sexta-feira, 31 de março de 2017

[PODCAST] " POR QUE HIDDEN FIGURES LUTA CONTRA O RACISMO?"



"No episódio de hoje #OPodcastÉDelas e vamos discutir sobre branquitude, privilégios e como um filme retrata uma realidade tão distante e, ainda sim, tão presente. Então, pegue seu blocos de notas e calculadora e prepare-se para decolar rumo a uma atmosfera onde o racismo não tem vez, no PQPCast!"
Thata Finotto

O PQPCast é um podcast duma galera (Julio Jr., Thata Finotto e Mau Hernandes) super interessada em debater a cultura pop sob um viés crítico. Semana passada, a anfitriã Thais Finotto convidou Anne Caroline Quiangala (Preta, Nerd & Burning Hell), Priscila Armani (Podcast Oq assistir) e Luiza Braga (Lado Black Podcast) para conversar sobre avanços e continuidades do filme Estrelas Além do tempo. A conversa foi muito divertida, proveitosa e concisa (só 36min) e você pode baixar ou ouvir online:

quarta-feira, 29 de março de 2017

Punho de ferro ser branco é o menor dos problemas...



Não me entenda mal: não estou dizendo que o Punho de Ferro ser branco é ok, muito menos reduzindo o questionamento de outros pontos de vista ou militâncias. Muito pelo contrário. Escrevo esse texto em resposta a todos os boys que comentaram twitts e posts do Instagram sem o real desejo de dialogar e sim "Omiexplicar" e exigir minha carteirinha. E pra todo mundo que acredita que a crítica à série é direcionada apenas ao fato do protagonista ser branco. E outra: branco não é cor, não é um indivíduo, parente ou affaire. Branco é uma identidade política.

Madame Gao tem mais carisma que o Danny Rand :D #IronFist
— Preta Burning Hell (@pretaenerd) 22 de março de 2017

VAMOS LÁ

Se você já assistiu Broder, do Jeferson De, você sabe muito bem o poder que uma direção tem de mudar os rumos de uma péssima premissa e, inclusive mostrar pra qualquer um, o quanto a obra é a parte visível do racismo que estrutura a sociedade. Sendo assim, acredito que o pior erro de Punho de ferro (além da falta de coragem de trazer um ator asiático) foi não terem contratado uma/um showrunner asiática/o para direcionar a série, tal como foi feito em Luke Cage.

E sim, eu conheço o personagem. Talvez o que quem pergunta isso não tenha percebido em tudo que leu é que o John Constantine é loiro- e tudo bem ele ser o Keanu Reeves. Que a Jéssica Jones não é magra, jovem e de cabelo tingido de preto, diferente da Krysten Ritter e, até aí, tudo bem. Quando é anunciado que a obra é uma adaptação, está subentendido que mudanças podem ser feitas, afinal é a tradução para outra linguagem, além das problemáticas ligadas ao mercado e à sociedade.

Uma das formas de conceituar o Cinema Negro é tendo em vista que a produção, o protagonismo e o tema devam ser negros. Desse modo, incomoda a muita gente que o filme Bróder seja protagonizado por Caio Blat. Isso incomoda também a mim, pois ansiamos assistir as nossas histórias e parece que a indústria quer nos convencer de que é impossível e que ninguém se importa.

Todas nós sabemos que o capitalismo é uma realidade, tanto quanto o racismo, e que a Indústria cinematográfica move muito dinheiro. A pergunta é: o que fazer quanto a isso?

No caso do Jeferson De, ele fechou o contrato com a Globo Filmes e garantiu os recursos necessários para contar a sua história. A exigência quanto ao protagonista ser Caio Blat foi atendida de uma forma curiosa: o personagem é um dispositivo discursivo que evidencia que o racismo extrapola o problema de classe, e que ser branco e pobre mantém o indivíduo com uma dose de privilégios decisiva.

Isso significa que não é problemática a falta de oportunidades para contar histórias negras? De forma alguma. Mas, nessa realidade, a narrativa de Bróder é um protesto. Não a única forma, não necessariamente a mais eficaz. É apenas uma possibilidade de driblar as adversidades. Também não significa que "Basta mostrar que somos melhores" porque a questão aqui não é essa, não é maniqueísmo, moralidade e sim ética. Racismo é um problema ético.



