Cara gente branca, seja menos Adele!

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Adele e Beyoncè

Quando Beyoncé parou a Terra com o lançamento meticuloso de seu novo álbum/documentário, esperávamos que os(as) críticos(as) reconhecessem que ali estava uma obra prima da música mundial, apesar de não agradar a todos(as). Ser reconhecida por um trabalho bem elaborado e que tem um significado pessoal para quem se identifica é de grande valia, sempre é bom. E ela foi premiada, reconhecida, mas em uma categoria e não "naquele título divisor de águas". 

Leia: 


Até aí, este seria um bom tema para conversas sobre o básico que o racismo institucional provoca nas academias de artes: Por qual motivo Beyoncé não ganhou como melhor álbum, se ele é perfeito? 

Mas sempre pode piorar. Eis que surge a Adele para nos dar uma boa lição de: nos momentos em que negros(as) estão passando por situações constrangedoras ou difíceis de digerir, sempre tem uma pessoa "amiga" exercendo sua branquitude achando que vai ajudar, mas só piora. 

Fica esquisito uma pessoa branca, dizer que entende o quão difícil é o nosso momento, pois ela tem amigos(as) negros(as) e vê todos os dias as dificuldades que eles(as) passam. Fica mais constrangedor para a pessoa negra que, diante do acalanto de uma pessoa branca, não pode nem chorar em paz ou resolver seus problemas do seu jeito. 

Adele quis dividir o troféu com a Beyoncé e ainda falou a famigerada frase sobre "meus amigos negros sofrem e eu sei". São quatro trabalhos: o de corroborar o cerne do racismo em rede mundial, o de quebrar o material duro, o de tentar dar um treco quebrado para outra pessoa e o de ter que dar um jeito de arrumar/remendar, literalmente, quando percebe que pode ter feito algo errado. 

Todos os dias, pessoas negras tem problemas que a guinada para a classe média parece não resolver. Isso em qualquer país do mundo, pelo visto. 

Vestimos preto. Roupa cara não resolve os nossos problemas. Direitos assegurados e equidade racial são a nossa meta, as "coisas" não reconhecerão a nossa dignidade e parece que não são um caminho para alcançá-la. 

Diante dos problemas de diferentes níveis, podemos pedir ajuda ou buscar formas adequadas de resolução. É aí que, na impossibilidade de contar com o Estado ou instituições, buscamos as pessoas que convivem conosco. 

Às vezes, é um amigo, uma irmã do peito, alguém da família. Seja uma pessoa branca ou uma pessoa negra. Não foi o caso de Beyoncé, ela não pediu ajuda. Aliás, não percebemos isso, publicamente, até hoje.

A questão não é quem ajuda ou se ajuda como pode, o problema é o que pessoas brancas costumam fazer quando visualizam nosso problema ou situação constrangedora - às vezes, a situação nem está posta. 

No filme "Ele até já tem seus olhos" (tradução literal para "Il a dejà tes yeux" ou "He even has your eyes"), o casal Alloca quer adotar uma criança e não têm nenhuma objeção sobre características, origem, etc. Eles são de origem Senegalesa e moram na França, próximo à família de Sali, Boo (apelido carinhoso), a esposa. 

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Cena constrangedora da vida real - número 1

A amiga branca da esposa é uma advogada bem-sucedida e, na festa de comemoração pela provável adoção, ela diz que a amiga está sempre irritada. 

Pergunta: Como estar irritada sorrindo e comemorando? 

Pessoal, vocês podem, por favor, parar de perguntar se a gente está brava só por estarmos com fome ou olhando para o teto? Obrigada. 

Cena constrangedora da vida real - número 2 

A criança adotada é branca e isso causa irritação na responsável pela Vara da Infância, pois ela está mais acostumada com pessoas brancas adotando crianças negras. E não o que acontece com a família Alloca: criança branca, pais negros. 

Na correria, entre a Floricultura e os cuidados com a criança, o Alloca acaba pedindo para Manu (um amigo branco que parece estar sempre bêbado) para ajudá-lo a avançar com a reforma da casa. A assistente da Vara da Infância acaba (sempre) chegando sem avisar e passa por lá na hora do ápice de barulho de reforma. 

Indo verificar o que é, ela se depara com Manu meio sujo, bêbado e confuso que, como amigo, fica tentando fazer um sinal para o casal despistar e contornar a situação constrangedora, mas não funciona, ele perde a mão. 

Fingindo ser um mestre de obras, ele acaba fingindo também ser um imigrante em situação ilegal e diz isso, em ROMENO, cantando com/para a assistente da Vara da Infância. O casal Alloca não entende o que eles estão conversando. A família que já estava em situação constrangedora pela presença da assistente, agora, além de negra (sim, ser negro não pode), começa a ser acusada de coadunar com ilegalidade na contratação de mão-de-obra de imigrantes. 

Alloca o questiona, mas o que fazer? Nada. A branquitude não é um erro, pode ter um deslize aqui ou ali que não causa problema nenhum... para quem é branco(a). Erro não, certo? 

Cena constrangedora da vida real - número 3 

Amanhece. Manu continua a beber. Se oferece para ler o jornal do dia, sem que Sali tenha solicitado. Vai para a parte dos signos e a identifica como geminiana. Atualização astral do dia: você pode ter um caso muito safado (legenda em português). 

Pergunta: Por qual motivo ler isso para a esposa do seu amigo? 

Esses são poucos exemplos das artes que são alfinetas bem reais de uma vida, sem massagem alguma. 

Poderia citar Mallu Magalhães fazendo cosplay de passinho do romano. Poderia citar aquela colega de faculdade que quis me congratular no dia da formatura dizendo que estava feliz por me ver formar 8 anos após minha entrada no curso achando que estava me elogiando evidenciando o OITO que nem existe e sendo inconveniente. Poderia citar minhas colegas de trabalho que querem me elogiar me chamando de Glória Maria, mas acho que os exemplos acima são suficientes. 

Brasil (não no sentido ufanista - é um recado direto às pessoas mesmo), deixe de querer ajudar quem não pediu sua ajuda, deixe de querer dar opinião no trabalho de uma pessoa negra enquanto ela estiver em atuação. É constrangedor e racista perceber alguém te interrompendo (mulher ou homem branco) sem sentindo algum, sem esperar você completar a frase ou pedindo coisas que nada tem a ver com o momento quando você está dando aula. É assustador ter ombros, cabelos ou mãos tocadas quando a ajuda ou informação complementar sobre um fato pode vir pela voz com entonação adequada para o espaço. 

Isso não nos acrescenta em nada. Abala nosso raciocínio, causa instabilidade no ambiente e é racista, na maioria dos casos.

Contenha o exercício de sua branquitude! 

O exercício da branquitude causa repulsa por existir e irrita quando quer ajudar sem ter sido solicitado.

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