O protagonista, Wade, representa o nerd clássico que tem dificuldade para articular ideias e se relacionar, sobretudo com a garota que é alvo de seu interesse afetivo-sexual. Isso é explicado pela sua falta de conexões afetivas desde a morte de seus pais, mas delineia um modelo de nerd que conhecemos dos diversos filmes dos anos oitenta. Lá no início, em sua própria casa, ele é confrontado por uma masculinidade territorialista e usurpadora, que não pode ser combatida no "real" e passa então a ser simbolicamente confrontada quando sua raiva é direcionada ao Sarmento. Sem dúvidas, nada justifica todo o abuso que sofreu ao longo da vida, de todos os namorados da tia, mas Wade escuta a lira de seus vinte anos agindo como um adolescente que tem muito tempo livre, "um teto todo seu" e condições para se dedicar exclusivamente ao jogo. Apesar disso ser o a identidade de onde ele partiu, no fim da jornada, Wade consegue absorver conhecimento e experiência e se transformar positivamente.

O que é determinante para que ocorra a transformação é a presença de adjuvantes que pensam e agem de forma diferente da dele. Juntos, eles são os Cinco do topo: Perzival, Aech (Lena Waithe), Art3mis (Olivia Cooke), Sho (Philip Zhao) e Daito (Win Morisaki). Se, por um lado, essa equipe multiétnica, com pessoas de diferentes idades, sexos e gêneros traz o significado de que "a união faz a força", por outro, a rebelião personificada por Art3mis acaba reforçando uma correlação de senso comum: mulheres, natureza e utopia como naturalização. Há diversas razões para ela lutar contra o sistema, entretanto, ser uma mulher que atualiza os papeis de gênero inclusive por ser par do herói, lança sua habilidade ao segundo plano, junto com a problemática da aparência. Aliás, quando ela afirma que Wade não gostará dela e descobrimos que se trata dum trauma em relação à cicatriz, temos um subtexto sobre a uma possível benevolência do protagonista se apaixonar por "um espécime defeituoso" e toda aquela fantasia que vai do fetiche pelo "grotesco" ao colecionismo (marca confere raridade). A obrigação de "ser bonita" poderia ser uma discussão, mas é apenas um tema chancelado pelo herói sem delongas.

A equipe de Sarmento é plural porque funciona como uma forma de preencher a falta de criatividade, intuição e conhecimento, entretanto, a estrutura convencional permanece igual à atual.

Interessante também que a colonialidade do poder é apresentada, não de forma intencional, em ambos os lados da força. Na equipe de pesquisadores de Sarmento, uma mulher desvenda a última dica e é silenciada, desqualificada e, por fim, um nerd que é investido de poder sentencia o que ela diz como inútil; já no grupo de Parzival, a segunda dica é desvendada por Art3mis, mas é o garoto quem leva o crédito; esse panorama é uma alusão ao que qualquer garota nerd e geek vivencia, caso se proponha a estar em ambientes como lojas de quadrinhos, jogos de tabuleiro e partidas online. Ser habilidosa é um dado que é ignorado com frequência pelos oponentes, caso você esteja ganhando no placar. Sem dúvidas, descrever isso pode levar os rapazes a se conectarem com a trama, mas não faz uso positivo do espaço para promover uma mensagem diferente do convencional.

Por fim, a racialidade é representada com um considerável acerto, porque as personagens tem relativo desenvolvimento, nomes e um senso de humor espetacular. Entretanto, mostrar estereótipos, por menor que seja o tempo em tela, é pra mim o ponto mais fraco do filme. O asiático que aguarda em silêncio a hora de entrar e virar a sorte da batalha pode ter infinitas explicações até ancoradas no real, mas é preciso criar novas imagens, a exemplo da personagem Aech, uma mulher Negra, que não entra nos moldes convencionais "você não esperava por isso". Foi frustrante observar que o avatar de Aech era carregado de marcas estereotipadas de raça, como a dos desenhos animados, e que isso se confirma quando descobrimos a sua contraparte "real", interpretada por Lena Waithe; Ela é, sem dúvidas, uma atriz adorável, mas somam-se na sua personagem estereótipos na fala, no tipo de humor e na função, ao passo que a performance dela como ela mesma ou a Lena de Master of None  me faz pensar: quando haverá espaço no mainstream para ela ir além da mesma performance, senso de humor e figurino?

Eu cresci nos anos noventa, quando o thrash metal resolveu se adequar ao mercado dominado pelo grunge, e Killer instinct era chamado de "aquele jogo da fita preta", mas isso não significa que não seja divertido assistir Jogador Nº1, pelo contrário. 

Assim como Stranger Things, Geeks and freaks e Everything Sucks, a alta concentração de mainstream possibilita a quase qualquer pessoa entender e se conectar, mesmo quem não sente nostalgia do que não viveu. É claro que, no caso de um filme do Spielberg, os efeitos visuais seduzem, tanto quanto a atenção às personagens queridas que saltam aos olhos; além disso, uma narrativa simples, divertida e que fale sobre amor e amizade, por mais clichê que seja, precisa muito ser vista!


FICHA TÉCNICA

  • Direção: Steven Spielberg
  • Roteiro: Zak Penn e Ernest ClineElenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, Lena Waithe , T.J. Miller, Philip Zhao, Win Morisaki, Hannah John-Kamen, com Simon Pegg e Mark Rylance.
  • Produção: Amblin e De Line Pictures
  • Distribuição: Warner Bros. Pictures

Um comentário:

  1. Fiquei abismado quando soube do apagamento de negros na cultura pop retratada no filme. Como não falar de anos 80 sem trazer MJ? http://www.okayplayer.com/originals/ready-player-one-black-culture-erasure-harmful-opinion.html

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