Claire: a pessoa mais espirituosa do universo cinemático da Marvel! <3😍 #IronFist pic.twitter.com/TFWdQzeyBm
— Preta Burning Hell (@pretaenerd) 22 de março de 2017

E O WHITEWASHING? 

Whitewashing é a união das palavras em inglês white (branco) + wash (limpeza) e tem muitos significados, como “produto que deixa mais branco” ou “absolver da culpa”. E, mais recentemente, foi colocado um novo significado na palavra: “fazer limpeza étnica em um personagem fictício ou histórico, transformando-o em uma pessoa branca”.   
(VAL in Vamos Falar De Um Assunto Sério: Whitewashing [Parte 1])

O conceito de "Pessoa de cor" (people of color/POC) faz todo o sentido para a cultura estadunidense, tanto porque a racialidade é bem compartimentada, quanto porque -dada as proporções - pessoas não-brancas são jogadas num grupo só de "coloridos" e culturalmente"diversos". Como se branco fosse neutralidade que se tinge com as cores. É um racismo bem diferente do que encontramos no Brasil.
Aqui, esse termo "de cor" não faz sentido, já que a divisão é ligada à pigmentação da pele bem dicotômica (às custas da invisibilidade de outros): ou é preto, ou é branco. Claro que há uma infinidade de sutilezas (O colorismo), mas quero destacar que, no Brasil, mesmo que saibam quem é preto e quem é branco, as pessoas com tez clara são interpretadas de formas racializadas, que as afastam de serem pretas. E isso é um problema bem distinto.

Essa distinção pode ser entendida a partir de dois exemplos: a série brasileira 3℅ e a estadunidense Punho de Ferro. Enquanto na primeira, a grande oposição é entre branco e preto, na segunda o pilar de desigualdade é entre brancos e não-brancos (POC). A base de Punho de Ferro é a supremacia dos brancos, como se fossem mais capazes de dominar toda a arte e cultura mesmo que de origem não-branca.

Nota: usamos branco porque caucasiano é um termo que se refere a ideias biologizantes do século XIX. Estamos aqui nos referindo à ficção social enraizada, de que fenótipo define diferenças, ficção esta que molda a dinâmica social. Ficção que é uma prática real chamada racismo.


Uma publicação compartilhada por Preta, Nerd & Burning Hell (@pretanerdburning) em

NOTA: A postagem acima é uma ironia. Questionamos na imagem o fato de Danny Rand não ser professor e insistir em ensinar à Colleen a lutar, bem como a forma correta de sentir e se expressar. O que dá essa certeza a ele de que pode dizer o que quer é uma expressão do privilégio branco. A sequencia na série é um combo de Omi-explicação com Racismo, e obviamente pessoas racializadas entendem isso. No entanto, é comum a pessoas acríticas e/ou que desconhecem o conceito, classificarem o comentário como "racista".

Em Punho de Ferro, temos a adaptação fiel aos quadrinhos do protagonista loiro, rico, heterossexual, jovem e magro com maestria nas artes marciais. Isso significa que não ouve embranquecimento do personagem em si, mas a apropriação da cultura chinesa com o objetivo de inferiorizar esse corpo social. Pra quem teve dificuldade em entender a relação entre apropriação cultural e racismo, a Netflix junto a Marvel ilustrou pra que todos que tem dificuldade para ouvir vozes negras entendam.

Collen Wing (Jessica Henwick)

Desde o início, quando ele quebra as regras do próprio universo empresarial dele com trajes inapropriados já fica evidente a perspectiva da serie que é a de focar o privilégio sem discussão real. Danny Rand é apenas um rapaz sem carisma, arrogante, egocêntrico e irritadiço que se chateia toda vez que é questionado. Ele grita com todas as mulheres, empurra uma senhora idosa e age como a antítese moralmente "boa" dos asiáticos malvados e "ruins de briga". 

