domingo, 28 de maio de 2017

E se "Hotline Bling" fosse um hit LGBT?


O dia 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Nessa mesma data, em 1969, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e drag queens se uniram contra as batidas policiais que ocorriam com frequência no bar Stonewall-Inn, em Nova York. O episódio marcou a história do movimento LGBT, que continua lutando por direitos e visibilidade. Em homenagem à data, durante o mês de junho, portais nerds feministas se juntaram em uma ação coletiva para discutir de temas pertinentes à data e à cultura pop, trazendo análises, resenhas, entrevistas e críticas que tragam novas e instigantes reflexões e visões. São eles: Collant Sem DecoteDelirium Nerd, IdeiasemRoxo, Momentum SagaNó de Oito, Preta, Nerd & Burning Hell, Prosa Livre Valkirias#wecannerdit #nerdiandade #nerdgirl#feminismonerd #8demarço


Acredito que orgulho LGBT+ é consequência da desnaturalização do senso comum de que os órgãos sexuais definem o indivíduo. E se libertar da ideia de que só é indivíduo quem se condiciona ao pensamento de que sexo define como se portar, quem e como amar, o que vestir e como sentar: tudo. Orgulho LGBT+ é tornar-se, dizer-se e identificar-se como Lésbica, Gay, Bissexual, Travesti, Trans e outras diversas identidades de gênero, orientações sexuais e morfologias que - pasme - fogem do esquema vagina/pênis juntos. Neste sentido, o pensamento de Judith Butler é bastante relevante, porque mostra que gênero não é o mesmo que sexo biológico: gênero é resultado de sexo biológico, performance, orientação sexual e desejo. O resultado dessa multiplicação gera uma infinidade de respostas entre os pólos Mulher e Homem (que são diferentes de macho e fêmea).

Se adicionarmos a isso a racialidade, fica mais evidente o quanto gênero é uma construção. Se por um lado, muitas das conquistas territoriais empreendidas na modernidade foram justificadas pela necessidade de louvar e adornar as mulheres brancas, por outro, as negras não foram poupadas do trabalho, da violência e jamais foram consideradas frágeis como disse Sojouner Truth em "E não sou uma mulher?". Se lembrarmos da belíssima atualização do texto feita por Larvene Cox, seremos impelidas a pensar sobre o fato de vagina e útero "natos" não definem se você é, deseja ser ou se identifica como mulher. O texto de Cox também chama a atenção para o fato de que eu, como uma mulher cis, devo pensar constantemente no que isso significa, que facilidades e confortos isso me possibilita.

No sentido estrito, a performance de gênero de mulheres negras não corresponde ao modelo "idealizado" porque o trabalho, a vida pública e a autossuficiência rompem o pacto de encaixe macho/fêmea. Segundo Monique Wittig, tampouco a lésbica é mulher porque sua orientação sexual em si expressa o rompimento do sistema sexo-gênero. Neste sentido, só pode ser "frágil, delicada, sensível, meiga, donzela em perigo" o sujeito que habita um corpo branco e fêmea cis educado (sujeitado a) para ser mulher, uma sombra incompleta dum Adão. Assim, o lugar da mulher negra na discussão de gênero é delicada e comumente ignorada. Por essa razão, não é raro que ou negras reforcem os estereótipos de gênero feminino, para serem reconhecidas e mais próximas da idealização, ou abrem mão da ideia de feminilidade em favor da raça, que é mais visível. Pequenos privilégios (como forma "esbelta", adequação ao gênero, escolaridade e classe) modulam a realidade individual dum sujeito racializado, mas de forma alguma mudam a imagem que o seu Outro (racista) tem de que: homens negros são viris, tem uma Hiper-masculinidade e desejo sexual aberrantes; mulheres negras são vistas pelos racistas como serventes, objetos sexuais e fora do padrão de feminilidade quanto mais pigmentada for a pele. E os negros e as negras LGBT+ ? Para a mídia e para uma parte considerável dos movimentos sociais, não existem. 

Ser "alternativo" é uma dádiva branca


Isso não é um problema individual, pois tudo é pensado para unir opostos sexuais e direcionar todo mundo a uma suposta normalidade. A raiz da homofobia, portanto, é esse sexismo, a separação de indivíduos por sexo e a prescrição do que ser, fazer e escolher com base nisso. Foi essa concepção que motivou minha reflexão sobre as versões do hit Hotline Bling pelo Drake e pela Erikah Badu.

Evidentemente há formas distintas de analisar gênero, e teóricas como Butler, Wittig, Patrícia Hill Collins têm mostrado respostas diferentes ao fato em si. Independente da perspectiva, a questão é que a palavra-chave para compreender gênero é deslocamento. Deslocar o olhar e as práticas do que parece normal faz toda a diferença, e foi neste sentido que me chamou a atenção o deslocamento de Erikah Badu na sua versão de Hotline Bling.

