segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Marvel, Público, Representação e Novidades totalmente... Novas?!

Riri Williams/IronHeart



A editora Marvel tem um histórico de mudanças que a maior parte das pessoas ignora. Segundo Sean Howe em Marvel Comics, a história secreta (2012), durante bastante tempo a equipe criativa foi composta por jovens brancos heterossexuais, suburbanos e, alguns, em conflito com a lei. Podemos constatar que, até recentemente a diversidade na representação  de personagens ocorria com maior fluidez que a presença de grupos marginalizados nas equipes criativas. Ela foi a primeira editora Mainstream a ter heróis negros relevantes (Pantera Negra, Tempestade, Luke Cage, Misty Knight, Claire Tample) e a discutir racismo durante a luta por diretos civis (X-Men), embora seja comum as pessoas afirmarem que X-Men trata unica e simplesmente da questão judaica (!). Na década de 1960, Amazing Spider Man apresentou uma população multirracial/multiétnica que passou a ser nomeada. Apesar disso, em 2016 temos o primeiro título roteirizado por uma mulher Negra; a revista O Mundo de Wakanda [World of Wakanda] que também é composta por uma equipe criativa composta totalmente por mulheres Negras. São elas: Afua Richardson (GeniusX-Men '92), Alitha Martinez (Batwoman, Ironman), Roxane Gay (Bad feminist), e Yona Harvey (Hemming the Water). Se por um lado, pensar a estratégia da Totalmente Nova e Totalmente diferente Marvel é poder ter um salto na representação de produtoras e de personagens, por outro, os avanços precisam ser pensados porque:

  1. Minorias não precisam escrever apenas sobre sobre si mesmas
  2. Minorias apenas descritas por equipes não configuram grande avanço
  3. Há muitas/os artistas negras e negros que precisam ser recrutados para escrever sobre qualquer tipo de personagem,
  4. Proeminentes personagens negras são roteirizadas e desenhadas por homens brancos que poderiam dar espaço para que pessoas negras possam escrever sobre sua experiência e, assim, torná-la real no sentido simbólico da autonomeação.
 
O mercado de quadrinhos é marcado por um ciclo de altas e baixas vendagens, modulado por estratégias sensacionalistas como "inédito", mortes, zeramentos e reboots que bagunçam cronologias há mais de oitenta anos, portanto, a mudança faz parte da própria dinâmica histórica da Marvel. Como já houve substituições temporárias antes da iniciativa chamada Marvel Now (como o Isaiah Bradley que assumiu o manto do Capitão América Steve Rogers), não podemos dizer que é exatamente inédito um Capitão América negro; por outro lado, as mudanças de gênero e raça que preconizam a Nova Marvel são um progresso considerável do ponto de vista da presença e da representação positiva dos grupos minoritários, que são minorias políticas, não numéricas. Hoje em dia, apesar da condição de desigualdade, esses grupos têm um poder de consumo que se mostra bastante ativo tanto no que se refere aos boicotes sistemáticos quanto alternativas empreendedoras. Dada a insistência das propagandas, a utilidade do produto (como cremes embranquecedores) e o próprio modo como as companias se posicionam, a população se mobiliza a ponto de pressionar os setores. Estamos tratando de populações destituídas de poder, portanto, a pressão é maior no sentido de conscientizar consumidores a mudarem os rumos das demandas.




Também a demanda por representação (política e estética) tem abrido portas para a acomodação dos interesses hegemônicos às necessidades desse momento histórico aparentemente integrado. Portanto, uma parcela considerável de pessoas passou a ser inserida no direcionamento e grandes empresas de quadrinhos e de audiovisual. Evidente que as estratégias e abordagens caminham lentamente, mas durante décadas pessoas que gostavam da linguagem quadrinística deviam abrir mão de certas objetivações de mal-estar vivenciadas pelos quadrinhos, sobretudo os da DC comics. A Marvel Max também construiu uma negritude masculina para o público adulto, nos anos 2000, tão estereotipada que uma mulher Negra jamais poderia se identificar. Luke Cage era construído como típico homem do hip hop MTv, invulnerável, forte demais, resistente demais... Como a retratação de negros escravizados. Possivelmente seu sonho original não fosse um par romântico com uma garota branca (camadas de Jim Crow), mas sua união com Jessica Jones causou uma nódoa tanto do ponto de vista conservador (óbvio) quando um mal-estar nosso.

E por falar nisso, quando o Falcão foi criado o pensamento vigente era o de que um herói Negro não venderia para todos, ao passo que um herói branco seria universalmente difundido. Esta é a noção de poder: quem tem poder se vê preso à incompreensão típica do narcisismo. "Ah, mas os trajes e os poderes dele são ridículos!". Claro, chique mesmo é cueca sobre o uniforme.




Durante muito tempo era verdade que "um rapaz branco não compraria o gibi dum herói Negro, ao passo que o contrário era verdadeiro. Não obstante, essas transformações foram motivadas por demandas do público, por volta de 2011, que interagia pelo twitter e ameaçava boicotar produtos que os ignorasse como consumidores. Por um lado, é positivo que a composição dessas personagens privilegia a complexidade humana, explora os recursos narrativos de forma interessante e possibilita ao público não-padrão que sempre consumiu, mas raramente podia se identificar, personagens que se parecem conosco. Por outro, estes títulos são produto de equipes criativas majoritariamente masculinas e brancas, o que revela a necessidade de incluir também profissionais mulheres, negros, jovens, LGBTQIA, não-judaico-cristãos para que a visão de mundo não se mantenha unidirecional.


Nova e totalmente nova Marvel


Sem dúvidas, é um grande passo ter títulos que foquem experiências, percepções e visões de mundo que foram mal exploradas anteriormente. A representação é uma forma de descrever o que existe, de criar imagens sobre o diferente e isso é uma responsabilidade também de autoras e autores de ficção. A grande questão é o comprometido com uma real quebra de estereótipos, duma discussão sobre sexismo, racismo, LGBTfobia, classismo e não a mera inclusão como assunto qualquer. O estardalhaço dos fãs conservadores, nada mais é que a tentativa de manter seus privilégios e poder oriundos duma suposta distinção. Essa força contrária é típica dos momentos em que há conquistas políticas dos grupos minoritários, pois o que está em jogo é uma mudança profunda no imaginário colonial das camadas privilegiadas. É curioso como muitas pessoas ignoram que X-Men é uma narrativa que discute racismo bem como Star Wars discute o imperialismo.