Digo que ele ser branco, não é o problema, porque na verdade a questão (dado que os fanboys exigem fidelidade ao quadrinho) é a celebração do privilégio branco e masculino. Ele não apenas ouve rap, como inclusive ensina a Colleen Wing sobre a filosofia que embasa a luta. Ele se comporta como um imbecil e, em vez de ser questionado, passa a ser aplaudido pela Colleen. Isso serve para reforçar o estereótipo da mulher asiática como subserviente e a favor do sexismo.








Em si, as práticas de Danny Rand são ofensivas porque mostram pra audiência um caminho unívoco de que ele representa uma superioridade natural. O total desrespeito ao Dojo de Coleen, que ele se recusa a deixar, somado ao ar de superioridade ao conversar com ela, tornam a série mais do que ofensiva. Uma ode à branquitude acrítica.

#IronFist já que na HQ o cara loiro derrota tudo q é chinês, "tá tranquilo" na série os chineses aparecerem só pra apanhar né. NÃO!!!
— Preta Burning Hell (@pretaenerd) 17 de março de 2017

Os policiais não-brancos são truculentos e totalmente alienados da história recente dos EUA. Eles incorporam o discurso de que a função da polícia é exterminar o crime, não o grupo social ao qual eles e elas pertencem. E como Rand é o único que ouve rap, a lição é a de que ele se vira melhor com essa cultura que os próprios negros.

Algumas pessoas se importam em dizer que é essencialista a minha crítica ao fato de Rand ser o maioral no Kung Fu ou no rap. Isso porque elas não se deram conta de que o discurso da serie é o de que ele tem mais aptidão pra tudo que as demais pessoas. Pessoas que pertencem aos corpos sociais racializados são sempre representadas como token, como nada mais que sua cultura "em mãos erradas". Então racismo, não é questionar o fato de um preto dominar mais um aspecto cultural de origem africana ou amarelo e marrom um aspecto de origem asiática. O problema é o objetivo que direciona sutilmente as representações.

O problema é encenar tanto a ideia de superioridade que faz da dinâmica de muita gente ser deformada por perguntas estúpidas, fanfics e estereótipos sem contar com a ideia de seu corpo valer menos e, portanto, ser mais exposto à morte.

A lógica da nossa sociedade é que o individuo branco se sente no direito de dizer que sofre racismo, sendo que isso é uma óbvia inversão discursiva. O pior: muita gente negra compra esse discurso de racismo reverso. E Isso graças à cultura de massa que da espaço prum Danny Rand condescendente e mais-do-mesmo, que "só quer ajudar o mundo".



Apesar de toda a discussão que o público de origem asiática tem feito, suas vozes tem sido constantemente questionadas por indivíduos brancos, muitos insistindo na ideia de que os próprios asiáticos se sentem lisonjeados com embranquecimento em Ghost in the Shell. Esses indivíduos que insistem em silenciar se identificam com o privilégio branco, personificado por Danny Rand e perpetuam valores tóxicos. Sabendo que a série é tudo isso, a atriz que interpretou Colleen Wing (Jessica Henwick)  ao ser questionada sobre o porquê de ter aceitado o papel, disse:

“Quando eu vim para Punho de Ferro, foi realmente Colleen Wing que me convenceu. Eu achei que seria uma boa oportunidade de ver uma mulher realmente forte asiática-americana. Ela não é uma super-heroína. Ela é apenas uma pessoa comum que tem a coragem de lutar contra pessoas que tem super-poderes. O que eu acho incrível!” 
 Jessica Henwick via O Vício

Essa sensação de ambivalência expressada por Jessica Henwick, sem dúvidas, atravessa a experiência de sujeitos racializados porque representa as armadilhas as quais somos submetidas. Participar da cultura de massa, seja como autor, ator ou audiência, envolve para grupos marginalizados um trabalho emocional de lidar com violência simbólica e epistemológica versus o entretenimento, e isso significa negociar com algozes. E quando digo negociar, nada tem a ver com aceitar, síndrome de estocolmo ou mesmo resignação. Negociar é uma estratégia de sobrevivência cotidianas que nos mantém vivas, o acordo que nos possibilita estar em locais onde privilegiados ditam regras. No caso da cultura pop, ser público não significa aceitar tudo o que é produzido, pelo contrário, nosso olhar muda a realidade.