Em 2015, a cantora e compositora Erikah Badu lançou um álbum chamado But you caint use my phone (mixtape) com 11 faixas sobre relacionamentos e telefones. Com essas canções, ela acabou provando para nós o quanto os dispositivos de chamada fazem parte do nosso dia-a-dia e das nossas relações sem terrorismo Black mirror, só focando na organicidade. Somos seres sociais, alias, seres que se ligam - por assim dizer - pelas chamadas telefônicas.

Um dos pontos mais intensos do álbum é a quantidade de hits como Phone Down, a clássica Hi e, sobretudo, a viciante Hotline bling que todas nós conhecemos pela voz e ritmo do Drake. 

Drake é um rapaz canadense, conhecido pelas letras que, na maior parte das vezes, não fazem mulheres se sentirem os piores seres da terra. Diferente dos "Gangsta", Drake é um boy descolado (quase Black hipister), que não se sustenta por estereótipos de hiper-masculinidade e desrespeito geralmente associados à imagem dos homens negros rappers. Se por um lado é bom ver isso como uma construção saudável da masculinidade racializada, sua compleição de homem negro, porém de pele menos pigmentada, é uma jogada de marketing que associa o "gosto pelo exótico" ao considerado "tolerável". Veja, não me refiro ao Drake exclusivamente como pessoa, mas como um dispositivo discursivo como outras estrelas pop construídas por gravadoras.

É uma piada comum dizer que só mulheres (heterossexuais) gostam das músicas dele porque são legais e não ofendem tanto como os demais (vimos isso em Insecure T1 E5). Vez ou outra Drake se envolve em controvérsias, ao se propor a cantar músicas sexistas e se aproximar da misoginia que se mostra no cenário rap (veja: não ignoro que o rock clássico, hard e heavy tenha raízes na misoginia também). Sua masculinidade é posta à prova porque, numa sociedade racista, espera-se do homem negro uma masculinidade violenta, desrespeitosa e animalesca. Estereótipos que o rap comercial tende à reproduzir sem se preocupar no quanto estamos sempre vulneráveis a sermos dispositivos de manutenção de opressões. 

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Erikah Badu

Ja a estadunidense Erikah Badu é uma divisora de águas, quando falamos de blues, hip Hop e jazz porque mescla a tradição estética e política ao mesmo tempo que situa o "aqui/agora". Ela revolucionou o modo de fazer música e sempre se posicionou politicamente sem se embaraçar, mesmo tendo opiniões deveras impopulares. Muitas vezes, ela se expressa num sentido tradicional e mulherista (e anti feminista), com o qual não me identifico, mas é incrível ver uma mulher negra, vegana, com cabelo natural, turbantes e imponência falando sobre política. É realmente inspirador.

Ao menos foi, até 2015. Numa série de twitts com comentários sexistas, ela perdeu parte da admiração e afeto do grande público. Ela insistiu que garotas jovens devem se cobrir mais, para evitar assédio. Também disse que "é natural que homens se interessem por garotas jovens e também o contrário". Longe de ignorar seu talento e importância política, e longe de considerar sua fala uma questão individual, ouvindo sua viciante versão de Hotline Bling acabei lembrando de como o sexismo (diferenciação de indivíduos pelo sexo biológico) é uma essencialização de práticas, trejeitos e vestimentas que naturaliza e dá fôlego à homofobia.

A VOZ, O CORPO E A HOMOFOBIA


O segundo álbum da cantora e compositora brasileira Alice Caymmi - Rainha dos Raios - trouxe duas versões musicais que dizem muito no sentido político, sem esforço. A segunda faixa intitulada Homem, foi composta por Caetano Veloso num momento em que ele sentiu necessidade de marcar sua masculinidade, isto é, após tantos ataques homofóbicos. Há traços tanto duma utopia física e emocional de masculinidade, quanto certa misoginia típica da literatura da Antiguidade ao Barroco. Não um prazer em ser homem, mas sim um prazer de não ser mulher porque, sob essa perspectiva, mulheres são só corpo, dotados duma anomalia: a capacidade dos orgasmos múltiplos. Na voz dele, isso pouco tem de revolucionário, até mesmo a melodia é comum.

a versão de Alice, tem sua voz e seu corpo identificados como "mulher", que reafirma "eu sou homem". Essa aparente ambiguidade mexe com paradigma do gênero e desnaturaliza a prescrição de uso do corpo. Ao cantar "Princesa", de MC Marcinho, ela desloca o amor romântico heterossexual pra uma voz "feminina" que se dirige a uma outra feminilidade e revela que pode conter muito mais performances e sexualidades do que o compositor possa ter previsto. Essas escolhas da cantora questionam, representam corpos, emoções e experiências silenciadas pelas leis sociais que regulam os corpos e isso tem a ver com um posicionamento ante as tecnologias de gênero. O clipe destrói as potencialidades, mas a impressão duradoura que o álbum transmite é bem interessante. Voz é corpo. Voz é marcação. Voz é lugar.