 
É uma ilusão acreditar que "o público de quadrinhos" é formado apenas por rapazes brancos. Eles são muito mais um público-alvo que audiência real, não é de hoje. Mas não há como computar dados de perguntas que não foram feitas, certo? Jovens das camadas privilegiadas só não se identificam com Miles Morales ou Kamala Khan se o medo de perder o poder for grande demais., pois são personagens com os quais o público pode se identificar, independente da faixa-etária. A forma como as personagens tem sido desenvolvidas, com profundidade, dilemas e complexidade humana, bem como os desafios que enfrentam são bastante verossímeis. Títulos como Novíssimos Vingadores (Thor e Capitão América) têm uma medida de metalinguagem e outras sofisticações que conferem uma dignidade ímpar para essas categorias sociais historicamente pouco desenvolvidas nos quadrinhos.


" Com isso não estou afirmando que apenas um grupo minoritário tem legitimidade de criar histórias sobre si (afinal, estamos falando de arte), mas que é preciso discutir a representação de uma forma mais profunda do que "mudar o herói"

A maior parte dos comentários insiste na ideia de que a Marvel "está forçando a barra" na inclusão e que não está deixando nenhum herói - digamos - clássico. Afirmar que a mudança é falta de criatividade parece uma forma leviana de dizer que a sociedade deveria se manter a mesma sempre. Não é um problema real a realocação das personagens, porque não me lembro de estardalhaços porque Carol Danvers (que é loira) assumiu o título de Capitã Marvel, o problema é que grupos historicamente privilegiados costumam camuflar o desejo autorreferente e de marginalização das minorias como "opinião" e "senso estético". Criar novos títulos para manter os antigos tais como são há décadas é um modo de dizer para cada um ficar no seu lugar.


Muita gente conheceu a Monica Rambeau como uma personagem "sarcástica" em Capitã Marvel. Curioso que o título não se chama "Capitã Marvel: Carol Danvers", não é?


É importante levar em conta que histórias em quadrinhos são produzidas por equipes criativas que são supervisionadas por um editor. Essa segmentação é potencialmente diversa de pontos de vista, mas a maioria dos títulos das grandes editoras é roteirizada e editada por homens brancos estadunidenses heterossexuais como Michael Bendis. Embora o trabalho criativo seja feito por roteiristas, ilustradores, coloristas e letristas, é o editor quem pode intervir nas camadas estéticas e discursivas, então seus valores predominam na forma de contar histórias e de representar personagens. Sendo assim, uma representatividade mais plural nos quadrinhos passa pela presença de profissionais de identidade e backgrounds diferentes. Com isso não estou afirmando que apenas um grupo minoritário tem legitimidade de criar histórias sobre si (afinal, estamos falando de arte), mas que é preciso discutir a representação de uma forma mais profunda do que "mudar o herói".


Já vi fãs argumentando que o Sam Wilson (Novíssimo Capitão América) "tem um uniforme ridículo", "que seu poder é insosso" e que "não faz sentido Steve Rogers ser o Alfred dele".


No mundo dos quadrinhos, as personagens tendem a ser mais progressistas que no universo cinemático, mas o que é considerado "descaracterização" é, em geral, tratado de forma parcial e focada no "gosto" e na "opinião". Já vi fãs argumentando que o Sam Wilson (Novíssimo Capitão América) "tem um uniforme ridículo", "que seu poder é insosso" e que "não faz sentido Steve Rogers ser o Alfred dele". Bom, sabemos que as mudanças são temporárias e que uniforme de super-heróis não são o look mais interessante da vida comum, sério que uma cueca sob a calça é menos ridícula que o uniforme clássico de Sam? Até mesmo que o novo? A Era de Bronze é sobre os poderes serem incríveis? A maioria dos fãs que se referem às mudanças como "descaracterização" defendem a manutenção de narrativas que privilegiam o sexismo (como "A piada mortal"), mas não se incomodam com as distorções dos conceitos no universo cinemático. Jessica Jones nos quadrinhos não é tão magra e jovem, a Tempestade dos filmes não é importante como a dos quadrinhos e a Mística não é heterossexual.. e tudo isso não foi encarado como um problema de descaracterização. Parece que  ideia de "descaracterização", na verdade, mascara um juízo de valor.


Assim, se eu pudesse modificar uma personagem da Marvel ela seria Misty Knight. Desde a década de 70, ela tem sido pouco desenvolvida. Àquela época era uma coadjuvante do Luke Cage, passou pela Dinastia M sem mudanças consideráveis, também pelas Defensoras sem Medo e chegou em 2015, na revista do Novíssimo Capitão América, como uma junção de estereótipos. Eu deixaria um pouco de lado esse aspecto de "badass" ou "mulher negra raivosa ( "angry Black woman") e exploraria sua complexidade psicológica e emocional de modo a transforma-la não num "estandarte da raça", mas nunca pessoa com quem seja possível se identificar!





sexta-feira, 26 de agosto de 2016

[Painel] DC comics e a Representação Ultrajante


Novo Esquadrão Suicida #1 -  Abril/2016
Sean Ryan (Roteiro)
Philippe Briones (Arte)
Blond (Cores)


                                                  
Depois da aula de representação de gênero na literatura, me dirigi à parada de ônibus. Como o coletivo demorou, comecei a ler a edição #2 de Arlequina (pós novos 52), quando passou na minha frente um rapaz Negro todo cool, de boné caminhoneiro e camiseta da Marvel. Acabou que tomamos o mesmo ônibus e trocamos amenidades, daí ele me perguntou: "DC ou Marvel?". Olhei a camisa dele e respondi: "Marvel", 1) porque é verdade, 2) porque posso me identificar com as personagens que parecem comigo. Daí ele disse que preferia DC. Olhei pro rosto dele e buguei: Negro - camisa da Marvel - prefere...DC? Mal tinha percebido que eu - quadrinho da DC, camisa lisa, Negra - estava fazendo o mesmo, sem dar tanta bandeira.

Pifando e Entendendo


A primeira lição que eu absorvi foi a de que a linearidade é automática, mas a realidade nem tanto. Claro que eu sei disso, mas eu não concebi que o rapaz pudesse preferir "ser" Ciborgue ou Arraia Negra, pois o "gosto" visível obliterou o fato de que não conhecia a pessoa. Camisa estampada sempre diz algo sobre nós, mas não tudo. Continuando, ele disse que tinha mais contato com os filmes, e preferia BvS a Vingadores "porque as histórias da DC são mais maduras". A segunda coisa que percebi foi o meu estranhamento automático quando uma pessoa Preta prefere DC à Marvel. Imagens mentais correram sem palavras (T'Challa, Ororo, Misty Knight, Luke Cage) e pareceu muito óbvio que a Marvel é melhor. Pensando bem, não é apenas sobre isso, mas pela "dor da representação" que a DC insiste em produzir. 

Apesar do Luke Cage (Marvel) ser marcado por estereótipos, é preciso reconhecer o discurso político empoderador: um cara negro, consciente, humano, agente/sujeito de sua vida e afetuoso. Ora, já a DC insiste em representar aspectos da marginalização de forma mais reiterativa do que crítica. Isso é desconfortável pra mim, porque só reflete a realidade de violências às quais sou potencialmente sujeitada. Ok, como vivo eu já sei disso, mas a vida não é APENAS isso, também rio, choro, sinto fome, uso celular, fico triste, falo com a TV e estudo - para lembrar Grada Kilomba.