O trabalho emocional é válido porque a luta é constante pelas melhoras nos acordos e representatividade. Não quer dizer que há obrigação de permanecer em espaços tóxicos, nem de assistir ou ouvir conteúdo ofensivo, mas sim que  o estereótipo coexiste com a criticidade.

Neste sentido, ainda que não tenha origem asiática, eu me identifico bastante com a perspectiva de Jessica Henwick, e do cineasta Leonardo Hwan (do canal no Youtube Yoo Ban Boo). Há discussões sobre ser um individuo racializado, que precisam ser tema, mais do que apenas a exposição da cultura chinesa de forma exotizada.  

Já o lugar da branquitude é aquele que dá acesso a tudo. Que permite entrar num ambiente formal de tênis. Que permite andar descalço pela rua. Que permite ser considerado individual e humano. Nós não nos autodeclaramos nerds à toa. Conhecemos o personagem tanto quanto a realidade do racismo estrutural. Desse modo, é evidente que "só acreditar" em nosso potencial, "mostrar que somos melhores" e "não aceitar migalhas" são frases proferidas sem o entendimento real de como o capitalismo opera. Nem acreditar, nem se esforçar definem mudanças ideológicas reais. Afinal, racismo é exatamente quando pessoas incríveis, poderosas e, até mesmo esforçadas, como Colleen ou Claire ouvem berros de Danny Rand e a alvíssima Joy, não. Não é sobre como nós somos, mas sobre os mitos sobre a diferença que sustentam a sociedade.

Veja que Danny oprime, mas quando elas decidem criticar uma atitude dele, a primeira reação que ele tem é inverter o discurso:

"Agora estão as duas contra mim?" (RAND, Danny) #IronFistHAAHHAHAHAHAHAHAHHAHA
— Preta Burning Hell (@pretaenerd) 22 de março de 2017

Desse modo, o problema da série foi antes insistir num protagonista branco sem questionar nada disso que expusemos acima, do que o fato de optar pela continuidade lógica do loiro Danny do papel às telas.


Recomendo que assistam:

DEMOLIDOR” E A VIOLÊNCIA GRÁFICA CONTRA O MIM/NÓS


[Edição: como nos lembrou nossa leitora, o diretor de Broder não é Joel Zito, mas sim Jeferson De]

terça-feira, 28 de março de 2017

Forza Horizon 3 e o que aprendi correndo demais!

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 é uma youtuber estadunidense. No início do ano, e ela postou essa foto em seu perfil pessoal com a hashtag #BlackGrilGaming - um gatilho para o texto a seguir.

Sempre fui apaixonada por jogos de corrida. Desde a época do CD-ROM, eu já optava pela velocidade e me familiarizava com aquele vazio narrativo... Que não era tão vazio assim, na real. A questão é que demorou mais pra cair a ficha sobre descrições e crenças, nos simuladores de corrida, que nas aventuras e RPG. A primeira impressão que temos é a de que jogos de corrida (exceto F-Zero?) não são máquinas narratológicas, são entretenimento puro. Ademais, porque a maioria dos jogos dos anos 1990 não exigia tanta noção de espaço e coordenação motora, mas sim reflexo.

#sermulhernosgames
#WeCanNerdIt
#BlackGirlGaming

Pouco antes do Windows veio o SNES, o console que proporcionou experiências que definiram muito do que sou hoje. Primeiro porque, apesar da falta de referências de garotas que jogavam, tive uma amiga tão viciada quanto eu, com quem podia jogar sem ter que lidar com os problemas usuais (leia-se brotheragem). Seu nome era Monique. Então nossa amizade já definia que existia menina jogando seu próprio videogame. Não era todo mundo que nem as chorosas Chiquititas (e não eram mesmo!). Segundo: nosso receio de abandonar o SNES pra ir ao fliperama já mostrava o quanto sabíamos que se tratava dum ambiente hostil, não apenas PARA, como DOS garotos. Pra vocês terem ideia do pânico dela, seu SNES tinha joystick de arcade, exatamente pra não ir ao fliperama, vencer e ser escorraçada.