Não vou mentir. Adoro as interações nos shows e letras da Paula Lima e, sem sombra de dúvidas, eu sei que são em sua maioria sexistas. Apesar de reforçar os modelos, sua voz descreve relações saudáveis de amor e afeto entre pessoas negras e isso é revolucionário. A ensaísta e quadrinista Roxane Gay escreveu no livro "Má feminista"sobre o porquê não precisamos nos justificar por gostar de produtos que veiculam mensagens potencialmente opostas ao que pensamos, e isso é parte do meu comportamento (não justificar).

Ora, não é um problema que o condicionamento surta efeito suficiente para que exista um contingente de indivíduos que se identificam com o modelo, mas o que me parece importante é que, seja possível compreender que esses modelos não abarcam (nem devem) todas as pessoas. Não é um problema querer sair de casa "bem barbiezinha", se você tem consciência do que isso significa, sobretudo, se for uma mulher cis heterossexual. E, mais do que isso, não deveria ser um problema que você não queira ser barbiezinha.


HOTLINE BLING

Quando a melodia de Hotline Bling se fixou na minha cabeça, comecei a acompanhar a narrativa. Uma ressentida voz de homem (Drake) se dirige a um você que tomou toda a reputação pra si e passou a agir de forma diferente (saindo com garotas que ele nunca viu antes) desde que ele partiu. É interessante como o ressentimento tem um leve teor de "fui usado", posição geralmente das mulheres, em especial, negras.

Quando ouvi a versão de Erikah Badu, o trocadilho simples num dos versos me intrigou bastante:

"Hang out some dudes I never seem before" (saindo com uma galera que nunca vi antes) que Drake canta "Hang out some Girls I never seem before" (saindo com umas garotas que nunca vi antes).

A princípio pareceu um trocadilho divertido, porque realmente encaixa na melodia e dá outra cara. A apropriação geralmente traz um resultado criativo, então "dudes" poderia apenas imprimir uma identidade à sua versão, mas... E se não?

Vamos lá. Macho e fêmea, já dizia Simone de Beauvoir, são possibilidades normativas de sexo biológico. Isso não é o mesmo que homem e mulher (gêneros). Sendo assim, na versão de Drake ele pode se dirigir a esse "você" que pode ser Cis, LGBT, demissexual etc. Sair com garotas pode ser interpretado como sair com amigas, do contrário seria um "encontro". Mas se fosse uma relação normativa, qual o problema que o indivíduo representado por Drake em ver a pessoa amada saindo com amigas?

A versão de Badu traz um corpo feminino à narrativa. Enquanto Drake tem um tom de lamentação e falsa modéstia, Badu não oscila: ela não termina nenhum verso em suspensão, nem com grandes pausas ou subitamente. A constância coloca o protagonismo e o controle nesta figura que ela interpreta.

A escolha de "some dudes" em vez de manter o "some Girls" projeta curiosidade. Claro que "dudes", assim como "you" pode se referir a qualquer pessoa, mas em se tratando de relacionamento, ele marca o gênero. Se ela dissesse "Girls", poderia indicar que sua pessoa amada a está traindo com outras, mas também poderia marcar o lugar social da voz que  a própria Badu interpreta.

É claro que o clipe de Drake remete à norma, inclusive porque a coreografia é bem sexual e em dupla com uma dançarina. Mais do que a letra, sua gestualidade, performance, orientação sexual e desejo reiteram os paradigmas de gênero quase que nos fazendo notar que o neutro tende a ser o lado convencional da cerca.

A versão de Erikah Badu, por outro lado, nos permite preencher a lacuna visual (pela falta de clipe) com experiencias diversas, sem hierarquia, porque "você" tem saído com uma "galera" que ela (a voz feminina) nunca viu antes. 


CONCLUSÃO


O simples fato de Erikah Badu escolher associar a sua voz a um corpo em Hotline bling, perturba bases tradicionais e contribui para o embaralhamento de normas de gênero. A ruptura do padrão, devido à descontinuidade entre sexo biológico, performance e orientação sexual exerce uma pressão capaz de modificar os modelos de representação psíquica. Assim, aos poucos, "poder homem com homem/mulher com mulher" ou "homem que engravida" deixará de ser visto como desconcertante e invisível. Neste contexto, o orgulho de ser Lésbica, Gay, Bissexual, Transexual, Travesti será consolidado porque a consciência estará ao alcance para qualquer pessoa "tornar-se".







E se a música fosse travesti?


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