Se tomarmos como exemplo o herói adolescente Miles Morales* há um equilíbrio entre o fato de ser negro, vulnerável às situações racistas e sua luta antirracista. Por que digo equilíbrio?


Q1 - Katie Bishop: Sabe o que é a Hidra?
Q2 - Miles Morales: Qual é?

Miles Morales, o Homem Aranha 
Ultimate #11 (jan/2016) - detalhe
Brian M. Bendis (roteiro)
David Marquez (ilustrações)
Justin Ponsor (cores)

As histórias protagonizadas pelo Miles não se esquivam de mostrar que ele é negro, vem duma família desestruturada, e, ainda assim, essas não são as únicas informações sobre ele. O garoto sabe que é negro e tudo bem, é um dado, não precisa ser um fardo. Ele sente dor, é violentado pelo pai de sua ex-namorada (Katie Bishop) que pertence à Hidra (uma organização interessada em conquistar o mundo). Sabemos que a Hidra está ligada ao regime totalitário alemão, e que, portanto, são os vilões. A descrição do sofrimento de Miles em ter que lidar afeitiva e super-heroicamente tem sentido porque constrói uma jornada, reforça a motivação. A complexidade que essa representação gráfica alcansa mostra que um herói Negro pode ser carismático, profundo, efetivo e, acima de tudo, vendável. Agora, e o avesso disso?


Memórias plantadas: ultraje e a dor da representação


Quando se trata da representação de negros e de crítica ao racismo, a DC Comics é historicamente conservadora - todas sabem. Artistas que prestaram serviço para a editora dizem que la "é todo mundo engravatado e sério". Não que a Marvel, sua arque-rival, acerte sempre em tudo, mas só a DC pra "achar bonito" isso:


Lanterna & Arqueiro Verde #70 (DC comics - 1970) - Detalhe
Dennis O’Neil e Neal Adams



Super Friends #25 (DC - Oct/1979) - Detalhe
E. Nelson Bridwell (roteiro)


E isso:



A Namorada do Superman: Lois Lane # 106 (DC - Nov/1970) - Detalhe
Artista da capa: Curt Swan
Roteirista: Robert Kanigher
Arte: Werner Roth

Arte-final: Vince Colletta

Podemos olhar para essas imagens e notar que foram produzidas há décadas, e supor que o direcionamento da DC mudou bastante. Podemos, inclusive, lembrar que o Demolidor de Frank Miller bem como outros conteúdos da Marvel podem ser muito racistas também..., mas New Suicide Squad #9 ** é de agosto de 2015 (E.U.A) e presenciamos isso:


Esquadrão Suicida #1 (abr/2016) - detalhe


"Ah, mas no cinema a DC tem Viola Davis e Will Smith, que estão incríveis" disse o rapaz cool. "Mal dirigidos, mas sim, temos vilões negros no cinema DC, ao passo que a Marvel esta engatinhando nisso", respondi. Não que eu tenha o hábito de comparar mídias - porque a Marvel audiovisual (MCU) não é dirigida na mesma perspectiva dos quadrinhos. E, mais uma vez: tem Luke Cage, Tempestade e Misty Knight.

A psicóloga portuguesa Grada Kilomba em sua obra Plantation Memories [Memórias Plantadas] centralizou a questão do racismo cotidiano [everyday racism] como a continuidade do trauma das relações coloniais na atualidade. Assim como a ideia de superioridade constrói a branquitude do sujeito branco, ela forja uma problemática construção do sujeito Negro a partir dessas experiências de plantação. "Ah, não vejo diferença", Ok, lá vai:







As representações do Novo Esquadrão suicida

A fim de gerar hype para o filme Esquadrão Suicida, a Panini/DC lançou o mix Novo Esquadrão Suicida com número de capa #1 (Abr/2016), que foi meu ponto de entrada. Fixada que sou em verificar o contexto de produção percebi que, nesta revista, foram compiladas as edições Convergence: The Flash 2 (jul/2015), New Suicide Squad #9 (ago/2015) e #10 (set/2015) com o valor de capa de R$ 7,60. 

A revista começa com o prólogo "Fim dos tempos" em que temos as intriga entre John e Sra. Pesta, seguida da ação do esquadrão na Ucrânia. Curiosamente, a Arlequina segue o padrão dos filmes e não de sua própria revista: representada como uma garota seminua, "louca" e incapaz de cuidar de si mesma em contraste com as masculinidades agressivas, racionais e protetoras. Já em "Monstros" somos introduzidas à Amanda Waller, que explica a missão: os vilões deverão se infiltrar na ala separatista "mais radical"da Liga dos Assassinos, que, segundo Waller, é "uma organização terrorista obcecada por erradicar o que eles [todos homens] consideram corrupção, poluição e superpopulação...custe o que custar".

Arlequina se coloca em perigo sem perceber e precisa ser resgatada. Apesar disso NÃO percebe que está em perigo...



O grupo "extremista"é representado como uma atribuição de aspectos indesejáveis (lidos pelos E.U.A como terrorismo) às fraternidades racistas. O ponto alto, aliás, é trazer esse grupo como o mal real, apesar disso esconder lógicas complexas. A alegoria é composta pelo seguinte raciocínio:

1) nossos protagonistas são vilões, logo são descartáveis e prontos para trabalhos "sujos" e perigoso.
2) eles configuram uma equipe com minorias sociais
3) os antagonistas são "terroristas", logo seu objetivo é tanto perturbar a liberdade estadunidense como impor ditaduras
4) Os "terroristas" não são brancos
3) Se são terroristas, logo podem ser violentados.

Esse raciocínio induzido pela narrativa me lembrou do diálogo com o rapaz no ônibus. O padrão de consumo Nerd é construído por falsas dicotomias (no que se refere ao conteúdo) e de profunda contradição (no que se refere a gente). Quando eu respondi que achava (acho) a Marvel melhor, não estava negando que a DC gosta de um clima pesado "adulto", mas focando as representações traumáticas mesmo. Arraia Negra apanhando, Amanda Waller sem profundidade e tudo o mais que nós não precisamos está no primeiro volume da revista.

Em suma: assim como no filme Esquadrão Suicida, os "vilões" são representados mais como anti-heróis cunhados numa sociedade desigual que indivíduos malvados. Neste ponto a proposta da revista é confusa: onde estão os super vilões? Aliás, eles são tão pessoas tão comuns que a violência que sofrem parece injusta - diferente de Waller. Ela é sempre representada como comandante fria e nada mais que isso. Apesar dessa edição contar com a presença dela como líder da operação, há marcas absurdas de violência desnecessária contra as personagens negras. "Ah, mas todo mundo sofre igual". Primeiro que ninguém está medindo sofrimento e segundo: estamos apontando a historicidade, a narrativa como um dispositivo de aliena ao e despersonalização de pessoas negras.