Eu era menor, tipo uns oito anos, e a simples existência dela no fim da rua à esquerda me deu força para entender que, -apesar das aparências- eu não estava sozinha. Não podia esquecer que comentar sobre videogame na escola era morte social, numa sala em que todas as meninas queriam ser a Mili e todas "mexiam, mexiam com as mãos". A questão é que eu obviamente compartilhava desses interesses comuns, mas, diferente delas, gostava do Mosca e da Pata sim. Minhas colegas de sala eram visivelmente racistas, viam vantagem no sexismo... E daí os caminhos se desviavam.

Top Gear


Eu adorava F-Zero porque havia uma história dos pilotos, carros e cenários. O problema é que, as mulheres são tokens, daí os carros nunca são páreos. Ah sim, houve o Top Gear e sua intensa terceira fase à noite! Monique e eu jogávamos Top Gear como se não houvesse amanhã, e trocávamos impressões sobre o pódio com pilotos homens, recebendo mulheres e champanhe como prêmio. Nem mulheres, nem negros. Discutíamos o quanto o jogo forçava a escolher o carro branco. Tudo parecia errado. E sim, muito do que parecia, realmente estava errado.

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F-Zero
O jogo ensinava o que era ser homem, ao mesmo tempo que fazia entender que mulher nem era pra estar ali. E esse mesmo padrão aparecia nos circuitos de Fórmula 1 na TV, no Stock Car e nos flashes do Rally dos Sertões.

Todos os jogos posteriores me incomodaram por essa estrutura de "homem agente" e "mulher objeto" até o fantástico Ridge Rage Type (4 ou simplesmente R4) da Namco para PlayStation. Apesar de a premissa ser absolutamente sexista, ali a junção de gráficos, jogabilidade, narrativa e a chance real de escolher uma personagem mulher me deram um novo fôlego pro entretenimento. Não eram carros destituídos de pessoas que corriam sem objetivo além de vencer, pois havia pilotos diferentes, com estilos de carro e respostas diferentes. 

Essas reflexões tomaram forma quando decidi baixar jogos de corrida para celular (Samsung F230). Em um ou outro eu podia escolher personagens mulheres ou negros, mas o pódio era o mesmo: mulheres seminuas, champanhe, carros, dinheiro e experiência na mesma categoria. E mulheres recebendo de prêmio outras mulheres, nada mais é que uma retórica sobre tipos de mulher, adestrando sobre como devemos nos ver, como devemos ser, e isso não é nada útil na luta contra a LGBTfobia.


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Need For Speed Underground 2
Junto a isso, a franquia Need for speed começou a me incomodar devido ao fato de a representação visual ser atrelada a comentários, tendências e sistemas de crenças que não me beneficiam de forma alguma. Need for speed venceu no gosto popular pela ilusão de progresso de trazer a lei das ruas, a estética negra, a urbanidade, a glamourização da vida "gangasta", a resignação com o capitalismo. Venceu pela ilusão de que ter é ser (como aliás, tudo o que vence). As live action enfatizam um estilo de vida jovem, com a cara branca alternativa e mantém estereótipos sobre mulheres e pessoas não-brancas. Nesse sentido, Need for speed Rivals arranca de mim a seguinte afirmação: "não estou aqui pra ser policial, e sim pra quebrar as regras. Não vou jogar isso". Daí meu senso crítico aparece com a ideia mais sábia: pessoas se tornam monstros dentro de carros. Vide aquele conto "passeio noturno parte 1 e 2, do Rubem Fonseca, em Feliz Ano Novo).