No fim das contas, descemos na mesma parada de ônibus e descobrimos que moramos muito próximos. E olha que curioso: dizem que o problema de fazer personagens negros é o público. A ironia é que, preferindo uma ou outra das "2 maiores" [the big two: Marvel ou DC] continuamos no lugar da representação traumática, dolorosa e ultrajante.




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NOTAS

* conhecido como Homem Aranha Ultimate (criado por  Brian Michael Bendis)
** Lançado nos EUA como #9 (2015) e aqui no mix com  número de capa #1 (2016)

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TEXTOS CONSULTADOS



COLLINS, Patricia Hill. Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, and the Politics of Empowerment. New York:  Routledge, 2000. 2.ed.
JODELET, Denise. Representações sociais: um domínio em expansão. In: JODELET, Denise (Org.), As Representações Sociais. Rio de Janeiro: Eduerj, 2002, p. 17-44.
KILOMBA, Grada. Plantation Memories: episodes of everyday racism. Budapeste: Unrast, 2010.
MORRISON, Grant. Superdeuses. São Paulo: Seoman, 2012.
PUIG, Rebeca. COMPARAR A MARVEL E A DC NO CINEMA É INEVITÁVEL. Disponível em: <collantsemdecote.com.br/comparar-a-marvel-e-a-dc-no-cinema-e-inevitavel/>. Acesso em 25 ago. 2016.



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sobre equiparar ao que não existe


*Texto originalmente publicado na Alpaca Editora em 21 de março de 2015

1 + 2q + q = 1 + 7
3q = 9
q = 9/3
Q = 3
É uma sensação estranha, essa consciência dupla, essa sensação de estar sempre a se olhar com os olhos de outros, de medir sua própria alma pela medida de um mundo que continua a mirá-lo com divertido desprezo e piedade. E sempre sentir a duplicidade — americano e Negro; duas almas, dois pensamentos, dois esforços irreconciliados; dois ideais que se combatem em um corpo escuro cuja força obstinada unicamente impede que se destroce. (Du Bois)
Quando criança, na quinta série, eu tive muita dificuldade pra aprender a solucionar equações de primeiro grau. Isso simplesmente porque o professor desenhava uma balança e não fazia sentido nenhum aquela metáfora de igualar os números. Não entendia quem pesava mais e como esse pesar mais se tornava pesar igual. Como pessoal é político (Audre Lorde), a partir disso, explico a questão: rememorar o fato me leva a crer que a ideia de igualdade era muito abstrata porque eu já estava alfabetizada na codificação e violência social desde o interior de uma família majoritariamente masculina (em números), até o contraste com a autoridade de quem era mais velhx e a invisibilizante dinâmica escolar do racismo. Minha identidade era a diferença que eu não sabia expressar, pois não via refletida em lugar nenhum. E, se eu não via, não existia. Mas eu “era”.

Tempestade (X-Men).

Diana (Caverna do Dragão)  .
Diana (Caverna do Dragão).
Ainda naquela fase, adorava desenhos animados, seriados de vampiros e videogame. Mesmo sem saber elaborar exatamente a percepção dos padrões, eu sabia que, naquele universo, ou eu morreria primeiro, ou eu não existia mesmo, afinal, eu não era (e nem queria ser) um menino; não tinha (nem tenho) cabelos lisos e longos; não era (nem sou) uma anciã; por fim, eu não me identificava com aquele aspecto da África generalizante e paradisíaca que perpassava as duas únicas heroínas Negras que, àquela época, povoavam meu universo interno: Tempestade (X-Men) e Diana (Caverna do Dragão). Uma vez que não encarnavam e não ofereciam soluções diegéticas (dentro da história) para as minhas questões e as outras eram o que não sou, mais uma vez, eu era a incógnita inexistente.
Eu observava que os meus primos, todos eles negros, conseguiam se identificar com qualquer personagem e que não parecia haver problema nisso. Eles não precisavam ser homens negros, mas eu precisava ser uma mulher E sou Negra. Assim, mais do que desigual, eu pertencia a uma categoria do que não se fala, do que não tem nome. Eu era ___________?


Tudo começa quando você diz não.(Joanna Russ)
Instintivamente, eu sabia que me apoiar em uma das identidades (negritude) não me faria igual a eles, eu continuaria sendo a única a ir ao outro banheiro. Embora negritude masculina deles não fosse questionada, a minha indissociável negritude/feminilidade/mulheridade era questionada o tempo todo na invisibilidade ou no cinismo de ser legal embora garota. Apesar disso, também sabia que, depois da aula na piscina, meu cabelo faria toda a diferença entre as colegas de turma que eram brancas. Isso porque, no contexto privilegiado de educação privada, não raro, eu era a única Negra da sala de aula. O que me fazia ter que deparar com uma normatização — como aquelas “damas de ferro” — onde eu não (e jamais) caberia. Se, por um lado, naquela idade eu “só” queria ser igual às crianças, por outro, a resposta muda dizia “não”.  Era como se eu fosse duas coisas, dois corpos simultaneamente inexistentes. E aí, como acomodar isso?
Dama de Ferro
Além de delinear meu lugar político de fala, esse relato emerge do fundo da experiência individual à tona da experiência coletiva de racismo “à brasileira” — o que tem verbo sem sujeito, portanto, aquele que diz pra mim que estou ali e que não existo ao mesmo tempo. Noutras palavras: há racismo sem racistas, pois “a casa grande e a senzala andam juntas” (citando o ainda tão lido Freyre) e porque “somos todOs cordiais uns com OS outrOs” (citando Sérgio Buarque). Então, se eu não me vejo refletida em nenhum lugar e as relações sociais dizem que o fato de eu não me ver não tem nada a ver, esse fato é (pra eles) quase cabível de patologização, pois a pessoa negra que reivindica é a única que vê um problema que “na verdade, não existe”. Assim, corpos que, socialmente, não existem sofrem violências tão invisivizadas quanto invisibilizantes. E como a gente lida com inimigo invisível?
Uma das formas políticas de dizer não a isso são as demandas por e os estudos sobre a Representação. Estes vêm de uma luta dos movimentos negros e feministas da segunda onda (década de 70-80) que argumentavam sobre a impossibilidade coletiva de identificação positiva, autoestima e autonomia frente à sub-representação/estereotipia/absência de personagens negros e Negras reafirmadas cotidianamente na mídia. Essa é violência simbólica, presente nos livros didáticos e também aplicável aos desenhos citados, às séries de ficção, aos jogos: quando é negro, é negro, isto é: homem. Logo: ________________________.
Em oposição à violência epistemológica (aquela que apaga a contribuição intelectual e cultural) foi sancionada a Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de História e cultura afro-brasileira em todos os estabelecimentos de ensino. Certamente, ela não fez surgir o sujeito oculto, mas empurra as instituições a assumir as existências e valorizar heranças que usurparam continuamente.  Ambas as políticas que respondem às violências citadas, proporcionaram o visível aumento de pessoas negras identificadas assim, tanto estética como politicamente, tanto pelos cabelos crespos soltos, quanto enegrescendo a universidade e os demais espaços públicos. E perceba que não usei “denegrir” (tornar negro), pois essa palavra é pejorativa, significa que tornar negro é ruim. A escolha da palavra é uma das sutis políticas de opressão promovidas pelo corpo fantasmagórico do racismo à brasileira. Sutil, enterrado, oculto. Passível de logro. Mas,
Violência física é o que, no geral, alarma. Nesse sentido, cabe explicar que me refiro ao terrorismo do Estado. À violência promovida pelas instituições que podem nos matar e matam, que reafirmam a leveza inquestionável dos nossos corpos no prato da balança que desce quando UM corpo branco, cis, classe-média morre. Embora não haja silêncio de nossa parte, esse enfrentamento é de outra instância. Mais uma vez, não somos ninguém, dessa vez contra a máquina democrática de matriz europeia. O mais frustrante é que, mesmo sendo 60% da população, nosso não precisa de um endosso maior que nós mesmxs.
Até 2003, no Brasil, revindicar a legitimação da luta antirracista contra o inimigo invisível era como registrar um boletim de ocorrência após o furto. Significa reivindicar o que foi furtado ou registrar para compor índices? Fato é que o objeto não será retomado, portanto, o eco é frágil. Assim, inimigo continua incorpóreo. Devido a esse confronto em âmbito social que houve avanço político. Em termos práticos: famílias negras sabem que os homens jovens (entre 15 e 29 anos) são bastante vulneráveis a situações de violência física e simbólica praticada e endossada pelas instituições. A sociedade diz, cinicamente, que é loucura e, ao mesmo tempo, chacina, aniquila, tortura, encarcera esses corpos como descartam seus objetos obsoletos. Não preciso dizer que fazem e não são punidos e não são punidos, logo fazem… mas ATÉ têm amigos negros.
Esse contrassenso de agressão (fato) e afeto (eu diria, tolerância) é paralisante e leva o individuo (e a sua coletividade) a se enxergar com os olhos vigilantes de quem o/os observa, de se perceber tanto individual como coletivamente através de constantes reafirmações de inferiorização desde os filmes e novelas às piadas.  Sob o anonimato e disfarçados de “liberdade de expressão” e “retrato da vida real”, tais discursos transmutam-se num corpo vil e privilegiado que agride, mas sem solidez que possa sofrer represália. A essa relação de alteridade, José Jorge de Carvalho caracteriza como duplo vínculo:

 Assim, porém, que o negro resolve afirmar-se em sua condição de negro (condição prescrita justamente pela injunção primária do discurso branco), o  branco não aceita essa afirmação, lançando mão de uma injunção secundária em conflito com a primeira: não, não há diferença entre um negro e um  branco, você é igual a mim, logo não tem o direito de marcar essa diferença irredutível. Esse duplo vínculo específico aprisiona o negro brasileiro em uma  relação que mina a sua auto-estima porque não lhe permite responder a uma mensagem que simultaneamente nega e afirma a sua condição de  alteridade (ou de identidade) frente ao branco. Completa-se aqui o sentido do duplo vínculo tal como formulado por Bateson: se permanecer vinculado a  essa estrutura desigual de comunicação, sairá perdendo sempre, independente da posição que escolha assumir (2004, p.10).

Se o conjunto de nossos corpos está um degrau abaixo da existência social, a mudança requer políticas públicas e, nesse intuito, foi criada a SECRETARIA DE POLÍTICAS DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL (SEPPIR) em 21 de março 2003. Pela primeira vez neste país, o Estado (chefiado por Lula) reconheceu nossa existência e o descompasso em relação à outra (branca). Pela primeira vez, o chefe de Estado disse não ao circuito de duplo vinculo. Foi como emergir dum longo mergulho. Existir para o outro. O Outro existir para o um. Tanto nós, Negras e negros, como os problemas direcionados PORQUE SOMOS Negras e negros.
Embora eu não seja inocente a ponto de acreditar no poder autodestrutivo da casa grande, ela nos furtou e furta há séculos e tem que assumir que o problema do racismo não é nosso, mas dela, afinal, Negros não são racistas e mulheres não são machistas. Favor não confundir internalização com a própria violência. Favor não culpabilizar as vítimas. É necessário que privilegiadxs pensem sua branquitude e não parem por aí: que abram mão dela. Óbvio que acredito na SEPPIR como um esforço político que empurra em direção à existência e à dignidade. Essa força, em especial, promovida pelo Plano Juventude Viva, reúne ações de prevenção para reduzir a vulnerabilidade de jovens negros a situações de violência física e simbólica além do racismo institucional. Ok. Pelo DIREITO de existir.
Fato que Precisamos sobreviver, e dizer não ao “silencioso” genocídio do nosso corpo social. Mas outra tecnologia social, que favoreça nossa construção identitária, deve ser empreendida. Precisamos reaver o nosso empoderamento, nossas condições materiais, nossa autoafirmação, nossa cultura, cosmologia e autorreconhecimento. O lugar de estrangeiras e estrangeiros, nesse território simbólico e físico, não nos cabe mais. Precisamos lembrar o 21 de março, companheirxs, mas é necessário ressaltar que ainda há um passo longo rumo ao existir. Talvez aí vislumbraremos a Democracia da Abolição (Du Bois) defendida por Angela Davis. A liberdade que vivemos é parcial e usada pra nos intimidar. Até essa mesquinhez é atribuída a uma pessoa branca, quase que beatificada. Sério. É nesse sentido que Davis afirma que, reivindicar a igualdade na maquinaria de opressão não é o grande desafio vivido contemporaneamente. O único modo de libertação estendida às grandes massas é o desmantelamento total da casa grande, pois de seus tijolos normatizadores (racismo, sexismo, classismo, homofobia, gordofobia, preconceito geracional) sempre brotará outro tijolo. O que quero evidenciar é a base comum de todas as discriminações e violências sociais. É necessário visibilizar a negritude como diferença que é negada, sim. Mas essa negritude também tem sua norma: homem, classe-média e cis. Num mundo cada vez mais contraditório, a identidade é um agregado de posições que podem ser inclusive inegociáveis. Em suma: a igualdade racial, para mulheres Negras, deverá ser simultaneamente, igualdade de gênero e de outras categorias. A visibilidade do caráter interseccional é imprescindível para a nossa sobrevivência: homens negros, como homens, também estão sujeitos ao sexismo.
Não venho com essa reflexão, confundir ou fragmentar a luta por igualdade racial, mas dar nome e voz ao grito que me abafa. Como Negra e nerd, situo aquela minha identidade da infância que, sem nomes, já percebia a brutalidade do não-existir. Tempestade e Diana, à medida que trouxeram minha existência ao campo do existir, rasgaram outro ponto na minha subjetividade: os termos mudaram, mas a diferença prevalece. Igualar? Igualar como, o quê e a quem, cara-pálida?
No final das contas, cheguei em casa com uma “boa dúvida” sobre igualar os termos da equação e a minha tia, que é historiadora, ensinou a secura do que a metáfora queria dizer. Aliás, aprendi que a conta era a conta, sem metáfora. Esse é um dos princípios daquele meu feminismo embrionário. E essa narrativa, que pode parecer tão particular, é incrivelmente mais uma. Com um sincero e necessário desejo de alcançar a utópica igualdade, denomino (dou nome a) essa experiência cotidiana que vivo e que eu sei, minhas irmãs, vocês também vivem. Ainda assim, existe o sentido da existência, da sobrevivência que, pra nós, não é uma simples escolha: nosso existir é político e torna possível a existência, o nome de outras irmãs mais. A mudança é mais que sobreviver, sim, é tirar a semente podre que plantaram quando nascemos, é cortar as linhas de duplo vínculo, ter raiva enquanto precisamos dela, mas estarmos preparadas para o dia em que não seremos problemas, mas pessoas. Aí, então, a raiva não mais será necessária.