Esses dias, um amigo perguntou o porquê da paixão pelos simuladores automobilísticos. Meu entendimento atual daquele passado é o de que era uma área menos hostil, onde pude permanecer mais e, portanto, me tornar mais habilidosa. A melhor parte era que os garotos não se interessavam tanto pelos jogos de corrida. Para eles, não valia a hostilidade, rivalidade ou contar vantagem. Claro que eu também me divertia com Killer Instinct, Mortal Kombat, Counter Strike, Resident Evil, Tomb Raider e Tekken, mas a pista de corrida era um espaço mais seguro. Óbvio que o mundo é longe do que chamamos de democrático, então eu jogo apesar dessas críticas, me divirto, aprendo coisas e compro um estilo de vida pelo tempo que durar a partida.

Tudo isso se tornou mais real quando joguei a primeira sessão de Forza Horizon 3, que avançou muito em relação ao 2. Foi considerado o melhor jogo de corrida de 2016 pela IGN e isso é um ponto a menos, mas não desistam, o jogo é ótimo. Horizon é um festival internacional que, nessa edição, se passa na Austrália. São 488 estradas, on e off road, campanha individual ou cooperativa, leilões e muito mais. Uma das melhorias que me chamou a atenção, primeiro foi a possibilidade de contratar rádios simultaneamente e optar por mudar no meio da corrida. Tem eletrônico, indie, Drum & Bass, ""punk"" e ""hardcore""" à medida que avançamos nas conquistas! O horizonte de experiências foi bastante amplificado nessa edição. 

O ponto baixo dá mudança é que não podemos mudar de modalidade durante o evento (corrida), portanto, toda vez que desejamos mudar de carro precisamos ir até a garagem. Isso reduz muito a minha experiência com carros clássicos e off road, porque no mundo aberto não faz sentido passear com carros de baixa velocidade.

Forza Horizon 3, meu novo amor
Outro problema é que a "história" se passa na Austrália, que na ótica do jogo, é uma terra selvagem pronta para ser explorada. Tanto no sentido óbvio de pegar a estrada e conhecer os lugares, quanto porque à medida que explora, há um retorno financeiro e social para nosso personagem. Outra novidade é que personagens jogáveis, nossos protagonistas não são racializadas e engendradas de forma sexualizada ou objetificada (nem os não-jogáveis são sexualizados). Parece que a Microsoft aprendeu primeiro que podem proporcionar uma experiência de jogo mais intensa com avatares que se parecem com a gente e com nomes reais na dublagem. Há uma lista considerável de nomes disponíveis para escolhemos é, felizmente podemos trocar de personagens no meio da campanha.

Após tudo isso que eu disse, pode parecer que não, mas os avatares são sim excludentes, à primeira vista, porque binários, jovens, magros. Arrisco dizer, inclusive, que a construção do avatar força a cisgeneridade à medida que "força" a escolher o nome pelo gênero.

Isso não quer dizer que não reconheço os avanços - muito pelo contrário, esse jogo está consumindo todo e qualquer tempo livre! Reconheço os avanços em termos de visual, representação e diversão sobretudo por tudo que corri até chegar ao Forza Horizon 3. Aprendi muito sobre o porquê precisamos ser todas feministas e lutar contra o sexismo inclusive onde ele passa despercebido pela maioria.

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Forza Horizon 3

Até o momento, meu ponto de chegada é o Forza Horizon 3, e todo o caminho que percorri até chegar aqui mostra que ser garota e negra foi uma experiência difícil e, até certo ponto tóxica. Apesar disso, passados alguns anos, vivo um atual reencontro. Estou cada dia mais ansiosa e otimista sobre a realidade das gurias mais jovens e, sobretudo, satisfeita em ver como as jovens mulheres, pessoas racializadas, não binárias, além de toda e qualquer minoria social, estão focadas no compartilhamento de suas experiências e cada vez mais visibilizar que "todo mundo joga videogame" !
 

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sexta-feira, 24 de março de 2017

Projeto Catarse - A Rainha Pirata

“A Rainha Pirata roteiro e colorida por GISELA PIZZATTO . Desenhada e Arte final por BRUNO BÜLL”









Em meio a tantos projetos nacionais e gringos, que tal apoiarmos  uma mulher forte, destemida e RAINHA da porra toda ?