Referências:
CARVALHO, José Jorge de. Bases para uma aliança negro-branco-indígena contra a discriminação étnica e racial no Brasil.<www.ciadejovensgriots.org.br/livros/racismo%20indios%20e%20negros.pdf>.
DAVIS, Angela. A democracia da abolição: para além do império das prisões e da tortura. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
LORDE, Audre. Textos escolhidos. [s.L]: Difusão Herética: edições lesbofeministas independentes (folheto), 2013
PHILLIPS, Kayla. What do hardcore, ferguson, and the “angry black woman” trope all have in common?<noisey.vice.com/blog/hardcore-ferguson-and-the-angry-black-woman-essay>.
RUSS, Joanna. To write like a woman: Essays in feminism and science fiction, Indiana University Press, 1995.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Como Candice Patton Permitiu Que Pensássemos Em Uma Mary Jane Negra


Na semana passada não se falava em outro tópico no mundo nerd que não o boato de que a atriz Zendaya, que faz parte do elenco de Spiderman Homecoming, estaria interpretando o papel de Mary Jane Watson.

A Marvel ainda não confirmou e nem negou o rumor, mas foi o suficiente para a comunidade negra nerd sair celebrando o ocorrido. Antes da Zendaya ser possivelmente a Mary Jane, tivemos a noticia de que Kirsey Clemons será Iris West no filme The Flash do universo cinematográfico DC e muito meses antes Tessa Thompson foi escalada como Valkyrie no filme Thor: Ragnarok do MCU.



São três protagonistas femininas e interesses amorosos em franquias já estabelecidas de sucesso que serão interpretadas por atrizes negras. Isso é algo revolucionário, numa sociedade que lida com a realidade da solidão da mulher negra você mostrar uma mulher negra como a receptora de amor, aquela que merece ser protegida é quebrar paradigmas. Socialmente, nós mulheres negras, nunca tivemos esse papel. A mulher branca luta para deixar de ser apenas o interesse amoroso, já a mulher negra era acompanhante do interesse amoroso que iria começar e terminar a história sozinha por que era irrelevante. Se tornar interesse amoroso então é um grande avanço.

Mas o que será que levou Hollywood a começar escalar atrizes negras para esses papeis de destaque em filmes de Super Herói? Será que um belo dia os produtores acordaram e pensaram “Hoje é um belo dia para avançar nas questões de igualdade racial e trazer representação para milhares de garotas negras ao redor do mundo”? Não!

Precisamos entender que a indústria cinematográfica é antes de qualquer coisa uma indústria capitalista, ou seja, ela só ira adotar riscos que possam compensar financeiramente falando. Foi preciso que alguém mostrasse que era rentável escalar atrizes negras no papel de protagonista feminina/interesse amoroso. E é justamente nesse ponto que entra Candice Patton e a série The Flash.



The Flash é uma série norte-americana produzida pelo canal CW que pertence ao universo DC televisivo, Arrow/Flashverso. As séries da CW, para o bem ou para o mal, sempre apresentam uma diversidade racial em seu elenco. Quando Arrow surgiu foi preciso um personagem para quebrar a branquitude original dos quadrinhos e assim nasceu John Diggles. Quando foi a vez de adaptar o universo de Flash os produtores decidiram que iriam ousar, em vez de simplesmente criar um personagem não-branco iriam escalar atores negros para interpretar Joe e Iris West.

Nos quadrinhos Joe não é pai da Iris, mas existe um policial Joe que cria o Barry. Então mesmo com essa pequena adaptação, temos dois personagens canonicamente brancos dos quadrinhos que viraram negros. Houve reclamação por parte de fãs de quadrinho? Houve. Houve ataques racistas a Candice Patton por fazer uma personagem branca ruiva e que é interesse amoroso? Não só houve, como ainda ocorre até hoje. No momento que foi revelada a atriz que faria a Iris West pessoas passaram a shippa Barry e Caitlin, mesmo sem nenhum material que embasasse isso? Sim.

E mesmo com essas reações negativas The Flash foi uma série bem sucedida, a melhor audiência da CW. O casal WestAllen, formado por Iris e Barry, se tornou popular a ponto de ganhar diversos concursos de ship internet a fora. Ter uma protagonista feminina e interesse amoroso negra foi um grande acerto.



Apesar das reações racistas, The Flash é uma série popular com um fandom grande e expressivo, formado pela habitual comunidade nerd, mas que recebeu um acréscimo de um passional e ainda mais expressivo grupo de pretas e pretos nerds.

Candice Patton como Iris West permitiu garotas negras e não-brancas em geral se aproximassem do universo de super heróis se sentindo incluídas neles. Elas acompanham, assistem, consomem, geram capital. A ideia foi tão bem sucedida que a formula foi repetida em Supergirl, onde o Jimmy Olsen é interpretado por um ator negro.

Para termos a possibilidade de ter uma Zendaya interpretando a Mary Jane num filme do Homem Aranha, tivemos que ter antes uma Candice Patton interpretando uma Iris West. Por isso, deixou aqui meu muito obrigada a Candice, ela abriu caminho para muitas outras atrizes negras e para que finalmente possamos ter uma representatividade legitima. 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

[Tradução] 9 Dicas de Escrita Para Pessoas Não-Brancas



por Nikesh Shukla *
Tradução: Camila Cerdeira**


1. A experiência universal é uma mentira. Isso não existe. A experiência universal é para pessoas brancas. O que significa que existe uma expectativa para que você escreva a experiência negra definitiva, a experiência asiática definitiva, a experiência da minoria étnica definitiva. Escreva sua própria experiência. Conte a historia que você quer contar. Tentar forçar uma experiência é uma mentira. Você não representa todas as pessoas da sua raça. Do mesmo jeito que a experiência universal não representa o universo.



2. Você não precisa incluir sua raça, etnia, religião na sua biografia quando está enviando seu material. Só deveríamos nos apegar a rótulos quando eles significam algo para nós e não por que achamos que vão nos ajudar a vender ou não. Ninguém nunca ouviu falar sobre ‘O novelista branco inglês Nick Hornby’ ou ‘O autor caucasiano Martin Amis’. Eles são aclamados. Eles são premiados. Você também será. Eu sei que irá acontecer. E à parte: Não chame a si mesmo de aspirante a escritor. Se você escreveu um livro e está tentando publicá-lo você é um bendito escritor. Você pode aspirar ser publicado tradicionalmente, mas você não está aspirando a escrever.



3. Eu gosto da atitude de Junot Diaz sobre tradução e/ou por em itálico de palavras que não estão em inglês. Ele uma vez disse: 

“Escrotos irão ler um livro que está um terço em élfico, mas coloque duas frases em espanhol e eles vão achar que é demais”

Eu amo isso. Você pode fazer um leitor trabalhar para entender palavras que são cotidianas para você. Tudo bem isso. Eu olho palavras em inglês que não entendo o tempo todo. E eu estou feliz em fazer isso com outras línguas. Por em itálico essas palavras e frases – é onde distinguimos a ideia de pessoas falando em línguas diferentes. Não coloque em itálico palavras que significam tanto para quanto as palavras em inglês.



4. Não sinta que você precisa explicar algo que parece cotidiano para você ou seu personagem. Isso normalmente soa como sendo indulgente com os leitores brancos, em vez de se manter verdadeiro ao universo que seu personagem vive. Eu estou feliz por meus personagens conversarem sobre assalto enquanto comem pav bhaji e não explicar o que é pav bhaji, porque não há relação nenhuma com o assalto, mas também, porque se você não sabe o quão delicioso é pav bhaji, não há nada que eu possa fazer por você.



5. Não é a mais fácil palavra na indústria editorial. Faça com que seja realmente difícil lhe dizer não. Faça-os agonizar sobre o não. Faça os sentir dores de cabeça antes de lhe responder. Você irá receber 100 nãos para cada sim. E esse sim irá fazer os nãos desaparecerem. Faça o não ser difícil escolhendo cuidadosamente para quem irá enviar o livro, finalize o livro com o melhor da sua habilidade, tenha alguém para ler seu livro que irá lhe contar o quão incrível ele é (para aumentar sua confiança), tenha alguém para ler o seu livro que irá dizer o que precisa ser melhorado (para a edição), e formate corretamente. Faça com que seja difícil lhe dizerem não.



6. Escute as críticas. Um agente/editor que se importa com seu trabalho lhe dará um centavo de sabedoria que você pode usar. Use. Ignore as rejeições genéricas. Elas significam que não era adequado para aquela pessoa, o que não tem problema gosto é algo subjetivo. Se alguém lhe der uma crítica que você ache questionável, por exemplo, que eles esperavam um livro sobre, vamos dizer, indígenas caracterizados X, Y e Z, ou que eles já tem um autor muçulmano, ou o que você tem... Essa é uma crítica lixo. Eu não estou dizendo que você não deve tornar isso público, por que isso seria uma mentira deslavada. Mas se você tiver esse tipo de crítica, entre em contato comigo. É importante expor essas micro-agressões. Por que esse comportamento precisa acabar.



7. Ninguém pode apontar que especificidade cultural está faltando no seu livro. Ninguém. Você não está representando todos da sua raça. Eu sei que eu disse isso na primeira dica, mas é importante repetir.



8. Veja, nós precisamos de você. Não se sinta desencorajado ou como se não fosse acontecer ou que prateleiras e livrarias não tivessem espaço para você, elas têm. Nós precisamos de múltiplas vozes. Para que a experiência universal seja reclamado por todos, para que brancos percebam que a experiência asiática, negra e de minorias étnicas tem nuanças, são diversas, complexas e cheias de pessoas diferentes com diferentes histórias, sonhos e esperanças. Mas não para brancos. Não mesmo. Nós precisamos escrever parar o jovem Nikesh e para o seu eu adolescente e a adolescente Zadie, o adolescente Junot e a adolescente Maya e adolescente Femi e o adolescente Bolu e a adolescente Sunny e o adolescente Nitin e o adolescente etc etc etc. Para que eles não se sintam estranhos. Para que se sintam representados. Para que se sintam incluídos. Se sintam parte da sociedade. Não excluídos dela. Eles não se sentem diversos. Se sentem normais.



9. Meu último, controverso ponto é esse: diversidade é uma fraude. Estamos interessados em naturalizar. Parece muito difícil se você tem brancos, e então tem o restante do mundo. Então não se chame um autor diverso. Não pense que precisamos de livros diversos. Pense nisso como: precisamos de representatividade inclusiva nos livros.

Eu acredito em você. Você consegue. Escreva um livro. Mude o mundo. O adolescente Nikesh está esperando.)



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=> Essa  tradução é um copyleft do texto 9 Writing Tips for People of Colour, disponível em: </burntroti.com/home//9-writing-tips-for-people-of-colour> (inglês) 

*Nikesh Shukla é autor do  Meatspace, Coconut Unlimited e editor do The Good Immigrant.

** Camila Cerdeira é co-editora do Preta, Nerd & Burning Hell e colaboradora do natv.co.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Review: FEITICEIRA ESCARLATE (2015)




Confesso que nunca gostei muito da Feiticeira Escarlate, mas ela passou a ser uma personagem que vem me interessando por agora. Recentemente, eu li os encadernados que tratam da Dinastia M, dentre eles o clássico prelúdio Vingadores a queda roteirizada pelo Michael Bendis que mostra a personagem com amplitude encantadora - sim & sim comparando com aquelas aparições sessentistas, quando tudo era mais simples, mas X-Men era enérgico, dinâmico e potente. Aquele arco de Bendis mudou tanto a minha concepção a respeito de Wanda Maximoff (Feiticeira Escarlate) que resolvi adicioná-la à lista de estudos "heroínas Marvel e a loucura" e, assim, me interar mais sobre ela. Com essa curiosidade, li a primeira edição de Feiticeira Escarlate (dez/2015) da Novíssima Marvel, roteirizada pelo James Robinson, ilustrada pela Vanesa Del Rey, Colorida pela Jordie Bellaire e letreirizada por Cory Petit. Temos a intrigante capa de David Aja e as maravilhosas capas variantes de Kevin Wada, Bill Sienkiewicz, Erica Handerson, Tom Raney e Chris Sotomayor.