Estou falando da pirata Grace O’Mallley e sua vida contada em quadrinhos! A HQ é em formato graphic novel dividida em três capítulos. A história se passa na Irlanda, no século  XVI com narrativa em primeira pessoa ( uma das coisas que me agradou bastante diga-se de passagem).
Oriunda da nobreza, Grace vinha de uma família de homens com tradição marítima. Mas aquele velho e batido papo, por ser mulher seu destino supostamente estava selado em terra firme.  Contrariando uma sociedade machista e fechada, ela decidiu  que seu destino  e sua vida eram o mar e simplesmente agiu. Disfarçada de grumete conseguiu embarcar em um dos navios de seu pai. E aí sua aventura começa.


Nota: Grumete é quem a bordo faz a limpeza e ajuda os marinheiros nos diferentes trabalhos. É um aprendiz.

Grace não foi apenas uma capitã do mar mas uma hábil estrategista também em terra firme, tá pensando o que?. Procurava compor alianças com a nobreza de todas as maneiras possíveis, casou-se duas vezes conseguindo expandir propriedades   a seu comando e aumentando absurdamente sua influência.

Os capítulos da graphic novel forma baseados na Mitologia Grega das Três Porcas, as deusas do destino. Cada capítulo leva o nome de cada uma dessas deusas, pondo força ainda mais no sentido místico que a Rainha Pirata carrega.
Originalmente publicada na Irlanda pela editora  Clo Mhaigh Eo em 2013, ganhou o prêmio Nacional de Literatura em Irlandês de melhor livro do ano, na categoria “Melhor Livro Ilustrado”.
No Brasil a HQ e sua premiação viraram notícia  em diversos sites de quadrinhos.






Então, bora apoiar esse projeto magnífico?

FINANCIAMENTO E AUTORES

“O volume será impresso no formato 21x29,5 cm, com 96 páginas de pura História e aventura. O interior será todo COLORIDO em papel Off Set LD 90g/m² e a capa cartonada. A pintura foi realizada de forma tradicional com tinta Aquarela.”

Por trás da HQ                                      

GISELA PIZZATTO (Roteiro e cores) Nasceu em Campinas-SP, em 1977. Graduada em História mas sempre amou as Artes acima de tudo. Há dezenove anos dá aulas de Desenho e Pintura e já participou de inúmeras exposições no Brasil e no exterior. Em 2016 lançou de maneira independente “O Peso da Água”, seu primeiro mangá One-Shot.
BRUNO BÜLL (Desenho e Arte-final) Nasceu em 1986, e é fã de super-heróis e quadrinhos desde que consegue se lembrar. Estudou Letras na graduação, trabalha como professor de desenho há 13 anos e atualmente participa como arte-finalista nos quadrinhos da MediKidz, ONG inglesa que produz histórias para pacientes infantis em hospitais.
STUDIO MAGENTA (Edição) É uma iniciativa da ÂNIMA ACADEMIA DE ARTE (Escola de Arte de Campinas - SP), para unir artistas, professores e alunos para desenvolver trabalhos de ilustrações e quadrinhos tanto autorais quanto comerciais.  

Orçamento


“Para viabilizar este projeto, optamos pelo financiamento coletivo através do Catarse.
O Catarse é um site que reúne projetos em diversas áreas com diversos fins, com o intuito de expor essas ideias às pessoas que tenham interesse em financiá-las. Ele funciona a partir de uma “meta”, que é obtida através da venda de “recompensas”. Uma vez que a “meta” é atingida, o projeto se torna realidade. Caso contrário, o Catarse devolve o dinheiro sem ônus ao financiador.
O financiamento coletivo irá cobrir os custos de impressão, as recompensas e o envio dos livros aos apoiadores, além dos 13% que o Catarse cobra em cima de todos os projetos, caso eles atinjam a meta proposta. Em geral, o custo de impressão é o que impossibilita muitos projetos de seguirem o caminho até os leitores. É aqui que entra a sua ajuda para tornar esta história uma realidade.
O lançamento da “A Rainha Pirata” no Catarse está planejado para Março e estamos em busca de uma melhor e mais viável forma de impressão do material.
Obrigado pelo seu tempo e contamos com o seu apoio! #SejaMagenta"

Bora apoiar!