A Novíssima Marvel

Primeiro nos situemos. A "Indústria dos quadrinhos" dominada pelas editoras Marvel e DC passa por ciclos de altas e baixas vendagens desde o início. Como não se trata apenas duma questão de crise financeira, estratégias para renovação do público são postas em prática, sendo o reboot (ou zeramento) a mais comum... e também a mais gasta. Neste momento, a Marvel, que sempre se lançou no mercado como vanguardista, decidiu relançar seus títulos com o número 1, mostrando-se muito preocupada em arrebanhar um público "totalmente novo, totalmente diferente" com recrutamento de equipes criativas do undergroud, mulheres, negros, asiáticos e a ordem de representar todo mundo que esteve de fora até então. Pra quem nunca soube por onde começar, ta aí uma possibilidade de ingresso: eis a Novíssima Marvel. Os "nerds clássicos" (no burning hell) estão aflitos achando que tudo agora é "representação" e que acabou a era das "grandes sagas" que, sendo vocês leitoras da Alpaca, entendem: por que esses fãs gostaram tanto de Demolidor, odiaram tanto Jessica Jones e - ainda - saíram gritando pela internet que nós não entendemos? [1]


Embora não seja necessário ter ciência de quem é a Feiticeira Escarlate, ter uma noção do universo dela fará com que você reconheça uns pontos-chave como a consequência da relação dela com os Vingadores e com Agatha Harkness influenciando o presente. Se você costuma ler quadrinhos há um tempo, sentirá nos traços de Vanesa Del Rey uma reconfortante sensação de nostalgia: lembra-se daquelas minisséries da Vertigo da década de 90? Os borrões, tons de roxo e vermelho juntos, layout convencional que direciona a atenção para a exasperação da protagonista e para o estrangulamento narrativo mostram a força do modo Marvel [2] de construir narrativas: toda a liberdade à artista e à colorista. Os diálogos são bem construídos, as sequencias também, mas é a arte nos suga pra dentro da história. Lembrei particularmente de Hábitos Perigosos, aquela história em que John Constantine (The Hellblazer) é diagnosticado com câncer no pulmão em fase terminal.

Acompanhamos a narrativa de Feiticeira Escarlate #1 junto com a protagonista, desde os seus pesadelos até a sua relação improvável com o fantasma de sua mentora Agatha. Somos induzidas à sensação de angústia junto à confusão mental de Wanda. Esta é destacada do cenário simples como uma figura grotesca em planos incomuns para uma história do gênero super-herói (embora recorrentes nas histórias de heroínas como Jessica Jones e de suspense/terror da Vertigo '90). Apesar da ênfase visual na figura da protagonista, seu corpo não é inverossímil nem seus trajes hipersexualizados. Outro ponto notável é que, mantendo a personalidade de Wanda, observamos que ela está bem madura, como uma marca proveniente da experiência destruição presente em Vingadores a queda houvesse moldado sua percepção de si e do mundo. É evidente que sua mente continua fragmentada, mas sua visão de mundo não é mais adolescente cuja personalidade é relacional: filha de Magnus/Magneto, irmã de Pietro/Mercúrio ou vingadora. Temos aqui outra história em que a Feiticeira está lutando externamente contra o mal no intuito de expiar sua culpa e vivenciar o conflito interior de "querer fazer o bem" versus "controlar seu poder desmedido", porém, ela é adulta e sabe que essa ambivalência é parte dela e, portanto, vivencia com certo ceticismo.


 
Figura 1 - Feiticeira Escarlate, nº1 (2015) - Detalhe

Se fossemos fazer uma análise da representação, de cara, diríamos que a relação entre Wanda e Agatha que são duas mulheres, que têm nomes, que falam entre si sobre suas próprias questões (famoooso teste Bechdel). Além disso, as pessoas "figurantes" são bem diversas e, portanto, verossímeis.

O que mais me agradou na Feiticeira Escarlate #1 foi a imponência. Ela deixou de ser uma garota com (eternas) afetações adolescentes e descrições como "donzela em perigo" que "precisa salvar-se de si mesma". Nesta primeira edição, apesar do excesso de diálogos que não adensam a história realmente, somos introduzidas às personagens principais, ao ritmo e ao estilo e podemos concluir que essa novíssima Feiticeira está incrível. Pra você ter ideia de como ela está imponente:


Figura 2 - Feiticeira Escarlate #1 (2015) detalhe


Ou seja, apesar dela estar no problemático hall de Loucura feminina, ela parece que seu potencial pra além disso está sendo explorado. Não estou dizendo que em Vingadores a Queda ela não está incrível, estou dizendo que personagens mudam o tempo todo, mas a Barbara Gordon, por exemplo, está solidificada na representação da Piada Mortal e a Feiticeira Escarlate estava até a Dinastia M enclausurada pela superproteção de seu irmão. E, assim, além de representar gente como a gente, superar traumas é um ponto importante de ligação entre o público e suas heroínas. Gostei muito, não apenas dessa edição, mas do que ela está prometendo para as próximas edições! Haters gonna hate, eu só acho.




Notas

[1] Eu também tenho críticas - sobretudo - à negligências da Marvel e ao modo como a DC incorporou a diferença nos Novos 52, porém, a abordagem dos "clássicos" nunca é dialógica, ne. Falei um pouco disso na III Jornada Internacional de Quadrinhos (2015), algo como Gênero E Raça Nos Quadrinhos: O Impacto Da Estrutura Social Na Representação Da Capitã Marvel

[2] O Argumento ou Método Marvel (Marvel Way) é o modo como Stan Lee criava roteiro, nos anos 60, daquela dos vários títulos simultaneamente: entrega um plot para o artista, ele desenvolvia a sequencia de imagens e, posteriormente, Stan inseria os diálogos. Diferente do Roteiro ou Full Script usado pela DC, em que o roteirista destrincha cada elemento como ele deseja ver na página. Quanto a esse review, apesar do roteirista ser homem (e sabemos que é esse o nome da ficha catalográfica), acredito que, sendo uma HQ Marvel a artista tem uma contribuição considerável.


http://s2.glbimg.com/UlqS64CjVzVuh9zg-g9BXAMJVr8oTRfn700I9fR3f3RIoz-HdGixxa_8qOZvMp3w/g.glbimg.com/og/gs/gsat1/f/original/2015/03/13/feiticeira_escarlate.png
Figura 3 - (Feiticeira Escarlate) à direita: a atriz Elizabeth Olsen em Os Vingadores 2: Era de Ultron (2015).